Pondé Dagobah

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O erro de Pondé

O professor universitário Luiz Felipe Pondé publicou hoje, na Folha de São Paulo, um artigo intitulado A democracia tem uma vocação irresistível ao populismo. O texto é interessante, porém revela que o articulista não captou o genos da democracia. Vai reproduzido abaixo, seguido de breves comentários.

A DEMOCRACIA TEM UMA VOCAÇÃO IRRESISTÍVEL AO POPULISMO

Luiz Felipe Pondé, Folha de São Paulo, 12/06/2017

O populismo é a vocação mais antiga da democracia. Sim, a democracia tem uma vocação irresistível ao populismo. As mídias sociais são a ferramenta mais poderosa que o populismo jamais teve. E uma das causas mais poderosas a favor do populismo é a busca da democracia perfeita.

Dizer isso nada tem a ver com preferir regimes antidemocráticos, como pensam os inteligentinhos quando falam de política. Pelo contrário, prestar atenção ao “lado B” da democracia é uma forma essencial de evitar regimes antidemocráticos.

Conhecer o “lado B” da democracia é essencial se quisermos proteger seu “lado A”. Ao contrário do que pensa nossa vã filosofia do bem (produção inteligentinha), é o reconhecimento das sombras que garante alguma luz mínima sobre as coisas e nas coisas.

Como diria o filósofo Darth Vader: só o olhar direto nos olhos do lado escuro da força nos faz compreende-lo e saber como ele pode se tornar irresistível.

Alexis de Tocqueville (1805-1859), em seu essencial “Democracia na América”, chama atenção para o fato de que “o cidadão da jovem democracia americana” ficava irritado quando ouvia uma crítica ao seu regime político.

E assim é até hoje, traço característico da relação dogmática que temos com o que os pesquisadores Achen e Bartels descrevem em seu “Democracy for Realists”, da editora Princeton University Press, como “folk theory of democracy” (teoria popular da democracia).

Não vou seguir precisamente os autores aqui, nem o que estou dizendo sobre o lado B da democracia é necessariamente o que os autores pensam, mas a leitura desse livro pode ajudar a você não cair nesse lado B da democracia de forma tão ingênua.

Esta teoria “folk” acredita em mitos como crescimento da consciência política mediante a educação. Ou que as pessoas estão interessadas em política. Esta lenda da democracia crê que as pessoas não só estão interessadas em política como se informam para ter mais consciência política. Não. Elas raramente buscam informação e, quando o fazem, o fazem pra reforçar seus próprios pressupostos e não para relativiza-los.

As mídias sociais deixam isso muito claro: não existe debate, existe ódio. E o ódio, sabemos, é uma das formas mais perenes da alma se reconhecer viva.

E os intelectuais, professores ou profissionais ligados a política, apenas pregam suas próprias concepções políticas. Quanto mais engajado, mais fiel e fanático.

Professores, em grande parte, não produzem nenhuma “consciência política ou histórica”, produzem, apenas, intolerância intelectual a bibliografias que não gostam. Logo, não são “motores” de nenhuma suposta consciência política.

Jornalistas e artistas seguem de perto a tendência à intolerância intelectual movida por adesão a dogmáticas políticas.

E qual a razão da democracia ter vocação irresistível ao populismo? Fácil de responder. A busca de conhecimento não é algo evidente em nós. A vida é muito dura para nos darmos a esse luxo.

O que buscamos, na maior parte das vezes, como diz o filósofo Woody Allen em seu maravilhoso “Crimes e Pecados” são racionalizações que justifiquem nossos desejos.

O populismo se alimenta de nossa infantilidade. Queremos soluções claras e distintas para a confusa realidade em que vivemos. “Alguém que coloque Brasília em ordem”, “alguém que faça justiça”.

O trono por excelência do amante do populismo é a cadeira da sua sala em casa, na frente da televisão, xingando todo mundo.

