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Não se trata de comparar Bolsonaro com Hitler, mas há isomorfismos

Concordo, em linhas gerais, com a visão de Robert Paxton sobre o fascismo (Cf. PAXTON, Robert (2004). Anatomia do Fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007).

Para Paxton, o fascismo é

“uma forma de comportamento político marcada por uma preocupação obsessiva com a decadência e a humilhação da comunidade, vista como vítima, e por cultos compensatórios da unidade, da energia e da pureza, nas quais um partido de base popular formado por militantes nacionalistas engajados, operando em cooperação desconfortável, mas eficaz com as elites tradicionais, repudia as liberdades democráticas e passa a perseguir objetivos de limpeza étnica e expansão externa por meio de uma violência redentora e sem estar submetido a restrições éticas ou legais de qualquer natureza”.

Esta definição entretanto, considerada excelente pelo poder de síntese do autor, mais nos afasta do que nos aproxima do coração do conceito. No conjunto da sua obra, Paxton fornece um quadro de referência melhor para o entendimento do fascismo.

Fascismo é Estado e guerra, mas não teria surgido sem intelectuais anticapitalistas que queriam ensaiar um grande experimento social para transformar a sociedade a partir do Estado e não teria se expandido sem um partido autocrático com enraizamento social (e uma forte base sindical) que tinha como objetivo se fundir ao Estado para cumprir sua missão.

Eis alguns excertos do livro de Paxton (2004):

“A palavra fascismo tem origem no fascio italiano, literalmente, um feixe ou maço. Em termos mais remotos, a palavra remetia ao fasces latino, um machado cercado por um feixe de varas que era levado diante dos magistrados, nas procissões públicas romanas, para significar autoridade e a unidade do Estado. Antes de 1914, de modo geral, foi a esquerda que se apropriou do simbolismo do fasces romano. Marianne, o símbolo da República Francesa, foi muitas vezes retratada no século 19, portando o fasces, para representar a força da solidariedade republicana contra seus inimigos aristocratas e clericais. Fasces figuram com proeminência no Sheldonian Theater da Universidade de Oxford, de autoria de Christopher Wren, e também no Lincoln Memorial de Washington (1922), bem como na moeda norte-americana de um quarto de dólar cunhada em 1932.

Os revolucionários italianos usaram o termo fascio em fins do século 19, para evocar a solidariedade e o compromisso os militantes. Os camponeses que se insurgiram contra os senhores de terra na Sicília, em 1893-1894, denominavam a si mesmos de os Fasci Siciliani. Quando, em fins de 1914, um grupo de nacionalistas de esquerda, aos quais logo veio a se juntar o pária socialista Benito Mussolini, tentou levar a Itlália a participar da Primeira Guerra Mundial do lado dos Aliados, eles escolheram um nome cujo fim era comunicar tanto o fervor quanto a solidariedade de sua campanha: O Fascio Rivoluzionario d’Anzione Interventista (A Liga Revolucionária da Ação Intervencionista). Ao fim da Primeira Guerra Mundial, Mussolini cunhou o termo fascismo para descrever o estado de ânimo do pequeno bando de ex-soldados nacionalistas e de revolucionários sindicalistas pró-guerra que vinha reunindo a seu redor. Mesmo então, ele não possuía o monopólio da palavra fascio, que continuou sendo de uso geral entre grupos ativistas de diversos matizes políticos.

Oficialmente, o fascismo nasceu em Milão, em um domingo, 23 de março de 1919. Naquela manhã, pouco mais de cem pessoas, entre elas veteranos de guerra, sindicalistas que haviam apoiado a guerra e intelectuais futuristas, além de alguns repórteres e um certo número de meros curiosos, encontraram-se na sala de reuniões da Aliança Industrial e Comercial de Milão, cujas janelas se abriam para a Piazzza San Sepulcro, para “declarar guerra ao socialismo (…) em razão de este ter-se oposto ao nacionalismo”. Nessa ocasião, Mussolini chamou seu movimento de Fasci di Combattimento, o que significa, aproximadamente, “fraternidades de combate”.

