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Nós

Yevgeny Ivanovich Zamyatin (1884-1937) foi um escritor russo famoso pelo seu romance distópico Nós (Мы/Mii), escrito entre 1920 e 1921 e lançado em 1924.

O verbete da Wikipedia conta que “a história narra as impressões de um cientista sobre o mundo em que vive, uma sociedade aparentemente perfeita, mas opressora, ao perceber seus conflitos e imperfeições e ao travar contato com um grupo opositor que luta contra o “Benfeitor”, regente supremo da nação. A obra é baseada, pelo menos em parte, nas experiências do autor com as revoluções russas de 1905 e 1917 e no período em que trabalhou supervisionando a construção de navios na Inglaterra (por volta do ano de 1916). Embora escrito no início da década de 1920, Nós só publicado pela primeira vez em 1924, e em inglês e em Nova Iorque, por estar proibido na então União Soviética devido à censura imperante no país. A primeira edição no idioma russo só foi lida em 1927/1928, quando publicada em um jornal de emigrados. O livro só adentrou legalmente a pátria-mãe do autor em 1988, com as políticas de abertura do regime soviético… O livro leva a extremos os aspectos mais totalitários e o conformismo da sociedade industrial moderna, descrevendo um Estado que acredita que o livre-arbítrio é a causa da infelicidade e que a vida dos cidadãos deve ser controlada com precisão matemática baseada nos sistemas de precisão industrial criados por Frederick Winslow Taylor”.

George Orwell – que foi visivelmente influenciado por Zamyatin – chegou a qualificar Nós como a experiência literária crucial e aventou que o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley (1932) foi parcialmente derivado do livro de Zamyatin. Ele também escreveu uma resenha sobre o livro, publicada em Tribune Magazine em 4 de janeiro de 1946. Disponível neste link.

Ao que tudo indica Zamyatin foi fortemente influenciado, por sua vez, pelo conto A Nova Utopia de Jerome K. Jerome (1891).

Zamyatin anteviu o stalinismo ou viu suas sementes germinando no bolchevismo? Talvez tal pergunta não seja mais tão relevante, pois, de algum modo, ele reconheceu – ou melhor, anteviu – e registrou na sua obra padrões autocráticos que estiveram presentes em tentativas antidemocráticas de todos os matizes que pretenderam reformar o mundo. Foi uma antevisão, sim, mas de tudo e não apenas das consequências do socialismo real.

Leiam o prefácio do editor:

A LIBERDADE NO ANO 3000

A literatura inglesa do século XX produziu duas utopias famosas, que é suposto conterem tudo quanto à literatura do género tinha produzido até então. Quem não leu o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley e 1984 de George Orwell?

O livro de Huxley data de 1930 e o de Orwell de 1948.

Sabemos hoje que tanto um como o outro sofreram a influência do livro que o leitor tem na mão: Nós de Zamiatin, escrito em Petrogrado, em 1920.

A primeira edição do livro é uma tradução inglesa, publicada em Nova Iorque em 1924. Em 1928 apareceu a primeira tradução francesa. Em russo, Nós, só foi editado em 1952 e não foi na URSS, mas sim, em Nova Iorque. Na URSS, Nós, só viu a luz depois da Perestroika.

O protagonista de Nós é visivelmente outro.

Nós de Zamiatin: trata-se de um engenheiro que projeta e constrói uma nave espacial, referida logo na primeira página do livro, uma nave que levará aos seres de outros planetas, ainda sujeitos à «selvagem condição de liberdade», a mensagem de felicidade, organização e exatidão em que vivemos Nós, os súditos do Benfeitor e do Estado Único.

Além de ser o primeiro romance do género e o mais original, Nós é também aquele que mais se afirma como «criação literária». O narrador-protagonista exprime-se na linguagem dum habitante da terra que vive no século XXX. Usam as metáforas, os modos de dizer, o vocabulário que na terra se falará durante o terceiro milênio e uma sintaxe muito elaborada, de inspiração matemática. Tem consciência de que está falando para leitores do Passado e, ironicamente, desculpa-se sempre que usa uma linguagem anacrónica: a palavra «pão», por exemplo, será um anacronismo no século XXX, em que se come um único alimento, um derivado da nafta…

Lendo o livro, o leitor perceberá tudo isso e apreciará o trabalho sobre a linguagem que o autor nele realiza. Verá também, logo desde a primeira página, que o grande tema do livro (poderíamos até dizer a grande obsessão) é o dilema Felicidade-Liberdade. Ou seja: Paraíso versus Inferno. Ou seja, Éden versus Árvore da-Sabedoria, O Conhecimento do-Bem-e-do-Mal.

Não se trata de um ataque ao stalinismo, porque o stalinismo ainda não existia quando Zamiatin escreveu o livro. Mas é uma antevisão brilhante dum sistema que quis dar aos homens a Felicidade (a Organização) em troca da Liberdade (que é sempre Erro, Crime, Barbárie, Desorganização). É o retrato-robô dum Libertador que não resistiu à tentação de encerrar os povos que libertou dentro dos Muros Inabaláveis da Verdade para poupá-los á Dor e ao Contágio dos Vírus do Erro, da Diversidade. Do Eu. Com resultados paradoxais, como se sabe: a reclusão faz desenvolver o vírus da liberdade, da mesma forma que a liberdade leva frequentemente os humanos a suspirarem pelas algemas. E a denunciarem (como faz o ingênuo protagonista) todos quantos queiram cortar as amarras que os prendem à felicidade.

Leiam o livro depressa. E corram depois para a televisão, a ver até que ponto, hoje, os oprimidos estão libertos e os libertos oprimidos… Comédia trágica. Tragédia irônica.

Como este livro.

M.J.G.

O melhor mesmo é ler o livro: clique ZAMYATIN, Yevgeny (1921) Nos Uma edição mais confortável para a leitura pode ser baixada em ZAMYATIN, Yevgeny (1921) Nós’

 

NÓS

Yevgeny Zamyatin

Título Original: Мы/Mii – Евге´ний Ива´нович Замя´тин

 

Primeira Entrada

UM ANÚNCIO | A MAIS SÁBIA DE TODAS AS LINHAS | UM POEMA

Limito-me a transcrever textualmente o que hoje mesmo veio publicado na Gazeta do Estado: Dentro de cento e vinte dias ficará completo o INTEGRAL.

Aproxima-se a hora insigne, histórica, em que o primeiro INTEGRAL se levantará no espaço cósmico. Há mil anos, os nossos heroicos antepassados submeteram todo o globo terrestre ao domínio do Estado Único. Hoje assistiremos a um feito ainda mais glorioso: a integração, por meio do INTEGRAL, feito de vidro, elétrico, ígneo, da eterna igualização de tudo o que existe. Ficarão sujeitos ao benéfico jugo da razão todos os seres desconhecidos, os habitantes doutros planetas que porventura vivam ainda no estado selvagem de liberdade. Se acaso não percebem que nós lhes levamos a felicidade matemática e exata, é nosso dever forçá-los a serem felizes. Mas, antes de puxarmos das armas, tentaremos recorrer à palavra.

Em nome do Benfeitor, todos os números do Estado Único ficam notificados do seguinte: Todos os que se sentirem capacitados deverão compor tratados, poemas, odes e outras composições sobre a beleza e a grandeza do Estado Único.

