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O demônio patriarcal não quer morrer: sobre os atentados neoterroristas

Leiam o artigo abaixo, de Charlie Warzel, publicado ontem (15/03/2019) no NYT. Estamos providenciando a tradução e faremos oportunamente mais alguns comentários. De pronto, porém, pegando como gancho algumas constatações de Warzel, já é possível começar a desvendar o que está acontecendo do ponto de vista das redes.

O massacre na Nova Zelândia foi feito para se tornar viral. É mais uma evidência do uso das mídias sociais contra as redes sociais. Uma reação do mundo hierárquico à emergência da sociedade-em-rede usando as novas tecnologias e ferramentas da… sociedade-em-rede. É uma espécie de vômito da cultura patriarcal (percebe-se que os ataques foram especialmente dirigidos às mulheres) contra a própria cultura patriarcal que remanesce (quase em estado puro) no islamismo (as vítimas foram islâmicas). Mas é possível mostrar que o neoterrorismo anti-islâmico (o jihadismo ocidental, misógino, não-cosmopolita) e o terrorismo islâmico (o jihadismo ofensivo, também misógino e não-cosmopolita) são o mesmo fenômeno. São, ainda, patriarcado estrebuchante.

Não, não é razão para desespero, mas para extrema preocupação. Publiquei há poucos dias uma nota no Facebook sobre isso:

As tentativas de fazer o mundo retrogradar dificilmente darão certo nos médio e longo prazos. Assim como o Estado Islâmico não conseguiu voltar ao século 7 e o neopopulismo dito de esquerda não conseguiu apagar, para usar uma imagem ocultista (porque vem ao caso), dos “registros akashicos” (ou, dizendo a mesma coisa em termos de rede, das novas configurações do espaço-tempo dos fluxos), a década de 1990, o populismo-autoritário de extrema-direita também não conseguirá retroceder para o início do século 17, antes dos Bill of Rights do parlamento inglês e do ressurgimento da ideia de que a liberdade (e não a ordem) é o sentido da política; ou seja, antes do luminoso Tratado Teológico-Político de Spinoza (1670). O revolucionarismo que quer fugir para trás – e que ora se expressa pela ascensão dos nacionalismos e dos localismos não-cosmopolitas – é apenas uma reação à emergência da sociedade-em-rede e ao estilhaçamento do mundo único administrado por formas de governança baseadas no equilíbrio competitivo (ou seja, na guerra fria permanente) entre duas centenas de Estados-nações. Isso não significa que, no curto prazo, não vamos mergulhar na escuridão. Vamos. Já estamos nela. Atravessar esse pedaço do futuro imediato não será trivial. E não sabemos qual será a duração deste período de trevas.

Agora acrescento. Mas… eis o ponto! Para reafirmar esse velho modelo hierárquico-autocrático de governança global, instala-se um processo de ataque de tipo autoimune. O monstro se ataca para destruir partes de si mesmo que julga doentes, ou seja, para fortalecer suas defesas contra o que ameaça seu corpo e seu metabolismo. O ataque neo-terrorista à ordem top down tem como consequência o fortalecimento da ordem top down. O resultado objetivo é mais-ordem e não mais-liberdade.

Daqui para frente, esses massacres tendem a acontecer em todo lugar: no Brasil, como vimos no caso da escola em Suzano (São Paulo), nos Estados Unidos (onde já se tornaram mais frequentes) e, inclusive, em países de democracia consolidada, como a Nova Zelândia (que figura nos primeiros lugares de todos os rankings internacionais de democracia e foi considerada o país menos corrupto do mundo). Ou seja, não há explicação tradicional, sócio-econômica, baseada na desigualdade ou na pobreza, para o fenômeno. É uma afecção global da rede que, por isso mesmo, se expressa – contraditoriamente – também em rede. A rede social distribuída está sendo atacada por dentro e os agentes desse ataque autoimune, de certo modo, estão sendo apenas instrumentos de uma alteração nos fluxos interativos da convivência social que forma redemoinhos estranhos (que são vistos como indivíduos desequilibrados, pessoas do mal, maçãs-podres, ressentidos, recalcados, doentes, psicopatas, mas que na verdade são singularidades em um tecido que só aparecem em razão de mudanças drásticas na topologia desse tecido). O resultado objetivo – independentemente das intenções e das psicopatias dos indivíduos que cometem tais atentados – é forçar uma recentralização da rede. Quando o perigo de atentados desse tipo se torna iminente e permanente, a resposta da sociedade hierárquica será aumentar as normas de segurança e reduzir as liberdades: proibir fóruns de discussão na internet, criar mais barreiras e cancelas (físicas e virtuais) em todo lugar, mais sistemas de vigilância de todos os cidadãos, mais permissões seletivas, quer dizer, mais proibições para os comuns, enfim, mais obstrução de fluxos.

