Degeneração

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O fracasso das tentativas de depor Temer e a aposta na degeneração

O fracasso das sucessivas tentativas de depor Temer subiu à cabeça dos jacobinos, dos moralistas, dos interesseiros, dos pescadores de águas turvas, das cassandras e do jornalismo cafajeste que dá guarida aos aventureiros e amplifica suas vozes. De agora em diante – anotem – será só estímulo ao ressentimento social e à vontade de revanche, aposta no quanto pior melhor, na intriga, na calúnia, na difamação. Tudo com o objetivo de desestabilizar cada vez mais o governo e as instituições que ainda querem defender as regras do Estado democrático de direito e uma certa civilidade nas disputas políticas.

Não importam mais os resultados. Mesmo que o governo e o Congresso conseguissem aprovar, em um ano, todas as reformas que o país não conseguiu fazer em meio século, isso de nada adiantaria.

O Brasil entrou numa espiral de destruição, semelhante às que se configuram nas antessalas dos processos revolucionários ou dos golpes de Estado. Só que não há revolução nem golpe à vista. Não há povo, quer dizer, base social mobilizada para uma insurreição popular, nem qualquer força política com condições de quebrar a legalidade. Isso tem um nome: degeneração.

Em vez de buscarem uma saída democrática para a crise política, os irresponsáveis que estão apostando na terra arrasada, mesmo sem o saber, estão praticando um ritual macabro de invocação de um salvador. Há um perigo real: o tal salvador pode aparecer mesmo e pode nos levar por um percurso sombrio, onde nossa democracia será derruída e não fortalecida.

Como Temer não será deposto, não haverá insurreição popular ou guerra civil e nem um golpe de Estado promovido por uma intervenção militar, o desfecho mais provável da atual crise política passará necessariamente pela eleição presidencial de 2018. A próxima campanha eleitoral será o terreno em que as forças políticas se confrontarão. Se for possível uma saída democrática ela deverá ser construída nos próximos meses, tendo em vista o próximo pleito. E é da campanha e das urnas que vêm também os maiores perigos para a democracia.

Toda essa cruzada contra a corrupção não terá, necessariamente, um desfecho positivo. Ainda que o combate à corrupção seja fundamental, a corrupção no Brasil não vai diminuir e sim aumentar se nosso capital social for dilapidado por uma polarização entre dois candidatos do campo autocrático.

É preciso ver que nosso sistema político não foi corroído da noite para o dia. Em certo sentido este é o “estado natural” – ou sujeito ao devir possível – do que não é, nem nunca foi, puro. É o sistema político realmente existente, compatível com (ou conforme a) uma sociedade que não tem os níveis de capital social da Noruega, da Islândia, da Suécia, da Nova Zelândia ou da Dinamarca, porém está mais perto de Gana, da Malásia, da Namíbia, da Guiana ou do Senegal.

Mas não se ouviu dizer que esse sistema – em estado um tanto avançado de apodrecimento – tenha investido contra as liberdades democráticas ou tentado autocratizar (por exemplo, bolivarianizar – como queria e quer o PT e seus aliados ideológicos) o nosso regime político. Assim, do ponto de vista da democracia, não estão dadas as condições para se abrir mão da política que pode ser feita pelos (e com os) seres imperfeitos e sujos que compõem o sistema político. A maioria desse sistema político, a despeito do envolvimento de boa parte dos seus agentes com a corrupção endêmica na política, não tem motivos para restringir as liberdades democráticas e autocratizar o regime político vigente no Brasil.

A mesma coisa não se pode dizer dos que se identificam como esquerda (com seus candidatos Lula ou Haddad ou Boulos, ou Ciro, ou Marina-Molon-Randolfe) ou dos que se identificam como direita.(com seu candidato Bolsonaro).

Se a eleição fosse feita nas universidades, nas organizações não-governamentais, nos sindicatos e associações profissionais, na chamada mídia alternativa, nos escritórios de advocacia, nas representações das organizações internacionais no Brasil e nas bases do neopopulismo que se concentram nas regiões de menor IDH do país, a vitória seria de Lula ou de algum candidato do campo autocrático (dito de esquerda).

Se a eleição fosse feita nos grupos que se declaram de direita no Facebook e em outras mídias sociais, a vitória seria de Bolsonaro (que também é um candidato do campo autocrático).

No entanto… se a eleição fosse feita no parlamento – sim, neste execrado e carcomido parlamento corrupto que temos – a vitória seria de um candidato do campo democrático.

Apostar na degeneração, tentar explodir (ou implodir) o sistema político que existe no Brasil, sob a alegação de que é preciso fazer uma grande limpeza, vai apenas reforçar uma candidatura autocrática (seja dita de esquerda ou de direita).

Enganam-se, portanto, os faxineiros das galáxias, que pensam que estão prestando um grande serviço à democracia ao tentarem instrumentalizar politicamente a operação Lava Jato para fazer uma limpeza ética. Isso se parece com aquelas propostas tenebrosas de limpeza étnica. Há algo obviamente em comum na limpeza ética e na limpeza étnica: a limpeza.

Este é o ponto. Estado de direito não é estado de limpeza (de honestidade, de pureza e de integridade). Foi apenas uma fórmula democrática, encontrada pelos modernos, para impedir que o Estado-nação avance sobre os direitos dos cidadãos.


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