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O governo Bolsonaro não vai cair e nem vai transformar o Brasil numa ditadura, mas as previsões são sombrias

Não acho que o governo Bolsonaro vai cair. Provavelmente não vai, até porque não há quem o derrube. O problema, para a democracia, não é se o governo vai sobreviver e como Jair Bolsonaro vai conseguir, aos tropeços ou não, cumprir seu mandato e sim o que vai acontecer na sociedade brasileira durante o próximo período.

Sei que as pollyannas de sempre – inclusive as que se dedicam à análise política – discordarão do que vem a seguir (elas só acordam do wishful thinking na “cadeira do dragão”). Mas o que vejo pela frente é um cenário de guerra civil fria de longa duração, com ideias e práticas autoritárias ganhando terreno na sociedade brasileira, sem que exista uma oposição democrática formal organizada (o PT não é democrático e, além disso, cometeu a besteira de se amarrar ao pescoço de Lula para afundar junto com ele).

Nestas circunstâncias, tudo depende do que nós – os democratas, essa minoria insignificante de agentes fermentadores da formação da opinião pública – formos capazes de fazer na e a partir da sociedade.

Estamos avançando perigosamente para uma mudança de estado (ou de “espaço de fase” na política). O bolsonarismo – turbinado, objetivamente, pelo lavajatismo militante (ou seja, pela instrumentalização política da operação Lava Jato, com evidentes objetivos de poder) – está investindo contra as instituições do Estado democrático de direito e tem, como objetivo precípuo, não instalar uma administração normal após uma troca democrática de governo e sim insuflar uma “revolução para trás” visando uma mudança de regime.

Não faltam indicadores. Só não vê quem não quer. A imprensa – chamada pelos bolsonaristas de “extrema-imprensa” – está sendo sistematicamente atacada (não apenas um ou outro órgão). O STF está sendo sistematicamente atacado (não apenas um ou outro ministro). Ontem (17/03/2019), em vários lugares do país, pediram o fechamento da Suprema Corte (caracterizada como último refúgio da corrupção, como uma instituição de bandidos, em alguns casos disseram até financiada pelo narcotráfico). Ou seja, importantes instituições do Estado democrático de direito estão sendo atacadas.

Um cartaz que rodou nas mídias sociais com dezenas de milhares de compartilhamentos, serve como termômetro do ataque bolsonarista ao STF:

Outro cartaz insano que começou a circular nos meios bolsonaristas (e, desgraçadamente, também lavajatistas) é o seguinte:

Ora, pode-se discordar do posicionamento de alguns ministros do Supremo Tribunal Federal, mas não se pode pedir a dissolução de uma instituição que está no topo de um legítimo poder da República. Se isso fosse feito por meia dúzia de malucos, vá-lá. Mas, não. O ataque, organizado, tem a chancela dos membros da mesma família à qual pertence um dos filhos que falou que bastava mandar “um cabo e um soldado” para fechar a Corte.

O presidente da República, sua família (estranha e indevidamente) governante e alguns dos seus ministros mais importantes estão agora sob a influência deletéria de malucos irresponsáveis como Olavo de Carvalho – um conspiracionista antiglobalista, macarthista, reacionário de extrema-direita, notório inimigo da democracia e da paz.

Minhas previsões, portanto, não são nada boas.

Virá por aí uma ditadura, em termos clássicos? Também é improvável. Não que os bolsonaristas não queiram (e uma parte dos militares de menor patente também) e sim por falta de condições objetivas (inclusive internacionais). Mas é certo que nossa democracia se tornará, progressivamente, menos liberal.

Liberal, aliás, tornou-se uma palavra equívoca. A suposta brincadeira (ou foi a sério?) de Paulo Guedes, na noite de 17 de março, em Whashington, no jantar dos antiglobalistas, ao dizer a Olavo de Carvalho, na presença de Bolsonaro: “Você é o líder da revolução” (ou, na versão olavista de Josias Teófilo: “Você é o nosso líder”), é para lá de preocupante.

Se ele falou a sério, então ficam claras duas coisas (que já sabíamos): 1) liberais-econômicos não são necessariamente liberais-políticos (quer dizer, democratas); e 2) o bolsonarismo não queria uma troca democrática de governo e sim uma mudança de regime.

