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Nossa democracia está seriamente ameaçada: é hora de ligar o alerta vermelho

Como é possível que as pessoas ainda não tenham entendido? A democracia no Brasil está seriamente ameaçada. Por um lado por Bolsonaro e seus generais, que querem governar acima do parlamento. Por outro lado pelo lulopetismo que quer voltar ao governo para se vingar dos “golpistas” e retomar sua estratégia de conquista de hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido.

Como tudo isso começou? Ora, um abismo puxa outro abismo. A ascensão do neopopulismo lulopetista com sua corrupção sistêmica (com propósitos de poder, ou seja, como disse o saudoso Ferreira Gullar, com o fito de fazer “a revolução pela corrupção”) suscitou o jacobinismo, a política (ou antipolítica moralista) da terra arrasada e, na sequência, a ascensão do populismo-autoritário bolsonarista. Se juntássemos todos os mega malfeitores para bolar um plano maligno contra a democracia brasileira, eles não conseguiriam fazer melhor (quer dizer, pior).

Se nos dissessem, há alguns anos, que o país iria passar por tal grau de retrocesso democrático, nós não acreditariamos. Hoje o petismo e o bolsonarismo estão degradando a nossa democracia. E o pior é que essa regressão está ocorrendo na base da sociedade, não apenas no Estado.

O BOLIVARIANISMO (À BRASILEIRA) QUE VEM JUNTO COM O LULOPETISMO

A democracia brasileira não está enfrentando um PT reciclado, adaptado aos novos tempos pós-impeachment. Não! Ela está enfrentando o mesmo e velho lulopetismo que foi derrotado nas ruas, no parlamento, nos tribunais e nas urnas de 2016. E que se recuperou, em parte, graças à instrumentalização política da operação Lava Jato, que é boa em si – mas não poderia ter sido usada e abusada pelo lavajatismo militante. É como se a maioria pobre da população dissesse: “já que todos são corruptos, fiquemos com Lula que, pelo menos, está do lado dos pobres”. Lula está condenado em duas instâncias e preso: não pode concorrer às eleições. Mas o lulopetismo está solto. Deu no mesmo, ou quase.

Quem ler com atenção o Plano Lula 2018 – que é o programa de governo de Haddad – verá que o PT não esconde o que pretende fazer. Todos os elementos da estratégia lulopetista de desferir um golpe de Estado em doses homeopáticas, estão presentes lá. É o bolivarianismo – embora à brasileira – que vem junto com o lulopetismo. E tanto é assim que eles continuam apoiando os ditadores Raul Castro, de Cuba, Nicolás Maduro, da Venezuela e Daniel Ortega, da Nicarágua. Não há como esconder. E eles, como foi dito, nem se preocupam em esconder.

Do outro lado do espectro, ainda dentro do campo autocrático, Bolsonaro – embora tente disfarçar ao adotar um frufru liberal em termos econômicos – também não consegue esconder o que realmente pretende.

O LIXO QUE VEM JUNTO COM BOLSONARO

“Essa é a minha visão, a minha opinião. Uma Constituição não precisa ser feita por eleitos pelo povo.”

Essa besteira antidemocrática foi proferida pelo General Mourão, vice do capitão Bolsonaro na semana passada. Aprovar leis sem povo só acontece em ditaduras. Os que pretendem votar em Bolsonaro devem ver bem o que estão fazendo.

Não é só Haddad que é cavalo de Lula. Bolsonaro também é cavalo (de Troia) de todo tipo de celerados: militaristas-intervencionistas, autocratas-conspiracionistas, monarquistas-tradicionalistas, hierarcas-religiosos com mentalidade medieval, pastores evangélicos vigaristas, liberais-econômicos chegados a um regime autoritário (que querem governar a economia como se fossem czares), enfim, todo o rebotalho antidemocrático, todo esse lixo, vai vir junto no pacote.

Se Bolsonaro for eleito, será aberta uma portinha no ventre do cavalo e todos esses malucos sairão para barbarizar por aí: querendo dar um passa-moleque no parlamento, aprovando leis (e até uma Constituição) sem os representantes eleitos, convocando plebiscitos e referendos para aprovar propostas que restrinjam as liberdades ou estimulem a instalação de uma guerra civil fria no país, como o armamentismo popular: política absurda de segurança (o que é diferente do direito de qualquer pessoa de ter uma arma: o que é correto).

Muitas pessoas não se deram conta do que estão prestes a fazer sob o pretexto de combater a esquerda. Todos os ditadores de direita assumiram o poder prometendo combater a esquerda. Mas instalaram regimes repressivos, cruéis e desumanos. Não perceberam que a esquerda autocrática só pode ser combatida e vencida pela democracia, não por outra autocracia.

PODEM SE ALARMAR

Quem tem alguma noção de democracia e assistiu o último Globo News Painel, com Renata Lo Prete que foi ao ar no sábado (15/09/2018), deve ter ficado pasmo com a cara de pau do general Rocha Paiva, um dos convidados do programa. Confiram tudo aqui. Depois, ele reiterou as mesmas colocações neste vídeo.

