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O grande desafio dos democratas

É necessário fazer duas distinções em qualquer análise do momento político atual:

=> Primeiro é preciso distinguir o futuro governo Bolsonaro do bolsonarismo.

=> Segundo é preciso distinguir os bolsonaristas dos eleitores normais de Bolsonaro.

Quanto ao primeiro ponto. Oficialmente, o governo Bolsonaro não começou. Mas como a transição já está em curso, com Bolsonaro nomeando auxiliares (sim, todos os nomeados para o governo, em qualquer escalão, sobretudo no primeiro, são auxiliares do presidente) e anunciando medidas de governo, é óbvio que já se delineia o desenho do novo governo. Dizer que não se pode criticar as nomeações e os anúncios do presidente eleito porque Bolsonaro ainda não tomou posse oficialmente, é uma besteira. São atos políticos e, numa democracia, todos os atos políticos podem ser criticados.

Ainda sobre o primeiro ponto. É óbvio que o novo governo está sendo influenciado pelos bolsonaristas. Mas não é certo que o bolsonarismo dará a tônica do novo governo (embora Bolsonaro e sua família sejam bolsonaristas, eles têm de atender aos interesses de outras forças políticas que comporão sua base parlamentar e governativa em geral). Assim, é prematuro afirmar que o governo Bolsonaro será um governo bolsonarista. Os bolsonaristas estão, neste momento, travando uma acirrada luta interna para influenciar o governo que tomará posse oficialmente no início de 2019.

Quanto ao segundo ponto. Os bolsonaristas – os militantes fieis, seguidores fanáticos de Bolsonaro, jihadistas de iPhone, combatentes no WhatsApp e em outras mídias sociais, anticomunistas na vibe da guerra fria, macarthistas, antiglobalistas conspiracionistas (como os olavistas), monarquistas tradicionalistas e religiosos fundamentalistas (tipo TFP), militaristas-intervencionistas, jacobinos antagonistas da antipolítica da terra arrasada etc. – não constituem 10% dos eleitores normais de Bolsonaro. Estes não são os eleitores normais de Bolsonaro (alguns nem mesmo acreditam em Bolsonaro e estão usando o capitão como Cavalo de Troia para veicular suas ideias autocráticas, reacionárias e regressivas).

São ditos normais os eleitores que votaram em Bolsonaro porque não encontraram alternativa aceitável, porque queriam renovação, porque estavam com raiva da velha política e revoltados com a corrupção, porque não admitiam a volta do PT ao governo, porque estavam atemorizados com os descalabros da segurança pública ou porque, tendo mentalidade conservadora nos costumes, acreditaram na narrativa de que a esquerda é composta de comuno-larápios que querem trair a pátria, sabotar a nação, decretar a morte de deus, destruir a família monogâmica e a religião (inclusive a religião de Estado) como esteios da civilização ocidental cristã, transformar seus filhos em gays, pervertê-los com o uso de drogas, criminalizar os policiais e as forças da ordem e soltar os bandidos (principalmente Lula).

Todos estes últimos, formam a grande massa dos eleitores de Bolsonaro e devem, somados, chegar a quase 50 milhões de pessoas. Os cerca de 6 milhões de bolsonaristas estão tentando capturar esses 50 milhões para suas ideologias. Mas não é provável que consigam fazer isso facilmente, pois tais pessoas não estão infectadas pelas crenças perversas e antidemocráticas bolsonaristas. Sua maior chance é a de capturar boa parte dos antipetistas (sim, porque o neopopulismo lulopetista fez tão mal à nossa democracia, que os que a ele se opuseram virando antipetistas caíram, em grande parte, no colo de outro populismo, autoritário, bolsonarista).

A alegação dos bolsonaristas, no seu esforço para infectar os simples eleitores de Bolsonaro com o bolsonarismo, é a de que o PT ainda domina as instituições do Estado e da sociedade e de que ele pode voltar, em 2022 ou até antes, se não forem erradicados da face da Terra, presos ou expulsos do Brasil, na base do lema da ditadura militar: “Brasil: Ame-o ou Deixe-o”). Ou seja, é uma narrativa de guerra. As pessoas de bem não podem depor suas armas enquanto o perigo estiver presente: a volta dos comunistas que são corruptos ou dos corruptos que estão a serviço dos comunistas. Isso aponta para uma guerra civil fria de longa duração, que vai atravessar o primeiro mandato de Bolsonaro. Aliás, como queria o PT, que sabe que só terá chances de assumir o poder num clima de guerra: guerra da esquerda, supostamente progressista e democrática, contra a direita, que chama de fascista.

Muitas pessoas razoáveis, que votaram em Bolsonaro, mas não são antidemocráticas, já começaram a se envolver nessa guerra (sem se darem conta de que é a guerra que destrói a democracia). Ao que tudo indica teremos legiões de novos militantes chapa-branca, que acharão que seu papel agora é defender o novo governo, virando pelegos, protestantes a favor, força combatente na defesa de um líder que está sendo sabotado pelos esquerdistas e pelos corruptos.

Não devemos nos surpreender ao constatar que muitos de nossos amigos, colegas, parentes e interlocutores em geral, que lutaram junto conosco pela democracia resistindo ao PT, estão virando agora defensores incondicionais do novo governo. Tudo em nome de impedir a volta dos esquerdistas (Orwell já nos tinha avisado: nenhum sistema de poder pode ser erigido sem um inimigo público principal, um Emmanuel Goldstein providencial sobre o qual o rebanho possa descarregar diariamente seus dois minutos de ódio).

O grande desafio dos democratas é desconstituir essa narrativa e esse clima de guerra, entre bolsonarismo e lulopetismo, que pode contaminar setores mais amplos da sociedade, impedindo que o bolsonarismo dê a tônica do novo governo e capture os eleitores normais de Bolsonaro.


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Bon Voyage

Definindo por extensão o termo ‘bolsonarista’