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O caso dos antagonistas: liberdade de imprensa é pilar da democracia, mas eles não estão interessados em mais liberdade

Os democratas somos contra violações da liberdade de imprensa. Ponto.

Isso vale para qualquer órgão de imprensa, mesmo para aqueles que se comportam mais como aparelhos políticos a serviço de um partido ou de uma força política informal (seja o lulopetismo, o bolsonarismo ou o lavajatismo – como é o caso de O Antagonista). É errado censurar o Antagonista (e sua revista Crusoé), assim como seria errado censurar o Brasil 247 (lulopetista) ou o Conexão Política (bolsonarista).

Claro que o judiciário pode, estabelecido o devido processo formal, punir outras violações das leis cometidas por jornalistas ou órgãos de comunicação (como a injúria, a calúnia, a difamação e a invenção e difusão de mentiras ou fake news). Neste caso, a ação não significará censura.

Nós, os democratas, somos defensores irredutíveis da liberdade de imprensa, mas não somos burros. E não podemos deixar de observar que as milícias bolsonaristas nas mídias sociais estão fazendo – a partir de comando centralizado – um carnaval contra a medida tomada por Alexandre de Moraes, do STF. A crítica a tal medida, crítica correta em face do seu claro equívoco, também se insere dentro de (ou está sendo aproveitada por) uma campanha bem mais ampla – já em curso há meses – para desmoralizar as instituições que não se curvam às orientações populistas-autoritárias do governo Bolsonaro ou que sejam capazes de colocar um freio às suas pretensões autocratizantes. O STF e seus ministros podem errar, mas isso não significa que a suprema corte deva ser depredada, desqualificada ou que seja legítimo açular a ira e o ressentimento populares contra sua existência.

Também não podemos deixar de observar a ironia que representa o fato de que sejam justamente, em boa parte, os que não acreditam na democracia, que agora se mobilizem com tanta indignação para defender um de seus pilares: a liberdade de imprensa. Isso significa um uso instrumental da democracia, que o lulopetismo sempre fez e que agora o bolsolavajatismo está repetindo.

Acrescente-se que o caso está envolvido em nebulosidade. A Procuradoria-Geral da República declarou oficialmente:

“Ao contrário do que afirma o site ‘O Antagonista’, a Procuradoria-Geral da República (PGR) não recebeu nem da Força-Tarefa Lava Jato no Paraná e nem do delegado que preside o inquérito 1365/2015 qualquer informação que teria sido entregue pelo colaborador Marcelo Odebrecht em que ele afirma que a descrição “amigo do amigo de meu pai” refere-se ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli”.

Entretanto, as informações de Marcelo Odebrecht (de que Toffoli seria o “amigo do amigo do meu pai”, referindo-se a um caso de 12 anos atrás), enviadas no último dia 3 de abril à Polícia Federal, desapareceram (!) dos autos desde o dia 12 de abril. Não se sabe quem aduziu a informação, nem quem a retirou, de vez que tudo isso corre sob sigilo. O que significa que tais informações foram vazadas para O Antagonista, que vive disso, atuando como braço na imprensa do “partido da polícia”.

É claro que é dever da imprensa divulgar a notícia, o problema é a indústria dos vazamentos que caracteriza o lavajatismo. Os lavajatistas não vazam eventualmente, não vazam por descuido e sim por método. Avaliam que essa é a única maneira de conquistar apoio popular contra as instituições que querem barrar a operação. Ou seja – se as instituições que se danem – isso significa que eles apostam realmente num processo revolucionário: jacobino, restauracionista, que acha que uma sociedade mais pura será alcançada por meio de cruzadas de limpeza ética. É o que resta como caminho, na falta de poder efetivo para cortar cabeças. Mas há um projeto de poder embutido orientando a sua atuação. Esse projeto, até agora, foi um dos principais responsáveis pela eleição de Bolsonaro, mas não terminou. Eles querem, quando for possível, substituir Bolsonaro por Moro ou por outro paladino da moral e dos bons costumes. Ora, se há um projeto de poder é um partido, mesmo que informal. É uma força política, ilegítima considerando que composta por estamentos corporativos do Estado que não têm lugar no nosso arcabouço constitucional como agentes da politics.

Essa decisão estúpida de Alexandre Moraes foi tudo que o “partido da polícia” pediu a deus para reanimar a sua revolução antipolítica da pureza e só fez promover os antagonistas, seus principais porta-vozes, como agentes da terra arrasada. O problema é que, ao longo da história, os resultados desse tipo de ação revolucionária jamais levou à mais liberdade e sim ao contrário.


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