Eles constituirão o primeiro carregamento do INTEGRAL.

E viva o Estado Único. Vivam os números. Viva o Benfeitor!

Escrevo estas coisas e sinto o meu rosto a arder. Sim… Há que levar a cabo a integração, proceder à grandiosa e infinita igualização de tudo o que existe. Sim, há que distender a curva selvagem, reduzi-la a uma tangente… A uma assíntota… A uma linha reta! E isso porque a linha do Estado Único é uma linha reta. A grande, a divinal, a exata, a sábia linha reta — a mais sábia de todas as linhas!

Eu, D-503, construtor do INTEGRAL, sou um entre os muitos matemáticos do Estado Único. A minha caneta, acostumada aos números, não consegue criar a música das assonâncias e dos ritmos. Farei o possível por descrever o que vejo o que penso, ou mais precisamente o que nós pensamos (precisamente, nós, e será este “Nós” o título dos meus apontamentos). Estes serão o produto da nossa vida, da vida matematicamente perfeita do Estado Único e, sendo-o, não serão por si só um poema, independentemente do meu querer? Não tenho dúvidas, sei que assim é.

Escrevo isto com o rosto em fogo. O que eu sinto é em boa verdade comparável ao que uma mulher experimenta quando pela primeira vez sente em si o pulsar de um novo ser, ainda informe e cego. Sou eu e ao mesmo tempo, não sou eu. Durante meses e meses terei de continuar a alimentar esta minha obra com a minha seiva e o meu sangue, até que, por fim, dele me separe entre dores, depondo-o aos pés do Estado Único.

Mas estou pronto, como todos os outros, ou quase todos.

Estou pronto.

 

Segunda Entrada

BAILADO | A HARMONIA DO QUADRADO X

Primavera. De lá de trás do Muro Verde, das planícies selvagens que escapam à nossa vista, o vento traz-nos o pólen amarelo e orvalho das flores. Este pólen seca-nos os lábios; temos de passar constantemente a língua pelos lábios e, muito provavelmente, todas as mulheres por quem passamos têm os lábios doces (e o mesmo sucede, naturalmente, com os homens). O que perturba, em certa medida, o pensamento lógico…

Mas que céu! Azul, nem a menor nuvem (tão primitivo era o gosto dos antigos, que os poetas tinham que procurar a inspiração naquelas massas de vapor informes, acasteladas umas sobre as outras!). Eu gosto e tenho a certeza de não me enganar se disser que todos nós gostamos deste céu assim, estéril, irrepreensível. Em dias como o de hoje, todo o universo aparece moldado no mesmo vidro impassível e eterno de que são feitos o Muro Verde e todas as nossas construções. Em dias como este podem ver-se as profundezas azuis das coisas, percebem-se coisas até aqui tidas como estranhas e desconhecidas… Vemos em tudo algo que antes considerávamos normal, prosaico.

Seja, por exemplo, o seguinte: estava eu esta manhã na doca onde se procede à construção do INTEGRAL quando, de repente, pus os olhos nas máquinas. Cegamente, inconscientemente, rodavam as bolhas dos reguladores; reluzentes, os pistões oscilavam para a direita e para a esquerda; o balanceio movia orgulhosamente os ombros; a goiva do torno gemia ao compasso duma música nunca ouvida. Compreendi naquele momento toda a beleza daquele bailado grandioso e mecânico, que o sol e o azul e etéreo céu banhava-se de luz.

E não pude deixar de perguntar a mim mesmo: «Porque é que tudo isto é belo?. Porque é bela esta dança?»

Porque se trata de um movimento que não é livre, porque o sentido profundo da dança reside exatamente na obediência absoluta e extática, na não liberdade ideal.

O fato de os nossos antepassados se entregarem à dança nos momentos mais inspirados das suas vidas (no decorrer dos mistérios religiosos, dos desfiles militares), só pode ter um significado: o instinto da não-liberdade é organicamente inerente ao homem desde os tempos mais remotos, e nós, hoje, na vida de todos os dias, mal temos consciência de que…

Mais tarde explanarei esta ideia. O intercomunicador acaba de me fazer sinal neste momento. Quando olho: é 0-90, tinha que ser. Vêm-me buscar para irmos dar um passeio.

Querida 0-…! Sempre achei que o nome condiz com o aspecto dela. Tem cerca de dez centímetros menos do que manda a Norma Maternal, o que lhe arredonda as formas, dando a impressão de ter sido feita num torno. O róseo da sua boca entreabre-se para acolher cada uma
das minhas palavras. Tem nos pulsos rechonchudos um refugo como os das crianças.

Quando ela entrou, o volante da lógica zunia ainda dentro de mim e, devido à inércia, não pude deixar de falar na fórmula que acabava de estabelecer e na quais todos participaram, nós, a máquina e a dança.

— Maravilhoso, não é? — perguntei.

— Sim, é maravilhoso, é primavera — respondeu 0-90 com um sorriso róseo.

É primavera, imagine-se! A falar-me em primavera… Estas mulheres!… Fiquei calado.

Saímos. A avenida estava cheia de gente. Com um tempo destes, habitualmente, a Hora Pessoal que se segue ao almoço é consagrada a um passeio suplementar. Como habitualmente, a Oficina Musical tocava em todos os seus alto-falantes a Marcha do Estado Único. Os números — às centenas, aos milhares — todos de uniformes azulados, com placas de ouro ao peito, placas com o número estatal de cada um ou de cada uma, caminhavam em filas, quatro a quatro, acertando convictamente o passo com o ritmo da música. E eu, em conjunto com os outros três do nosso grupo, formávamos uma das inúmeras vagas daquela torrente poderosa. À minha esquerda tinha a 0-90 (se um dos meus hirsutos antepassados escrevesse isto há mil anos atrás, aplicar-lhe-ia com certeza o engraçado pronome minha): à minha direita, tinha dois números desconhecidos, um masculino e outro feminino.

O céu esplendorosamente azul, os minúsculos sóis de cada uma das nossas placas, sóis pequenos como se fossem brinquedos, os rostos libertos de pensamentos dementes, tudo se conjugava num espetáculo único, radioso, risonho. Como se, ao ritmo dos metais — tra-ta-tam, tra-ta-ta-tam —, brônzeos degraus refulgissem ao sol e, a cada degrau, todos subíssemos cada vez mais alto no azul vertiginoso… E foi então, exatamente como já me tinha acontecido esta manha nas docas, que vi uma vez mais todas as coisas como se estivesse a vê-las pela primeira vez na vida… Vejo ruas impecavelmente direitas, o vidro resplandecente das ruas, os divinais paralelepípedos (edifícios) das construções transparentes, a harmonia quadrada das filas de números azuis-cinza. E tive a impressão de que não tinham sido as gerações anteriores a mim, mas sim eu, eu precisamente, quem tinha apego ao antigo Deus e a antiga vida, que tinha sido eu o criador de tudo isto. E, com a sensação de ser uma torre, assaltou-me o receio de mexer o cotovelo, de provocar a derrocada das paredes, das cúpulas, das máquinas.

