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No poço imundo dos preconceitos dos bolsonaristas

É o que venho dizendo há muito tempo. A cabeça de parte do eleitorado de Bolsonaro  chafurda no fundo do poço da cultura patriarcal e antidemocrática. A recente pesquisa do IPESPE é importante porque não capta apenas o voto de protesto, o voto do revoltado que decidiu apostar em Bolsonaro para dar um curto-circuito no velho sistema político. Não! A maior parte deles (dos que declaram voto em Bolsonaro) pensa assim mesmo.

É claro que só opiniões privadas podem ser captadas por pesquisas desse tipo, não opinião pública (majoritária ou minoritária, não importa). Mas se não houver um movimento (o chamado debate público que ocorre em processos democráticos de escolha de representantes) que modifique parte dessas opiniões privadas (retrógradas e liberticidas) em opinião pública (compatível com a democracia), corremos o risco de mergulhar nesse poço de preconceitos imundos.

Leiam o artigo de hoje de Rosângela Bittar, no jornal Valor Econômico (reproduzido abaixo). Volto ao final com um comentário.

Super nicho verde-oliva

Rosângela Bittar, Valor Econômico, 27/06/2018

A cabeça do eleitor de Bolsonaro, segundo a XP

Os números não mentem. Do eleitorado do deputado Jair Bolsonaro, pré-candidato do PSL à Presidência da República, precisamente 63% defendem uma intervenção militar no governo. Logo atrás de Bolsonaro, com 38%, estão os brasileiros em geral. Não é pouca coisa, basta ver o número de indecisos que somam o mesmo percentual: 38%. Bem abaixo vêm os eleitores dos demais candidatos que também desejam manifestação de força para conquistar o Palácio do Planalto: Geraldo Alckmin (37%), Marina Silva (35%), Álvaro Dias (32%), Lula (27%) e Ciro Gomes (24%). Ou seja, o ponto fora da média é mesmo o candidato-capitão, como mostra a última pesquisa semanal da XP, feita pelo Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe) que, pela primeira vez, introduziu grandes temas polêmicos, de interesse da sociedade e cruzou as respostas com os candidatos preferidos de cada eleitor.

Dessa vez foram feitas mil entrevistas, por telefone, no período de 18 a 20 de junho, com margem de erro de três pontos e, pela primeira vez entre as cinco rodadas já realizadas, abordando assuntos tabus para candidatos. A pesquisa reune opiniões dentro do conjunto do eleitorado e entre os eleitores de cada um dos candidatos.

É claro que, por introduzir a opinião do eleitorado sobre temas controvertidos, a pesquisa apresenta não apenas essa, da intervenção militar, mas outras revelações importantes. Um exemplo é a pena de morte: nada menos do que 66% do eleitorado de Jair Bolsonaro são favoráveis ao carrasco. No que diz respeito ao direito de ter e portar armas, 74% do eleitor de Bolsonaro se declara também a favor. Mais de dois terços, portanto. No caso da união civil entre pessoas do mesmo sexo o percentual de aprovação é menor, mas igualmente alto: 57% do eleitorado. A redução da idade penal para 16 anos conta com o apoio de 95% do eleitorado de Bolsonaro.

Os demais ficam na média nacional, mas há temas em que Marina Silva e Ciro Gomes estão na frente, como: Legalização da maconha (39% do eleitorado de Ciro e 24% do eleitorado da Marina estão a favor, são os dois índices mais altos); ou casamento entre pessoas do mesmo sexo (63% do eleitorado de Ciro estão a favor e 53% do eleitorado da Marina também, tema tabu para a religião dela, mas aqui se inicia outra história, que não vem agora ao caso, voltemos a Bolsonaro). Seus eleitores defendem as privatizações (49%); a intervenção do governo na economia (52%); a reforma da Previdência (49%). Embora abaixo dos 50%, esses percentuais são mais altos que o dos eleitores que são contrários aos temas.

Mas o que chama a atenção, realmente, é a defesa da intervenção militar, em um momento delicado, quando ninguém ainda entendeu as sucessivas reuniões do general Villas Bôas, comandante do Exército, com os candidatos a Presidente, convidados a ir ao seu encontro o que, em se tratando de quem é, tem o tom de intimação. O candidato visto como um representante dos militares já anunciou, também, que seu governo será majoritariamente formado por profissionais das Forças Armadas. E, um terceiro sinal, as candidaturas de militares a mandatos do legislativo se multiplicam pelo Brasil.

É um nicho do candidato Jair Bolsonaro. Um super nicho verde-oliva.

Os militares tentaram, algumas vezes, desconversar. Há poucos meses, integrantes do Alto Comando, para tranquilizar seus interlocutores preocupados com a escalada de Bolsonaro e sua ligação fraterna com a caserna, disseram que não se devia temê-lo, o certo era considerá-lo uma caricatura. De lá para cá, a caricatura se aprumou e começou-se a vislumbrar, com ele, uma chance de volta dos militares ao poder político.

