Fim da picada Dagobah

,

O fim da picada

Deixando a torcida de lado e passando à análise: o que temos de concreto em termos políticos?

O que temos de concreto é que Lula é candidato à presidência da República em 2018. Vejam que espantoso! Apesar de tudo, de todas as investigações, condenações, prisões (e não prisões) da Lava Jato, Lula – aquele que a própria força-tarefa identificou como chefe do maior esquema criminoso de poder da história – está solto e não está inelegível. Se a condenação de Moro for confirmada em segunda instância, mesmo assim Lula pode continuar fazendo campanha (nem que seja por força de liminares concedidas pelo STJ ou pelo STF). Lula será, portanto, o candidato de toda a esquerda e dos eleitores que acham que ele fez um bom governo para os pobres (e que não estão nem aí para o fato de ele e o PT apoiarem ditaduras como a de Maduro e estarem prometendo controlar os meios de comunicação se voltarem ao poder). O que temos de concreto é que o candidato com mais intenções de voto é um autocrata, alguém que não toma a democracia como um valor.

O que mais temos de concreto? Ah! O capitão Bolsonaro também é candidato, apoiado por grande parte da chamada “nova direita”. pelos eleitores mais conservadores e pelos eleitores que não suportam mais o PT. E são muitos: ele é o segundo candidato preferido do eleitorado, de acordo com as pesquisas de opinião. Uma parte considerável da população acha que Bolsonaro não é um político como os outros, que ele é corajoso (tem peito para botar ordem na casa, como se um presidente pudesse fazer isso por cima dos outros poderes) e, mais importante, que ele é honesto (por não ter sido citado na Lava Jato). Mas Bolsonaro (basta ver todas as suas declarações públicas nos últimos trinta anos) é um autocrata, alguém que também não toma a democracia como um valor. E ele corre o risco de disputar um segundo turno com Lula em 2018. É o que temos de concreto.

Apesar de toda a campanha contra a corrupção, pela limpeza ética na política – que nivelou todos os políticos como criminosos, colocando no mesmo saco os que cometem crimes comuns e os que cometem crimes políticos contra a democracia, como se Berlusconi fosse igual a Mussolini, José Sócrates fosse igual a Salazar, Cunha fosse o mesmo que Dirceu e Cabral o mesmo que Lula – estamos sendo conduzidos para uma bifurcação mortal para a democracia: ou a volta de Lula (e do projeto bolivariano do PT) ou a ascensão de um líder autoritário e boçal como Bolsonaro.

Sim, é impossível que boa parte do eleitorado não faça um dos dois raciocínios:

1) Se todo mundo rouba, melhor o Lula, que pelo menos se preocupa com os pobres.

2) Se todo mundo rouba, quem sabe não chegou a hora de eleger um outsider honesto e corajoso como Bolsonaro (para dar um curto-circuito no velho sistema que apodreceu).

Os demais pretendentes não são, pelo menos por enquanto, alternativas reais. Marina murchou. Ciro não será candidato concorrendo com Lula (e se for, no lugar de Lula, se atrapalhará mais uma vez na campanha graças ao seu destempero e inconsistência). Joaquim Barbosa e Luciano Huck são balões de ensaio. Álvaro Dias e o tal Podemos (um populismo clássico) são futuríveis. Alckmin, como sempre, tem pouquíssimas chances numa disputa nacional. Dória não tem o apoio do seu partido, que está desmoralizado por uma sucessão de erros (que continuará cometendo, sobretudo com a luta interna fratricida e insana, que já começou, entre os tucanos). Sim, o PSDB ainda cometerá muitos erros, contribuindo para nos jogar no colo de Lula (o mais provável) ou de Bolsonaro.

Pode até ser que Lula não consiga vencer a eleição (em razão do desgaste do PT) ou se diplomar (por força de alguma decisão judicial), mas é improvável que ele não seja candidato e faça uma campanha terrível e destruidora (aliás, ele já está em campanha). Pode até ser que Bolsonaro murche durante a campanha, mas é improvável que ele não seja candidato e não faça uma campanha polarizada contra Lula. A polarização da campanha entre Lula e Bolsonaro, independentemente do resultado eleitoral, exilará a sociedade brasileira em algum lugar do passado. Não será uma campanha eleitoral normal, como as que ocorrem em todas as democracias: será uma guerra. A polarização que se anuncia para 2018 iniciará uma guerra civil fria de longa duração no Brasil, espalhando inimizade e destruindo aceleradamente nosso capital social (será como uma campanha Dilma 2014, elevada à enésima potência). Quem vencer, terá dificuldade de governar. O PT sabe que esta é a última chance de implantar seu projeto neopopulista e autoritário para o país e não aceitará o resultado do pleito, a menos que seja o vencedor. Amplos setores sociais (não só os bolsonaristas, mas a maior parte da opinião pública) não aceitarão de bom grado a volta do PT ao poder.

