As pessoas da periferia

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O liberalismo realmente inexistente e a pesquisa da Fundação Perseu Abramo

Sobre a pesquisa do PT nas periferias de São Paulo e o assanhamento dos conservadores

Está causando um certo alvoroço em alguns meios recente pesquisa da Fundação Perseu Abramo, do PT, intitulada Percepções e valores políticos nas periferias de São Paulo. O PT deve ter encomendado essa pesquisa, em primeiro lugar, para saber onde estava errando eleitoralmente: por que a população que ganha até 5 salários mínimos e mora na periferia não votou em Fernando Haddad em 2016 e em Dilma Rousseff em 2014 (ou por que João Dória e Aécio Neves tiveram tantos votos nessas regiões periféricas de São Paulo nas duas eleições mencionadas)? Mas, em segundo lugar, como diz o próprio relatório da pesquisa, para tentar “compreender, de forma profunda e detalhada, os elementos que têm formado a visão de mundo e o imaginário social nas periferias da cidade de São Paulo” (e, do que se pode inferir, em outras regiões do país onde se concentram os mais pobres) e para “reunir conhecimento que colabore para reflexão e atualização do projeto político do PT bem como para fortalecer a disputa de valores na sociedade”.

Faz sentido. Como se sabe, antes de qualquer coisa o PT é um partido eleitoralista, ou melhor, um partido neopopulista que adotou a via eleitoral como etapa estratégica (e essa estratégia prevê usar a democracia – notadamente as eleições – contra a democracia) para, em decorrência desse primeiro passo, ocupar os governos e usá-los para conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido, tudo com o fito de nunca mais sair dos governos. Ora, isso – esse processo de conquista de hegemonia – implica o que eles chamam de “disputas de valores na sociedade”.

Por isso que a pesquisa em tela é muito útil para o PT, ainda que seus resultados tenham sido, até certo ponto, surpreendentes para quem contava com um reconhecimento (e até uma gratidão) dos mais pobres ao partido e suas lideranças e uma aderência maior às narrativas ideológicas que foram estruturadas pelos dirigentes e replicadas pelos militantes petistas. Alguns dirigentes e militantes petistas devem estar sentindo mesmo uma profunda decepção com os resultados da pesquisa, que revelam um perfil mais conservador e “liberal” do que se esperava das chamadas “classes populares” (sim, o PT acredita em classes e luta de classes).

Isso não justifica, todavia, a euforia dos ditos liberais com os resultados da pesquisa. Nossos liberais, como se sabe, são liberais em termos econômicos, mas não tão liberais assim em termos políticos. É o que acontece, por exemplo, com a turma do Instituto Liberal de São Paulo (Ilisp). Chama a atenção, nesse sentido, o artigo de Marcelo Faria, publicado no site do Ilisp, em 28/03/2017, intitulado 10 coisas fundamentais que você precisa aprender sobre a periferia para entender o Brasil. Como a população pobre das periferias está descontente com o velho sistema político, os nossos “liberais” viram nisso (apoiados, inclusive, em algumas conclusões dos pesquisadores petistas, que precisam ver o inimigo em todo lugar), que há na base da sociedade a predominância de um pensamento liberal-conservador, como se dissessem: “Estão vendo? O próprio PT reconhece que a população é de direita”. Ora, isso não revela mais do que o liberalismo realmente inexistente no Brasil.

O que temos? Há a pesquisa, que não conhecemos. Só conhecemos o relatório produzido pelos pesquisadores petistas, que usam categorias analíticas duvidosas como “valores e discursos construídos pela imprensa tradicional” ou “mídia hegemônica”. Ou seja, há um viés interpretativo de esquerda (baseado, em última instância, na ideia de que a luta de classes é o motor da história), que deve estar presente nos instrumentos e nos procedimentos de pesquisa utilizados (as perguntas dos questionários, a animação e a configuração dos grupos focais), mas esses instrumentos e procedimentos não foram divulgados. E há as interpretações apressadas, também com marcado viés ideológico, no caso conservador, dos “liberais” que se assanharam com os resultados da pequisa.

Vamos primeiro ler o relatório da pesquisa petista, reproduzido fielmente abaixo (mas sem os infográficos, que são em geral desnecessários), para depois examinar um exemplo de interpretação eufórica do liberal em termos econômicos Marcelo Faria, do Ilisp, igualmente reproduzido aqui (em seguida ao relatório). Somente no final faremos nossas considerações.

A PESQUISA DA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO

Percepções e valores políticos nas periferias de São Paulo

Original em pdf para download: Pesquisa-Periferia-FPA

INTRODUÇÃO

HIPÓTESE INICIAL

Durante as gestões Lula e Dilma, a ampliação dos mercados de trabalho e consumo, combi- nada à distribuição de renda e à mobilidade social, criaram novas dinâmicas socioeconômicas na periferia de São Paulo.

No momento de expansão e avanço do ciclo econômico novos valores em relação aos costu- mes e a política foram gestados entre as camadas populares, que passaram a se identificar mais com a ideologia liberal que sobrevaloriza o mercado.

No momento de descenso e retração do ciclo econômico essa camada da população passou a reagir informada por horizontes menos associativistas e comunitaristas e mais por diretri- zes marcadas pelo individualismo e pela lógica da competição, com uma tônica acentuada do mérito nos discursos.

Neste cenário, as Igrejas neopetencostais parecem ganhar espaço.

OBJETIVOS

1 – Compreender, de forma profunda e detalhada, os elementos que tem formado a visão de mundo e o imaginário social nas periferias da cidade de São Paulo;

2 – Reunir conhecimento que colabore para reflexão e atualização do projeto político do PT bem como para fortalecer a disputa de valores na sociedade.

ÁREAS DE ABORDAGEM

Território

Família e Mobilidade Social: Trajetória de mobilidade (ascensão ou não/ expectativas futu- ras; grau de agregação e/ou desagregação familiar).

Escola: Relação com a Formação e com a ideologia do Mérito.

Trabalho e Vida Econômica: Trajetória educacional e profissional; relação do “bico/viração” com empreendedorismo.

Sociabilidade, Lazer e Consumo: Espaço de sociabilização no tempo livre.

Religião: Papel da religião na organização da vida.

Relações de Gênero, Racismo, Homofobia, Aborto, Drogas e Direitos Humanos: Valores e cisão entre progressismo e conservadorismo.

Percepções Político-Institucionais: Visão de país e partido.

METODOLOGIA

Pesquisa qualitativa realizada por meio de duas técnicas complementares: entrevistas em profundidade e grupos focais.

Sobre pesquisa qualitativa: A pesquisa qualitativa tem como objetivo expor os entrevistados a um conjunto de temas pré-determinados e captar a compreensão, percepção e valores presentes na opinião pública a respeito destes assuntos, assim como a narrativa discursiva construída em torno deles.

É uma metodologia eficaz para indicar tendências a respeito do pensamento médio dos pú- blicos-alvo escolhidos, mas não tem a finalidade de mensurar quantitativamente quais opi- niões são mais frequentes.

1 – PERFIL DA AMOSTRA

Gêneros: Masculino e Feminino

Faixa etária:
a) 18 a 24 anos;
b) 25 a 34 anos;
c) 35 a 44 anos;
d) 45 anos ou mais.

