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O ataque a Jair Bolsonaro e a sua instrumentalização política

No momento em que fiquei sabendo do lamentável episódio do ataque à faca ao candidato Jair Bolsonaro, escrevi no Facebook:

Deram uma facada em Bolsonaro há pouco em Juiz de Fora. Quem fez isso deve ser preso, processado, julgado e punido. É assim que funciona no Estado democrático de direito. Isso não transforma Bolsonaro em mártir ou herói, mas apenas em vítima da violência. Nem torna corretas suas ideias antidemocráticas. Repudiamos a violência e também a pregação da violência. Condenamos qualquer atentado à vida e às liberdades e a imposição de sofrimentos aos semelhantes.

Isso foi por volta das 17 horas de ontem (06/09/2018). Em seguida meu mural foi vítima de uma enxurrada de comentários intolerantes, violentos e conspiracionistas de bolsonaristas e de seus adversários ditos de esquerda.

Hoje cedo lamentei o clima que foi criado, não propriamente pelo ataque violento ao candidato e sim pela atuação dos militantes (que já se comportavam assim antes da facada):

LAMENTÁVEL

A solidariedade a Bolsonaro, vítima de ataque violento, é uma coisa: é um gesto humano. Igualmente, a condenação a qualquer violência é a única atitude democrática cabível no momento. Isso não significa que devamos transigir com a militância bolsonarista, nem com a militância petista, que já se comportavam de modo intolerante muito antes do atentado. Os bolsonaristas, em particular, resolveram colonizar meu mural. Alguns aproveitaram para divulgar hipóteses conspiratórias. Apaguei todos os posts que vieram insuflar intolerância, convocar guerra, clamar por vingança e outras barbaridades. E também os que vieram, do lado oposto, levantar a suspeita de que tudo não passou de uma farsa ou armação. Depois vou escrever um artigo sobre isso. Lamentável o que ocorreu e lamentável também a reação dos que apoiam ou combatem Bolsonaro de maneira irracional. A democracia só tem a perder com isso. Democracia é paz, não guerra.

No entanto, continua-se investindo na polarização.

Que os militantes – ditos de direita ou de esquerda – estejam fazendo isso, reprova-se, mas até se entende. Que os dirigentes, que deveriam ser responsáveis por manter um clima compatível com o processo democrático, invistam na confusão, não é aceitável.

Vejamos um exemplo. Se for verdade o que publica a revista Crusoé, do site O Antagonista, então temos motivo de sobra para a preocupação:

Mourão acusa o PT por atentado a Bolsonaro

O Antagonista, 06.09.18 18:50

O vice na chapa de Jair Bolsonaro, o general Antonio Hamilton Mourão, falou a Crusoé e acusou diretamente o PT pelo atentado ao candidato em Juiz de Fora.

“Eu não acho, eu tenho certeza: o autor do atentado é do PT”, afirmou Mourão ao repórter Eduardo Barretto.

O general disse ainda: “Se querem usar a violência, os profissionais da violência somos nós”.

Um candidato a vice-presidente que dá uma declaração como esta (se for verdade que ele disse isso mesmo), num momento como o que vivemos, definitivamente não tem condições de assumir eventualmente o posto político máximo do país. Trata-se de instrumentalização política da tragédia. E exploração sórdida.

Na mesma linha foi – ainda segundo o mesmo veículo – o presidente do PSL, partido de Bolsonaro, Gustavo Bebianno:

“A guerra está declarada”.

Aliás, Bebianno insistiu na instrumentalização política, ultrapassando todos os limites do razoável. Assistam o vídeo.

É claro que este sujeito está inteiramente errado. Não tem guerra nenhuma. Eleições fazem parte do processo democrático, que é pacífico. Eventuais crimes devem ser punidos pelo Estado de direito. Sem guerra.

Vamos tentar resumir alguns esclarecimentos para desfazer a confusão que está se configurando.

1 – O ataque a Bolsonaro deve ser condenado. Antes de qualquer coisa por razões humanas. Um atentado à vida (de qualquer ser humano) é sempre condenável do ponto de vista ético.

