in

O espectro de Marighella

Publiquei este artigo há cerca dois anos, no grupo público Dagobah do Facebook. Já havia esquecido dele. Um amigo fez um comentário e trouxe-o à tona. Aproveito a oportunidade para republicá-lo aqui, juntamente com a transcrição da gravação que o motivou (corrigindo uma ou outra imprecisão).

UM INSTRUTIVO DIÁLOGO ENTRE LULA E PAULO VANNUCHI

Augusto de Franco, Grupo Dagobah do Facebook, 25/03/2016

O espectro de Marighella continua, como um pesadelo, assombrando o cérebro dos vivos que querem viver na democracia

Para quem conhece um pouco da história, a gravação abaixo revela muita coisa. É o resultado de uma escuta telefônica, com autorização judicial, entre duas pessoas sem foro privilegiado: Lula e Paulinho Vannuchi.

Vannuchi, ex-ALN, é o principal assessor estratégico de Lula. Não um mero vallet de chambre, como Okamotto (que conheci como comprador de pizzas e de charutos para o chefe). Não. Ele é o guardião do DNA marxista-leninista, o organizador, o cara que traça os caminhos estratégicos para o chefe. Ao que se saiba não é corrupto. Não está na parada para obter vantagens pessoais. Participou da elaboração da estratégia de conquista de hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido. Mas o partido em questão não é bem o PT, ou o PT exotérico, o partido externo, o partido legal que concorre a eleições e sim o Partido Interno, montado em torno do chefe, Lula, para o qual Paulinho sempre prestou uma assessoria de bastidores. Paulo Vannuchi está pouco se lixando para o partido externo. Nunca aceitou cargos ou funções no PT das massas. Suas preocupações e tarefas se concentram no Partido Interno. Sempre pensou na organização revolucionária como uma cebola: camadas envolvendo camadas, envolvendo camadas…

A derrota de Marighella subiu na cabeça de Paulinho de modo permanente. Um ressentimento infinito tomou conta da alma do jovem comunista de uma maneira totalizante. Me lembro até hoje de nossas conversas sobre opinião pública (um conceito que, para ele, não fazia o menor sentido). Para Paulinho tudo, absolutamente tudo, era luta de classes, guerra. Na verdade ele nunca viveu em paz. Em certo sentido nunca deixou de ser um clandestino (ele avaliava que se os inimigos, a burguesia, identificassem a tentativa de constituir um núcleo revolucionário, matariam a iniciativa no embrião).

Quando conheci o Paulinho, nos idos de 1979, apresentado pelo Betto (o frade, também ex-envolvido com o Marigha) ele ainda estava, se não me engano, em liberdade condicional. Acabara de sair da prisão do Barro Branco. Naquela época não havia PT e discutíamos sobre a reorganização de uma oposição popular à ditadura e de uma nova organização revolucionária de quadros. Depois, ao longo da primeira infância do PT, Paulinho dedicou-se a fazer assessoria para Lula, encarado então – pela sua alta gravitatem – como a única possibilidade de constituir, à sua volta, um centro estratégico, a parte mais interna da cebola, o núcleo duro do desiderato revolucionário. Durante os primeiros anos do PT, Paulo Vannuchi tentou rearticular secretamente a ALN, com alguns antigos companheiros de organização e com o recrutamento de novos militantes (o PT servia de aquário para pegar novos peixinhos).

Os critérios para participar dessa articulação secreta, secreta inclusive para a tendência Articulação, de Lula e Dirceu, onde o embrião revolucionário se abrigava, eram bem mais rígidos. Era uma tendência esotérica dentro do partido exotérico. Em 1984 eu denunciei isso abertamente dentro do PT, para as demais tendências, acusando tal comportamento de desleal. O próprio Paulinho então me disse que conversou com Lula sobre o assunto, o qual lhe perguntou se deveria fazer um desmentido, ao que Paulinho teria respondido, segundo ele próprio, que não, que era melhor deixar para lá. De minha parte, nunca tive problemas pessoais com o Paulinho, que sempre achei um cara legal. Não era um cafajeste, como Lula. O problema é que ele sempre foi uma espécie assim de Agente Smith, um replicador de autocracia. O jovem de São Joaquim da Barra jamais foi o mesmo depois da repressão do regime militar. Sim, a prisão nunca faz bem e, não raro, pode criar monstros.

O núcleo inicial em torno do Paulinho envolvia várias pessoas que, depois da vitória eleitoral de 2002, começaram a ocupar postos no novo governo. Com o tempo, a turma foi se especializando em Direitos Humanos (ou seja, em instrumentalização das organizações dedicadas aos DH para fazer a luta política clandestina). Paulinho chegou a ocupar a Secretaria Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República (com status de ministério) e, depois do final de segundo mandato de Lula, foi alocado na Comissão de Direitos Humanos da OEA, com o papel precípuo de proteger o chavismo e de impedir qualquer tentativa de denúncia de violações aos direitos humanos na Venezuela, missão que se revelou exitosa quando começaram as grandes manifestações de protesto de fevereiro de 2014, barbaramente reprimidas por Maduro. Na volta, Paulinho se homiziou no Instituto Lula.

A história é muito mais comprida e um dia será contada com detalhes. O que é notável agora é que Paulinho continua na ativa. Ele aparece na gravação com o chefe, em uma conversa íntima entre companheiros de alta confiança, cujo objetivo é acionar a intervenção de Carlos Araújo, ex-marido de Dilma Rousseff, para conseguir o voto favorável da ministra Rosa Weber contra o “filho da puta” (nas palavras de Lula) procurador Cassio Conserino. Carlos Araújo, ex-militante da VAR Palmares, teve importante papel na nomeação de Rosa Weber para o Supremo Tribunal Federal e por alguma razão teria alguma ascendência ou influência sobre ela.