Território: bairros periféricos / comunidades (favelas)

Renda Familiar Mensal:
Faixa 1 – Até 2 salários mínimos;
Faixa 2 – mais de 2 e até 5 salários mínimos.

Religião: evangélicos neo-pentecostais / outras religiões

Eleitoral: votou no PT de 2000 a 2012, mas não votaram em Fernando Haddad nas eleições municipais de 2016 e em Dilma Rousseff na eleição presidencial de 2014.

Beneficiários ou ex-beneficiários de programas sociais / não beneficiários: a amostra contemplou um mínimo de 30% das entrevistas (20) com beneficiários ou ex-beneficiários de programas sociais (BF, MCMV, PROUNI, FIES).

2 – ENTREVISTAS EM PROFUNDIDADE

63 entrevistas em profundidade, tendo como público-alvo moradores das periferias da cidade de São Paulo com o seguinte perfil:

Tabela Perseu Abramo 1

Período de Campo: As entrevistas foram realizadas entre os dias 22/11/2016 a 10/01/2017.

3 – GRUPOS FOCAIS

Foram realizados 5 grupos focais, compostos entre 8 e 12 participantes tendo como público-alvo o seguinte perfil:

Tabela Perseu Abramo 2

RESULTADOS GERAIS

DO PONTO DE VISTA DA ORIENTAÇÃO DOS VALORES E FORMULAÇÃO POLÍTICA TEMOS ALGUNS RESULTADOS GERAIS…

1 – A formulação e debate sobre a política se dão de forma superficial e ainda de acordo com a agenda definida pela mídia hegemônica.

Os entrevistados têm, no geral, rotina agitada e sufocante e, portanto, a formulação acerca da política não é a prioridade no cotidiano.

Assuntos debatidos com mais frequência são aqueles que estão na pauta da grande mídia, que continua sendo umas das principais fontes de in- formação da maioria, como casos de escândalo de corrupção, operação lava jato ou debates sobre as recentes eleições municipais.

Quando questionados sobre assuntos mais complexos ou definição de conceitos políticos, tinha-se a impressão, para maioria, de que era a primeira vez que construíam uma argumentação sobre aqueles temas.

2 – ‘Categorias analíticas’ utilizadas pela militância política ou pelo meio acadêmico não fazem sentido para os entrevistados:

A racionalização acerca da política não segue a lógica do espectro ideológico que vai de direita à esquerda. Os julgamentos flutuam em ziguezague, de posições mais conservadoras a mais progressistas dependendo do assunto abordado.

Palavras que limitam os campos e são utilizadas inclusive de maneira pejorativa em disputas políticas (‘reaça’ e ‘coxinha’ ou ‘conservador’ X ‘progressista’) não habitam o imaginário desta população.

Direita é alguém direito, correto. Esquerda é quem vive reclamando

Eu acho que a direita é quem estar no poder e a esquerda é a oposição!

(Gênero Masculino, 30 anos, branco – Faixa de Renda 2)

3 – A ‘política institucional’ também é vista, muitas vezes, como um bloco monolítico:

Esferas federal, estadual e municipal se confundem – não é fácil definir as funções de cada uma.

A tendência é de que tudo o que concerne à vivência concreta na cidade seja cobrado das pre- feituras e o que diz respeito a questões mais macro e abstratas para a Presidência da República, isentando o governo estadual.

4 – A cisão entre ‘classe trabalhadora’ e burguesia também não perpassa pelo imaginário dos entrevistados:

Trabalhador e patrão são diferentes, mas não existe no discurso relação de exploração: um precisa do outro, estão no ‘mesmo barco’.

Destaque para o singular, porque não há ideia de coletivo; não há conflito de interesses.

Independente da renda e da ocupação, as pessoas tendem a se auto-classificar como pertencentes à classe média, pois a pobreza está associada à falta de moradia e alimento e a riqueza está associada à abundância de patrimônios pessoais e familiares.

5 – Neste contexto, o ‘inimigo’ é o Estado:

Para os entrevistados, o principal confronto existente na sociedade não é entre ricos e pobres, entre capital e trabalho, entre corporações e trabalhadores. O grande confronto se dá entre Estado e cidadãos, entre a sociedade e seus governantes.

Todos são ‘vítimas’ do Estado que cobra impostos excessivos, impõe entraves burocráticos, gerencia mal o crescimento econômico e acaba por limitar ou “sufocar” a atividade das empresas.

Relação clientelista: aplicam sentido de gestão privada de eficácia.

COMO, ENTÃO, AS PESSOAS ORIENTAM SEUS VALORES?

1 – Há forte desejo por visibilidade e valorização pessoal, querem ter um ‘lugar no mundo’:

Querem ter sua singularidade e valores reconhecidos dentro da competitividade capitalista, mostrando que, apesar das limitações impostas pela condição social, também são capazes.

Rejeitam homogeneizações, não querem ser tratados como “massa amorfa” incapaz: “os pobres”.

Organizam sua vida (trabalho, família, religião) com a motivação de serem ‘serem alguém’.

2 – A ‘ascensão social’ é importante no processo de diferenciação:

A ascensão, neste contexto, é diferenciação dos de baixo (dos ainda mais pobres / daqueles que trazem a recordação de um passado menos abastado) e re- produção dos de cima (quem aspiram ser; aonde querem chegar). Todos trabalham para ‘chegar lá’ e se distanciar do que consideram ‘pobre’.

3 – No caminho para a ascensão é preciso estabilidade:

Riscos de rupturas, de caos, ameaças incomodam e tendem a ser rejeitadas

4 – A supervalorização do mérito encontra seu lugar:

Para ser alguém na vida são necessários trabalho e esforço.

Embora saibam que as oportunidades não são as mesmas para todos e que é preciso democratizá-las, apresentam discurso consistente de que não existem barreiras intransponíveis – ‘com esforço tudo é superado’.

Esse pensamento tem ressonância especialmente entre os mais jovens cuja percepção de ‘limites’ de ascensão são ainda mais largos que dos mais velhos.

A IDEOLOGIA DO MÉRITO COMBINA COM…

1 – Consumo: O capitalismo tenta desprover o cidadão de todos os elementos que constituem a identidade (cultura, identidade de classe…). O consumo torna-se um meio importante de constituição da identidade e materialização da ascensão.

2 – Religião: de fato, a máxima ‘Deus ajuda quem cedo madruga, quem se esforça mais’ parece fazer sentido; Deus ajuda mais quem corre atrás, vai atrás dos sonhos, quem trabalha, quem se esforça

3 – Sobrevalorização do mercado em detrimento do Estado: Há pouca valorização do público, tanto que quando podem acessar, querem colocar filho na escola particular, ou pagar convênio médico. A política pública, em alguns casos, pode ser lida como uma desvalorização individual (p. ex., cotas). Os ideais comunitários e coletivistas praticamente não aparecem nas narrativas e, quando aparecem, restringem-se à dimensão da família, da vizinhança e da igreja.