No momento seguinte dei um passo atrás no tempo, andei do + para o —. Recordei (evidentemente numa associação por contraste), certo quadro visto no museu, que representava uma avenida do século XX e nela uma multidão desordenada, confusa, de gente, rodas, animais, cartazes, árvores, cores, pássaros… E dizem que era realmente assim, que acontecia assim na realidade. Para mim, essas coisas são tão inverossímeis que não pude deixar de rir à gargalhada. O meu riso encontrou eco logo ali à minha direita. Voltei-me: vi diante de mim uns dentes (extraordinariamente brancos e afiados) e um rosto feminino desconhecido.

— Desculpe — disse-me ela —, mas vejo-o olhar para tudo com um ar tão inspirado… Como o Deus mitológico do sétimo dia da criação. Pelo que vejo, está convencido de que foi você e não outro quem foi que criou a mim, fato este que muito me lisonjeia.

Tudo isto ela disse sem sorrir, direi mesmo que o disse com certa deferência (possivelmente, sabia que era eu o construtor do INTEGRAL). Mas, não sei se nos olhos se nas sobrancelhas, ela tinha um X estranho e irritante que não consegui ver, por mais que tentasse calcular, reduzir a uma fórmula numérica. Por qualquer razão, Senti-me embaraçado e, um tanto perplexo, comecei a procurar as motivações lógicas do meu riso. Era perfeitamente evidente que este contraste, este abismo intransponível entre as coisas de hoje e as de antigamente…

— Intransponível, como? (Que dentes afiados ela tinha!) Sobre um abismo é sempre possível estender uma ponte. Puxe pela imaginação: tambores, batalhões, fileiras… Todas essas coisas existiam anteriormente e, portanto…

— Sim, pois, é claro — exclamei eu.

A transmissão de pensamentos era espantosa: ela exprimia — com as minhas próprias palavras
— aquilo que eu tinha estado a escrever antes de sair. «Está visto que até os próprios pensamentos se compreendem….E é assim porque ninguém é ‘um’, todos somos ‘um entre’. Somos tão semelhantes…»

— Tem a certeza? — atalhou ela.

Reparei que as sobrancelhas dela formavam com as têmporas um ângulo agudo como o que é formado pelas hastes dum X. Por não sei que motivo, Senti-me outra vez perplexo; olhei para a direita, olhei para a esquerda e…

Seguia, à minha direita, a desconhecida E-330 (vi-lhe então perfeitamente o número), elegante, firme, maleável como um chicote; à esquerda ia 0-90 (ou simplesmente 0-), completamente diferente, toda ela esférica, com um refego, igual ao das crianças, nos pulsos; no outro extremo do nosso grupo seguia um número macho que eu não conhecia um indivíduo formado por duas curvas, dando a ideia da letra S. Éramos todos diferentes uns dos outros…

A outra, a da direita, a E-330, deu pelos meus olhares de perplexidade e suspirou: «Ai, ai»!

Este «ai» vinha a propósito, não o nego, mas notei nas feições dela algo de estranho… A não ser que fosse à voz.

— Não vale a pena suspirar — disse eu com uma brusquidão que em mim não é habitual — A ciência progride e é evidente que, se não for dentro de cinquenta anos, pelo menos dentro de cem anos…

— Mesmo os narizes de todos…

— Sim, os narizes — respondi quase aos gritos. —Enquanto houver motivos para alguém invejar, seja em que grau for… Se eu tenho um nariz em forma de botão e outra pessoa tem um em forma de…

— De fato, o seu nariz, sempre lhe digo que é um tudo nada clássico, como se dizia naquele tempo. Já as suas mãos… Não, nada disso, posso ver as suas mãos? Não suporto que as pessoas observem as minhas mãos; tenho-as peludas, hirsutas — um atavismo ridículo.

Levantei-as e, numa voz tanto quanto possível indiferente, disse:

— São mãos de símio.

Ela observou-me as mãos e fitou-me logo a seguir: — Curiosamente, não podia ser maior a concordância.

Pesava-me com os olhos como se eles fossem uma balança. Tornei a reparar nos contornos que as pontas das sobrancelhas pareciam formar.

— Ele está registrado no meu nome — disse a boca rósea da 0-90, toda contente.

Melhor fora estar calada; a observação não podia ser mais deslocada. A 0- é adorável, mas… Como é que eu hei de dizer? A velocidade da língua dela não é corretamente calculada; a velocidade por segundo da língua dela atrasa-se sempre um bocadinho relativamente; e velocidade por segundo do pensamento, nunca se verificando o inverso.

O grande sino da Torre Acumuladora fez soar às 17 horas.

Sinal de que chegava ao fim a Hora Pessoal. E-330 afastou-se na companhia do número masculino em forma de S. A cara deste impunha respeito e, percebi logo a seguir, não me era desconhecida. Devo tê-lo encontrado em qualquer lado, não me recordo em que circunstâncias.

Na despedida, ela sorriu-me de forma enigmática, sempre com o tal X:

— Passe depois de amanhã pelo Auditório 112 — disse.

— Se acaso eu for convidado para o auditório que referiu… — respondi, encolhendo os ombros.

— Vai sê-lo — ripostou ela com uma segurança que eu não consegui perceber.

Aquela mulher exercia sobre mim um efeito tão desagradável como o duma componente irracional que se introduz numa equação e não pode ser analisada. Por isso me agradou ficar a sós com a minha querida 0-, embora por pouco tempo. De braço dado, atravessamos quatro avenidas. Numa esquina, ela teria que subir para a direita e eu para a esquerda.

— Gostaria muito de ir hoje contigo e baixar as cortinas. Hoje mesmo… Agora mesmo — disse-me O-, olhando timidamente para mim com aqueles olhos redondos de cristal azul.

Tão engraçada que ela é! Que podia eu responder? Tinha estado comigo ontem e sabe tão bem como eu que o nosso próximo Dia Sexual é depois de amanhã. Aqui está a tendência que elas têm de pôr a língua à frente do pensamento… Um fenômeno análogo ao que se passa com a faísca que no motor se inflama cedo demais, estragando-o.

Ao deixá-la, beijei-a duas vezes… Não, há que ser exato: dei-lhe três beijos nos olhos maravilhosamente azuis, libertos de toda e qualquer nuvem negra.

 

Terceira Entrada

UM CASACO | UMA MURALHA | UMA TÁBUA DE MANDAMENTOS

Dei uma vista de olhos a tudo o que ontem escrevi e vejo que escrevo com pouca clareza. Melhor dizendo: tudo é claro para qualquer de nós; mas é possível que o não seja para vocês, a quem eu não conheço, a quem o INTEGRAL vai levar os meus apontamentos… É possível que só tenham lido o livro da civilização até à página a que chegaram os nossos antepassados há novecentos anos. É possível que ignorem elementos tais como as Tábuas dos Mandamentos Horários, as Horas Pessoais, a Norma Maternal, o Muro Verde, o Benfeitor. Eu acho cômico e ao mesmo tempo difícil falar de tudo isto. É assim como se um escritor do século passado, do século vinte se preferirem, tivesse de explicar nos seus romances o que quer dizer «casaco», «apartamento», «mulher». Se o romance tivesse de ser traduzido para os selvagens, como evitar a inclusão de notas a explicar o que quer dizer casaco?

