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O fim está próximo

A posição de qualquer democrata com dois neurônios funcionando é clara. Condenar as decisões erradas de Toffoli e Alexandre de Moraes, sem deixar de alertar para o fato de que há uma orquestração de bolsonaristas e lavajatistas para deslegitimar o STF. Se não faz isso, serve aos propósitos antidemocráticos dessas duas forças políticas.

Vejam como andam as coisas nas hostes bolsonaristas (com certo apoio da imprensa). Critiquei duramente a medida de Alexandre de Moraes, mas alertei para o fato de que há uma orquestração contra o STF. Um bolsonarista que se chama BRASIL (uma dessas pessoas-bot cujo nome é seguido de números) deu a seguinte resposta:

A fala é meio escatológica, milenarista, apocalíptica: o fim está próximo. A fala é golpista: aproxima-se o dia do Armagedon onde as hostes do bem aplastarão os exércitos do mal, os corruptos e comunistas (que, supostamente, controlam o STF e outras instituições).

Não foi a única resposta que recebi dizendo que agora não adianta mais e que o fim está próximo. O fim? Que fim? O fim do Supremo Tribunal Federal? A conquista e ocupação do STF com elementos bolsonaristas e lavajatistas? O governo de ocupação quer também estabelecer seus domínios na suprema Corte do país (tal como fizeram os populistas de esquerda, como Maduro e os populistas de direita, como Erdogan e Orbán)?

Será que nossos jornalistas e analistas políticos não se deram conta do perigo? Será que não entenderam que, ao defenderem corretamente a liberdade de imprensa sem alertar para a orquestração ora em curso para depredar e desmoralizar o tribunal, estão fazendo o jogo do populismo-autoritário que não quer nenhuma instituição capaz de por freio às suas pretensões autocratizantes?

É triste, meus amigos e amigas. E é grave. A resposta do tal @claudecir123456 não saiu da cabeça dele. Saiu da cabeça dos que comandam centralizadamente a manipulação das mídias sociais. Saiu da cabeça de gente que está ocupando o núcleo-duro, anti-establishment, do governo: Eduardo e seus irmãos e o próprio Jair Bolsonaro.

Contra um erro cometido por dois ministros, que pode ser corrigido, açula-se a massa contra uma instituição que, mal ou bem, é uma das únicas capazes de garantir que não vamos ter uma mudança de regime, como querem os bolsonaristas.

Esta é a diretiva da ala anti-establishment do governo, quer dizer de Bolsonaro, seus filhos, seu guru e seus sequazes:

De certo modo, não deixa de ser importante o que está acontecendo agora, com todo mundo defendendo a liberdade de imprensa absoluta – inclusive os que são contra a democracia. Quando a imprensa denunciar pesado seus atropelos ao Estado democrático de direito vamos cobrar de todos eles a mesma postura.

Por que os bolsonaristas e lavajatistas que agora, no caso Toffoli-Moraes, defendem a liberdade de imprensa com tanto ardor, não fizeram o mesmo quando a imprensa denunciou os crimes de Queiroz e Flávio Bolsonaro? Por que a atacaram, chamando-a de “extrema-imprensa” comunista?

Pois é…

Existem ainda jornalistas que estão percebendo a trampa. É o caso de Carlos Andreazza, no artigo de ontem (16/04/2019), no seu blog da Jovem Pan, intitulado Cuidado com os oportunistas da censura.

É o caso também de Ricardo Noblat, que hoje (17/04/2019), no seu blog na Veja, publicou o excelente texto Querem encurralar o supremo: o que está por trás.

E é o caso de Reinaldo Azevedo, numa série de cinco posts de hoje no seu blog do UOL, intitulada Imbróglio 1, 2, 3, 4 e 5.

Todos estão dizendo mais ou menos a mesma coisa. Cuidado com a orquestração contra uma instituição do Estado democrático de direito, a instituição máxima do poder judiciário, o Supremo Tribunal Federal.

Não, não há uma briga ocasional entre PGR e MP, de um lado, e STF, de outro. O que há – deixando de lado, por ora, os erros boçais de ministros da suprema Corte (como os cometidos no caso Toffoli-Moraes e outros que o precederam) – é uma inadequação institucional desse ente misterioso chamado Ministério Público.

Tenham ou não razão os procuradores, neste caso em que não querem ser investigados e em todos os outros em que se envolveram, a democracia brasileira não deixará de ser refém do Ministério Público enquanto for mantido o atual desenho institucional. Trata-se de um estamento corporativo do Estado que atua politicamente, sem mandato popular para tanto, com inserção constitucional nebulosa (não se sabe a qual dos três legítimos poderes se subordina e a Constituição não consigna um quarto poder) e, o que é pior, sem controle externo efetivo (eles são controlados, na prática, pela própria categoria – o que caracteriza controle interno, não externo).

O MP brasileiro é uma jaboticaba (um contrabando que passou sem a devida vigilância dos constituintes de 1988): um erro pelo qual estamos pagando caro.

Nenhum país democrático do mundo suportaria viver permanentemente sob a ameaça de um sindicato estatal que atua com a mesma dinâmica de uma milícia, embora oficial e que ameaça, quando lhe dá na telha – ou isso convém aos seus propósitos políticos -, todos os legítimos poderes.

No Brasil, digamos com todas as letras, uma parte do MP instrumentalizou politicamente a operação Lava Jato para eleger Bolsonaro como etapa intermediária que visa, mais adiante, colocar no poder um dos seus. Constituíram assim, de facto, um partido informal (um “Partido da Polícia”), uma espécie de liga da justiça – supostos cruzados de uma limpeza ética – agregando procuradores de uma força tarefa permanente, que se quer eterna (outra “instituição” que não existe constitucionalmente), juízes e policiais (numa combinação incestuosa que junta quem denuncia, quem investiga, quem acusa, quem julga e quem pune).

Jacobinos, esses analfabetos democráticos acham que estão fazendo, com duzentos anos de atraso, a Revolução Francesa no Brasil. Quem não acredita nisso, deve anotar para nos cobrar depois – e também para ser cobrado pela sociedade brasileira, quando passar esse tempo tenebroso de caça às bruxas, corte de cabeças e desrazão.

O bolsonarismo anti-establishment, que quer usar o governo conquistado eleitoralmente para mudar o regime (transformando nossa democracia eleitoral em uma democracia menos liberal ou em uma autocracia eleitoral), apenas se aproveita da confusão geral.


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A decisão de Alexandre de Moraes foi estúpida, mas há um ataque orquestrado ao STF

Relatos de um sobrevivente (por enquanto)