Joel

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O fim da esfera privada

Joel Pinheiro da Fonseca publicou um irônico artigo na Folha de São Paulo de hoje (14 de novembro de 2017). Sim, ainda estamos falando (eu, pelo menos, estou) de William Waack, Leiam abaixo a íntegra do texto.

O que fazer com os monstros que nos rodeiam, uma vez descobertos?

Joel Pinheiro da Fonseca, Folha de São Paulo, 14/11/2017

Há monstros entre nós. Pessoas com as quais você convive diariamente e que escondem por trás da máscara de civilidade uma mente perversa. Sob o manto da impunidade, conversas imorais, pensamentos torpes e atos vergonhosos.

Estou falando daquilo que, a alguns, pareceriam delitos pequenos. Comentários que refletem racismo, machismo, homofobia e tantos outros ódios; piadas ofensivas; conversas pouco republicanas; grosserias sexuais; mentiras conjugais; expor crianças a conteúdo impróprio; sem falar nos atos de corrupção do dia a dia: parar em vaga de deficientes, furar fila. Nada disso tem lugar no século 21. E é por causa dessas condutas “pequenas” que o Brasil segue sendo o país da exploração e da corrupção, esta terra arrasada de miséria, injustiça e sofrimento. Contra isso, quem não se sente indignado é menos humano.

Por muito tempo, toda essa massa de imoralidades ficou escondida do olhar público, convenientemente restrita à esfera privada, segura pela cumplicidade de poucos. Dentro dos museus, nas conversas de bar, em perfis pouco acessados nas redes sociais, em relações abusivas entre quatro paredes. Longe do conhecimento geral.

Não dá mais. Chegou a hora de mudar isso. Tudo que é feito com expectativa de privacidade deve vir a público. A tecnologia já o permite.

A fala ou ação que não se sustenta sob o olhar da sociedade democrática não é legítima.

Avanços inegáveis têm sido feitos. Câmeras e gravadores estão cada vez mais onipresentes. A cumplicidade está dando lugar ao espírito de denúncia pública. Nenhum patrão, nenhum namorado, nenhum colega, nenhum irmão está a salvo. Com um clique, o que se destinava a poucos se torna universal. Que nenhum quarto e nenhum gabinete esteja longe das câmeras e nenhuma conversa passe sem prints. Temos o direito de saber e o dever de agir.

O povo é um juiz justo. Sabemos bem analisar o contexto, buscamos a correta compreensão de cada caso particular. Só não seremos indulgentes com canalhas. Saberemos distinguir entre deslizes ocasionais de sujeitos fundamentalmente bons e manifestações reveladoras de um caráter perverso. Em geral, é óbvio.

Não existe piada ou comentário inocente. Todo ato é político. Até mesmo a arte; especialmente a arte. O mesmo vale para as relações humanas. Sob o olhar do coletivo, a complexidade individual desaparece; é nossa maior virtude. Nenhum opressor passará impune.

O que fazer com esses monstros que nos rodeiam, uma vez que sejam descobertos? Infelizmente, o direito penal tem alcance limitado. Mas assassinar a reputação e arruinar a carreira é uma saída que depende apenas de nós. Essa é a nova regra do jogo. Afinal, você não ia querer trabalhar junto de alguém que defende a escravidão de negros ou a exploração sexual de crianças, não é mesmo?

Não se trata de nada além disso.

É uma pena que a tecnologia não nos permite ir mais longe e devassar aquele último reduto de tudo que é inconfessável: os recônditos secretos da mente. Esse dia chegará, um passo de cada vez. Até lá, a esfera da vida privada nos dará material suficiente.

Não há mais espaço para sombras. Elas pertencem a um passado que não tem nada a nos ensinar. Não peçam compreensão; temos sido compreensivo há 500 anos. Fomos tolerantes em excesso com os pecados de nossos pais. Queremos apenas luz. Tudo será revelado e nada será perdoado. E daí, finalmente, a justiça reinará.

Venha comigo. Não tenha medo. Você não tem nada a esconder, não é mesmo?


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