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Não pode haver nova política sem inovações políticas

A transição para novas formas de democracia mais interativas do que delegativas e participativas – ou seja, mais conformes à sociedade-em-rede que está emergindo – é um processo longo, que não levará menos do que uma a duas gerações.

Transição não é substituição. Não há nenhuma nova política pronta para ser colocada no lugar da velha. E, ao que tudo indica, não haverá um modelo único que possa ser adotado em todos os lugares ou ambientes.

Os modernos pretenderam exportar internacionalmente um mesmo modelo de administração política do Estado-nação. Deu razoavelmente certo em não muito mais do que três dezenas de países (basta ver que a maioria da população do planeta não vive, e jamais viveu, sob um regime democrático). Não cogitaram da democracia como modo-de-vida ou de convivência social e, assim, não se preocuparam em tornar modos de regulação de conflitos menos autocráticos (e, correspondentemente, padrões de organização menos hierárquicos) nas outras instituições do próprio Estado, da sociedade e do mercado, como as instâncias governamentais de controle, as escolas, as igrejas, as organizações da sociedade civil e as empresas.

Não viram que o processo de democratização do Estado não pode prosseguir se não pervadir também as demais instâncias da sociedade. Esta é uma das razões (talvez a principal) da crise da democracia representativa: não porque se deva abrir mão de alguma forma de representação e sim porque não é suficiente abrir um canal de mão única para transferir cidadania política da sociedade para o Estado numa época em que a sociedade não cabe mais dentro de um tipo Estado que quer tomá-la como seu dominium.

Recentemente muitas pessoas, no Brasil, acharam que a ofensiva contra a corrupção movida por funcionários do Estado com o apoio da opinião pública poderia inaugurar uma nova política. Não pode.

A velha política se mantém não apenas para servir à impunidade dos corruptos. O principal motivo é que ela é a política realmente existente. A nova política ainda é futurível (e não está pronta para ser colocada no lugar da velha). Um discurso onírico, nefelibata, ainda que bem intencionado, não é capaz de inaugurar uma nova política. É preciso construí-la na sociedade e encontrar espaços para que as inovações políticas repercutam no âmbito do Estado.

Sabe-se que muita gente não tem paciência para ouvir isso. É uma falta de paciência para a democracia. Assim de chofre, por um golpe ou uma vitória eleitoral episódica, não se produzirá, da noite para o dia, novos céus e nova terra. Quem não tem paciência para a democracia, acaba decaindo para uma perspectiva antipolítica, ou claramente autocrática. O melhor exemplo é aquele manifesto do Unabomber (que deve ser lido com seriedade). Ted Kaczynski não tinha paciência para a democracia.

O fato é que o discurso sobre a nova política não substitui uma nova política. Não há uma nova política pronta para ser colocada no lugar da velha. Não custa repetir: é transição, não substituição. Quem for eleito sem base congressual terá de fazer a velha política (inclusive lotear milhares de cargos e fazer alianças amplas com pessoas e partidos corruptos) para poder governar.

Ademais, o próximo presidente eleito não vai resolver nossos principais problemas. Na melhor hipótese, será ainda uma ponte para um novo tempo. Na pior, será um escorregador para o abismo.

Mesmo que se elegesse ou nomeasse, na Somália ou no Sudão do Sul (os países onde a corrupção política atinge os maiores patamares do mundo), super-homens honestos e inteiramente comprometidos com o combate à corrupção, eles não conseguiriam, em um ou dois mandatos, colocar esses países em patamares comparáveis aos da Nova Zelândia ou da Noruega (os países menos corruptos do mundo). E mesmo que, por um milagre, conseguissem fazer isso, nada indica que inaugurariam uma nova política.

