Cuidado Golpe

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O golpe do “Caixa 2”

Não é o Caixa 2 que está em discussão. Caixa 2 é o menor dos problemas. Caixa 2 foi um truque usado pela dupla de advogados da organização criminosa – Thomaz Bastos e Arnaldo Malheiros – para esconder o que o PT fazia (dizendo que todo mundo faz igual). Mas… está tão evidente que só não vê quem não quer:

Dinheiro de crime comum pode ser lavado por meio de Caixa 1.

Dinheiro para cometer crime político (contra a democracia) vai para o Caixa 3 (por exemplo, para as contas secretas abertas pela Odebrecht para guardar o dinheiro roubado pelo PT e para financiar ações que tinham como objetivo bolivarianizar o regime).

Embora isso seja condenável, a questão central não é não declarar o dinheiro recebido (Caixa 2).

Para não cair no golpe, devemos fazer apenas duas perguntas:

1) de onde veio o dinheiro (eram recursos lícitos ou ilícitos)? e

2) o dinheiro estava sendo usado para fazer o quê (para campanhas eleitorais, para enriquecer pessoas ou para fraudar a democracia, tomar o Estado de assalto e bolivarianizar – ainda que à brasileira – o regime político)?

Analistas que não acreditam que o PT queria bolivarianizar o regime, mas apenas roubar para enriquecer, como faz boa parte dos políticos de todos os partidos, não podem fazer análises úteis. Suas análises reforçarão o golpe Bastos-Malheiros, aplicado por Lula e reaplicado agora na delação orquestrada por Emílio Odebrecht, de que todos são iguais.

Este é o problema das análises de O Antagonista que, objetivamente, após o impeachment, começaram a prestar um serviço aos que querem confundir tudo. Por que? Porque se confundirmos tudo o PT escapará, com grandes chances de voltar ao poder: “Se todos roubam, por que não Lula?” – pensarão milhões de eleitores. Aí só resta mesmo torcer para que a justiça resolva o problema e acender velas durante a noite para que Lula seja condenado em duas instâncias em tempo hábil e fique inelegível. Resultado: a análise política vira torcida.

A tese desses analistas, como Diogo Mainardi, é a seguinte: “não tem direita, não tem esquerda; é um bando de salafrários que se unem para roubar juntos”.

Ora, se for assim, não há mais lugar para a política. Vamos jogar tudo no chão para ver como é que fica. Entretanto, um choque mortal no velho sistema político que apodreceu não adiantará. A democratização das instituições exige transição. A democracia não pode ser reinstalada, como um software que deu defeito, reinicializando-se o sistema. A transição democrática é exercício da política, não intervenção ex machina, de um poder restaurador, salvador, redentor, a partir do alto (nem mesmo do poder judiciário). Todo moralismo em política favorece à autocracia, não à democracia.

Não se trata apenas de um populista enganador e ladrão, como Lula. Há um staff. Há dirigentes. Eu e alguns outros, por exemplo, conhecemos todos eles de longa data, sabemos o que pensam. Os assessores estratégicos (os dirigentes desse “partido interno”) são até honestos individualmente e estão convencidos da justeza do marxismo-leninismo. Mas vá-se lá dizer-lhes – aos que, por moralismo ou por interesse, gritam “Fora Todos” – que há um projeto para violar a democracia!

O PT, caso volte ao governo, tem uma pauta autocratizante já claramente formulada: controle partidário-governamental (disfarçado de social ou civil) dos meios de comunicação e da internet, fortalecimento de forças nacionais de segurança militarizadas subordinadas ao governo e não como entes de Estado, alteração dos currículos de formação de oficiais das FFAA e um plano de cooptação desses oficiais, coligação com regimes ditatoriais ou protoditatoriais e importação de agentes desses regimes, partidocracia (voto em lista pré-ordenada, fidelidade partidária e financiamento exclusivamente estatal de campanha), criação de novas instâncias participativas dirigidas pelo partido do governo para cercar a institucionalidade vigente e subordinar a dinâmica social à lógica do Estado aparelhado (com a instituição da participação assembleísta e conselhista arrebanhada e controlada por “movimentos sociais”), plebiscito para convocar uma Constituinte exclusiva de reforma política que legalize e legitime tudo isso. O objetivo do PT, caso volte ao governo, é nunca mais sair do governo (abolindo, como fazem seus aliados bolivarianos, a rotatividade ou alternância democrática). Ou seja, o PT tem um projeto contra a democracia. E desta vez, se conseguir voltar, não vai cometer os mesmos erros que cometeu. Ademais vai nos perseguir – os democratas – impiedosamente.