Tenho a impressão de que um selvagem não poderia deixar de se interrogar, ao ver a palavra casaco: « Mas o que vem a ser isso?”. Deve ser uma coisa incómoda!» O mesmo sentirão vocês, creio, quando eu lhes disser que, depois da Guerra dos Duzentos Anos, nenhum de nós pôs os pés para lá do outro lado do Muro Verde. Vão ter que pensar um pouco, meus caros, será bom pensarem nisso.

Porque é tudo muito claro: toda a história humana, tanto quanto nos é dado saber, é a história da transição das formas nómades para formas cada vez mais sedentárias.

Não derivará daí que a forma extrema de vida sedentária (a nossa) é simultaneamente a mais perfeita? Os homens desceram de um extremo do mundo para o outro, nos tempos pré-históricos, quando havia coisas como nações, guerras, traficâncias, os descobrimentos das várias Américas. Mas quem é que hoje em dia precisa de tais coisas, para quê fazer isso?

Eu admito que o hábito desta vida sedentária não fosse conseguido sem dificuldade, não foi obtido de um momento para o outro. Quando, no decurso da Guerra dos Duzentos Anos, todas as estradas foram destruídas e se cobriram de erva, terá parecido incômodo viver-se em cidades separadas umas das outras por vastidões verdes.

E depois? Na altura em que perdeu a cauda, o homem demorou certamente a aprender a enxotar as moscas sem ela; deve ter ficado deprimido, nos primeiros tempos, ao ver-se sem apêndice caudal. Mas, quem é que hoje consegue imaginar-se com cauda? Quem é que se imagina, despido, no meio da rua, sem casaco? (Não deixa de ser possível andar pela rua fora sem casaco.) Ora, eu encontro-me exatamente numa situação semelhante a essa: não sou capaz de imaginar uma cidade que não tenha o seu Muro Verde, não sou capaz de imaginar a vida que não se apresente envolta nas roupagens repletas de caracteres das Tábuas dos Mandamentos Horários.

As Tábuas dos Mandamentos Horários… Lá estão elas além, na parede do meu quarto, olhando- me nos olhos, há um tempo severa e ternamente, lá estão os caracteres vermelhos sobre fundo dourado. Involuntariamente, o que eles fazem lembrar é aquilo a que os antigos chamavam ícones, e dentro de mim brota o desejo de compor versos, preces (trata-se de uma e a mesma coisa).

Ah, quem me dera ser poeta para vos cantar como mereceis, ó Tábuas dos Mandamentos Horários, vós que sois o coração e o pulso do Estado Único!

Todos nós (e talvez todos vós) lemos, quando andávamos na escola, o maior monumento da antiga literatura que até nós chegou: os Horários de todos os Caminhos de Ferro. Mas ponha-se este clássico ao lado das Tábuas dos Mandamentos Horários e será como ver, lado a lado, a grafite e o diamante. Contêm, uma e outro, o mesmo elemento, C, o carbono, mas quão eterno e transcendente é o diamante, que brilho o dele! Quem é que não perde o fôlego ao mergulhar e ao percorrer as páginas das Tábuas do Tempo? As Tábuas dos Mandamentos Horários, porém, fizeram de todos e de cada um de nós heróis épicos com seis rodas de aço.

Todas as manhãs, com a precisão duma engrenagem de seis rodas, no mesmo minuto e no mesmo segundo, nós, milhões que somos, levantamo-nos como se fôssemos um só número. À mesma hora, nós, milhões-num-só, começamos a trabalhar e, no final, paramos todos em simultâneo. Unidos num só corpo com muitos milhões de mãos, todos nós levamos as colheres às bocas, no exato instante em que as Tábuas dos Mandamentos Horários o preceituam; todos nós, no mesmo segundo, saímos a passear e vamos para o auditório, ou para o Salão dos Exercícios Taylor, ou recolhemo-nos para dormir.

Vou ser franco: não achávamos ainda, de forma absolutamente exata, a solução do problema da felicidade. (Duas vezes por dia, às horas ordenadas pelas Tábuas (das 16 às 17) e das 21 às 22) o nosso poderoso organismo unipessoal divide-se em células separadas: trata-se das Horas Pessoais, tal como as fixam as Tábuas dos Mandamentos Horários. Nessas horas, podem ver-se nos quartos de alguns as persianas pudicamente fechadas; outros podem ser vistos a atravessar a avenida, gravemente, ao ritmo brônzeo da Marcha do Estado Único; outros ainda podem ficar sentados às suas secretárias, como eu, neste momento. Mas creio firmemente (por mais que me chamem idealista e fantasioso!) que, mais tarde ou mais cedo, virá o dia em que encontraremos na fórmula geral lugar para estas horas, virá o dia cujos 86 400 segundos sejam totalmente controlados pelas Tábuas dos Mandamentos Horários.

Tive já ocasião de ler e de ouvir contar muitas histórias incríveis dos tempos em que as pessoas viviam num estado livre, isto é, desorganizado, selvagem. Mas o aspecto para mim mais inacreditável é o seguinte: como foi possível o poder governante (fosse ele embora o mais rudimentar) permitir ao povo viver sem uma regra idêntica às nossas Tábuas dos Mandamentos Horários, sem passeios obrigatórios, sem um controle rigoroso das horas das refeições… Como pôde ele consentir que as pessoas se levantassem e fossem para a cama quando muito bem lhes apetecia? Alguns historiadores afirmam até que, nesses tempos, ao que parecem, as ruas ficavam iluminadas durante a noite e que andava gente a pé e de carro pela rua!

Há uma coisa que a minha cabeça não consegue de todo em todo perceber. Será que, apesar de todas as limitações da inteligência, as pessoas não eram levadas a entender que tal modo de vida era um assassínio da população… Um assassínio lento, adiado de dia para dia?

O Estado (na sua desumanidade) proibia o assassínio da pessoa singular, sem, todavia proibir o sema assassínio de milhões. Era criminoso matar uma pessoa, ou seja, subtrair à soma total das vidas humanas uns cinquenta anos; mas não era crime subtrair à soma total das vidas humanas vinte milhões de anos. Digam lá se não dá vontade de rir?! Qualquer número com dez anos de idade é hoje em dia capaz de resolver este problema matemático-moral, mas naquele tempo não houve nenhum Kant capaz de resolvê-lo. Até porque nenhum Kant pensou algum dia em construir um sistema de ética científica, isto é, um sistema ético fundado na subtração, na adição, na divisão e na multiplicação.

Vejam bem: não será absurdo o Estado (tinha o atrevimento de se chamar Estado!) consentir numa vida sexual sem controle de espécie alguma? Com quem, quando e como cada um quisesse?

… De forma completamente anticientífica, como os brutos. E, tal como os brutos, procriava às cegas, a seu bel-prazer. Dá muita vontade de rir o fato de, sabendo eles horticultura, criação de voláteis, piscicultura — sabemos hoje com toda a certeza que conheciam todas essas coisas —, não fosse capaz de ascender ao último degrau desta escada lógica: à puericultura. Nunca eles conseguiram atingir a conclusão lógica: as nossas Normas Maternas e Paternas.

É tão ridículo, tão incrível, que, depois de ter escrito o que acima escrevi, me sinto apreensivo: e se os meus leitores desconhecidos me tomassem por um brincalhão?

