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O julgamento do TSE e o Fora Temer sem povo

Um balanço preliminar

O que vocês queriam? Temer é um representante do velho sistema político que apodreceu. Apenas isto. Não é chefe de organização criminosa alguma. Não é o maior bandido da galáxia. É alguém que se acostumou a articular uma base congressual fisiológica sem estressá-la desnecessariamente. Será ele inocente de qualquer delito? Provavelmente, não. Deve ser tão culpado como qualquer outro político de quase toda a base parlamentar que ele ajudou a administrar por tanto tempo. Aliás, foi exatamente por isso que ele foi escolhido duas vezes para ser vice do PT – não porque fosse um Varão de Plutarco. Como o nosso sistema político apodreceu mesmo, é muito provável que – na investigação desses políticos da velha base congressual do PT e do PSDB – a cada enxadada apareça uma minhoca. Esta é a realidade e não se pode negá-la.

Mas Temer não é presidente porque tenha postulado o cargo. Não foi eleito (a não ser para vice) e só assumiu o posto em virtude do impeachment de Dilma, como reza a Constituição e não porque tenha tramado um golpe, como repetem os petistas. Não era o candidato de ninguém. Nem foi ungido pelas ruas que promoveram o impeachment (e, como sabemos, sem as ruas não teria havido impeachment algum, por mais que ele – Temer – e sua base quisessem tramá-lo no Congresso). Mas o fato de ele ter assumido a presidência não modifica em nada a natureza da política que é praticada no Brasil há décadas (ou séculos). Quando assumiu, porém, Temer não fez nada que destoasse tanto dos nossos costumes políticos. Aliás, até surpreendeu a sua coragem de propor reformas necessárias, que jamais conseguiram ser aprovadas por presidentes com muito mais legitimidade do que ele. E – registre-se o seu maior erro político – não teve a coragem de processar uma transição democrática pós-PT, expondo amplamente à nação a herança maldita deixada por Lula e Dilma. Optou por tentar pacificar o país, talvez imaginando, tolamente, que o PT fosse um player válido da democracia.

De repente, porém, por algum motivo ou por uma conjunção particularíssima de interesses, a queda de Temer – a despeito de ele ter um mandato curtíssimo pela frente (menos de um ano de tempo hábil e útil) – virou um imperativo. No início era um imperativo apenas para o PT, que via na sua queda a possibilidade de salvar Lula da cadeia oferecendo-lhe a tábua de salvação de um palanque (foi assim que ele se salvou, com a ajuda dos tucanos, da culpa pelo mensalão) e melar a conjuntura com base na falsa narrativa de que teria havido um golpe no Brasil. Eis como nasceu o Fora Temer (o original).

Tudo ia caminhando como de costume, quer dizer, aos trancos e barrancos, quando Janot e Fachin montaram uma armadilha policial para pegar Temer (o presidente da República) e Aécio (o então presidente do PSDB). Ao que tudo indica havia já uma orquestração planejada. Porque imediatamente subiu aos céus uma formidável gritaria dos jacobinos, dos moralistas (instrumentalizados pelos primeiros) e de legiões de santos de pau-oco, oportunistas, exigindo a renúncia imediata de Temer, antes mesmo que ele pudesse ter a oportunidade de conhecer as supostas provas produzidas pela Polícia Federal e pela Procuradoria Geral da República. Até pessoas que participaram dos movimentos pelo impeachment aderiram então ao Fora Temer, sem ver que, com isso, estavam, objetivamente, concorrendo para o Volta Lula.

É preciso destacar nisso tudo o oportunismo político de alguns jornalistas, analistas políticos e também de alguns grupos que convocaram manifestações pelo impeachment, que fecharam os olhos para o armação Janot-Fachin e se recusaram a denunciá-la para não passar para a opinião pública a impressão de que estariam defendendo ou desculpando a corrupção dos peemedebistas e tucanos (reafirmando as ideias-implante urdidas pelo PT para uso dos tolos: não temos corrupto de estimação, todos os criminosos devem ser punidos, não importa o lado ou o partido, todos são farinha do mesmo saco). Este é um comportamento típico (de manual mesmo) do oportunista, baseado no seguinte raciocínio (ou racionalização): 1) a maioria do povo odeia corruptos; 2) se alguém foi acusado – com fortes evidências – de corrupção, já perdeu (ou seja, já está “queimado” aos olhos da opinião pública); 3) logo, não podemos nos sujar, dando a impressão de que estamos do seu lado; e 4) para deixar isso bem claro, temos que gritar a plenos pulmões: crucifiquem-no! crucifiquem-no!

Bem… mas o fato é que o objetivo inicial da orquestração – obrigar Temer a renunciar em 24 horas, sob o impacto da gritaria geral – não foi alcançado. Ele não só não renunciou, mas anunciou que estava disposto a resistir até o fim. O que fazer então? Ora, pedir o seu impeachment, entrar com um processo contra ele no STF e, antes de tudo isso, tentar cassar a chapa Dilma-Temer no TSE, pegando uma carona em julgamento já marcado.

Voltam-se então todas as baterias para os ministros do tribunal eleitoral. A única posição juridicamente correta e eticamente justificável seria cassar a chapa, tornando seus integrantes inelegíveis. Na verdade, os que agora pressionam os integrantes do TSE (o julgamento ainda está em curso) não estão nem um pouco preocupados com a elegibilidade de Dilma. Dilma é carta fora do baralho e, no máximo, pode obter um mandato de deputada (o que não significa nada para um Congresso que tem o senador Collor como um de seus destacados membros). O que essas pessoas estão querendo é que o TSE faça, para elas, o serviço de tirar Temer do governo. Porque teria havido abuso de poder econômico na eleição de 2014. Ora… quem não sabia disso? Houve o mesmíssimo abuso de poder econômico em 2002, em 2006 e em 2010. E não se viu os moralistas de agora cobrindo a cabeça de cinzas, rasgando as vestes e tentando tirar as calças pela cabeça na frente do tribunal eleitoral.