Não pode haver nova política sem inovações políticas. Uma nova política não é a velha política feita por pessoas honestas. Os autocratas espartanos – que se opuseram à democracia nascente em Atenas – eram honestos. Como honestos, verdadeiros varões de Plutarco, não se envergonharam de tentar sabotar a maior inovação política já surgida na história (a democracia), inclusive não tiveram nenhum prurido de financiar e apoiar dois golpes sangrentos contra o regime de Péricles e seus aliados.

Por enquanto, as inovações políticas são tímidas e incipientes. Dentro das velhas organizações políticas ninguém discute seriamente temas como:

1 – Crise e limites da democracia representativa e experimentação de novas formas mais interativas de democracia numa emergente sociedade-em-rede;

2 – Neofederalismo e crise do Estado-nação;

3 – Superação da contraposição localismo não-cosmopolita (tipo “America First”) x globalismo e a realidade emergente da glocalização;

4 – Superação da contraposição estiolante monoculturalismo versus multiculturalismo: rumo à inevitável (e desejável) miscigenação cultural;

5 – Inadequação da classificação e da divisão das forças políticas em esquerda x direita;

6 – Envelhecimento da divisão entre visões mercadocêntricas e estadocêntricas do mundo: a sociedade como forma autônoma (subsistente por si mesma) de agenciamento, além do mercado e do Estado;

7 – Crise da forma-partido tradicional e a emergência de novos atores políticos.

E também não se conversa sobre as características de novas formas de democracia que poderão surgir com o esgotamento da democracia dos modernos. A observação atenta e sistemática das tendências contemporâneas, sobretudo de alguns fenômenos, eventos, experimentos e configurações emergentes (novas formas de organização e convivência que começam a surgir em profusão por toda parte), pode estar indicando as seguintes características de novas formas emergentes de democracia:

I – Que a organização de suas instituições espelhará mais um padrão de rede (estruturas mais distribuídas do que centralizadas) do que de hierarquia (estruturas mais centralizadas do que distribuídas).

II – Que sua dinâmica será mais interativa do que participativa ou adesiva.

III – Que ela adotará procedimentos diretos mais interativistas (abertos à interação fortuita, em tempo real) do que assembleístas-participacionistas (seguindo pautas previamente estabelecidas por alguma coordenação centralizada).

IV – Que ela poderá combinar procedimentos diretos interativos com procedimentos representativos (porém transitórios, com representações revogáveis a qualquer momento).

V – Que ela se guiará mais pela lógica da abundância do que pela lógica da escassez (ou seja, utilizará cada vez menos modos de regulação de conflitos que introduzam artificialmente escassez: como a votação, a construção administrada de consenso, o rodízio e o sorteio).

VI – Que seus atores serão mais pessoas interagindo em multidões consteladas e em comunidades configuradas para a convivência do que indivíduos figurando em massas arrebanhadas ou sendo chamados periodicamente a influir na vida política como eleitores solitários.

VII – Que a formação democrática da vontade política terá mais como fonte originária a cooperação voluntária, com a convergência comunal de desejos pessoais para contender com um problema ou realizar um projeto, do que a liberdade individual de opinar protegida da interferência do Estado (segundo a visão liberal) ou do que o reino público constituído pela argumentação discursiva (segundo as visões do republicanismo político e do procedimentalismo democrático).

VIII – Que ela terá diversas “fórmulas” glocais e não mais uma única fórmula pretensamente global (ou internacional, como ocorreu com a segunda democracia).

IX – Que ela será realizada em miríades de sociosferas e não em apenas menos de duas centenas das unidades político-territoriais centralizadas (chamadas de países ou Estados-nações).

X – Que ela coexistirá marginalmente e por tempo indeterminado com as democracias realmente existentes (incluindo as democracias plenas, as democracias parasitadas por regimes manipuladores e as democracias em processo de autocratização) e também com protoditaduras florescentes e ditaduras remanescentes.

Em que ambiente político tais temas são debatidos ou, sequer, cogitados? Quanto tempo será necessário para que eles entrem na pauta?

Então vamos ter paciência. Não vai assim de uma vez.


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