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O caso de Fabrício Queiroz, o suposto laranja da família Bolsonaro

O caso é tão escabroso que dá até para cometer um poeminha:

Mais cedo do que mais tarde, felizmente
Sempre se revela da história a moral
Que todo dono da verdade mente
E que todo moralista é imoral

Ou para cunhar um epigrama:

Todo cara que quer limpar o mundo quer, na verdade, se limpar nos outros.

O caso do laranja Fabrício Queiroz – membro da Brigada Paraquedista do Exército que virou PM e assessor da família Bolsonaro – é, no mínimo, o mesmo da Wal do Açaí. Apropriação privada de recursos públicos via cargos de confiança. Sabe-se que assessores parlamentares devolvem parte do que ganham para pagar “despesas de gabinete” dos que os empregam. Mas o caso em tela é tão inexplicável que pode ser coisa pior.

Tudo indica que é coisa pior.

Vamos aos fatos:

Na quinta-feira, 6 de dezembro de 2018, veio à luz o relatório do Coaf evidenciando que Fabrício Queiroz, motorista de Flávio Bolsonaro, havia movimentado mais de R$ 1,2 milhão entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017.

O documento do Coaf trazia a informação de que Queiroz havia repassado um cheque de R$ 24 mil para Michelle, futura primeira-dama.

Duas filhas de Queiroz também trabalharam para a família Bolsonaro.

Jair Bolsonaro afirmou, em entrevista a O Antagonista, que o dinheiro transferido à sua senhora é pagamento de um empréstimo. Segundo disse, emprestou a Fabrício Queiroz, que atuava como motorista do filho, R$ 40 mil, não apenas R$ 24 mil. Haveria outras transferências em parcelas de R$ 4 mil.

Bolsonaro também declarou que não registrou o empréstimo de R$ 40 mil em seu Imposto de Renda.

Por último, alegou: “Eu podia ter botado na minha conta. Foi para a conta da minha esposa porque eu não tenho tempo de sair”.

Queiroz, o motorista e segurança do senador eleito Flávio Bolsonaro fez 176 saques de dinheiro em espécie de sua conta em 2016. A movimentação dá uma média de uma retirada a cada dois dias. Cerca de um quarto do valor suspeito (R$ 324,8 mil) foi movimentado por meio de saques. Foram retiradas que variavam de R$ 100 a R$ 14.000.

Só no dia 10 de agosto de 2016, Queiroz fez cinco retiradas que, somadas, dão R$ 18.450. Todos os saques foram em valores abaixo de R$ 10 mil, a partir do qual o Coaf alerta automaticamente as autoridades fiscais. Houve ainda 59 depósitos em dinheiro vivo na conta do policial militar. As entradas variam de R$ 400 a R$ 12.700.

Boa parte das movimentações financeiras [de Queiroz] em que a outra parte é identificada se refere a transações com membros do próprio gabinete de Flávio Bolsonaro. Sete nomes que constam do relatório fizeram parte da equipe do deputado estadual. Três são parentes de Queiroz. Estão na lista Marcia Oliveira de Aguiar (mulher), Nathalia Melo de Queiroz e Evelyn Melo de Queiroz (filhas). Todas também integraram em algum momento o gabinete de Flávio Bolsonaro.

A partir de dezembro de 2016, Nathalia saiu da Alerj para integrar a equipe do hoje presidente eleito, Jair Bolsonaro, na Câmara dos Deputados. Ela se desligou do cargo em outubro deste ano, na mesma data em que o pai deixou o gabinete do senador eleito [Flávio Bolsonaro]. (…) Nathalia repassou quase todo o salário que recebeu naquele ano para o pai. Foram R$ 84,1 mil repassados para o policial militar.

Agora algumas perguntas:

→ Por que o ex-motorista de Flavio Bolsonaro precisava movimentar tanto dinheiro vivo?

→ Será que, assim como a Wal do Açaí, o tal Fabrício Queiroz foi inventado pelo PT para destruir a reputação de Bolsonaro e família? Se for isso, esse PT é um caso sério mesmo: rouba bilhões e quer incriminar Bolsonaro por meros 1 milhão e 200 mil. Mas se assim fosse, a ladroagem lulopetista justifica a possível ladroagem bolsonarista?

→ Mas quem é que faz, em um ano (2016), 176 saques em dinheiro vivo (em média, quase um saque dia sim, dia não), totalizando R$ 324,8 mil? E por que o faz? Como é que o tal Queiroz vai explicar isso? E como vai explicar que movimentou, em um ano, 1 milhão e 200 mil reais?

→ De onde veio essa grana toda (incompatível com o salário do sujeito)?

→ Bolsonaro disse que mandou colocar o dinheiro (de um suposto empréstimo) na conta de sua mulher, alegando que não tem tempo para ir à agência bancária (é o que se pode imaginar da sua explicação): se é assim, por que não usou meios eletrônicos (para quem tem tanta intimidade com o Twitter e o WhatsApp, não se explica o analfabetismo digital)? Ademais, qualquer outra pessoa da família poderia ir na sua agência sacar usando seu cartão, descontando um cheque. E para que ele precisaria ir na agência sacar o dinheiro em espécie (não tem o internet banking, não tem cartão, não tem cheque)?

Não tem explicação.

O dinheiro movimentado pelo laranja Queiroz quase dava para comprar um triplex em Guarujá. Era só acrescentar mais 600 mil (que poderiam ser facilmente depositados pelos outros assessores da família Bolsonaro pagos com nosso dinheiro).

Conclusão:

Cruzadas moralistas de limpeza, guerras religiosas contra a corrupção (dos outros), demonização de inimigos a partir de indícios de irregularidades, sempre se voltam contra quem as faz.

Este é o caso, inexplicável, do suposto laranja da família Bolsonaro chamado Queiroz.


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