O programa fascista, divulgado meses mais tarde, era uma curiosa mistura de patriotismo de veteranos e de experimento social radical, uma espécie de “nacional-socialismo”. Do lado nacionalista, ele conclamava pela consecução dos objetivos expansionistas italianos nos Balcãs e ao redor do Mediterrâneo, objetivos esses que haviam sido frustrados meses antes, na Conferência de Paz de Paris. Do lado racial, propunha [entre outras propostas]… a convocação de uma assembléia constituinte para redigir a proposta de uma nova constituição para a Itália…

O movimento de Mussolini não se restringia ao nacionalismo e aos ataques à propriedade, mas fervilhava também de prontidão para atos violentos, de anti-intelectualismo, de rejeição a soluções de compromisso e de desprezo pela sociedade estabelecida, características essas comuns aos três grupos que constituíam a massa de seus primeiros seguidores – veteranos de guerra desmobilizados, sindicalistas pró-guerra e intelectuais futuristas…

Os futuristas eram uma associação livre de artistas e escritores que apoiavam os “Manifestos Futuristas” de Filippo Tomaso Marinetti, o primeiro dos quais fora publicado em Paris, em 1909. Os seguidores de Marinetti repudiavam o legado cultural do passado reunido nos museus e nas bibliotecas e exaltavam as qualidades libertárias e vitalizantes da velocidade e da violência. “Um carro de corrida é mais belo que a Vitória de Samotrácia”. Em 1914, eles haviam ansiado pela aventura da guerra, e continuaram a seguir Mussolini em 1919…

O fascismo recebeu seu nome e deu seus primeiros passos na Itália. Mussolini, entretanto, não era um aventureiro solitário. Movimentos semelhantes vinham surgindo na Europa do pós-guerra, independentes do fascismo de Mussolini, mas expressando a mesma mistura de nacionalismo, anticapitalismo, voluntarismo e violência ativa contra seus inimigos, tanto burgueses quanto socialistas.

Pouco mais de três anos após a reunião da Piazza San Sepolcro, o Partido Fascista de Mussolini ocupava o poder na Itália. Onze anos mais tarde, um outro partido fascista tomou o poder na Alemanha. Não demorou muito para que a Europa, e até mesmo outras regiões do mundo, fervilhassem com aspirantes a ditador e marchas de esquadrões que acreditavam estar trilhando o mesmo caminho para o poder que Mussolini e Hitler. Em outros seis anos, Hitler havia jogado a Europa numa guerra que acabaria por tragar grande parte do mundo.”

Não estão presentes no bolsonarismo, de modo articulado, todos os elementos que caracterizam o fascismo. Mas há inegáveis isomorfismos. Para entender o sentido que atribuo ao termo isomorfismo, deve-se ler o artigo Reconhecimento de padrões autocráticos.

Como já escrevi em A esquerda autocrática e o fascismo:

Quando surgiu o fascismo, os marxistas se apressaram a defini-lo usando seu esquema economicista de interpretação da realidade (tudo que acontece tem por trás algum movimento das forças econômicas que movem a história) e, é claro – infectados pelo malware esquerda x direita = burguesia x proletariado = socialismo x capitalismo = bem x mal – sua mania de imputar ao inimigo a responsabilidade por todo mal que assola a humanidade.

Foi assim que, já em julho de 1924, uma Resolução da Internacional Comunista cravava que o fascismo (que mal havia se instalado no governo na Itália, cerca de dois anos antes) era “o instrumento da grande burguesia em sua luta contra o proletariado, sempre que os meios legais disponíveis ao Estado mostram-se insuficientes para contê-lo”. Stalin “aperfeiçoou” a fórmula: “O fascismo é a ditadura explícita e terrorista dos elementos mais reacionários, mais chauvinistas e mais imperialistas do capital financeiro”. Depois disso, é claro, a esquerda realmente existente entendeu que o assunto estava resolvido e não se fala mais nisso. Mas a definição stalinista é curiosa: o problema não era a ditadura e sim a orientação política de seus promotores. Se fosse a ditadura do proletariado, quer dizer, “a ditadura explícita e terrorista dos elementos mais revolucionários da classe trabalhadora”, aí não seria problema e sim, pelo contrário, a solução. Nada de democracia: o socialismo vencerá o capitalismo (do qual o fascismo é apenas uma expressão desesperada diante do avanço da classe redentora) quando a ditadura do bem derrotar a ditadura do mal.

O problema é que durante décadas as pessoas acreditaram nessa ficção instrumental. E mesmo depois da queda do Muro de Berlim e da derrocada da União Soviética, os marxistas continuam acreditando nisso. Porque precisam acreditar. Porque seu esquema mental não mudou: se algo é ruim, só pode ser coisa do capitalismo.

O que temos aqui? Temos, simplesmente, estatismo. A luta do socialismo realmente existente contra o fascismo (depois de um breve namoro com o nazismo e da avaliação insana e desastrosa da Terceira Internacional stalinista de que o inimigo principal não era o fascismo e sim a social-democracia), era uma luta entre dois estatismos. Entre duas ideologias que atribuíam ao Estado o papel de agente instaurador de uma nova ordem top down. O problema não era o Estado e sim nas mãos de quem ele está. Se fosse nas mãos do partido do proletariado, mesmo que a administração política desse Estado fosse exercida de modo ditatorial, tudo bem para os socialistas.