E se de repente ficassem com a ideia de que me divirto cruelmente à custa dos meus leitores, contando- -Ilhes com ar grave uma série de balelas? Antes de tudo, eu não sei gracejar, porque todo o gracejo disfarça certa falsidade e, por outro lado, a Ciência do Estado Único afirma que a vida dos antigos era precisamente como eu acabei de descrever… E a Ciência do Estado Único é infalível. E, além disso, como se poderia falar de lógica governamental num tempo em que as pessoas viviam no estado de liberdade, isto é, como brutos, como macacos, como gado? Que mais se poderia exigir deles se até hoje em dia é frequente ouvir-se o guincho simiesco, vindo das profundezas, de um sítio inatingível? Felizmente, é só de vez em quando. E, para nossa felicidade, a falha dá-se em casos sem importância; são fáceis de remediar, sem necessidade de se interromper o progresso de toda a Máquina. E, para se substituir a corda avariada, temos a mão hábil e poderosa do Benfeitor, temos os olhos experientes dos Guardas.

Lembro-me agora, a propósito, de uma coisa: aquele número masculino, com a forma de dupla curva, a fazer lembrar a letra S…, acho que o vi sair do Posto dos Guardas. Percebo agora porque senti por ele um respeito instintivo e porque senti algum embaraço quando aquela estranha E-330, na presença dele… Confesso que aquele número feminino…

Acaba de tocar a campainha; hora de ir para a cama: 22.30. Amanha continuarei.

 

Quarta Entrada

O SELVAGEM E O BARÔMETRO | EPILEPSIA | SE AO MENOS…

Até aqui, tudo me parecia claro (não será por mero acaso que olho com alguma parcialidade para a palavra claro).

Hoje, porém… Não compreendo. Para começar, fui de fato convocado para o Auditório 112, tal qual como ela tinha dito. Embora a probabilidade de tal acontecer fosse 1 500 = 3 10 000 000 20 000 – Representando 1500 os auditórios e sendo nós, números, 10 000 000. Em segundo lugar… Mas é melhor proceder por ordem.

O auditório: um meio-globo imenso de vidro compacto atravessado pelo sol. Filas circulares de cabeças nobres, esféricas, muito próximas umas das outras. Com o coração a bater apressado, olhei em volta. Creio que já então esperava vir a descobrir entre as vagas azuis dos uniformes um brilhante e róseo crescente: os lábios queridos de 0-90. Ai… O que vi foram uns dentes brancos e afiados, que mais pareciam… Mas não, não eram. Esta noite, às 21.00, 0-devia ter ido jantar. Era perfeitamente natural o meu desejo de vê-la.

Tocou então a campainha. Levantamo-nos, cantamos o Hino do Estado Único; no estrado apareceu o nosso fonoleitor, irradiando inteligência, junto de um alto-falante de ouro.

«Estimados números, os arqueologistas descobriram um livro do século XX”. Um autor irónico conta nele à história do selvagem e do barômetro. Um selvagem tinha notado que, sempre que o barômetro indicava chuva, chovia mesmo. E, tendo-se convencido de que isso trazia a chuva, agitava o barômetro para conseguir que o barômetro indicasse chuva. (A tela mostrou um selvagem emplumado, abanando o barômetro. Risos.) Estão todos rindo… mas o mais espantoso é que o europeu dessa época dá muito mais vontade de rir. Acreditam? O europeu queria chuva, tal como o selvagem, o europeu queria chuva com um C maiúsculo, uma chuva algébrica, mas quedava-se na frente do barômetro, como uma galinha choca. O selvagem acabava por ser muito mais ousado, enérgico e lógico se bem que a sua lógica fosse bárbara. Era capaz de perceber que havia uma relação entre a causa e o efeito; agitando o mercúrio, dava o primeiro passo no caminho ao longo do qual…».

Nesse momento (escrevo sem quaisquer rebuços, repito), nesse momento, fiquei por algum tempo impermeável às vivificantes correntes que manavam do alto-falante. Tive a súbita impressão de que tinha sido inútil a minha vinda (inútil por que, se eu nada mais podia fazer do que comparecer, uma vez que tinha sido intimado a fazê-lo?!); tudo se me afigurava vazio como uma concha. Tornou sê-me difícil concentrar-me na altura em que o fonoleitor atacou o tema central: o da nossa música, da composição matemática da nossa música (a matemática era a causa, a música era o efeito), tendo passado à descrição do musicómetro recentemente inventado.

«Bastará rodar este registo para qualquer um de nós produzirmos pelo menos três sonatas numa hora”. Comparem esta facilidade com as dificuldades que os nossos antepassados experimentavam para obterem o mesmo resultado. Só conseguiam criar mergulhando no estado de inspiração — uma forma desconhecida de epilepsia. E vão agora ouvir uma divertida demonstração daquilo que eles conseguiam obter: um trecho musical de Scriabine, um compositor do século XX. Esta caixa preta (abriu-se ao fundo do estrado uma cortina, pondo à mostra o mais antigo instrumento tocado pelos antepassados), esta caixa era designada pelo nome de Royal Grand, o que mostra a sua natureza régia, mais uma prova do grau atingido pela música deles…».

Aqui, não me lembro do resto, provavelmente por que…

Falarei sem circunlóquios: E-330 aproximou-se do Royal Grand. E eu devo ter ficado emocionado com uma aparição tão inesperada.

Vestia a fantástica indumentária duma qualquer época passada: evolvia-lhe o corpo um fato negro que lhe fazia sobressair à brancura dos ombros nus, do colo quente que a respiração fazia levantar e baixar… E dos dentes…

Os dentes de uma brancura ofuscante…

Um sorriso ofereceu-nos um sorriso, autêntico… Sentou-se; começou a tocar. Música bárbara, espasmódica, mesclada, como a vida desses tempos… Sem sombras de mecânica racional. Tinha razão todos os que à minha volta se riam… Mas havia alguns que… E porque é que eu me incluía no número destes?

Sim, a epilepsia é uma doença psíquica, uma dor psíquica.

Uma dor lenta, deleitosa, uma mordida… Que penetra cada vez mais fundo, que dói cada vez mais! E então, lentamente, o sol. Não o nosso sol, não o sol azul e cristalino, sempre igual, coado através dos telhados de vidro. Não, um sol selvagem, destruidor, que tudo seca, que tudo desfaz que tudo reduz a pequenas partículas…

O número sentado à minha esquerda observou-me pelo canto do olho e soltou uma risada de escárnio. Na minha memória, por não sei que razão, ficou um pormenor: vi-lhe aparecer e rebentar nos beiços uma bolha de saliva microscópica. Esta bolha fez com que eu voltasse a mim, tornasse a ser eu mesmo. Tal como os outros, o que agora ouvia era o ruído incongruente e frívolo das cordas percutidas. Pus-me a rir. Tudo tornava a ser fácil e simples. O talentoso fonoleitor fez uma descrição vivíssima daquela época e. Foi tudo.

Que grande prazer o meu ao escutar depois a nossa música contemporânea! (Foi executada no final da palestra, para mostrar bem o contraste.) Ele eram as escalas cromáticas cristalinas que convergiam e divergiam em séries intermináveis… Os acordes breves das fórmulas de Taylor, de McLaren; as passagens sonoras, quadradas, do teorema de Pitágoras; as pensativas melodias de um movimento moribundamente oscilatório; os ritmos vivos que alternavam com as pausas das linhas de Frauenhofer… A análise espectral dos planetas… Quanta grandeza! Que regularidade inflexível! Que limitada era a música dos antigos, sem mais restrições do que as de uma fantasia bárbara…

Todos os números saíram do auditório, em filas de quatro, como habitualmente. Passou por mim uma figura em forma de S; fiz-lhe uma vênia respeitosa.

