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Não haveria bolsonarismo se não tivesse havido petismo

Como o petismo preparou a cama para o bolsonarismo deitar. E rolar

Sustento que a análise das ideias é impotente para desvelar o que está realmente acontecendo na intimidade da sociedade brasileira para permitir a ascensão do bolsonarismo.

Diz-se, para explicar o fenômeno do bolsonarismo, que Bolsonaro surfou no conservadorismo presente na sociedade brasileira. O povo seria “de direita” e Bolsonaro, ao expressar pontos de vista sintonizados com o que pensa – e sente – a maioria da população, despontou naturalmente como uma nova liderança.

É fato que a cultura predominante (no Brasil e em vários países, talvez a maioria) é conservadora no que tange a valores, costumes, way-of-life. A rigor, toda cultura é conservadora (do contrário não cumpriria sua função social que é a da transmissão não-genética de comportamentos). No entanto, não é reacionária, retrogradadora. O que o bolsonarismo está fazendo de mais maligno para a democracia é tentando inocular, dentro desse conservadorismo cultural (quer dizer, social), ideias políticas autocráticas. Bolsonaro, ele mesmo, não entende a dimensão da tragédia. Ao que parece, está longe de compreender o sentido do bolsonarismo.

O conservadorismo é o menos importante em Bolsonaro. Ele não é um conservador e sim um retrogradador. Perigosas são as ideias-implante, os padrões autocráticos e hierárquicos, que ele tenta inserir na política pegando carona na onda global de reação à emergência de uma sociedade-em-rede que se manifesta, coetaneamente, em vários lugares, das Filipinas de Duterte, passando pela Hungria de Viktor Orban, pela Polônia dos irmãos Kaczynski, pela Eslováquia dos seguidores de Robert Fico, pela Turquia de Recep Erdogan, pela Rússia de Putin e, no limite, até pelos USA de Donald Trump e a Inglaterra do Brexit com Nigel Farage. Isso para não falar da França de Le Pen, da Austria de Heinz-Christian Strache, da Itália de Matteo Salvini e da Alemanha de Jörg Meuthen e Alexander Gauland – entre vários outros.

Mas mesmo esta chamada “onda conservadora” ou antidemocrática não se explica apenas pelas ideias políticas. É necessário analisar a resiliência dos milenares padrões de organização hierárquicos, que sobreviveram – e ainda são amplamente predominantes – mesmo após a reinvenção da democracia pelos modernos no século 17. A reação global à transformação de um mundo localizado x globalizado para um mundo glocalizado (pois é isso que significa a sociedade-em-rede) também é uma reação social. As velhas estruturas hierárquicas (e seus correspondentes modos de regulação autocráticos) resistem ao estilhaçamento do mundo único, à horizontalização, à distribuição da rede. Antes que surjam mil Atenas glocais, elas procuram barrar a multiplicação de caminhos.

Ademais, em cada país em que os dois tipos de populismos contemporâneos crescem – o neopopulismo dito de esquerda e o populismo-autoritário dito de direita -, existem razões particulares para entrar na onda. E, no caso do Brasil, trata-se de identificar tais razões.

No artigo Analisando o bolsonarismo como fenômeno social afirmei que “não haveria bolsonarismo se não tivesse havido petismo. O bolsonarismo é o efeito rebote do petismo, não apenas no sentido político (o que chega a ser óbvio), mas sobretudo no sentido social (e entender isso é bem mais difícil)”. Vamos agora tentar explicar essa hipótese.

O lulopetismo, durante cerca de trinta anos, provocou a maior deformação no campo social de que se tem notícia na história recente do país. Foi essa deformação que permitiu o crescimento de excrecências como o bolsonarismo.

Comecemos pela análise das deformações no campo interativo produzidas pelo neopopulismo lulopetista, retomando o que já foi dito num artigo de junho de 2018, intitulado Por que Lula continua na frente nas pesquisas: uma explicação do ponto de vista das redes:

“É da natureza do populismo (e o lulopetismo é um neopopulismo) obter a adesão cega de multidões (que se transformam em rebanhos). O líder populista com alta gravitatem deforma o campo social de um modo que atrai as preferências não-racionais e os anseios coletivos e instintivos de proteção. Ele cria creodos no campo, caminhos sulcados que condicionam as trajetórias futuras, como uma espécie de buraco negro para o qual os corpos se abismam.

Há uma motivação emocional, que está sempre antes da escolha racional, que explica isso. No Estado inconsciente (uso aqui a expressão no sentido atribuído por René Lourau (1978), em L’État-inconscient) a figura (e a função) do pai (dos pobres) cumpre um papel difícil de ser removido depois de milênios de cultura patriarcal: o papel do senhor. Mesmo quando o senhor erra – e as pessoas veem que ele erra – ele continua sendo psicossocialmente necessário diante da insegurança do imprevisto, do adverso, da sina, do fado, do fadário, da fatalidade.

Esta é a principal dificuldade da democracia, que é o regime sem um senhor (o que está fora do campo do possível para miríades de pessoas que buscam um protetor, um pai, um salvador ou um cuidador).