Benito Mussolini concordaria totalmente com tal ponto de vista, desde que o Estado estivesse nas mãos do partido fascista. Como ele mesmo definiu: “Tudo dentro do Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado… O princípio básico da doutrina fascista é sua concepção de Estado, de sua essência, de suas funções e de seus objetivos. Para o fascismo, o Estado é absoluto; indivíduos e grupos relativos”.

Socialista, é claro, não passa de uma denominação equívoca. Os estatistas do proletariado disseram-se socialistas. Os estatistas da burguesia (segundo os estatistas do proletariado) também se disseram socialistas: o nazismo (uma forma do fascismo) se declarava socialista, nacional-socialista. Mas ambos caracterizavam-se por uma visão estadocêntrica do mundo e não sociocêntrica (o que justificaria o termo socialista). Para ambos a sociedade (civil) não existia ou não subsistiria por si mesmo na ausência do Estado (como, aliás, acreditam até hoje muitos liberais-conservadores). A sociedade era um dominium do Estado (no sentido feudal mesmo do termo).

Há mais semelhanças entre as duas ideologias – socialista e nacional-socialista – do que gostariam de admitir os marxistas. Acompanhando o nascimento do fascismo na Itália descobrimos que o fascismo é, basicamente, Estado e guerra, mas não teria surgido sem intelectuais anticapitalistas (como os seguidores de Marinetti) que queriam ensaiar um grande experimento social para transformar a sociedade a partir do Estado e não teria se expandido sem um partido autocrático com enraizamento social (e uma forte base sindical) que tinha como objetivo se fundir ao Estado para cumprir sua missão redentora. Acompanhando o desenvolvimento do socialismo marxista-leninista na Rússia descobrimos… quase a mesma coisa! Se os marxistas fossem realmente honestos deveriam reconhecer que as diferenças de conteúdo das propostas não importam tanto quanto os condicionamentos concretos impostos pela base social e pela configuração das forças políticas.

O fato é que há uma correlação direta entre estatismo, autocracia (ou ditadura) e guerra (quente, fria ou praticada como política na fórmule-inverse de Clausewitz-Lenin: a política como continuação da guerra por outros meios). Por isso, toda ideologia estatista, em alguma medida, namora com o fascismo (que, em si, já é uma expressão não do capitalismo, mas do estatismo).

Na raiz do fenômeno está a cultura patriarcal que surgiu com a ereção do Estado, nas conversações recorrentes da casta sacerdotal-militar que inventou o Estado para se reproduzir como estamento. Essa cultura estava presente no velho Estado-Templo sumeriano, na corte de Dario, na Roma imperial e inclusive na republicana e… dois mil anos depois, também em grupos estatistas que nem Estado formal possuem ainda, como a Irmandade Muçulmana no Egito e na Palestina (o Hamas) ou no Estado Islâmico. Se a construção de um califado universal não é a máxima expressão de uma ideologia estatista, semelhante ao Terceiro Reich, o que seria?

O estatismo não nasce de boas ou más intenções das pessoas e sim de uma perturbação no campo social introduzida, antes de qualquer coisa, pelo que chamamos de Estado e que, em determinadas situações gera uma configuração da rede que favorece certos tipos de conversações patriarcais hard. Essas conversações é que constituem a cultura (ou a ideologia) que chamamos de fascismo lato sensu. Mas – atenção! – ela não predominava na polis ateniense do século 5 (ou na koinonia democrática que se conformou entre 509 e 322 a. E. C.), assim como não predomina hoje, conquanto esteja presente (e estará em alguma medida enquanto houver Estado), em cerca de 30 países que experimentam mais plenamente a democracia reinventada pelos modernos (a democracia representativa), mas continua viva, resiliente que só, em cerca de 60 Estados-nações ditatoriais remanescentes ou florescentes sob os quais vive mais da metade da população do planeta!

O fascismo não existe a não ser como uma deriva do estatismo (mas, deve-se acrescentar agora, nem todo estatismo é fascismo). É uma ideologia, não um “modo” econômico autônomo (de produção, circulação, intermediação financeira etc.) e nem um modo derivado (do capitalismo agonizante ou triunfante). Assim como todo Estado é autocrático (e permanece sendo autocrático no que tange ao fundamental, quer dizer, nos seus padrões de organização e nos seus modos internos de regulação, a despeito do liberalismo político – felizmente – ter tentado domar o Leviatã com a forma Estado democrático de direito), todo governo é, em alguma medida, oligárquico (a despeito dos avanços dos processos de democratização).