O populista mais “contemporâneo” tem um novo trono: as redes sociais, através da qual distribui seus xingamentos. Nas redes ele abraça seus “conteúdos de pós-verdade” e os distribui “generosamente” ao mundo a sua volta.

A vocação primeira da democracia é o populismo. Só com muito esforço resistimos a ele porque a política é confusa, ambivalente, sombria, retórica, suja, enfim, humana, demasiadamente humana. Quem pede plebiscito o tempo todo é um populista disfarçado de ovelha.

Não há sabedoria alguma no povo. A sabedoria está nos detalhes e a fúria política popular não tem vocação aos detalhes, mas apenas a shows, fogueiras e linchamentos.

BREVES COMENTÁRIOS

O texto é correto quando assinala os equívocos da busca da democracia perfeita, assim como quando diz que “só com muito esforço resistimos a ele [ao populismo] porque a política é confusa, ambivalente, sombria, retórica, suja, enfim, humana, demasiadamente humana”. Sim, como venho dizendo, não existe democracia perfeita, limpa e reta: a democracia é imperfeita, suja e curva.

O trecho onde fica evidente que Pondé errou por não captar o genos da democracia é o parágrafo reproduzido abaixo:

“E qual a razão da democracia ter vocação irresistível ao populismo? Fácil de responder. A busca de conhecimento não é algo evidente em nós. A vida é muito dura para nos darmos a esse luxo.”

Mas quem disse que a democracia busca conhecimento? Isso é um platonismo (próprio, aliás, de acadêmicos: toda academia é platônica). A matéria prima da democracia é a opinião (doxa) e não o conhecimento filosófico ou científico (episteme) ou mesmo técnico (techné). Esse foi o motivo da maledicência (e da desonestidade) de Platão (e de seu Sócrates) contra Protágoras (e outros sofistas). Platão (e seu Sócrates), como se sabe – ao contrário dos sofistas – era um adversário da democracia. Queria que os mais sábios (os possuidores do conhecimento) governassem – o que descambaria, inevitavelmente, para a autocracia: os ignorantes seriam governados pelos sábios.

A essência (o que chamei de genos) da democracia é a liberdade de opinião (uma opinião que qualquer Térsites – citado na Ilíada por ter desafiado um rei e levado uma surra – pode ter e com ela enfrentar qualquer Agamênon). Como já escrevi em Entendendo a essência da democracia:

Os gregos – os democratas, por certo, como Péricles ou Protágoras, ou mesmo Tersites (para citar um homem do povo, se estivesse vivo àquela altura), e não os que se posicionavam contra a democracia, como Sócrates e seus dois principais “biógrafos”, Platão e Xenofonte; isso para não falar dos discípulos golpistas de Sócrates, como Crítias e Alcebíades, que se tornaram ditadores – não queriam obter nada com a política, a não ser os homens comuns viverem como seres políticos, isto é, conviverem entre iguais (isonomia) em uma rede pactuada de conversações em que a livre opinião proferida (isegoria) é equitativamente valorizada em princípio (isologia). Ora, essa é a definição de democracia compatível com o sentido da política como liberdade, contra a qual, aliás, militava Platão.

E mais:

A democracia está fundada no princípio de que os seres humanos podem se autoconduzir a partir de suas opiniões; de que é possível, ao homem comum (como Tersites, citado acima), esgrimir opiniões com Sócrates; de que Tersites pode ter razão e Sócrates não; de que a polis (não a Cidade-Estado como em geral se traduz, mas a koinonia, a comunidade política), frequentemente poderá dar razão a um Térsites contra um Platão. Isso significa que – para a democracia – a razão política tem uma natureza diferente da razão filosófica, científica ou técnica; ou seja, aquela qualidade filosófica intrínseca que Platão, pela boca de Sócrates, atribui a qualquer Teeteto, os democratas atribuem-na, em termos políticos, a qualquer Tersites, detentor de uma opinião que não pode ser desvalorizada em relação ao saber: e essa é, aliás, a razão pela qual, para a democracia, não pode haver ciência política, a não ser como ciência do estudo da política.