Se foi uma brincadeira, é grave também. É como se Guedes dissesse. Vocês podem fazer a revolução que quiserem na política, podem adotar a narrativa ideológica mais obscurantista (como o conspiracionismo antiglobalista olavista-bannonista): desde que me deixem operar a economia, tanto faz. É um erro grave. É característico de analfabetos democráticos. Equivale a dizer: posso trabalhar para uma ditadura como a de Pinochet ou para um regime i-liberal como o de Órban. Ou seja, esse negócio de democracia não tem a menor importância.

A adesão a explicações economicistas da realidade social tem, como estamos vendo, severos efeitos colaterais. O principal deles é que a democracia – não habitando o reino da necessidade e dos interesses egotistas: fonte de toda ação humana para os seguidores de doutrinas do liberalismo-econômico – perde completamente o sentido. E é óbvio que não se justifica mais uma associação automática entre instituições do capitalismo liberal e regimes democráticos. Há muitos estudos sérios mostrando que países autocráticos estão se aproveitando dos mecanismos e processos econômicos liberais, próprios do capitalismo, sem adotarem, entretanto, instituições e procedimentos políticos liberais, ou seja, sem percorrerem a transição para a democracia. Citamos apenas dois mais recentes, a título de exemplos: Modernização e autoritarismo, de Roberto Foa (2018) e Quando a democracia não é mais o único caminho para a prosperidade, do mesmo Foa e de Yascha Mounk, publicado no The Wall Street Journal em 01 de março de 2019.

Os analistas que refugavam o bolsonarismo (que é puro olavismo, bannonnismo, conspiracionismo antiglobalista) diziam: “Ah! Mas temos o Paulo Guedes liberal no comando”. Mas, como estamos vendo, de liberal (no sentido político do termo), Guedes parece não ter nada. O que as pollyannas da análise política vão dizer agora? “Ah! Mas temos os Generais segurando a barra”. Beira o ridículo.

Os militares que querem apenas cumprir sua missão num regime democrático deveriam ficar de sobreaviso. É bom que eles tenham consciência de que seu chefe não quer só isso. E de que os filhos e os seguidores do seu chefe (bolsonaristas-olavistas) querem fazer uma “revolução para trás”. E eles – esses militares – vão, tão certo como o sol vai raiar amanhã, levar parte da culpa pela aventura autoritária ou pelo empreendimento desastrado. Aliás, diante do ataque aberto, truculento e boçal, de Olavo de Carvalho, o “Rasputin da Virgínia”, ao vice-presidente Hamilton Mourão, os generais deveriam ficar bem atentos às tentativas do bolsonarismo, que virão (ou já estão em curso), de conquistar as bases das forças armadas (da oficialidade média para baixo). É preciso lembrar aqui da estratégia do Jango com os sargentos (que deu errado) e a de Chávez-Maduro (que conseguiu produzir mais de mil generais alinhados).

De qualquer modo os militares, por mais disciplinados e patriotas que sejam, não têm um pensamento liberal (no sentido político do termo). Respeitam, no melhor dos casos, o Estado de direito, mas não morrem de amores pela democracia. Podem até nos livrar do desgoverno, mas não podem impedir que nossa democracia se torne menos liberal.

Nestas circunstâncias, a resistência democrática ao avanço de ideias e práticas autoritárias na sociedade está na ordem do dia. Trata-se de uma resistência pacífica, porém ativa. Não tem nada a ver com a anunciada “resistência democrática” do PT – que roubou a expressão para desvirtuá-la. É uma resistência democrática, não autocrática (e que resiste tanto ao bolsonarismo quanto ao lulopetismo). É a resistência dos que tomam a democracia como um valor universal e como o principal valor da vida pública.

Repetindo. A resistência democrática é uma resistência pacífica e democrática, não guerreira e autocrática (e por isso resiste ao avanço tanto do bolsonarismo quanto do lulopetismo). Com um pouco dela, é possível que consigamos sobreviver. Mas totalmente sem ela, nós, os amantes da liberdade, podemos começar a arrumar as malas.


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