O ex-ministro da Defesa, Aldo Rebelo, também candidato a presidente da República pelo SD, recomenda que se esqueça essa hipótese, a da volta dos militares, ou de estar ocorrendo no país uma conspiração em torno da candidatura de Jair Bolsonaro. Também não vê nada de estranho no convite do general Villas Boas aos candidatos para uma conversa no QG do Exército. “O que ele quer é apenas que não esqueçam a agenda dos militares”. Qual é essa agenda? O ex-ministro explica: “é a agenda do orçamento das Forças Armadas, a agenda da presença deles na vida do país”.

Qualquer outra coisa não teria ressonância. “Alguém está ouvindo a OAB pedir um golpe? Ou a CNBB pedir um golpe? A Fiesp está pedindo golpe? Esqueça”.

A pesquisa XP confirma pesquisas Datafolha, de setembro do ano passado e de abril deste ano, que vinham apontando o crescimento do número de brasileiros que acham boa a ditadura militar (17%) e os que acham que tanto faz ditadura como democracia (21%). Eram, portanto, 38% os que pensavam dessa forma. Na pesquisa XP, a análise dos números globais mostra que também são 38% os que se manifestam a favor de uma intervenção militar. Serão os mesmos?

Na conclusão do sociólogo e cientista político Antonio Lavareda, os números revelam o seguinte: “38 % é um tamanho francamente insuficiente para ganhar o segundo turno, mas mais que o necessário para ir ao segundo turno”. Ou seja, Bolsonaro estaria no segundo turno, resta saber com quem.

Ele, provavelmente, deve preferir um candidato de esquerda, identificado, se possível com o PT, para jogar com o contraponto e a rejeição de 60% ao partido e a Lula.

Com uma maioria anti-petista, a vitória poderia ir mais facilmente ao encontro de Bolsonaro. Se não for, a luta de Bolsonaro ficará mais difícil, pois a pesquisa semanal mostra que, no segundo turno, os candidatos competitivos disputam voto a voto com Bolsonaro, qualquer campanha bem sucedida pode ultrapassá-lo.

Essa pesquisa apresenta três cenários possíveis mas apenas um provável. O mais realista é o que considera Fernando Haddad como indicado de Lula. (Os outros dois, irreais, são Lula candidato ou Haddad por ele mesmo, sem Lula).

No cenário realista, os que não votam em ninguém somam o maior índice da disputa, 24%; em seguida vem Jair Bolsonaro com 19%, Haddad apoiado por Lula com 12%. Marina com 11%, Ciro e Alckmin com 8% cada. Desconhecido, Fernando Haddad tende a crescer à medida em que for aparecendo na TV, em propaganda eleitoral gratuita.

Comentário final

Pois é… Não é bom desprezar a influência deletéria do bolsonarismo (que é muito pior do que Bolsonaro). Bolsonaro, vencendo ou perdendo em 2018, já serviu de vetor para inocular, em amplos setores da base da sociedade brasileira, um vírus que pode ser letal para a democracia. Esse é o tipo de ameaça que deve ser prontamente neutralizada pelos democratas. Com esse tipo de coisa não se brinca. No gráfico da pesquisa XP Investimentos (reproduzido na foto de capa deste artigo), de cada 3 eleitores de Bolsonaro, dois apoiam golpe militar. Mas a média é alta, seja qual for a opção eleitoral.

Pesquisas não registradas no TSE, feitas para consumo interno, mostram que Jair Bolsonaro é o candidato preferido da PM paulista e seus familiares, registrou no último sábado o Painel da Folha de São Paulo. Cerca de 92% dos entrevistados disseram votar no presidenciável do PSL. Não dá mais para duvidar: é o efeito do discurso da ordem (a política como questão de polícia) somado ao corporativismo (a defesa dos direitos da categoria, que ele instrumentaliza).

Na PF também há uma ala bolsonarista, inclusive com lista de candidatos preferenciais da corporação para diversos cargos. Pesquisas semelhantes podem ser feitas com cabos, sargentos e oficiais das Forças Armadas (inclusive com os ditos “da reserva” que, ao se aposentarem, nem por isso mudam suas cabeças).

É bom prestar atenção ao fenômeno. Nas democracias é razoável que, entre os funcionários do Estado encarregados do uso legal da força, haja um contingente majoritário de pessoas que acham que o fim da política é a ordem, não a liberdade. Mas não é esperável que esse número seja tão grande a ponto de pesar decisivamente nos resultados eleitorais. Se for, ou é sinal de que o número desses funcionários é tão grande que não estamos mais numa democracia (e sim numa ditadura que promove eleições, depois de ter transformado parte da sociedade em funcionalismo estatal) ou que há um processo de autocratização em curso que já atingiu a base da sociedade.


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