Burro dagobah

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Não são as pessoas más, os bandidos, os criminosos comuns, os ladrões, os corruptos, que instauram ditaduras

Este é um texto muito importante para a compreensão do que é democracia e do que é ditadura.

A maioria das pessoas, sem experiência política, confunde ditadura (ou autocracia) com corrupção, com número de bandidos ou maus-elementos (as tais maçãs-podres) que existem no meio político. Isso é um erro grave.

A corrupção existe endemicamente nos sistemas democráticos, que não viram autocráticos – por mais que apodreçam – em razão do aumento do número de ladrões por metro quadrado. Para autocratizar um regime político (transformando uma democracia, mesmo flawed como a nossa, em uma protoditadura ou ditadura) é necessário uma força autocrática organizada, com estratégia de poder formulada, narrativa elaborada, algum enraizamento social e meios humanos e materiais para tanto.

Duzentos Cunhas, trezentos Cabrais, quatrocentos Renans, não transformam democracia em ditadura, nem no curto, nem no médio e longo prazos. Mas basta um PT dirigido por uma organização política criminosa (como a chefiada por Lula e Dirceu) para fazer isso.

Sem um Erdogan e seu Partido da Justiça e Desenvolvimento, a Turquia não estaria virando uma ditadura, por mais bandidos que houvesse no legislativo e no executivo turcos.

Sem um Putin e seu partido Russia Unida (na verdade, sem a FSB, ex-KGB) a Rússia não teria virado uma ditadura, por mais infiltração da máfia russa que houvesse na Assembléia Federal da Rússia e por mais bêbados como Boris Iéltsin houvesse por lá.

Sem o PSUV de Chávez (e o apoio do regime dos Castro) Maduro não estaria conseguindo autocratizar o regime venezuelano, ainda que o governo da Venezuela estivesse (como também está) coalhado de narcotraficantes.

Não são as pessoas más, os bandidos, os criminosos comuns, os ladrões, os corruptos, que instauram ditaduras. Para instalar ditaduras é necessário uma operação muito mais profunda de deformação do campo social, um aprisionamento de fluxos interativos levado a efeito por instituições altamente centralizadas (que alteram disposições invisíveis que existem no espaço-tempo dos fluxos, reconfigurando ambientes sociais para que eles possam conseguir rodar programas autocráticos).

Se se tratasse de identificar os maus e separá-los dos bons, por meio de cruzadas de limpeza ética ou de mega-operações judiciais ou, ainda, de intervenções de força (manu militari), a política democrática não teria lugar: bastaria uma força-tarefa estatal para fazer isso, de cima para baixo.

Mas não se trata de invocar uma força superior para limpar o mundo e sim de garantir liberdade às pessoas para que possam limpá-lo, sujá-lo e limpá-lo novamente, não por meio de grandes vassouradas e sim a partir de ações singulares e precárias, tipo assim aquelas que você faz quando varre a porta da sua casa.

A democracia não é o regime sem corruptos e sim o regime sem um senhor, mesmo que este senhor seja limpinho, honesto e com as melhores intenções da humanidade.

Por não entenderem isso, as pessoas se entregam ao moralismo, às cruzadas éticas de limpeza, à antipolítica robespierriana da pureza. E, ao fazerem isso, não veem o perigo que está ao lado, não percebem que estão dormindo com os inimigos da democracia (imaginando que, por se dizerem éticos, eles são players válidos do jogo democrático, quando não o são). Foi por não compreender isso que o PSDB serviu de escada para o PT.

É por não entender isso que continuamos achando que todos os criminosos (os políticos que cometem crimes comuns e os políticos que cometem crimes políticos contra a democracia) são iguais, que um Berlusconi é tão perigoso quanto um Mussolini, que um José Sócrates é tão nocivo quanto um Salazar e acabamos concluindo que todos devem pagar por seus crimes (o que é verdade) sem distinção (o que é falso), fragilizando a democracia ao querer colocar no mesmo saco um Cunha e um Dirceu ou um Cabral e um Lula. Você, que está lendo este artigo, já viu uma nota de Eduardo Cunha ou de Sérgio Cabral apoiando a ditadura de Maduro na Venezuela? Não, não viu. E nem vai ver. Ainda que, no caso dos brasileiros citados, todos tenham se corrompido individualmente, só alguns desses pretendem e têm condições de alterar o DNA da nossa democracia.


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