Bom… além disso, ainda que a democracia dos atenienses não tenha proteção eficaz contra o discurso inverídico – sua principal falha genética – isso não quer dizer que ela tenha vocação ao populismo. Quer dizer, apenas que ela não pode evitar a jactância e a demagogia (que são características do populismo). Mas não poder evitar é muito diferente de ter uma vocação.

A questão é que, mesmo não tendo proteção eficaz contra os populistas, a democracia resiste a eles quando aparecem. Ela metaboliza esse tipo de perversão e não deixa de ser democracia, quer dizer, não vira autocracia em razão do aparecimento de populistas. Depois de suportar e conviver com numerosos populistas, a democracia ateniense continuou existindo (de 509 a 322 AEC) e só desapareceu em razão da conquista da região pelo autocrata Felipe e seu filho Alexandre. A democracia dos modernos (reinventada no século 17) também vem resistindo, mal ou bem, ao populismo, só tendo sucumbido ao neopopulismo bolivariano – que é outra coisa, pois aqui se revela uma segunda falha genética da democracia, própria já da democracia representativa, que é não ter proteção eficaz contra o uso da democracia, notadamente das eleições, contra a própria democracia. Mas igualmente não se pode dizer que a democracia atual tenha vocação, no caso, ao neopopulismo.

Por último, quando Pondé escreve, no parágrafo final de seu artigo, que “não há sabedoria alguma no povo. A sabedoria está nos detalhes e a fúria política popular não tem vocação aos detalhes, mas apenas a shows, fogueiras e linchamentos”, parece que ele pensa – embora não o tenha dito claramente – que democracia é uma espécie de governo de todos, quando ela não é isso e sim o governo de qualquer um. É muito diferente.

Esse último parágrafo volta novamente com essa coisa de ‘sabedoria’. E como ele volta, voltamos também nós ao início deste breve comentário. Não há nenhuma relação entre sabedoria e democracia. A democracia não é o regime dos que sabem e sim dos que podem proferir com liberdade as suas opiniões (que todos podem ter – sábios e não sábios – ou seja, qualquer um).

P. S.

O erro de Pondé é fecundo. Como se sabe, não existe erro e sim múltiplos caminhos que percorremos em qualquer busca (a própria evolução é fruto do erro, assim como a construção de um cupinzeiro: em um sistema variacional é a sucessão de erros que produz ordem emergente). A concepção de política do autor está baseada no conhecimento (no que é certo, não no que é errado). Mas para a democracia tanto faz que a opinião de alguém seja ou não esclarecida pelo conhecimento. A democracia é uma aposta: a de que, no entrechoque de opiniões, haja polinização e modificação das opiniões proferidas. Assim, a opinião burra é tão importante quanto a opinião inteligente, porque a resultante de todas as opiniões proferidas no espaço público está longe de ser a soma das opiniões iniciais (e é isso que devemos entender por opinião pública, que não é igual à soma das opiniões privadas dos cidadãos, do contrário não precisaria haver o processo político: um instituto de pesquisa de opinião poderia resolver a questão central da política que é a de aferir a vontade política coletiva). Ou seja, não é a opinião mais informada, mais sábia, que pode evitar que o processo político democrático caia na armadilha do populismo e sim o próprio processo de aprendizagem coletiva com o erro, quando não há ninguém para nos dizer o que é certo. A primeira definição completa e escrita da democracia foi dada por Ésquilo (472 AEC), em Os Persas: eles – referindo-se aos atenienses – “não são escravos nem súditos de ninguém”. Não ter um senhor que, pela força ou pelo conhecimento, nos diga como proceder, ficar ao léu, abandonado ao erro.

 

 

 

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