Ele – o tal general de brigada Rocha Paiva – hoje na reserva, o que não muda nada em termos de representação do pensamento militar – defendeu abertamente as posições da chapa Bolsonaro-Mourão, defendeu obliquamente o torturador Ustra com base na falsificação de que houve uma guerra civil no Brasil no período 1967-1977 (o argumento implícito é que na guerra vale-tudo), reafirmou que a Constituinte deve ser feita por um conjunto de notáveis sob a alegação de que os representantes diretos do povo, a classe política parlamentar que temos (que ainda nem foi eleita) não tem condições de elaborar um projeto sério de Constituição, enfim… para bom entendedor, defendeu a volta de um regime autoritário dizendo que este é o papel das forças armadas diante da anomia dos poderes (ou seja, defendeu o auto-golpe pregado por Mourão dias atrás). Pior, deixou mais ou menos claro que esse é o pensamento das forças armadas.

Podem se alarmar porque a situação é de fato alarmante. Se Bolsonaro for eleito não são pequenas as chances de caminharmos em marcha batida de volta à ditadura. Não somos nós, os democratas, que estamos dizendo. Basta analisar o que dizem os generais Mourão (seu vice), o general Heleno, o general Bini, o general Rocha Paiva e dezenas de outros.

Analisemos com mais profundidade o que está acontecendo.

CÁPSULAS DO PASSADO

A sociedade está dividida. Não apenas aquela que chamávamos de “sociedade política” (um conceito que não subsiste diante do novo conceito de ‘social’ surgido com a nova ciência das redes). O campo constituído por miríades de emaranhados, que se fazem e desfazem ao sabor do fluxo interativo da convivência social, está perturbado a ponto de prorrogar certas clivagens que não deveriam, em condições “normais” (se se pode falar assim), durar o suficiente para vincá-lo tão profundamente.

Como na guerra fria, blocos com pouca mobilidade se estabelecem e instauram uma polarização estiolante, não apenas no terreno político e sim na base da sociedade (antes dita ‘civil’) e no cotidiano dos cidadãos.

Para além da esfera da política, polarizada hoje por dois populismos – o neopopulismo lulopetista e o populismo-autoritário bolsonarista -, as diversas formas estáveis, formais ou informais, de sociabilidade (as famílias, os grupos de amigos, as igrejas, as corporações, as organizações sociais, empresariais e estatais etc.) também foram pervadidas ou atravessadas por essa divisão, que se manifesta por meio de preferências contraditórias e excludentes entre modos de vida, valores, crenças, visões do passado e do futuro.

Ou seja, a sociedade não está dividida apenas em relação a preferências políticas e sim culturalmente – e, portanto, socialmente – dividida. Não é, contudo, a mesma divisão político-eleitoral entre dois estatismos (um populismo que se diz de esquerda x outro populismo que se diz de direita) e sim uma divisão mais profunda, como uma falha “geológica”, sulcada mais em baixo. Por essa fratura no subsolo da consciência (ou inconsciência) social, o lodo depositado, camada sobre camada, da cultura patriarcal, pode emergir sem ser espancado pela modernidade (protegido da interação em ‘cápsulas do passado’, como ocorre nos fundamentalismos).

Mas as capsulas se quebraram. Mal-comparando, o que está ocorrendo no cosmos social é uma espécie de quebradura dos vasos (cheviroh), para evocar a noção de TzimTzum da kabbalah luriânica.

Padrões de pensamento e comportamento míticos, sacerdotais, hierárquicos e autocráticos – baseados em ideias de ordem, centralização, controle, disciplina, obediência e fidelidade, culto do herói, exaltação do patriotismo, expectação por um salvador, crença num deus que intervem na história e capaz de validar e tornar legítimas algumas opiniões em detrimento de outras – todos avessos à liberdade e à democracia, saíram de seus invólucros privados e estão inundando a esfera pública (não apenas estatal, mas social). Para um democrata é como se as portas do inferno tivessem sido abertas ou como se legiões de zumbis tivessem, de repente, levantado de suas tumbas.

Repetindo. A divisão de que falamos não está apenas nos palácios, nos parlamentos e nas demais instituições ditas públicas, da política. Ela está nas farmácias, nos consultórios médicos, nas lojas comerciais, nos escritórios de advocacia, nos pontos de taxi, nas academias de ginástica e de artes marciais, nos clubes recreativos, em todo lugar. Apavorem-se, porque é de apavorar.

Não se trata apenas de delírios de generais de pijama. A entrevista do comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, colocando em dúvida a legitimidade do presidente a ser eleito (não importa quem) é inaceitável em uma democracia. Se ele está fazendo isso para segurar seus radicais, pior ainda. Não deveria tê-lo feito publicamente. E revela que se cogita, na caserna, de intervenção militar: um ataque frontal ao Estado democrático de direito. Isso não acontece desde a falência da ditadura militar.

Boa parte da oficialidade das FFAA, assim como das polícias federal, militar e civil, estão infectadas pelo bolsonarismo. Regredimos meio século (a contar do AI-5)?

É gravíssimo. Como sempre, o tal mercado e as elites políticas, não se deram conta do perigo. Estão como aquelas vaporosas damas parisienses que fugiram para Bordeaux quando Hitler invadiu Paris em 1940. Bebendo champanhe no saguão do hotel Splendid, comentavam entre si: “Oh! O Führer não pode ser tão ruim assim, logo estabeleceremos um amigável diálogo com ele”.

CONCLUINDO

A natureza da candidatura do PT é antidemocrática. A natureza da candidatura Bolsonaro-Mourão é antidemocrática. Se são essas as forças que vão se enfrentar, não há dúvida: a nossa democracia está ameaçada e corre perigo. É hora de ligar o alerta vermelho.


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