Mas o fascismo não poderia ser enfrentado com outro estatismo (na base de uma luta esquerda x direita), como vimos. Com o fim dos grandes projetos fascistas do século 20, a continuidade dessa guerra (mesmo na forma branda ou de baixa intensidade da política pervertida como arte da guerra) nos dias de hoje só poderá gerar mais estatismo e, no limite, pode enveredar, aqui e ali, por variantes fascistas. E a esquerda marxista não deve se surpreender se descobrirmos nas suas concepções e nas suas práticas traços dos mesmos padrões que caracterizaram o fascismo.

ISOMORFISMOS

Vamos agora explorar alguns isomorfismos entre a campanha de Bolsonaro e a campanha nazista na Alemanha da década de 1920. O candidato Bolsonaro apresenta-se como:

a) um candidato honesto que quer acabar com a corrupção;

b) um candidato antissistema;

c) o único candidato capaz de nos livrar do comunismo.

Vejam que curioso. Jean-Philip Struck @jeanstruck encontrou cartazes de propaganda eleitoral de Hitler. E publicou hoje (04/10/2018) no Twitter:

COMBATE À CORRUPÇÃO

Cartaz eleitoral alemão nazista da década de 1920 com os dizeres: “Acabe com a corrupção. Vote nacional-socialista”.

CANDIDATO ANTISSISTEMA

Cartaz eleitoral alemão nazista da década de 1920 com os dizeres: “Um homem contra partidos cadavéricos e grupos de interesse”.

O ÚNICO CANDIDATO QUE PODE NOS SALVAR DO COMUNISMO

Cartaz eleitoral alemão nazista da década de 1920 com os dizeres: “Só um [candidato] pode nos salvar do bolchevismo [comunismo]: Adolf Hitler”.

No cartaz acima temos a citação à von Papen, que ficou conhecido por dar um “verniz” a Hitler, convencendo parte da elite de que ele não seria tão ruim. Coube a Papen vender a ilusão de que Hitler poderia ser facilmente manipulado pelas elites políticas. Não há como não fazer um paralelo com Paulo Guedes e com alguns gurus do mercado financeiro no Brasil deste outubro de 2018.

A despeito desses flagrantes isomorfismos, a caracterização de fascismo mais atrapalha do que ajuda a compreensão do fenômeno político – e, sobretudo, social – da ascensão do bolsonarismo. Bolsonaro é um oportunista-eleitoreiro que abraçou o populismo-autoritário, dito de direita, que floresce no mundo atual diante do declínio da democracia liberal. É um agente político i-liberal e, como tal, está entre os principais adversários atuais da democracia. Bolsonaro está mais para Viktor Orban (na Hungria), para Jaroslaw e Lech Kaczynski (na Polônia), para Recep Erdogan (na Turquia), para Salvini (na Itália), para Le Pen (na França), do que para Hitler e Mussolini. Claro que, no bolsonarismo, há evidentes comportamentos fascistoides. Mas isso não é suficiente para caracterizar essa força política como fascista. E nem atenua o perigo da sua ascensão para a democracia: os principais adversários da democracia hoje, no Brasil e no mundo, são os populismos (de direita e de esquerda) – não o fascismo ou o comunismo.

Sim, é preciso entender que os principais adversários da democracia na atualidade não são os fascistas ou os comunistas e sim os populistas e majoritaristas que usam a democracia contra a democracia para chegar aos governos e neles ficar pelo maior tempo possível, sejam ditos de direita (como os citados acima), sejam ditos de esquerda, como os neopopulistas dos diversos ramos do bolivarianismo: o chavismo-madurismo (na Venezuela), o evoismo (na Bolívia), o correismo-moreno (no Equador), o sandinismo de segunda geração ou orteguismo (na Nicarágua) e, dentre outros, o lulopetismo (no Brasil).

Cabe repetir: de um ponto de vista político, pode-se dizer que o petismo (o populismo de esquerda ou neopopulismo lulopetista) é mais perigoso do que o bolsonarismo na medida em que tem força política organizada, enraizamento social, agentes infiltrados em todos os escaninhos do Estado, narrativa ideológica estruturada, apoio internacional e recursos de monta e de toda ordem. Mas o bolsonarismo, de um ponto de vista cultural (quer dizer, social), é a invasão dos bárbaros: a subida da lama que está depositada, camada sobre camada, no fundo do poço da cultura patriarcal.

A ameaça bolsonarista é mais perigosa do ponto de vista social do que político. É uma revivescência patriarcal, antissocial (no sentido em que Maturana emprega o termo). Pasme o leitor com o que vou dizer agora: Bolsonaro não tem muito a ver com isso. Ele está longe de saber avaliar a ameaça que ajudou a despertar.


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