4 – Empreendedorismo: Muitos desejam ser empreendedores e utilizam como justificativa as ideias de não ter mais patrão, ter mais flexibilidade para gerir o próprio tempo, poder abrir o próprio negócio para trabalhar perto de casa, além da possibilidade de deixar patrimônio e herança para a família.

Você tem que ter fé e tem que fazer um esforço para alcançar. […] Pedi pra Deus me ajudar bastante e graças a ele, está aí [o carro]. Se você não tem o esforço e não se ajuda, Deus não vai te ajudar, não vai cair do céu

(Gênero Masculino, 30 anos, branco – Faixa de Renda 2)

Vale destacar que o discurso só encontra ressonância onde há sentimento de ‘vazio’ de políticas:

Embora a mídia tradicional ainda paute os temas que geram mais atenção da população e tente disputar os sentidos da experiência vivida em relação às políticas públicas, ela consegue ser exitosa em reproduzir sua visão de mundo especialmente onde existe um sentimento de “vazio” de políticas públicas na experiência da vida prática e cotidiana.

Em outras palavras, quando as pessoas acessam determinadas políticas de forma efetiva e satisfatória em relação a expectativas e necessidades, como por exemplo os CEU`s no caso da gestão Marta Suplicy, elas tendem a fazer avaliações independentes e não permeáveis aos valores e discursos construídos pela imprensa tradicional.

EIXO TEMÁTICO I | CONSUMO E FAÇA POR SI MESMO

1 – A noção de empreendedorismo é muito presente em todas as narrativas, mas aparece com um duplo significado:

Como sinônimo de empresário (‘ser empreendedor é ser patrão’) e como produzir algo de forma autônoma.

Nesse sentido, muitos daqueles que são trabalhadores do mercado informal ou trabalhadores por conta própria se auto-definem como empreendedores. É o ‘Faça por si Mesmo’

2 – Há solidariedade com os empresários:

Muitos assumem o discurso propagado pela elite e pelas classes médias apontando a burocracia e os altos impostos como empecilhos para o empreendedorismo.

3 – O empreendedorismo aparece como aspiração, mas ainda é uma realidade distante:

Entrevistados consideram a ideia de tornar-se empreendedores, citando inclusive negócios próprios que já pensaram em abrir, consideram essa uma realidade ainda distante: seja por falta de capital suficiente ou por não enxergarem como uma possibilidade real para sua classe social. Além disso, chamam a atenção para os riscos de se tornar empresário.

O que eu penso mais em ser empreendedor é a condição financeira, né? Pode te dar uma condição de vida melhor. Por exemplo, pegar uma franquia da Cacau Show, eu cheguei a ir em um evento da Cacau Show só pra conhecer.

(Gênero masculino, branco, 45 anos – Faixa de renda 2)

Eu queria um negócio de vender batata frita, a casa da batata frita… Eu gostaria de começar por aí, não trabalhar pros outros, mas pra mim mesma!

(Gênero feminino, branca, 46 – Faixa de renda 2)

A gente pensa assim: sou um cara ambicioso, estou com a faca e o queijo na mão, no caso esse empreendimento ai tem tudo para dar certo, porque não tentar?”

(Gênero masculino, negro, 30 anos – Faixa de renda 2)

EM RELAÇÃO AO CONSUMO

1 – Consumo é sinal de distinção e materializa a ascensão:

O acesso mais recente, após os governos Lula, a bens de consumo é lembrado, especialmente pelos mais velhos como prova de melhoria de vida em comparação à infância e à juventude. Demonstra que o país mudou, mas também que sua família soube prosperar. Valorizam muito a possibilidade de oferecer os melhores alimentos e maior conforto para seus filhos do que receberam de seus pais.

Entre os mais novos, há uma relação mais forte com consumo mais supérfluo de itens pessoais que os tornem distintos socialmente.

2 – Embora o consumo seja uma dimensão presente e valorizada, o consumismo não ocupa posição central na vida dos entrevistados:

O dinheiro é escasso e, portanto, é preciso traçar prioridades.

Desejam conquistar, antes de tudo, bens mais duráveis e que possam ser transmitidos por gerações, como a casa própria. Ou então, investir na educação, sua ou dos filhos, para garantir maior estabilidade e possibilidade de crescimento.

Entre os mais velhos, o consumismo é visto, inclusive, como uma ir- responsabilidade: a mesma ética do mérito que move a dimensão da sociabilidade e do trabalho, em muitas circunstâncias, faz com que o consumo ostentação – muitas vezes ligado ao funk – seja visto com maus olhos e sinal de irresponsabilidade.

EIXO TEMÁTICO II | FAMÍLIA, ESCOLA E TERRITÓRIO

FAMÍLIA

A família é o grande alicerce e solução para os problemas individuais e coletivos:

A família, para os entrevistados, é considerada a base da vida: utilizam expressões superlativas como ‘é tudo, é o que faz valer a pena’, ‘é o porto seguro, o que mantem a gente na linha’. Ou seja, é o que possibilita sejam pessoas corretas e que tracem caminhos sem desvios.

E é também o antídoto para a crise moral da sociedade: é necessária para a construção de uma sociedade mais correta, sem violência, sem corrupção, mais desenvolvida, com pessoas de caráter, honestas. Há compreensão de que o fracasso de uma sociedade é resultado da presença excessiva de famílias desestruturadas.

A família é base de tudo, né? Família é base de tudo! A família é alicerce para você ser alguém na vida!

(Gênero masculino, 27 anos, negro – Faixa de renda 2)

Na sociedade, (a família) não está sendo muito importante, né? As pessoas não estão valorizando mais a família como deve ser valorizada (…) Falta de respeito, falta de humanidade… As pessoas pensam mais em si, elas são muito individuais, né?

(Gênero feminino, 41 anos, negra – Faixa de renda 2)

TERRITÓRIO

1 – É a partir do espaço que vivem e as relações que nele estabelecem que se constitui o sentido de pertencimento: O sentido de comunidade para os moradores das periferias de SP se associa ao território, como espaço de pertencimento e de onde não têm perspectiva de sair. Se reconhecem e estão enraizados afetivamente ao bairro, onde convivem com família, amigos, vizinhança. O território compõe sua história de vida e lhes confere sentido de pertencimento. É comum se identificarem como “sou da ZL, do Jd. Angela”, por ex. (menção ao bairro ou região onde vivem).

2 – Esta relação com o território apresenta uma separação etária: quando questionados sobre mudar de bairro num contexto de ascensão social, os mais velhos cogitam a possibilidade de mudar de rua – ‘mudaria ali pra rua de cima que é mais perto do ponto de ônibus’ – enquanto os mais jovens transpõe estes limites e pensam em mudanças para bairros mais estruturados e centrais.

3 – Ainda que não demonstrem interesse em sair do bairro, relatam inúmeros problemas da região onde vivem:

Pontos citados vão desde presença de bailes funks próximos a sua casa, ‘biqueiras’, falta de zeladoria urbana, serviços públicos de má qualidade e, principalmente, escassez de possibilidades de lazer – há poucas praças e parques públicos próximos, assim como outras possibilidades públicas e gratuitas. Quando existem, há ainda reclamações quanto à falta de cuidado, a presença de usuários etc.