É claro que Dilma deveria ser cassada pelo TSE. Mas é muito duvidosa essa conversa de que a responsável por todas as irregularidades é a chapa Dilma-Temer. Quem conhece o PT sabe que a campanha presidencial do PT foi dirigida, como sempre, pelo PT e só pelo PT. Temer jamais participou de qualquer núcleo estratégico para conceber, programar ou executar a campanha. Nunca se ouviu dizer que éramos governados pela chapa Dilma-Temer. Era o governo Dilma. Assim como vice não governa, também não apita na campanha. Ou será que José Alencar era responsável pelos crimes eleitorais cometidos por Lula? Formalmente, em termos jurídicos, isso pode até ser alegado, mas politicamente – que é o que conta de fato em processos desse tipo – trata-se de uma bobagem sem tamanho. No entanto… a impressão que se tem, ouvindo o relator do processo no TSE, é que a chapa cometeu uma enormidade de crimes (e cometeu mesmo, mas envolvendo as empreiteiras bandidas, velhas associadas ao esquema de poder do PT), sendo que, objetivamente, a punição só vai, na prática, atingir o vice, Temer (retirando-lhe o mandato). Ou seja, o que está realmente em jogo é a saída de Temer. E nada mais. Ou alguém está perdendo o sono porque Dilma pode conseguir um mandato de deputada federal ou estadual em 2018?

Não nos façam de idiotas com discursos pios sobre a moralidade pública, sobre o momento histórico em que podemos aproveitar a oportunidade única de dar um basta na corrupção, tomando uma atitude corajosa (de cassar a chapa Dilma-Temer, quer dizer, na prática, de tirar Temer do governo) que vai marcar um ponto de inflexão na trajetória da velha política e blá-blá-blá. Jornalistas e analistas inteligentes deveriam ter vergonha de tentar nos emprenhar pelo ouvido com essa moralina protestante, como se fôssemos burros. Nada ou quase nada de fundamental vai se alterar com o julgamento do TSE, nem para o PT, que não acredita mesmo em instituições (só em maioria x minoria), nem para o PMDB, o PSDB e outros velhos partidos, que acham que as instituições existem para manter arranjos de governabilidade conduzidos por (suas) lideranças. Na realpolitik de todos só vale mesmo o que seja capaz de alterar a correlação de forças, sendo que a pergunta-chave é: quem vai ficar no poder? Por esses critérios, o resultado mais provável do julgamento do TSE é que a chapa não seja cassada (ainda que possa haver uma surpresa, já que em política, como se diz, tudo pode acontecer e o resultado de um julgamento com maioria tão apertada possa ser alterado, por exemplo, pela morte ou doença grave e súbita de um ministro).

Quando se diz que o velho sistema político apodreceu o que se está dizendo é que as suas instituições não são mais capazes, sozinhas, de corrigir seus erros e reconfigurar o ambiente para estancar sua degeneração e recuperar sua integridade. As instituições do velho sistema político não teriam sido capazes nem de promover o impeachment de Dilma. Se não fossem as ruas, Dilma ainda estaria na presidência da República. O que significa que as instituições não podem mais, a partir de seu funcionamento endógeno, alterar nada que seja capaz de promover uma mudança radical, nem mesmo de aprovar uma verdadeira reforma política que corrija um ou outro aspecto do seu mal-funcionamento.

E quando falamos das “ruas” não estamos falando da orquestração de campanhas feitas em TVs, rádios, jornais, revistas, sites, blogs e mídias sociais. Estamos falando da rede social mesmo, da constelação de multidões, de pessoas enxameadas, quer dizer, da manifestação de uma fenomenologia da interação (clustering, swarming, cloning, crunching, múltiplos laços de retroalimentação de reforço, reverberação etc) que é capaz de alterar os fluxos da convivência social por processos que ainda são desconhecidos (como ocorreu em junho de 2013, em março, abril e agosto de 2015 e novamente em março de 2016). Não é algo que possa ser fabricado, urdido, por meia dúzia de jacobinos voluntaristas homiziados em um blog ou site da internet ou mesmo por agentes que querem fazer política disfarçados de analistas ou jornalistas e contratados por uma grande rede de televisão. Não é mais assim que funciona em mundos altamente conectados da emergente sociedade-em-rede. Mas vá-se lá dizer-lhes!

Uma prova? Até agora, nem o primeiro, nem o segundo Fora Temer (aquele artificialmente fabricado pela armadilha Janot-Fachin), conseguiram promover swarmings civis como os mencionados no parágrafo anterior (e que foram as maiores manifestações de nossa história). Ou tivemos protestos de militantes acarreados, organizados por centrais sindicais e movimentos sociais que atuam como correias de transmissão do PT, ou tivemos muxoxos nas mídias sociais. O povo não compareceu nem ao Fora Temer do PT, nem ao Fora Temer do Jornal Nacional, do Fantástico e do Jornal das 10 da Globo News e de O Antagonista. Se tivesse comparecido, a história seria outra e não estaríamos escrevendo este artigo. Cabe-nos analisar agora por que as pessoas não atenderam a esse chamado patriótico dos hipócritas.


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