O demônio patriarcal não quer morrer. Mas seus agentes não são mais apenas grupos (políticos ou políticos-religiosos) organizados. O terrorismo não é mais o mesmo. O neoterrorismo não é uma tática de luta de grupos conformados com base em objetivos políticos definidos. Os neoterroristas podem ser qualquer um: indivíduos mais pobres ou mais ricos, moradores excluídos de uma periferia de um país pouco desenvolvido de democracia defeituosa (como o Brasil) ou pessoas de classe média de países de democracia plena (como a Nova Zelândia).

The New Zealand Massacre Was Made to Go Viral

The attack marks a grim new age of social media-fueled terrorism.

Charlie Warzel

By Charlie Warzel, The New York TimesMarch 15, 2019

On Friday, a gunman strapped on a helmet camera, loaded his car with weapons, drove to a mosque in Christchurch, New Zealand, and began shooting at anyone who came into his line of vision. The act of mass terror was broadcast live for the world to watch on social media.

Forty-nine people were killed and more than 40 others were wounded in the attack, which occurred at two different mosques in the city. A suspect, Brenton Harrison Tarrant, was charged with one count of murder, with more charges reportedly expected. Three other people were detained by the police, but one was released hours later.

A 17-minute video of a portion of the attack, which leapt across the internet faster than social media censors could remove it, is one of the most disturbing, high-definition records of a mass-casualty attack of the digital age — a grotesque first-person-shooter documentation of man’s capacity for inhumanity.

Videos of attacks are designed to amplify the terror, of course. But what makes this atrocity “an extraordinary and unprecedented act of violence,” as Prime Minister Jacinda Ardern described it, is the methodical nature with which it was conducted and how it was engineered for maximum virality.

Though platforms like Facebook, Twitter and YouTube scrambled to take down the recording and an accompanying manifesto apparently from the gunman, they were no match for the speed of their users; new artificial-intelligence tools created to scrub such platforms of terrorist content could not defeat human cunning and an impulse to gawk. In minutes, the video was downloaded and mirrored onto additional platforms and ricocheted around the globe. Screen shots were created from still frames of bodies and uploaded to sites like Reddit, 4chan and Twitter where they were shared and reshared.

Some Twitter users described frantically trying to stop videos in their feeds from autoplaying, so as not to be bombarded from around the globe with the recording of the carnage.

Internet users dredged up the alleged shooter’s digital history, preserving and sharing images of weapons and body armor. The gunman’s apparent digital footprint — from the rantings of a white nationalist manifesto to his 8chan message board postings before the murders — was unearthed and, for a time, distributed into far-flung corners of the web.

The killer wanted the world’s attention, and by committing an act of mass terror, he was able to get it.

It was not the first act of violence to be broadcast in real-time on social media.

In 2015, two reporters in Roanoke, Va., were murdered by a gunman who posted the footage on Twitter. Not long after, Periscope, a live streaming app, came under fire after a teenager live-streamed her suicide.

Other murders have been broadcast live on Facebook, like the apparently random killing of Robert Godwin in 2017. There have also been numerous recordings of encounters — sometimes fatal — with police. Since the live video tool debuted in late 2015, users have also broadcast rape and child abuse — a 2017 survey by BuzzFeed News found “at least 45 instances of violence” across the platform.

And yet the Christchurch shooting was different, in part because of its perpetrator’s apparent familiarity with the darkest corners of the internet. The recording contains numerous references to online and meme culture, including the shooter name-checking a prominent YouTube personality shortly before beginning the attack.

The digital trail the shooter left behind appears to depict a white supremacist motivation for the attack. There is much, at this early date, that is unknown, despite what’s been posted online. The 87-page manifesto, for instance, is filled with layers of ironic, self-referential commentary, apparently written to enrage the communities that appear to have helped radicalize the gunman in the first place. It seems that the Christchurch shooter — who by his digital footprint appears to be native to the internet — understands not only the platform dynamics that allow misinformation and divisive content to spread but also the way to sow discord.

As terrifying as the violence itself is, so, too, is how well the online community worked in the gunman’s favor. This may be our new reality. Not only has conspiratorial hate spread from the internet to real life; it’s also weaponized to go viral.


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