Neste contexto, shopping e igreja se tornam os principais espaços de sociabilização: shopping, que concentra diversas opções de lazer (cinema, compras, praça de alimentação, etc); e igreja como espaço de convivência, com grupos de jovens, de mulheres, de leitura da bíblia, festas e atividades especificas.

ESCOLA

Dentro da lógica de supervalorização do mérito, a escola desempenha um papel fundamental:

1 – Escola é ferramenta para mobilidade social: é a chave de acesso para ser ‘alguém na vida’, é o primeiro passo numa trajetória linear: se tem acesso ao estudo, vai bem na escola e consegue um diploma, logo, conquistará um bom emprego, poderá acessar o consumo e terá um ‘lugar no mundo’.

2 – Acreditam que quanto maior a escolaridade melhor é o emprego: por isso, maioria demonstra vontade de voltar a estudar, fazer cursos técnicos, faculdade. Esse desejo é mais forte entre os entrevistados de meia idade (faixa dos 24 a 44 anos)

3 – Entretanto, sabem que as condições materiais e de ensino eram e são limitadoras: maioria dos entrevistados estudou em escola pública e teve que, a partir da adolescência, conciliar estudo e trabalho. As condições para frequentar a escola e ser bom aluno eram adversas: falta de dinheiro, tempo, transporte ruim etc. Esses fatores, somado à priorização do es- tudo dos filhos pra quem é pai / mãe, também limitam o prosseguimento dos estudos hoje.

4 – Apresentam avaliação crítica em relação ao modelo de escola: falta professor, é pouco atrativa aos jovens, não motiva, é mecânica, professores não se preocupam com as dificuldades. Principalmente, os mais novos, são muito críticos e alegam que a escola é muito ‘fechadinha’.

5 – Entendem a escola particular como melhor: grande maioria almeja colocar os filhos em escola particular – demonstrando, mais uma vez, uma descrença na “coisa pública”.

Têm algumas pessoas que eu conheço que, por exemplo, queriam fazer faculdade, mas o máximo que conseguiram foi um curso técnico, e aí tipo elas se arrependem por não terem tentado, corrido atrás.

(Genêro Feminino, 17 anos, Branca – Faixa de Renda 1)

O ensino é bem melhor na particular. Meu neto estudava numa escola particular, só que ele saiu porque não tinha condições mais de pagar, mas se ele tives- se lá ainda, ele já estaria lendo (…) tem muita diferença do ensinamento (…) Porque eu acho que você está pagando você pode exigir e em escola pública você vai exigir de quem? Não pode exigir!

(Gênero feminino, 41 anos, negra – Faixa de renda 2)

EIXO TEMÁTICO III | RELIGIÃO E OS LIMITES DO ESTADO LAICO

Mil por cento! Se você não tiver essas duas coisas (Deus e Família) conciliadas, ao mesmo tempo, não dá muito certo não. Vai meio que ‘balangando’.. Você entendeu? Você tem que ter essa estrutura, essa fé. É o que te anima, cara, pra você enfrentar o dia a dia, os problemas do cotidiano.

(Gênero masculino, 50 anos, negro – Faixa de renda 3)

Tudo aquilo o que você me perguntou antes de família, lá na igreja é a verdadeira família: aquela te liga, que chega no domingo senta no chão almoça, janta, que fala dos problemas. Que se você estiver passando por um problema, uma situação difícil, ele vai, não meu irmão, a gente vai te ajudar. Vamos vê o que a gente faz, a gente vai te ajudar, se você estiver precisando de uma cesta básica todo mundo corre. Cada um traz um açúcar, um café, um exemplo, é isso, para mim família é isso: é a religião

(Gênero masculino, 41 anos, branco – Faixa de renda 2)

A religião cumpre três funções fundamentais:

1 – Fornece principal espaço de sociabilidade, que dá sentido de comunidade, de pertencimento e acolhimento, constituindo uma rede de apoio e solidariedade: destaca-se aqui a importância comunitária da religião na periferia. A carência de equipamentos gratuitos de lazer na periferia faz com que a programação das igrejas sirva como atraente para o tempo livre de nossos entrevistados.

2 – Acreditam que quanto maior a escolaridade melhor é o emprego: por isso, maioria demonstra vontade de voltar a estudar, fazer cursos técnicos, faculdade. Esse desejo é mais forte entre os entrevistados de meia idade (faixa dos 24 a 44 anos)

3 – Funciona como “selo de honestidade e idoneidade”: demonstra para os outros que você tem bons valores, que escolheu o caminho correto. Em bairros violentos, por exemplo, estar com a bíblia embaixo do braço os assegura crédito de confiança para a comunidade e para o poder público (polícia).

Te faz sempre ficar no caminho correto, não desviar do ca- minho as coisas tá difíceis se você não tiver Deus as coisas ficam mais difíceis ainda. Então, Deus sempre!

(Gênero masculino, 32 anos, negro – Faixa de renda 2)

Ia muito com minha avó, frequentava a pastoral da criança… tinha pintura, bingo, tinha festinhas… Eu ia muito!

(Gênero feminino, 19 anos, negra – Faixa de renda 2)

RELIGIÃO E OS LIMITES DO ESTADO LAICO

DO PONTO DE VISTA DOS VALORES, NÃO APARECEM DIFERENÇAS RELEVANTES ENTRE OS CRISTÃOS. DA MESMA FORMA, POUCOS SÃO OS QUE DEMONSTRAM PERCEBER DIFERENÇAS MARCANTES ENTRE AS RELIGIÕES…

1 – Apresentam uma prática menos ‘conservadora’ do que discurso associado às igrejas:

Entrevistados religiosos tem a dimensão do pecado e do que ‘é certo e errado’, mas aparentam certo nível de tolerância para com o que consideram desvios.

Diferente do que supõe o senso comum, surgem vozes em defesa da autonomia das mulheres, em defesa do respeito às várias identidades e orientações sexuais, entre outros. Jovens apresentam tendências ainda mais liberais que mais velhos.

2 – As diferenças entre as religiões não são fundamentais. Rotatividade entre as igrejas é alta: 

Entrevistados admitem migrar de Igreja sem constrangimento, demonstrando que há, de fato, relevância maior do papel organizativo das Igrejas em detrimento do conteúdo. Os entrevistados procuram sempre por espaços em que se sintam bem, acolhidos e confortáveis.

Ah, eu frequentava… Pra mim não tinha esse negócio de religião. Eu gostava de ir bastante na igreja, então eu já frequentei batista, adventista, evangélica…

(Gênero masculino, 27 anos, negro – Faixa de renda 2)

3 – Maior adesão ao neo-pentecostalismo tem relação com elementos organizacionais:

Nas igrejas neopentecostais se estabelecem relações mais próximas, menos mediadas. Todos acreditam que a conexão com Deus se faz de forma direta, íntima, individual e personalizada. A neopentecostais oferecem um ambiente de conhecimento e reflexão que favorece esta conexão.

Além disso, estas igrejas possuem uma rede de pastores e obreiros que tentam se colocar próximos e disponíveis para dar apoio aos fiéis e, com isso, adentram a casa e a vida das pessoas. Relatos dos católicos desenham uma igreja mais impessoal, menos íntima com menos conexão com a comunidade.

Fico mais tranquila, porque a pastora me ajuda a vigiar o facebook da minha filha.

(Gênero Feminino, 32 anos, branca, Faixa de Renda 1)

Na racionalização abstrata, vinculação entre Política e Religião é mal-vista!

Maioria se opõe à ideia de um líder religioso se candidatar a cargos políticos, assim como à discursos de políticos em espaços religiosos.

Inclusive citam pouquíssimo a política enquanto um dos assuntos tratados nas celebrações. Dizem que os lideres religiosos dão conselhos para a vida, falam assuntos ligados ao cotidiano, à família, ao equilíbrio, à orientação moral…

No entanto, posicionamento crítico em relação à ligação de Política e Religião se dá menos por um princípio de ‘laicidade’ do Estado, mas mais pelo medo de que a política “suje/contamine” os espaços religiosos: tratam com desconfiança quem se envolve com a política, como se fosse impossível estar nesse campo sem se render e participar da corrupção.

Por outro lado, alguns tendem a aprovar essa “mistura” pois homens religiosos poderiam moralizar os espaços políticos.

Entretanto, quando questionados a partir de situações concretas, a vinculação entre política e religião fica menos questionável.

Maioria não apresentaria resistência contundente em votar em políticos que o líder religioso indicasse ou em políticos que frequentam o mesmo espaço religioso que eles.

Mas não parece ser na essência um voto conservador: o voto religioso aparenta se orientar mais por uma relação de proximidade do que por um sentido/motivação ideológica conserva- dora. O voto é para uma pessoa que está ali, compartilhando, que está próximo, que tem algo em comum, alguma identidade. E, portanto, os neopentecostais ganham destaque pois proporcionam uma relação mais direta com a religião / menos mediada.

Acho que não tinha que se misturar. O político rouba muito, líder da igreja eles vão acabar pecando lá, roubando… a política tem muita sujeira assim.

(Gênero Feminino, negra, 21 anos – Faixa de renda 2)

Votei em alguns pastores, [porque] eu acho que eles não roubariam“

(Gênero feminino, branca, 36 anos – Faixa de renda 1)

Ainda sobre a religião, é importante destacar:

1 – Não apareceu, em nenhum perfil religioso, comportamentos completamente ‘acríticos’: todos apresentam criticidade em relação à fé cega e não levam a ferro e fogo a palavra do líder religioso, mas admitem que conhecem gente que se enganou com a monetarização da fé.

2 – A principal desconfiança aparece em relação a pedidos de dízimo e contribuição financeira muito ‘descarados’: funcionam inclusive como parâmetro para distinguir entre igrejas mais ou menos sérias dentro do universo neopentecostal.

Se eu der o dízimo, é um dinheiro que eu gasto no mercado, velho. Eu não vou dar o dízimo, eu vou dar um pouquinho que não vai me fazer falta. Mas também não vou dar pra igreja e comer ovo o mês inteiro. Entendeu? Eu dou a minha parte, eu dou a minha fé, mas não vem mandar eu dar 10% não. 10 % é muita coisa”

(Gênero feminino, branca, 36 anos – Faixa de renda 2)

EIXO TEMÁTICO IV | PERCEPÇÕES POLÍTICO-INSTITUCIONAIS

A política como ferramenta de mudança social está em processo de descrédito, chegando, em alguns casos, a ser até criminalizada:

A política institucional é ‘suja’, ‘cheia de gente mau caráter!’

Os políticos são vistos como simples usurpadores, que não cumprem com seus deveres em relação às necessidades dos cidadãos e, ainda, buscam somente a busca de vantagens pessoais.

Nesse sentido, a corrupção é indicada, de forma quase unanime, como sendo o principal problema do Brasil na atualidade, já que além de uma ser um mal em si, é também causa dos demais problemas existentes no país: desemprego, violência, péssima qualidade

Tem que jogar tudo no lixo e fazer tudo de novo, porque está tudo contaminado, tudo estragado!

(Gênero Feminino, 30 anos, branca – Faixa de renda 2)

A política é suja e gera revolta e desconforto falar sobre ela, porém, todos sabem que ela influencia em suas vidas, para o bem ou para o mal:

Justamente por dependerem do acesso a serviços públicos em seus cotidianos (transporte, escola, saúde, benefícios, programas e políticas sociais), maioria sabe que os governos, as decisões políticas e as políticas públicas influenciam em suas vidas.

Decisões erradas e gestões ruins podem gerar impactos mui- to negativos em suas vidas: inflação, aumento de preço etc…

Há quem cite como influência da política em suas vidas, apenas a alta cobrança de impostos.

DESMORALIZAÇÃO DA POLÍTICA

A solução passa por processos de:

1 – Moralização: Via tomada dos espaços por gente de caráter, boa, comprometida. A maioria entende que o ideal seria ter um partido único, composto pela reunião dos melhores e mais idôneos políticos das várias legendas e que funcionaria como “organização suprapartidária” – o que eliminaria brigas de poder e garantiria união em torno da meta de trabalhar pelo bem estar da população – já que não há diferenciação ideológica; já que não há conflito de classes. ‘Só precisa de gente do bem a fim de trabalhar’.

2 – Aplicação da eficiência do mercado ao Estado: Como tônica mais geral, a amostra parece desejar uma atuação mais integrada entre poder público e iniciativa privada em favor da coletividade – o que talvez abra portas para que discursos sobre parcerias e terceirizações soem mais atraentes.

Embora se conceda maior credibilidade ao mercado, não anula uma certa demanda pela presença do Estado como instituição auxiliar para a garantia de igualdade de oportunidades:

Alguns ‘direitos’ já estão cristalizados e não são negociáveis: o Estado é fundamental para reduzir desigualdades e garantir serviços básicos, como saúde e educação.

Políticas feitas pelo PT, Bolsa Família, em especial Prouni e FIES, são valorizadas e consideradas necessárias. No entanto, são vistas como insuficientes frente ao déficit na Educação; e falhas existentes, pois podem beneficiar quem não precisa – precisa de mais fiscalização para conter ‘injustiças’ (principalmente no caso do BF)

Há menos a presença de um neoliberalismo enraizado ou de um conservadorismo no sentido estrito e mais de um liberalismo particular das classes populares, que precisa ser melhor compreendido:

Tem a igualdade de oportunidades como ponto de partida e a defesa do mérito como linha de chegada.

Trata o mercado como instituição mais crível que o Estado, a esfera privada mais relevante que a pública e cultiva mais o individualismo que a solidariedade. Tem como valores prioritários o sucesso, a concorrência, o utilitarismo e mercantilização da vida.

Porém, reconhece a importância de um Estado eficaz em reverter impostos em serviços de qualidade e em reduzir desigualdades.

Eu acho que um primeiro passo, de repente é você usar o dinheiro do imposto, o dinheiro que o cidadão paga, para efetivamente você investir no país […] Eu acho que algumas coisas você precisa ter um tipo de imposto alto e pra outras nem tanto, mas independente se é o valor alto ou baixo esse valor tem que ser devolvido à sociedade.

Gênero Masculino, 30 anos, branco – Faixa de Renda 2)

Do mesmo modo que ocorre em outros temas, as percepções sobre as funções e responsabilidades dos partidos políticos no nosso sistema partidário também não são claras para a maioria:

Maioria entende que os partidos políticos servem para lançar candidatos e governar o país, mas poucos citam a luta por ideais em comum ou a construção de um projeto político com afinidade ideológica.

As nuances de posicionamentos entre eles não é clara e muitas vezes declare-se que não existem diferenças.

CONCLUSÕES

No imaginário da população não há luta de classes; o ‘inimigo’ é, em grande medida, o próprio Estado ineficaz e incompetente, abre-se espaço para o ‘libera- lismo popular’ com demanda de menos Estado.

A dimensão da vida pública é muito rarefeita e quase sempre a noção de “público” é tratada como sinônimo daquilo que é “de graça”. Nesse sentido, a própria relação com a esfera pública está mediada por interpretações mercantis.

Em muitos casos, a visão de mundo é formada se espelhando não entre aqueles que pertencem ao mesmo grupo, mas entre aqueles que pertencem ao grupo onde esses indivíduos almejam chegar, é fundamental observar os desejos e as expectativas futuras dessas pessoas.

A ascensão social está relacionada à coragem, ousadia e disciplina e é tratada como um resultado individual derivado da força de vontade. Muitas vezes isso significa estabelecer um sentimento de solidariedade mais estreito com os próprios emprega- dores do que com aqueles que partilham a mesma condição de classe. Nesse senti- do, a resiliência, mais do que a resistência é um valor positivo.

A lógica mercantil está presente mesmo na interpretação dos direitos trabalhistas e benefícios sociais. As pessoas confiam mais nos programas que ofertam imediata- mente recursos financeiros (Bolsa Família / Passe Livre) do que nas leis que orientam direitos.

Há uma busca por identificação com histórias de superação e sucesso, é nessa me- dida que figuras tão díspares como Lula, Silvio Santos e João Dória Jr. aparecem como exemplo. Em muitas circunstâncias a figura de Lula é admirada menos pelas politicas que o governo dele implementou, ainda que essa seja uma dimensão importante, e mais porque ele próprio é um bom exemplo de ascensão social.

Na trajetória e no desejo de ascensão os “estudos” e não necessariamente a edu- cação aparece como um elemento fundamental; de forma análoga a igreja aparece menos na sua dimensão teológica e mais como instituição de apoio para minimizar ou evitar o risco de seguir pelo caminho errado da desocupação e da criminalidade.

Voto religioso não é, estritamente, um voto conservador. Os valores religiosos neopentecostais podem se relacionar com elementos fundamentais organizativos da vida do trabalhador (meritocracia, teologia da prosperidade, etc), mas não são deter- minantes. Apresentam-se mais como identidade eletiva.

O “sucesso” neopentecostal se daria mais por questões organizacionais, seu papel acolhedor e de sociabilidade na comunidade do que por questões de conteúdo ideo- lógico. Política também é vínculo, acolhimento e identidade – as igrejas nas perife- rias proporcionam isso.

Atenção para o discurso que nega o ‘mérito’ ele é importante na construção da identidade. A dimensão da vida privada é central para a constituição da subjetividade do indivíduo. O campo democrático-popular precisa produzir narrativas contra-hegemônicas mais consistentes e menos maniqueístas ou pejorativas sobre as noções de indivíduo, família, religião e segurança.

Novas pesquisas: investigar mais o papel da religião e explorar mais a diferença sobre elas.

Este cenário de descrédito da política, compreensão do Estado como máquina ineficaz somada à valorização da lógica de mercado e a ideologia do mérito abrem espaços para candidatos e projetos como o do João Dória ‘um não político, gestor trabalhador que ascendeu e, por isso, não vai roubar’

MAS… entrevistados seguem acreditando em saída democráticas, falam em fortalecimento dos processos de transparência e participação. No processo de formação de opinião, as condições materiais de vida e do cotidiano são preponderantes.

[Fim da transcrição do relatório]

A INTERPRETAÇÃO DO ILISP

10 coisas fundamentais que você precisa aprender sobre a periferia para entender o Brasil

Marcelo Faria, Ilisp, 28/03/2017

O estado como principal inimigo dos indivíduos, ausência de relação de “exploração” entre patrões e empregados, rejeição aos impostos excessivos e entraves burocráticos, valorização do trabalho e esforço individuais como formas de ascensão social em detrimento de políticas estatais que põem em dúvida as capacidades pessoas (como as cotas), valorização do empreendedorismo e dos serviços oferecidos pelo mercado (como escolas privadas) em detrimento dos serviços estatais e valorização do âmbito privado (família e igreja) como base para a sociedade.

Parece ser apenas a visão defendida pelos liberais nas redes sociais e nos diversos espaços públicos, mas essa é a descrição das percepções e valores políticos na periferia de São Paulo, obtida por meio de uma pesquisa qualitativa feita, curiosamente, pela Fundação Perseu Abramo, ligada ao Partido dos Trabalhadores, na periferia da cidade de São Paulo.

O relatório final dessa pesquisa mostra um espetacular retrato do pensamento político e econômico dos moradores da periferia, onde a população é essencialmente capitalista e valoriza muito mais a iniciativa privada e individual do que a iniciativa estatal, vista como gratuita e de má qualidade. E possui observações tão fundamentais para entender o Brasil que separamos e analisamos dez delas para apresentar a você.

1 – As diferenciações na política institucional são irrelevantes

Sendo pessoas com uma rotina agitada e geralmente ocupada pelo trabalho, essa população pouco se importa com a polarização entre “esquerda” e “direita”. Na verdade, as palavras que limitam os campos políticos ou que são usadas de maneira pejorativa em disputas políticas (“reaça” e “coxinha”, por exemplo) não fazem parte do vocabulário. As nuances de posicionamento entre os partidos não são claras e muitas vezes consideram que os partidos “são todos iguais”.

Da mesma forma, pouco diferenciam entre as esferas federal, estadual e municipal, bem como entre os poderes legislativo e executivo, tratando tudo como “governo”. Por outro lado, cobram da prefeitura a solução para os problemas concretos da cidade e da região em que vivem (bailes funk, pontos de vendas de drogas, falta de zeladoria urbana, serviços estatais de má qualidade e falta de espaços de lazer estatais que, quando existem, são mal cuidados) enquanto vêem as questões mais macro e abstratas como responsabilidade da Presidência da República.

2 – Ninguém se importa com a retórica da esquerda

A retórica marxista da “luta de classes”, o ódio ao capitalismo, a repulsa ao mérito e os ataques constantes à família e à igreja são o exato oposto do que esse estrato da população defende.

Patrão e trabalhador são vistos como diferentes, mas não há uma visão de “exploração” do primeiro sobre o segundo: na verdade, ambos são vistos como estando no “mesmo barco” e não há conflito de interesses.

Mesmo os ideais coletivistas – tão caros à esquerda – praticamente não aparecem nas narrativas e, quando aparecem, restringem-se a entidades privadas como a família, a vizinhança e a igreja.

3 – O estado é considerado o principal inimigo dos indivíduos

Faria 1

[A imagem acima é do próprio relatório do PT: não publicamos os infográficos na transcrição acima do relatório, mas aqui sim, porque este diagrama em particular é fundamental para entender o artigo de Marcelo Faria]

O principal confronto na sociedade não é entre ricos e pobres, capital e trabalho ou corporações e trabalhadores, como a retórica de esquerda quer fazer crer. Na verdade, essa população percebe que o grande confronto se dá entre estado e indivíduos: todos são vítimas do estado que cobra impostos excessivos, impõe entraves burocráticos, gerencia mal e acaba por limitar ou sufocar a atividade das empresas.

No geral, tratam o mercado como mais crível do que o estado, sendo a esfera privada mais relevante do que a estatal e defendem mais iniciativas privadas atuando em favor da sociedade. Mesmo no caso dos programas estatais, há maior confiança nos programas que ofertam recursos financeiros imediatamente – como o Bolsa Família – e menos nas leis que “garantem direitos”.

Como definiu a própria pesquisa petista, é o liberalismo das classes populares.

4 – O mérito individual é mais importante do que as políticas estatais

A população da periferia não quer ser tratada como uma massa “amorfa” e incapaz chamada “pobres”. Pelo contrário, essa população deseja ter sua individualidade reconhecida, organizando sua vida em busca de melhores condições de vida.

Por isso mesmo, rejeitam as políticas estatais que entram em confronto com a conquista por meio do mérito pessoal, como as cotas; e valorizam figuras que “vieram de baixo” e cresceram por mérito próprio como João Doria Jr., Lula e Silvio Santos. Mesmo Lula é admirado mais por ser um exemplo de ascensão social do que pelas políticas que implantou, abrindo espaço, de acordo com a própria pesquisa petista, para políticos que valorizem mais o mercado e o mérito enquanto têm a mesma trajetória de ascensão social como João Doria Jr.

No mesmo sentido, valorizam muito o trabalho e o esforço individuais para superar as barreiras. Nada é intransponível. Como disse um dos entrevistados: “Se você não tem o esforço e não se ajuda, Deus não vai te ajudar, não vai cair do céu”.

5 – O empreendedorismo é altamente valorizado

O empreendedorismo é visto como uma forma de “ser dono do próprio nariz” e não “dever a ninguém”, além de estar associado às histórias de ascensão social bem-sucedidas. Muitos dos trabalhadores do mercado informal ou autônomos se auto-definem como empreendedores.

Dessa forma, o estado é visto como principal empecilho ao empreendedorismo graças ao excesso de burocracia e altos impostos.

Nas palavras dos próprios entrevistados: “Eu queria um negócio de vender batata frita, a casa da batata frita… Eu gostaria de começar por aí, não trabalhar pros outros, mas pra mim mesma!”; “A gente pensa assim: sou um cara ambicioso, estou com a faca e o queijo na mão, no caso esse empreendimento ai tem tudo para dar certo, porque não tentar?”.

6 – A família – e não o estado – é vista como solução para os problemas da sociedade

A família é vista como a principal base e solução para os problemas individuais e coletivos, sendo o “tudo, é o que faz valer a pena“, “o porto seguro, o que mantém a gente na linha“. A família é vista como a base para a construção de uma sociedade mais correta, sem violência, sem corrupção, mais desenvolvida, com pessoas de caráter e honestas.

Dessa forma, a crise da sociedade não é um problema estrutural em que o estado deve se envolver, mas de ordem individual, resolvida por meio da educação no âmbito da família.

Nas palavras dos próprios entrevistados: “Família é base de tudo! A família é alicerce para você ser alguém na vida!”; ” Na sociedade, (a família) não está sendo muito importante, né? As pessoas não estão valorizando mais a família como deve ser valorizada”.

7 – A escola desempenha um papel fundamental – e se for privada, melhor ainda

A escola é considerada a chave para ser “alguém na vida”, é o primeiro passo numa trajetória: aqueles que estudam e se dedicam conquistarão melhores empregos, melhores bens e terão um “lugar no mundo”. A grande maioria almeja colocar os filhos em escolas particulares, mostrando novamente a descrença no serviço estatal.

Nas palavras de uma das entrevistadas: “O ensino é bem melhor na particular. Meu neto estudava numa escola particular, só que ele saiu porque não tinha condições mais de pagar, mas se ele tivesse lá ainda, ele já estaria lendo (…) tem muita diferença do ensinamento (…) Porque eu acho que você está pagando você pode exigir e em escola pública você vai exigir de quem? Não pode exigir!”

8 – Além da família, outra entidade privada é considerada fundamental: a igreja

A religião cumpre três funções fundamentais na vida dos moradores da periferia: fornecer o principal espaço de sociabilidade, pertencimento e acolhimento, constituindo uma rede de apoio e solidariedade comunitária; atuar como selo de honestidade e idoneidade, demonstrando para os demais que você está no caminho correto; e atuar como base estrutural, junto com a família, deixando a vida menos difícil.

Nas palavras dos entrevistados: “Se você não tiver essas duas coisas (Deus e Família) conciliadas, ao mesmo tempo, não dá muito certo não. (…) Você tem que ter essa estrutura, essa fé. É o que te anima, cara, pra você enfrentar o dia a dia, os problemas do cotidiano.”; “Na igreja é a verdadeira família: aquela te liga, que chega no domingo senta no chão almoça, janta, que fala dos problemas. Que se você estiver passando por um problema, uma situação difícil, ele vai, não meu irmão, a gente vai te ajudar. Vamos vê o que a gente faz, a gente vai te ajudar, se você estiver precisando de uma cesta básica todo mundo corre. Cada um traz um açúcar, um café, um exemplo, é isso, para mim família é isso, é a religião.”; “Te faz sempre ficar no caminho correto, não desviar do caminho as coisas tá difíceis se você não tiver Deus as coisas ficam mais difíceis ainda.”

A pesquisa salienta também que há certo nível de tolerância para o que poderiam ser considerados “desvios” na ótica religiosa, revelando certa flexibilidade em relação aos dogmas das igrejas, como no caso do respeito e aceitação das diferentes orientações sexuais.

9 – A vinculação entre política e religião não é bem vista

Líderes religiosos que se candidatam a cargos políticos e discursos políticos em espaços religiosos não são bem vistos pela maioria por medo de que a política “contamine” os espaços religiosos, como se fosse impossível entrar na política sem se render e participar da corrupção. Outros, entretanto, acreditam que os homens religiosos podem moralizar os espaços políticos.

Por outro lado, a maioria não apresenta resistência ao voto em políticos que o líder religioso indique ou que frequentam o mesmo espaço religioso, havendo mais uma identificação com aqueles que têm algo em comum com a comunidade do que por um aspecto ideológico ou religioso.

Nas palavras dos entrevistados: “Acho que não tinha que se misturar. O político rouba muito, líder da igreja eles vão acabar pecando lá, roubando (…) a política tem muita sujeira assim.”; “Votei em alguns pastores, (…) acho que eles não roubariam”.

10 – Todos odeiam os políticos

A política institucional é vista com descrédito e considerada “suja” e “cheia de mau caráter”. Os políticos são vistos como aqueles que não cumprem seus deveres em relação às necessidades dos cidadãos e buscam somente vantagens pessoais. Além disso, a corrupção é vista como o principal problema do Brasil, não apenas pelo roubo em si, mas como causadora dos demais problemas do país.

Essa população entende que as decisões políticas influenciam suas vidas e gestões políticas ruins trazem impactos negativos em suas vidas como inflação, aumento de preços (carestia), serviços estatais de má qualidade, alta cobrança de impostos, entre outros.

Nas palavras de um dos entrevistados: “Tem que jogar tudo no lixo e fazer tudo de novo, porque está tudo contaminado, tudo estragado!”.

Conclusões

De acordo com a pesquisa petista, no imaginário da população da periferia paulistana não há luta de classes e, em grande medida, o próprio estado é o principal inimigo, numa visão de liberalismo popular com a demanda por menos estado, instituição vista como prestadora de serviços de má qualidade.

Apesar da pesquisa não ter sido realizada em outras cidades do país, é razoavelmente provável que o pensamento na periferia das cidades, onde está a maioria da população brasileira, seja bastante similar ao apontado por esta pesquisa.

Assim sendo, a pesquisa exorta aqueles que a esquerda em geral a “evitar o discurso que nega o mérito” e “produzir narrativas menos maniqueístas ou pejorativas sobre as noções de indivíduo, família, religião e segurança”. Certamente veremos isso acontecendo nos próximos meses.

Resta, portanto, uma conclusão: a periferia – a ampla maioria da população – é liberal. E um questionamento: o que falta para que tenhamos um Brasil liberal?

[Fim da transcrição do artigo]

Algumas considerações sobre o liberalismo realmente inexistente e a pesquisa da Fundação Perseu Abramo

Para começar pelo final. O fato das pessoas criticarem o Estado (o sistema político, mais propriamente – e com razão, pelos motivos que todos sabemos), não as torna liberais (não, pelo menos, liberais em termos políticos). Essas ideias, que aparecem na pesquisa, de Deus (na verdade de religião, ou melhor, de igreja), família e escola e até de partido único (esta última conexa a um emocionar que não convive bem com o conflito), fazem parte, vale dizer, da “programação da Matrix” (que é conservadora), não de uma visão do mundo que tenha a liberdade como sentido da política ou dos modos de regulação de conflitos (o que seria de fato liberal, em termos políticos). O fato dos proles (estou usando o termo empregado por George Orwell na distopia 1984) pensarem assim indica apenas uma espécie de epidemia (ou pandemia), ou seja, uma generalizada infecção por malwares da sociedade de controle (acordes ao padrão civilizatório patriarcal). Não há nada de promissor aqui, do ponto de vista da democracia (palavra que Marcelo Faria não emprega uma vez sequer no seu artigo: para quê, não é mesmo?)

Faria, do Ilisp, pinça do relatório as partes que afirmam a oposição entre indivíduo e Estado, entre privado e estatal, ou seja, aquelas oposições de manual do pensamento liberal-conservador. E força a mão ao dizer que “o empreendedorismo é altamente valorizado” (o relatório não diz isso e mesmo que dissesse seria necessário fazer a distinção entre empreendedorismo de necessidade – ou como inconformidade com baixos salários e com dinâmicas feitoriais de trabalho – e empreendedorismo como opção, vocação ou orientação de vida). E força a barra ao detectar um suposto “liberalismo popular”, quando, na verdade, o que transparece é o velho e bem conhecido conservadorismo dos excluídos. E, para rematar, erra feio ao concluir que “a periferia – a ampla maioria da população – é liberal”. Não é. E não é, nem mesmo, nos marcos estritos do liberalismo econômico.

Como já mostrei no artigo Cartografando a direita, não há praticamente liberais, no sentido político do termo, no Brasil. Há, sim, conservadores e, até, alguns destacados liberais-conservadores, mas os que se dizem liberais são liberais em termos econômicos e, não raro, bastante iliberais em termos políticos e em termos de valores e costumes.

Sim, no Brasil o liberalismo como força social é inexpressivo e como corrente de pensamento é irrelevante. Basta ver que os que se dizem liberais por aqui são, via-de-regra, trumpistas, preocupados com questões esdrúxulas como o direito de portar armas nas ruas (como se isso fosse defesa efetiva, em termos de segurança pública ou como se estivéssemos nos Estados Unidos do século 19, fundando a National Rifle Association, delirando com os editores do Army and Navy Journal e com uma turminha de militares com pretensões políticas, sobre a necessidade de defender a democracia – na verdade, o regime republicano, o que não é a mesma coisa – contra eventuais golpistas que pretendessem tomá-la de assalto), quando não preocupados com o gayzismo ou com alunos usando saias nas escolas. E os que não se dizem liberais, quer dizer, os estatistas de esquerda, os socialistas (como os petistas e seus aliados ideológicos) que combatem os que imaginam que sejam liberais (e que, na verdade, são liberais em termos econômicos e conservadores em termos políticos e culturais), desgraçadamente também são… conservadores (como já mostrei no artigo linkado acima).

Não, os habitantes das periferias de São Paulo (ou de qualquer outra periferia brasileira) que ganham até 5 salários mínimos, não engrossam uma força social liberal só porque estão descontentes com o sistema político. Essas pessoas não têm valores liberais e sim conservadores (posto que a cultura dominante – que coloniza suas consciências – é conservadora mesmo: a pesquisa não perguntou se eles são favoráveis à pena de morte, a redução da maioridade penal, a violação das normas e procedimentos que caracterizam o Estado democrático de direito para fazer justiça rápida, mas se perguntasse obteria respostas que não são tão difíceis assim de imaginar).

O artigo do Ilisp não afirma claramente, mas os que se dizem de direita no Brasil têm a mania de repetir a bobagem de que o povo é de direita. A pesquisa do PT mostra que as pessoas pobres e as mais pobres não estão nem aí para essa distinção ideológica entre esquerda e direita. Mas os que se dizem de direita devem achar que elas são de direita, só não sabem que são. Lembra um pouco aquela metafísica marxista segundo a qual o proletariado tem uma consciência – em si, mas não para si -, ou seja, uma consciência (que tem, mas não sabe que tem) de que é a classe revolucionária, aquela cujos interesses históricos particulares, uma vez realizados, atendem ao interesse geral da sociedade (só mesmo uma metafísica seria capaz de “explicar” como particularismos se universalizam, num toque de mágica, quando uma classe estabelece seu domínio – sua hegemonia ou supremacia – sobre as demais).

Deixando, porém, de lado, o injustificado assanhamento conservador com a pesquisa, é bom reconhecer que seus resultados são preocupantes do ponto de vista da democracia. O problema, sob essa perspectiva, não é o superavit e sim o deficit de liberais (em termos políticos) entre os mais pobres (e se pesquisa semelhante fosse feita em outras camadas da população, entre os menos pobres e até entre os mais ricos e os menos ricos), ou seja, de liberais que assumam a democracia como um valor e que defendam a continuidade do processo de democratização do Estado, da sociedade e do padrão de relação entre Estado e sociedade. Repetindo, o problema revelado pela pesquisa não é a existência de liberais nas camadas periféricas da população e sim a falta deles – o que é um indicador do amplo, profundo, gigantesco analfabetismo democrático reinante.

 

 

 

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