Por isso, mesmo muito tempo depois do seu ocaso, o líder populista persiste como uma lembrança forte: se ele falece, as pessoas custam a acreditar que isso é verdade, e ainda morto a sua memória continua agindo como uma espécie de entidade “espiritual” onipresente, para a qual os desvalidos permanecem olhando com reverência e admiração (“ah!… nos tempos do fulano – pode ser Getúlio, Perón, Lula, tanto faz -, as coisas eram bem diferentes e bem melhores: havia quem olhasse por nós”).

Estamos falando, na verdade, de um programa instalado na rede social – um software que modifica o hardware – e que tende a replicar um tipo de fluição: o santo que baixa depende da configuração do terreiro. Se a configuração for a do rebanho, ela evoca (ou invoca) o pastor. O bios da rede-mãe é distribuído, mas quando ela começa a rodar programas verticalizadores sua estrutura é alterada.

De certo ponto de vista estamos tratando de um tipo de doença coletiva, de enfermidade da rede, que só vai desaparecer (ou ter seu efeito patológico reduzido) com o aumento da distribuição, da conectividade e da interatividade da rede ou a diminuição dos seus graus de separação”.

O bolsonarismo só pode surgir e crescer em razão da existência desse campo já deformado. Só é possível explicar o bolsonarismo se partirmos de uma análise social do fenômeno. Bolsonaro é um fenômeno eleitoral, mas o bolsonarismo não.

O lulopetismo falou para uma parcela da população que sofre mais dramaticamente os efeitos da exclusão e da desigualdade. Tanto é assim que nunca foi amplamente majoritário em regiões com IDH iguais ou superiores a 0,7. Falou também para os setores médios e as camadas superiores mais intelectualizadas. Todavia, não respondeu adequadamente aos anseios de cerca de 1/4 da população, distribuídos por todo o território nacional, que compõem os chamados setores médios não-intelectualizados (mesmo os que frequentaram ou frequentam universidades – e que, nem por isso, se intelectualizaram). Tais setores jamais se sentiram plenamente representados pelo PT. E, com a crise do petismo (após o mensalão, o petrolão, o impeachment e, em parte, a operação Lava Jato), sua indiferença ou mesmo sua resistência passiva, puderam se transformar em rejeição aberta ao projeto neopopulista. Ou seja, havia uma base social para a proliferação de uma revolta anti-petista (e o bolsonarismo, não o fenômeno eleitoral Bolsonaro, tem as características de uma revolta anti-petista).

Essa condição, todavia – resvalando para a política – não explica ainda, em termos dos fluxos interativos, o fenômeno social. O declínio de uma liderança que deformava o campo interativo. não alterou a configuração desse campo, que continuou deformado. Simplesmente ensejou que outra liderança ocupasse o lugar da antiga, não propriamente para expressar interesses e desejos dos mesmos extratos populacionais, mas os de outros setores que nunca se sentiram confortáveis com as mudanças introduzidas pelo neopopulismo. Mutatis mutandis, são esses mesmos setores que estão puxando a revolta contra outros dois projetos neopopulistas: o chavismo-madurismo na Venezuela e o sandinismo de segunda geração na Nicarágua.

Há uma diferença, porém – e ela é crucial para entender a dinâmica social do bolsonarismo. As movimentações sociais contra as ditaduras de Maduro e Ortega tiveram e continuam tendo um sentido democrático (ainda que muitos de seus atores não sejam movidos por ideias democráticas), assim como os grandes swarmings civis de junho de 2013 e as manifestações pelo impeachment de 2015 e 2016, no Brasil, também tiveram um sentido democrático. No caso do Brasil, não em 2013, mas em 15 de março, em 12 de abril e em 16 de agosto de 2015 e em 13 de março de 2016, organizaram-se, por dentro das manifestações, grupos ideologicamente alinhados por uma narrativa retrógrada. Ou seja, agentes anti-petistas antidemocráticos – intervencionistas-militaristas, olavistas-conspiracionistas, monarquistas-tradicionalistas, todos reacionários e anticomunistas (na vibe da guerra fria) – ainda que não fossem maioria, conseguiram capitalizar boa parte da insatisfação popular com o governo petista, com a corrupção e com a política realmente existente. Esses grupos não queriam democracia, ou seja mais-liberdade e sim mais-ordem. Queriam ainda um chefe, um outro chefe, um anti-Lula para colocar ordem na casa e sanear a política. Ali nasceu o bolsonarismo! Tanto é assim que, no desdobramento do impeachment, os grupos que se organizaram sob o pretexto de combater a corrupção, que idolatraram Sergio Moro e a chamada República de Curitiba, abraçaram abertamente a candidatura de Jair Bolsonaro.

Repito. Isso só pôde acontecer porque o campo continuou deformado: o impeachment não alterou a sua configuração, não houve uma transição democrática pós-PT e quase nada mudou de facto nos fluxos interativos da convivência social.

De certo modo, o petismo preparou a cama para o bolsonarismo deitar. E rolar.


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