O erro dos anticomunistas

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O erro dos anticomunistas

Democracia e autocracia são modos de regulação de conflitos, não modelos de sociedade, utopias, ideologias. Modos de regulação não são conteúdos determinados, são modos mesmo (como o nome está dizendo). É por isso que não se trata, para os democratas, de combater o comunismo ou o socialismo, o fascismo ou o nazismo, o jihadismo islâmico ou laico (militarista-nacionalista) e sim de combater as ditaduras (autocracias) que são instauradas em nome desses (ou de outros) comportamentos políticos ou ideologias.

Isso é muito importante porquanto não interessa aos democratas combater uma ditadura dita comunista (ou socialista) com outra ditadura. Assim, não interessa uma alternativa anticomunista (ou antissocialista) se ela não for também uma alternativa anti-autocrática (quer dizer, democrática). A democracia é um movimento, um processo constante ou intermitente de desconstituição de autocracia (e por isso não existe, a rigor, ‘a’ democracia ou um modelo de democracia – no sentido de um status democrático, mesmo como forma determinada de administração política do Estado – e sim um processo de democratização). A democracia não é um porto, um lugar de chegada e sim um modo de caminhar (que não recusa o conflito, mas o regula de modo não-guerreiro ou seja, que não constrói e mantém inimigos como pretexto para organizar top down cosmos sociais hierárquicos e regidos por dinâmicas autocráticas).

Portanto, quem quer se opor às tentativas de autocratização de um regime político – como as tentativas do PT de autocratizar a política brasileira – não pode fazê-lo em nome do anticomunismo e sim em nome da democracia (que é, por definição, desconstituição de autocracia). Mesmo que alguns dirigentes do PT não fossem comunistas (marxistas-leninistas ou marxistas-gramscistas) eles deveriam ser impedidos de prosseguir em sua estratégia (de conquista da hegemonia sobre a sociedade brasileira a partir do Estado aparelhado pelo partido) porque são autocráticos. Pode-se ser autocrático sem ser comunista ou socialista. Os militares de 1964 no Brasil eram autocráticos. Quase todos os militares que deram golpes de Estado na América Latina nas décadas de 1960 a 1980 eram autocráticos (e anticomunistas). Hitler e Mussolini eram autocráticos (e anticomunistas).

O erro dos anticomunistas é não entender que, do ponto de vista da democracia, não basta ser anticomunista se não se for democrático. Ou seja, o erro dos anticomunistas, do ponto de vista democrático, é não serem democratas.

Os democratas se definem como anti-autocratas: não importa se a autocracia em questão é ou seja dita comunista, socialista, fascista, nazista, jihadista fundamentalista islâmica, jihadista cristianista (os cruzados eram autocratas e algumas milícias que se dizem cristãs do Oriente Médio idem), jihadista xintoista ou o escambau, jihadista laica, laicista militarista, nacionalista ou localista (anti-globi) et coetera.

Publicado originalmente no Facebook em 18/12/2014


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