A não ser que ocorra algum fato extraordinário, não há saída boa para a democracia brasileira. Pode ocorrer algum fato extraordinário? É claro que pode. Lula pode ser impedido de fazer campanha (é improvável, mas é possível). Bolsonaro pode se liquefazer no primeiro mês de campanha (o que também é improvável, a menos que Lula não seja candidato). Algum outro candidato com chances de vitória pode despontar nos próximos meses com um discurso de centro tipo Macron (que isole a esquerda e a direita). Alguma coisa assim pode acontecer, mas não em função de um projeto político que já esteja em curso. Se acontecer, será um fruto do acaso.

Na verdade – e aqui está toda nossa miséria – só há um projeto político propriamente dito em cena: o projeto do lulopetismo. Bolsonaro não tem projeto (tem seguidores fiéis, mas não tem partido, não tem quadros, não tem programa, ninguém sabe o que ele pensa sobre todos os temas relevantes para tirar o país da crise). O PMDB e o PSDB – devastados pela Lava Jato, sobretudo pela armação de Janot e Joesley turbinada pela Globo – não têm unidade para propor nada. O PMDB, fisiológico e corrupto, não terá candidato (sobretudo depois da destruição de Temer promovida pelo PT e pela Lava Jato). O PSDB – que poderia ter um projeto alternativo ao PT – se destruirá na luta interna antes de ter um candidato “de consenso”. O PP (que é mais uma empresa de coligações do que um partido) não conta muito (a não ser no Sul do país) e também não tem projeto algum. O DEM é pequeno demais e não tem um candidato viável (a menos que acolha algum perdedor da disputa interna do PSDB), além do que não tem mais tempo hábil para se reinventar e construir um novo projeto. O projeto de Marina miou. O projeto do boquirroto Ciro não é levado a sério por ninguém. Os demais outsiders (como Joaquim e Luciano) não têm projeto, nem organização, nem base social, o mesmo valendo para o tal Podemos. Com todos esses, no máximo, não teremos uma eleição, mas uma bolsa de apostas na loteria do calculismo eleitoreiro.

Para todos os efeitos é como se tivéssemos abandonado a política para esperar a manifestação de algum fenômeno extraordinário – tipo Trump ou Macron – apostando que alguém correndo por fora possa decidir o pleito.

Toda a espetacularização da cruzada moralista de limpeza, não contribuiu em nada para o surgimento de uma saída democrática para a nossa crise política. É claro que devemos defender o cumprimento das leis e a punição dos culpados por qualquer crime. Mas não somos da polícia, do ministério público ou do judiciário. A nós, cidadãos, cabe – se somos democratas – fazer política democrática. Isso não pode ser trocado pela torcida para que a justiça puna os corruptos. Mesmo porque, no período atual, não há tempo – antes de 2018 – para que a Lava Jato e as operações congêneres consigam limpar a política de sorte a nos oferecer um novo ambiente não viciado pelas práticas tradicionais de um sistema que apodreceu. Não há tempo. O destino da Lava Jato não poderá ser muito diferente do da operação Mãos Limpas (na Itália dos anos 1990): não porque os seus atores não queiram fazer diferente, mas porque uma parte do Estado não pode reformar o Estado de cima para baixo e da noite para o dia. Isso exigiria muito mais tempo e forte apoio da sociedade, além de uma transição política (sem política, não há solução boa para a democracia e desembocaremos num Termidor). Não vai acontecer agora. Não é concreto.

Novamente, o que temos de concreto? Temos Lula e Dirceu (os chefes da verdadeira organização política criminosa) soltos, delinquindo e fazendo política antidemocrática. Temos todos os políticos desmoralizados e igualados como corruptos (com exceção de autocratas, como Bolsonaro, tidos por honestos). A esta situação nos levou uma década de domínio do PT e da esquerda autocrática sobre o Estado brasileiro: o fim da política. A esta situação nos levou a cruzada moralista contra a política – a antipolítica robespierriana da pureza – levada a efeito pelos procuradores da Lava Jato (com o apoio da direita autocrática e de parte considerável da população que não acredita na democracia e quer separar os bons dos maus, na base do moralismo).

Se as ruas não falarem, não há muito o que fazer a não ser esperar por um milagre. Oremos! Estamos chegando ao fim da picada.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário