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O impacto das confissões de Palocci sobre Lula e o PT

Demétrio Magnoli também percebeu o que sempre dissemos: Palocci não é um membro do núcleo duro da organização política criminosa que dirige o PT, comandada por Lula e Dirceu e tendo em seus quadros pessoas como Delúbio, Vaccari e mais de duas dezenas de outros, não incomodados até agora pela operação Lava Jato.

Mas ele chama a atenção para o impacto político – não necessariamente jurídico – da delação de Palocci. O que está correto. Entretanto, a despeito disso, ainda não se pode afirmar que Lula e o PT estejam mortos.

Ademais, não se pode saber em que medida as confissões de Palocci revelarão mais do que esconderão. No artigo Cuidado com o caso Palocci, listei vários crimes e atentados à democracia que nenhum dirigente petista (seja do núcleo duro ou não, como é o caso de Palocci), pelo menos por enquanto, se disporá a revelar. Ontem O Antagonista apresentou também uma lista mais factual sobre temas que Palocci ainda não se dispôs a tratar:

O que Palocci ainda não contou… e precisa contar

O Antagonista, 15/09/2017

Antonio Palocci falou que Lula isso e Lula aquilo, mas precisa ir mais fundo no seu baú de memórias – e provas.

O Antagonista apurou que até agora Palocci não disse nada, por exemplo, sobre as negociatas da mansão do lobby e da quebra de sigilo do caseiro Francenildo.

Tampouco falou do estranhíssimo perdão da dívida do Congo de US$ 280 milhões – no governo Dilma – que beneficiou o grupo Asperbras, cujo dono é amigo do italiano.

E dos US$ 348 milhões bloqueados numa conta de um banco em Miami e que teriam origem em negócios do PT em Angola?

E a propina do caso Portugal Telecom? E a compra de silêncio de Marcos Valério? E as negociatas com o Grupo Petrópolis? A sociedade da Oi com a Gamecorp, de Lulinha?

Nada sobre as empresas dos filhos de Lula que funcionavam no mesmo endereço da consultoria Projeto? Nada sobre a venda de decisões no Carf ou a aprovação de Medidas Provisórias? Nada sobre empresas de saúde?

Por que Palocci não entrega as contas bancárias usadas para o repasse da propina de Lula no esquema da Sete Brasil? Não vai admitir que os US$ 98 milhões devolvido por Pedro Barusco eram seus?

Palocci poderia falar também da propina que recebeu na intermediação do contrato da WTorre para a construção do Estaleiro Rio Grande (o primeiro dedicado a sondas do pré-sal). E a propina no contrato de US$ 6,5 bilhões para a construção das sondas?

Quem mais recebeu naquele episódio? Paulo Bernardo assinou o ato de entrega do terreno da União à WTorre e Dilma firmou de próprio punho o contrato da obra.

Tudo indica que a relação com Palocci rendeu à WTorre outro estrondoso contrato para erguer a bilionária – sim, bilionária –  sede da Petrobras no Rio. Até agora, infelizmente, nenhuma palavra do ex-ministro sobre o negócio.

Palocci já contou sobre quanto custou a aprovação no Congresso da capitalização da Petrobras do modelo de partilha do pré-sal – projetos capitaneados por ele?

A delação de Palocci precisa esclarecer os R$ 2 milhões que ele recebeu da JBS para prestar ‘consultoria’ na compra da Pilgrim’s e na enroscada incorporação do grupo Bertin. Palocci faria um bem ao país se explicasse por que o BNDES injetou R$ 2,5 bilhões no Bertin, mesmo ciente de que estava quebrado.

No setor de proteína animal, quem melhor do que Palocci para corroborar a versão de Joesley sobre os US$ 150 milhões pagos pela JBS a Guido Mantega, por acesso a recursos do BNDES. Esse dinheiro foi realmente usado na campanha de Dilma em 2010 – coordenada pelo próprio ‘italiano’?

Ninguém melhor do que Palocci também para dizer se Joesley mentiu ao poupar Lula em sua delação premiada. Esse último tema, inclusive, deveria estar no topo da lista dos anexos que o italiano negocia com a Lava Jato.

Ah, e se Palocci quiser contar o que sabe do caso Celso Daniel também será bem-vindo.

Por isso é sempre bom reforçar o aviso: cuidado com o caso Palocci.

Reproduzimos abaixo a íntegra do artigo de Magnoli, de hoje (16/09), na Folha:

“Adeus, Lula” é um filme sobre implosão, separação, pulverização

Demétrio Magnoli, Folha de São Paulo, 16/09/2017

“Adeus, Lenin!”, filme satírico de Wolfgang Becker, ilumina o deslocamento psicológico causado pela queda do Muro de Berlim nos alemães orientais idosos, cujas referências cotidianas estavam todas definidas pelo “socialismo real”. As confissões de Palocci, uma explosão fatal na imagem pública de Lula, pedem um roteiro sobre a orfandade da esquerda brasileira, que não se preparou para viver sem seu patrono de quatro décadas.

Palocci é um furacão de categoria máxima. Nos bons tempos, antes do “mensalão”, disputava com Dirceu a condição de sucessor de Lula – e tinha a preferência do próprio Lula. O ex-ministro da Fazenda, porém, não possui a têmpera de Dirceu ou dos “apparatchiks” do núcleo duro lulista, como Delúbio e Vaccari. Ele desconhece a “omertà”, o código de honra que bloqueia a estrada da delação. Por isso, começou a falar, convertendo-se subitamente de “herói do povo brasileiro” (segundo o congresso do PT paulista) em traidor “calculista, frio e simulador” (segundo Lula).

Lula e os seus creem que a política está acima de tudo, inclusive dos tribunais. A tese tem alguma verdade: as implicações judiciais das confissões de Palocci permanecem turvas, mas suas consequências políticas são devastadoras. A sentença do traidor sobre o “pacto de sangue da propina” tem maior potencial destruidor para a candidatura de Lula que as sentenças de Moro sobre um certo tríplex ou um célebre sítio. Palocci fecha um ciclo histórico no qual a esquerda não precisou se ocupar com os problemas cruciais da unidade e do rumo ideológico.

O projeto do PT reuniu as heterogêneas correntes da esquerda, oferecendo um leito comum para sindicalistas, movimentos sociais, militantes católicos da “teologia da libertação”, castristas de diversos matizes e grupúsculos trotskistas. Lula serviu como traço de uma unidade que jamais derivou de consensos sólidos nos planos dos valores, da doutrina ou das estratégias. Na falta desse mastro, nada deterá a fragmentação em curso, ainda que venha a ser disfarçada sob o rótulo de uma “frente popular” de partidos e movimentos. A candidatura Haddad, plano B do lulismo, pode até evitar o naufrágio da nau petista, mas carece de força gravitacional para restaurar a moldura unitária que se despedaça.

O lulismo garantiu a unidade por meio da virtual supressão da divergência ideológica. No percurso, a curva decisiva foi a chegada de Lula ao Planalto, que cancelou o já rarefeito debate de ideias no interior do PT. Dali em diante, as correntes petistas engajaram-se na ocupação de cargos no aparelho de Estado, enquanto os “intelectuais de esquerda” aceitaram a humilhante tarefa de justificar tanto as oscilações de rumo do governo quanto as pútridas alianças do capitalismo de compadrio patrocinadas por Lula. O ex-presidente carrega a culpa direta pelo “pacto de sangue” confessado por Palocci, mas a responsabilidade política espraia-se muito além dele, até doutos acadêmicos que nunca se beneficiaram do vil metal.

Unidade e ausência de debate ideológico – as duas coisas estão ligadas como as lâminas de uma tesoura. O lulismo salvou a esquerda das forças centrífugas provocados pela discussão de temas como o lugar das empresas estatais, a produtividade da economia, a curva de sustentabilidade fiscal, a qualidade dos serviços públicos, o imperativo da reforma política. Lula construiu uma cápsula encouraçada, isolando a esquerda num santuário. A prova de seu sucesso está à vista de todos, nos artigos vexatórios dos “companheiros de viagem” que ainda defendem a política econômica dilmista ou celebram a calcificação ditatorial do regime venezuelano.

“Adeus, Lula” é um filme sobre implosão, separação, pulverização. Depois de Palocci, a unidade está morta. Com sorte, do desfecho ressurgirá o debate estancado. Ergamos um esperançoso brinde ao traidor.


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