Nas circunstâncias atuais, só um movimento vigoroso de pessoas, nas ruas e em todo lugar, pode afastar o perigo da volta de Lula (o Chefe) e da continuidade de sua organização criminosa (o PT). Eles não cometeram crimes comuns. Eles não apenas roubaram (como quase todos roubam). Eles cometeram crime político contra a democracia (para bolivarianizar o regime).

Portanto, não devemos nos impressionar com os que dizem que Lula e o PT já são carta fora do baralho e que Lula vai ser preso e vai ficar inelegível. Essas pessoas não são analistas políticos, são torcedores. Não sabem bem o que dizem: eles acham que a justiça, (numa sequência de decisões irreformáveis de dois ou três juízes heroicos) vai resolver todos os problemas da política, o que é uma tolice, inclusive porque nosso arcabouço legal não prevê crimes políticos. Por isso, não podemos acreditar em uma palavra do que eles dizem. Isso pode acontecer, é claro, mas é muito improvável.

Se as ruas não falarem, as instituições vão tentar acomodar as coisas para não enfurecer as gangues que estão enraizadas em certos nichos hegemonizados pela esquerda (como os falsos movimentos sociais e ongs, o movimento sindical apelegado, as universidades, a rede suja de blogs e sites, os escritórios de advocacia, os funcionários de organismos internacionais, os meios artísticos e culturais etc.). Por isso, a oposição popular e a resistência democrática têm que continuar ativas, impedindo que tudo se resolva por um acordão de conivência. Do contrário cairemos numa bifurcação infernal em 2018, tendo Lula de um lado e Bolsonaro de outro (mil vezes pior do que ter de escolher entre Freixo e Crivella). A democracia vai ficar imprensada entre dois autocratas e poderá ser gravemente ferida.

Devemos concordar com a pauta do dia 26/03, pelo fim do foro privilegiado (e devemos repudiar, é claro, os contrabandos Fora Temer, Fora Todos, Contra o Estatuto do Desarmamento e outras sandices inventadas por bolsonaristas e olavistas e repetidas por pessoas de pouco trato intelectual e nenhuma experiência política). Mas este, no momento, está longe de ser o assunto mais importante. O assunto mais importante é contra o acordão de conivência que se desenha, não por fora, mas por dentro das instituições que estão funcionando (que inclui desde a salvação da Odebrecht e das outras empreiteiras bandidas, passando por qualquer anistia aos que receberam dinheiro do crime, até à impunidade de Lula: o chefe da organização criminosa).

Assim como o impeachment não teria acontecido sem as ruas, a transição democrática no Brasil não vai acontecer sem as ruas. Pessoas como Reinaldo Azevedo e outros legalistas, que querem reduzir a democracia ao Estado de direito, têm repetido que tudo tem que ser feito dentro das instituições. Está errado! Tudo tem que ser feito dentro da lei – o que é outra coisa. Ir às ruas é também fazer política, dentro da lei (na medida em que, numa democracia, a liberdade de manifestação é garantida constitucionalmente). Se a cidadania pendurar as chuteiras e for para o sofá assistir tudo pela TV, haverá um acordão, que: ou favorecerá a volta de Lula e do PT ao governo, ou nos colocará na pior situação imaginável: a de ter de escolher entre dois autocratas (Lula ou Bolsonaro).

 

 

 

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