A adorável 0-chegaria daí à uma hora. Sentia-me excitado. Ao chegar a casa, corri para o gabinete da vigilante, mostrei o bilhete cor-de-rosa e recebi um certificado que me conferia o Direito às Persianas. Só temos esse direito nos Dias Sexuais.

Normalmente, vivemos cada instante à vista de todos, sempre banhados em luz e cercados de paredes de vidro que parecem feitas de ar refulgente. Nada temos a esconder uns dos outros. Esta forma de viver, assim às claras, facilita a difícil e nobre missão dos guardas. Se assim não fosse, sabe-se lá o que podia acontecer. É muito possível que as habitações opacas dos antigos estejam na origem da sua triste psicologia celular. «A minha (sic) casa é a minha fortaleza»… De fato, eles puxavam muito pelo miolo!

Às 22 horas baixei as persianas e, nesse exato momento, chegou 0-, esbaforida. Estendeu-me a boca rósea e o bilhete da mesma cor. Rasguei o talão do bilhete, mas da sua boca rósea só me retirei no momento derradeiro —ás 22.15.

Mostrei-lhe depois estas «entradas» e falei (pelos vistos, muito bem) sobre a beleza do quadrado, do cubo, da linha reta. Ela escutava com ar róseo, encantador, e foi aí que uma lágrima, e outra, e uma terceira deslizaram dos seus olhos azuis, indo cair na página aberta (a página 7). A tinta esborratou e vou ter de passar tudo a limpo.

— Querido D -, se ao menos você… Se ao menos…

Ora… Se ao menos o quê? Se ao menos o quê? Será que ela vai voltar à lengalenga antiga, vai querer ter um bebê? Ou será alguma coisa nova… A respeito de outro homem? Muito embora, se assim fosse, tenho a impressão de que… Não, seria demasiado absurdo.

 

Quinta Entrada

O QUADRADO | SOBERANO DO UNIVERSO | UMA FUNÇÃO AGRADÁVEL E ÚTIL

Mais uma vez tenho a impressão de que não arranco como deve ser. Mais uma vez, leitor desconhecido, falo contigo como se… Digamos como se fosses R-13, um velho amigo meu. Trata-se de um poeta, de lábios grossos, negroides… Toda a gente o conhece. Mas, pensando melhor, vejamos, tu podes estar na Lua, em Vénus, em Marte, em Mercúrio; sabe-se lá quem és e onde estás.

Como direi? Imagina um quadrado, uma figura quadrangular, um equilátero, vivo, belo. Ele informa-te a seu respeito, fala-te da sua existência. Compreenderás que a última coisa que passaria pela sua mente de quadrilátero seria dizer-te que todos os seus ângulos são iguais: ele já nem sequer sabe disso, para ele é um fato normal, uma coisa de todos os dias. Ora é nessa posição quadrangular que eu me vejo constantemente. Tomemos agora, por exemplo, estes bilhetes cor-de-rosa e tudo acabam por bater certo; eles estão para mim como a igualdade dos ângulos está para o quadrado, ao passo que para ti podem ser uma coisa tão dura de roer como o binômio de Newton.

Muito bem. Alguns sábios antigos disseram uma coisa inteligente (por mero acaso, diga-se de passagem); « Amor e a Fome é o que comandam o universo». Logo, para dominar o universo, o homem terá que dominar esses dominadores do universo. Pagando um preço elevadíssimo, os nossos antepassados triunfaram sobre a Fome: refiro-me à Grande Guerra dos Duzentos Anos entre a cidade e a aldeia. Os cristãos selvagens, devido certamente a preconceitos religiosos, defendiam com afinco o seu pão. Mas no trigésimo quinto ano antes da fundação do Estado Único, foi descoberta a comida que hoje consumimos um derivado da nafta. Só 0,2 da população sobreviveram; mas, limpa da imundície milenar, a face da terra ficou muito mais esplendorosa!

Os sobreviventes puderam conhecer a bem-aventurança de viver nas inúmeras mansões do Estado Único.

Não será claro que a bonança e a inveja são tão-somente o numerador e o denominador dessa fração a que se chama felicidade? Que significado terá, pois os incontáveis sacrifícios da Guerra dos Duzentos Anos se, apesar de tudo, continuasse a haver razões para a inveja?

Mas continua a haver algumas, até porque continua a haver narizes em forma de botão e narizes clássicos (para voltarmos ao tema da nossa recente conversa durante o Passeio Suplementar), porque há alguns que proporcionam muitas conquistas amorosas e outras nenhumas.
Naturalmente, depois de ter dominado a Fome (uma vitória que foi o sinal algébrico = da soma das venturas externas), o Estado Único levou a cabo uma ofensiva contra o outro dominador do Universo, ou seja, o Amor.

Este elemento acabou por ser derrotado, isto é, foi organizado, matematizado, e, cerca de trezentos anos depois, seria proclamada a nossa «Lex Sexualis»: «Qualquer número tem o direito de utilizar qualquer outro número como produto sexual».

O resto já é um problema meramente técnico. Cada caso é objeto de investigação aturada nos laboratórios do Gabinete Sexual; determina-se com a maior exatidão a soma de hormônios sexuais e estabelece-se para cada um uma Tábua dos Dias Sexuais. Posto isto, faz-se um requerimento onde se declaram os Dias Sexuais em que se quer utilizar este número ou aquele ou aquele outro ou aqueles outros, recebe-se o respectivo livro de cupons (que é cor-de-rosa) e pronto, não é preciso mais nada.

Claro está que deixa de haver quaisquer fundamentos para o ciúme; o denominador da fração de felicidade fica reduzido à zero, o que faz com que a fração se converta em magnífico infinito. O que para os antigos constituía uma fonte de incontáveis e estúpidas tragédias converteu-se para nós numa função harmoniosa, aprazivelmente útil, o mesmo acontecendo também com o sono, o trabalho físico, a ingestão de comida, a defecação, etc. Por aqui se vê como a grande força da lógica limpa tudo aquilo em que toca. Ah se tu, leitor desconhecido, lograsses conhecer esta força divina, se a seguisses até ao fim!

…Estranho! Hoje, enquanto escrevia sobre os altíssimos cumes atingidos pelo género humano ao longo da história e respirava o mais puro ar das montanhas do pensamento, tudo dentro de mim se nublou, se cobriu de teias de aranha, foi atravessado pelos braços cruzados de outro X. Pode muito bem ser uma imagem das minhas patas, das minhas mãos peludas que pus diante dos olhos durante bastante tempo. Não gosto de falar delas, não morro de amores por elas, é um vestígio das épocas selvagens. Será possível que dentro de mim haja…

Estive para riscar tudo isto, está fora do âmbito desta entrada, mas, pensando melhor, decidi não riscar nada.