2 – Ações guerreiras, violentas ou não, também devem ser condenadas por razões democráticas. A democracia é um modo não-guerreiro de regulação de conflitos. A democracia é o contrário da guerra. Quando essas ações são violentas – como no caso em tela – é mais grave ainda.

3 – Não há evidências, até agora, de que se tratou de um atentado político, de uma conspiração golpista ou de um ato terrorista. Foi um atentado contra a vida (a integridade física) de um político, o que não é a mesma coisa que um atentado político. Todas as informações disponíveis (até agora) indicam que o agressor é um desequilibrado mental (alegou estar cumprindo uma ordem de Deus), meio conspiracionista (no seu Facebook ele responsabiliza a maçonaria pelas desgraças políticas do Brasil), com antecedentes de comportamento delituoso. O fato dele já ter pertencido a partidos de esquerda (como o PSOL) não significa – nem politicamente, nem juridicamente – que cometeu o crime em nome ou a mando desse partido (ou do PT, como teria declarado o seu vice, general Mourão).

4 – Não há evidências, até agora, de que se tratou de uma armação dos próprios bolsonaristas, para provocar uma comoção da opinião pública e diminuir a rejeição a Bolsonaro (que, segundo as pesquisas, perde para todos os candidatos no segundo turno) ou levá-lo à presidência, se possível no primeiro turno. Ainda que, imprudentemente, um próprio filho de Bolsonaro, chamado Flávio, tenha anunciado, depois do ataque (e em razão dele, pasme-se!), a vitória no primeiro turno do seu pai.

4 – O ataque de que Bolsonaro foi vítima não o torna imune às críticas, nem transforma suas ideias erradas e perigosas (do ponto de vista da democracia) em ideias corretas e aceitáveis (do mesmo ponto de vista). O lamentável episódio não dá qualquer tipo de aval para as propostas bolsonaristas. Os democratas devem continuar criticando sua candidatura, mostrando as incoerências e ameaças contidas no seu programa.

5 – O ataque violento a Bolsonaro não dá razão aos apoiadores de Bolsonaro, nem aos adversários de Bolsonaro. Não prova nada em termos políticos, ainda que possa ser visto como resultado do clima de guerra que foi criado pelos autocratas (digam-se de direita ou de esquerda) que tomam a política como continuação da guerra por outros meios.

6 – Os democratas devem continuar reprovando e denunciando o comportamento adversarial e intolerante dos extremos que se engalfinham na atual disputa eleitoral, venham de onde vierem (da chamada direita bolsonarista ou da chamada esquerda petista, psolista, pcdobista etc.). Críticas pacíficas, porém, são outra coisa. Todos os concorrentes de Bolsonaro podem continuar criticando as ideias de Bolsonaro e, inclusive, expondo à opinião pública as suas declarações, recentes ou antigas, incompatíveis com a democracia.

7 – Ainda é muito cedo para saber quais serão as consequências, em termos de movimentos na opinião da maioria da população, do ataque violento a Bolsonaro. Não se pode dizer que agora Bolsonaro já está eleito (como fez seu filho Flávio), nem se pode dizer que a campanha de Bolsonaro esfriará porquanto o candidato não poderá mais participar dos atos de rua, dos comícios, das viagens etc.

8 – O papel dos democratas, neste momento (e em todos os momentos), é esfriar os ânimos. Nada de clima de histeria, nada de emocionar de vingança, nada de declarações alarmistas de militares ou militantes. O Estado de direito, as leis e as instituições devem tratar do assunto. Sempre pacificamente.

Tendo esses oito pontos em mente, é necessário condenar a instrumentalização política do episódio.

A despeito do ocorrido, nós, os democratas, continuamos firmes no propósito de evitar qualquer retrocesso, seja à esquerda, com a volta do PT ao governo, seja à direita, com a vitória de Bolsonaro.

PT nunca mais. Bolsonaro jamais.


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