Mas a gravação não se esgota nisso. Nela Lula dá a entender que existe uma articulação com setores dos meios artísticos e culturais, possivelmente dirigida por Paulinho e vários detalhes menos importantes, como a ajuda do militante Aragão (que segundo Lula deveria ser mais homem) guindado à ministro da Justiça. Paulinho reporta ao chefe outras atividades regulares de articulação, mencionando um jantar na noite anterior (26 de fevereiro de 2016) com Regina Novaes e outras pessoas.

Ou seja, o bicho está vivo. A núcleo da cebola continua atuando. A ALN, é claro, não existe mais. Mas, o padrão – sim, o que importa é o padrão que, como dizia Norbert Wiener (1950), é uma mensagem e pode ser transmitido como tal – está se replicando. O espectro do morto Marighella continua, como um pesadelo, assombrando o cérebro dos vivos que querem viver na democracia.

Ouçam aqui a gravação e leiam abaixo a desgravação publicada na época pelo G1:

G1, Grampo de Lula, 27/02/2016, 10h52

Conversa entre Lula e Paulo Vannuchi (diretor do Instituto Lula)

LILS (LULA) x PAULO VANNUCHI

TRANSCRIÇÃO

MORAES: Ministro? Bom dia.

PAULO VANNUCHI: Sargento VANNUCHI se apresentando ao comandante.

MORAES: O soldado atende o telefone, só um minuto, seu Ministro, vou levar, só um minuto, por favor.

LILS: Alô.

PAULO VANNUCHI: Fala meu chefe!

LILS: Tudo bem, PAULINHO?

PAULO VANNUCHI: Tudo bom.

LILS: PAULINHO, você ficou de me dá um retorno.

PAULO VANNUCHI: É, então, eu liguei pra ele agora, o que aconteceu, é aquela hora ontem eu liguei promeu contato e soube que ele tava na UTI, numa situação grave, porque é respiratória, então fica com aquelas coisas, que não dá pra falar direito, canudo no nariz. Não é nada grave, assim de risco de vida, mas é o tal enfisema. Aí, eu demorei um pouco, consegui falar com o GENRO, que também é da área, conhece e tal. Primeiro eu perguntei pro GENRO se ele tinha condição de DIRETAMENTE falar com a pessoa, e o GENRO respondeu que não, “não tenho contato” aí tem que ser com “ELE” mesmo . Então como é que vamos fazer? Então amanhã eu vou visitá-lo, e eu acabei quando eu vi o recado do MORAES pra ligar, eu liguei pra ELE nesse instante, e “ELE” falou “estou indo daqui a pouco pra lá, já leu nos jornais, então já sabe do que se trata, e vai falar com “ELE”. Agora eu até perguntei “você acha que ele tem condição, de nessas coisas, com canudo no nariz, é, telefonar?”. ELE falou “eu vou lá, vou sentir e te dou um retorno”.

LILS: O canudo tira 30 segundos, caralho! Porra!

PAULO VANNUCHI: Pois é, então eu tô nessa expectativa e te dou uma informação ainda hoje.

LILS: Tá bom querido. Você sabe qual é a ação nossa, quem é que vai… a SÃO PAULO?!

PAULO VANNUCHI: Sei, sei, sei.

LILS: E aquele filho da puta do Procurador antes de dar a notícia da intimação, na quinta-feira, para o advogado, deu pra GLOBONEWS. É um filho da puta mesmo!

PAULO VANNUCHI: Ativista político. Coxinha.

LILS: O problema é o seguinte, PAULINHO, nós temos que comprar essa briga, eu sei que é difícil, sabe?! Eu as vezes fico pensando até que o ARAGÃO deveria cumprir um papel de homem naquela porra, porque o ARAGAO parece nosso amigo, parece, parece, mas tá sempre dizendo “olha…”

PAULO VANNUCHI: É, pessoal tá muito…(interrompido)

LILS: Nós vamos pegar esse de Rondônia agora, eu vou colocar a FATIMA BEZERRA e a MARIA DO ROSÁRIO em cima dele.

PAULO VANNUCHI: É isso mesmo!

LILS: Sabe por que, eu até tirei um sarro da CLARA ANT de ficar procurando o que fazer, faz um movimento das mulheres, contra esse filho da puta! Ele batia na mulher, levava a mulher no culto religioso, deixava ela sem comer, dava chibatada nela, sabe?! Cadê as “mulher de grelo duro” lá do nosso partido?!

PAULO VANNUCHI : (risos) É isso, mestre!

LILS: Tá bom.

PAULO VANNUCHI: Sua fala foi muito boa ontem lá.

LILS: Você foi jantar, ontem?

PAULO VANNUCHI: Fui jantar.

LILS: Com LUCIO?

PAULO VANNUCHI: Não, fui com SERGIO RICARDO, com a REGINA NOVAES.

LILS: O SERGIO RICARDO tá bem ne, rapaz?

PAULO VANNUCHI: Bem, muito bem, eu até vou te mostrar, ele chegou em casa, ele fez uma espécie de provinha aí. Ai segunda feira eu mostro a prova.

LILS: Eu encontrei ele, eu achei o OSMAR PRADO “velhinho”.

PAULO VANNUCHI: Mas foi bom, muito bom!

LILS: Tá bom, querido!

PAULO VANNUCHI: E brilha hoje lá no PT.

LILS: Tchau, tchau

PAULO VANNUCHI: Tchau.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário

“O PT só fez o que todo mundo faz”: a falsificação de Padilha

“Disciplina MST”. Disciplina?