Deixarei que estas entradas, qual sismógrafo rigoroso, desenhem a curva das mais insignificantes oscilações cerebrais… Por vezes, de fato, estas oscilações cerebrais são precursoras de…

Esta frase é que é mesmo absurda, era melhor riscá-la…

Canalizamos todas as forças do universo para os respectivos tubos e está posta de lado toda e qualquer catástrofe.

Para mim tudo é neste momento perfeitamente claro: a estranha sensação que me domina deve- se à situação quadrangular em que me encontro e de que falei no princípio. E o X não está dentro de mim (também isso está fora de questão); o que eu tenho é receio de que nos meus leitores haja qualquer X. Espero que não me julguem muito severamente. Compreendam que escrever, para mim, é mais difícil do que foi para qualquer outro autor de toda a história do gênero humano. Há autores que escrevem para os seus contemporâneos, outros para os seus descendentes, não houve nenhum que escrevesse para os antepassados… Ou para seres semelhantes aos seus bárbaros e remotos antepassados.

 

Sexta Entrada

UM ACIDENTE | ESSE MALDITO «É EVIDENTE» | VINTE E QUATRO HORAS

Repito que considero ser meu dever escrever sem reservas ou segredos. Por isso, doa a quem doer, tem que referir neste momento o tato de o processo de endurecimento, de cristalização da vida não ter ainda terminado. Continua a haver alguns degraus até se alcançar o ideal. O ideal, claro está, vai ser quando não acontecer mais nada, mas o fato é que entre nós…

Considere-se, por exemplo, o seguinte: leio na Gazeta do Estado Único do dia de hoje que dentro de dois dias será celebrada a Festa da Justiça na Praça do Cubo. Significa isto que, mais uma vez, houve números que perturbaram o funcionamento da grande Máquina do Estado, que tornou a acontecer o imprevisto, o não calculado!

Além disso, aconteceu-me, a mim, outra coisa. Foi durante a Hora Pessoal — ou seja, um período especificamente estabelecido a pensar em circunstâncias imprevistas —, mas, mesmo assim…

Por volta das 16 (ou das 15.50, para ser mais exato), estava eu em casa quando o telefone, de repente, se pôs a tocar.

— D-503? — perguntou uma voz de mulher.

— Sim.

— Está livre?

— Estou.

— Sou eu, E-330. Vou buscá-lo aí e vamos os dois à Casa da Antiguidade. Está bem?

E-330… Este E-feminino irrita-me, repugna-me, para não dizer que me assusta. Mas exatamente por isso é que lhe respondi: «Sim».

Passados cinco minutos estávamos já no aero: o céu de Maio era azul vivo e o sol calmo, no seu próprio aero de ouro, zumbia no nosso rasto, sem nunca se adiantar ou atrasar em relação a nós. Acima de nós erguia-se uma nuvem branca, ofuscante, uma nuvem incongruente, gorda como as bochechas desses Cupidos antigos, o que não deixava de ser perturbador. Tínhamos aberto os para-brisas, o vento açoitava-nos a cara e secava-nos os lábios, obrigando-me a passar constantemente a língua sobre eles e a pensar neles o todo o instante.

À distância, notamos uma série de manchas esverdeadas, do lado de lá do Muro; involuntariamente, sentimos o coração fraquejar; começávamos a descer, a descer, a descer, como quem desliza por um declive montanhoso, e daí a pouco aterrávamos junto à Casa da Antiguidade.

Todo este edifício magnificente, frágil, ofuscante, era revestido por uma concha de vidro; se não fosse isso, há muito que teria ruído, com certeza. Junto à porta de vidro está sempre uma velha de cara enrugada, especialmente a boca, toda cheia de gretas, com os lábios metidos para dentro, atrofiados, não se crendo ao vê-la que tal boca fosse capaz de falar… Mas foi isso o que ela fez:

— Então, queridos? Vieram visitar a minha casinha? —disse, com um brilho a iluminar lhe as rugas (melhor dizendo, as rugas uniram-se todas elas, dando a impressão de uma coisa brilhante).

— Nem mais, avó, senti vontade de tornar a visitá-la — disse-lhe a E-330.

— As rugas voltaram a brilhar: — Já viram este sol, hein? E então, o que é que temos desta vez? Ai, a marota… A marota… Eu sei, eu sei… Vá lá… Podem ir que eu fico melhor aqui ao sol…

A minha acompanhante, pelos visto, fazia-lhe visitas frequentes… Havia qualquer coisa que me repelia dali, mas havia também alguma coisa que me impedia de fugir: era, provavelmente, a imagem persistente daquela nuvem que pairava no azul do céu.

— Gosto dela… Gosto da velhota — disse a E-330, enquanto subíamos a escada larga, às escuras.

— Por quê?

— Isso não sei. Por causa da boca, possivelmente. Talvez por nada em especial. Gosto, só isso. Encolhi os ombros.

— Sinto-me apanhada em flagrante — continuou, com um sorriso quase imperceptível, talvez mesmo sem sorrir.

— É evidente que não se deveria gostar assim, deveria ter-se uma razão. Todas as forças elementares deveriam ser…

— É evidente — atalhei eu, mas acabei por tomar consciência daquela palavra «evidente» e olhei furtivamente para E-330: teria ela se dado conta?

Ela olhava para baixo. Cerrara as pálpebras, como se fossem persianas. Recordei-me logo de uma coisa.

Naquela noite, por volta das 22.30, durante o passeio pela avenida, podiam ver-se, entre os cubículos transparentes e iluminados, alguns outros às escuras, com as persianas corridas e lá atrás das persianas… Que haveria por trás das persianas dela? Porque me terá ela telefonado hoje, o que haverá por trás de tudo isto?

Abri uma porta pesada, opaca, que rangia, e encontramo-nos num compartimento escuro, desarrumado (a que chamam aposentos). Ou via-se aquela música do instrumento Royal e as cores e formas de tudo o que se via eram bárbaras tanto quanto a música bárbara, desordenada, louca, daquelas eras remotas. O assoalho era branco, as paredes eram azuis, forradas de livros com encadernações vermelhas, verdes e cor-de-laranja; de bronze amarelo eram os candelabros e uma estatueta de Buda; quanto aos móveis, tinham linhas distorcidas, epilépticas e tudo aquilo era impossível de ser resolvido por qualquer equação.

Custava-me a suportar este caos, mas a minha acompanhante, pelos visto, era de constituição mais robusta.

— Acho este muito agradável — disse ela.

Mas acabou por se arrepender do que disse e mostrou-me um sorriso que era uma coisa, pondo à mostra os dentes brancos e afiados.

— Mais exatamente, é de todos os aposentos, o mais incongruente — corrigiu.

— Mais exatamente ainda, é o mais incongruente de todos os estados deles — eu a corrigi. — Nesse tempo os estados microscópicos eram aos milhares, sempre em guerra, cruéis como…

— Sim, sim, é evidente — disse E-330, aparentando a maior sinceridade.

Passamos por uma divisão onde havia camas de crianças (naquela época as crianças eram também propriedade privada). Vinham depois outros quartos com espelhos refulgentes, guarda- fatos enormes, divãs de cores berrantes e insuportáveis, uma lareira enorme, uma cama grande de mogno. O nosso vidro moderno — esplêndido, transparente, eterno — só aparecia ali sob a forma de tristes, frágeis e minúsculas janelas.

— E pensar que eles aqui se amavam assim, que se consumiam e se torturavam uns aos outros – disse ela, voltando a baixar as gelosias dos olhos. — Quanta energia humana desperdiçada de forma insensata e extravagante, não é verdade?

De certo modo, era eu que estava a falar pela boca dela, lia-me no pensamento. O sorriso, porém, era atravessado por aquele X irritante. Lá dentro, atrás das persianas, acontecia não sei dizer o quê; fosse o que fosse, estava farto; queria contrariá-la, gritar com ela (precisamente berrar com ela), mas via-me forçado a concordar com tudo o que ela dizia: era impossível não concordar.

A certa altura parámos diante de um espelho. Nesse momento chamaram-me a atenção os olhos dela.

Assaltou-me a ideia de que os homens têm uma constituição tão primitiva e desordenada como a dos aposentos em que vivem: têm cabeças opacas e a única coisa transparente, as janelas abertas para o interior, isso os olhos. Ela adivinhou a minha ideia, ao que parece, e voltou-se, como que a dizer: «Pronto, aí tem os meus olhos”. E agora?» (Tudo isto, claro está, sem sequer abrir a boca.).

Tinham na minha frente duas janelas cerradas, com uma vida desconhecida e estranha no interior. A única coisa que eu vi era uma fogueira — ela própria era uma lareira acesa — e algumas figuras parecidas com…

Isto era natural, por certo: via-me eu próprio refletido naqueles olhos. Só não era natural nem habitual em mim (devia ser por causa do cenário opressivo que nos rodeava) o fato de sentir receio, de me sentir prisioneiro, metido numa jaula bárbara, apanhado por aquele temível furacão da vida de antigamente.

— Vá lá — disse E-330. — Passe um momento para a sala ao lado.

A voz vinha de dentro dela, detrás da janela obscura dos seus olhos, onde a fogueira estava a arder.

Saí, sentei-me. Numa prateleira fixa na parede via-se o busto assimétrico dum poeta de antigamente (Pushkin, creio), de nariz torto, com um sorriso quase imperceptível. Porque estava eu ali sentado a aturar humildemente aquele sorriso, que estava eu a fazer ali, o que me fazia estar ali, numa situação tão absurda?

Aquela mulher irritante, repelente, o jogo inacreditável em que ela me tinha metido…

Ouvi, no quarto do lado, o ruído da porta do guarda-fato e um roçagar de sedas. Só muito a custo me impedi de ir até lá para… Não me recordo bem, mas, provavelmente, o que eu queria era dizer-lhe uma série de coisas que ela precisava ouvir. Mas não tardou que ela entrasse. Trazia um chapéu preto na cabeça, um vestido amarelo-vivo, curto, antiquado, e as meias eram igualmente pretas. O vestido era de seda fina. Vi claramente que as meias eram altas, muito por cima dos joelhos; quanto ao decote do vestido, era fundo, deixando ver aquela sombra que fica entre os…

— Vejo que quer mostrar-se original, mas não seria possível…

— É claro — atalhou E-330 — que ser original significa ser diferente dos outros. Por consequência, ser original é o mesmo que violar a uniformidade. E aquilo que na linguagem idiota dos antigos passava por ser banal significa hoje para nós o cumprimento dum dever. Até por que…

— Isso mesmo, isso mesmo, nem mais — observei eu sem perda de tempo. — E você não devia… Não devia…

Aproximou-se da estatueta do poeta do nariz torto e, cerrando as pálpebras sobre o fogo ardente dos olhos profundos, com aparente sinceridade, talvez para me acalmar, disse estas palavras sensatas: — Não lhe parece espantoso que as pessoas, noutros tempos, tolerassem tipos como este? E que, além de os tolerarem, também lhes prestassem culto? Que espírito servil o deles, não acha?

— É evidente… Ou seja, o que eu queria dizer é…

Maldita expressão, aquela «é evidente».

— Sim, sim, eu entendo. Mas, lá no fundo, eram mais poderosos do que as cabeças coroadas daquele tempo. Porque não eram eles isolados, exterminados? Se fosse agora…

— Se fosse agora, sim — continuei eu, mas logo ela desatou a rir e eu nada mais pude ver do que aquele riso, a curva cortante e dúctil daquele riso, uma curva tão obstinadamente elástica como a de um chicote.

Senti um arrepio que não mais esqueci. Ah, se eu pudesse passar a mão nela e… Não me lembro do que depois aconteceu. Era preciso fazer alguma coisa, fosse o que fosse. Abri, mecanicamente, a caixa dourada do relógio e vi as horas: eram 16.50.

— Não acha que são horas de nós irmos embora? — me desfiz com toda a delicadeza que me foi possível.

— E se eu lhe pedisse que ficasse aqui comigo?

— Mas… Pensou bem no que acaba de dizer? Eu sou obrigado a comparecer no auditório dentro de dez minutos…

— Todos os números têm obrigação de ir às aulas de arte e ciência — disse E-330 com uma voz que era exatamente a minha voz, ao mesmo tempo em que erguia as persianas das pálpebras e me olhava nos olhos: fitei-a e vi através daquelas janelas obscuras a lareira acesa. — No Departamento Clínico, conheço um médico registrado no meu nome. Posso pedir-lhe que passe um atestado a dizer que está doente. Acha que basta isso?

Compreendi. Compreendi finalmente aonde me levava todo este jogo.

— Então é isso? Sabe perfeitamente que, como todos os números conscienciosos, sou obrigado a ir imediatamente ao Posto dos Guardas e…

— Vai mesmo…? — retorquiu com o mesmo sorriso-lascivo. — Estou curiosa por ver isso… Vai ou não vai ao Posto dos Guardas?

— Prefere ficar aqui? — perguntei, agarrando no puxador da porta.

Era um puxador de metal e, aos meus ouvidos, a minha voz era dura e metálica como o puxador.

— Um momento. Dá-me licença?

Foi até ao telefone, ligou para um número qualquer (era tal a minha agitação que nem me ocorreu tomar nota, mas era masculino) e disse bem alto: — Espero por ti na Casa da Antiguidade. Sim, sozinha!

Senti toda a frieza do puxador quando o fiz rodar, dizendo:

— Permite que eu pegue o aerocarro?

— Ah, sim, naturalmente, por favor.

Lá fora, como uma planta ao sol, a velha estava entretida com os seus devaneios. A boca, fechada aparentemente para todo o sempre, escancarou-se: — Então a sua… Dama? Ficou lá dentro sozinha?

— Ficou.

Tornou a fechar a boca. Abanou a cabeça. Era evidente que até aquele cérebro débil compreendia quanto era absurdo e arriscado o comportamento daquela mulher.

Às 17 em ponto eu já estava na aula. E nesse momento preciso, não sei por que, ocorreu-me que não era bem verdade o que tinha dito à velha: E-330, a estas horas, já não estava sozinha. E devia ser isso — o fato de não ter dito a verdade à velha — que me afligia, me distraía a atenção. Não, ela não estava sozinha, a verdade era essa.

As 21.30 tinha outra hora livre; poderia ter ido ao Posto dos Guardas nesse mesmo dia e apresentar o meu relatório. Mas, depois do estúpido incidente, sentia-me exausto. Além disso, o limite legal para tais relatórios era de dois dias. Dispunha ainda de vinte e quatro horas.

 

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