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O limbo dos inovadores

Sobre as diferenças entre as manifestações de 2013 e as de 2015-2016

Já se falou muito das grandes manifestações de junho de 2013, aqueles sete dias que abalaram o Brasil.

O que ocorreu em 2015 e 2016, em imensas manifestações de rua, já tematizadas politicamente, conquanto extremamente importante, não foi a mesma coisa do que ocorreu em 2013. Em 15 de março, 12 de abril e 16 de agosto de 2015 e em 13 de março de 2016, as pessoas – aos milhões – foram às ruas manifestar seu descontentamento com o governo do PT. Foram, no conjunto, os maiores swarmings políticos de toda nossa história, mas não uma expressão de inconformidade com o sistema como um todo e nem do desejo de viver em outros mundos.

O que foi inovador em 2015 e 2016 foi o processo pelo qual as multidões se constelaram (um processo de rede ensejado pelos altos graus de interatividade da sociedade – o que também ocorreu em 2013) mas não foram  propriamente inovadoras todas as pautas e desejos que emergiram das ruas. A agitação da água do poço, a partir do início de 2015, trouxe também à tona a borra conservadora que havia no fundo. Misturam-se desejos de mudança com pautas retrógradas por mais-ordem top down.

É claro que o sentido geral dos protestos de 2015 estava correto: foram movimentos contra as tentativas de uma força autocrática – politicamente organizada e hierarquicamente estruturada, instalada no governo para controlar a sociedade a partir do Estado aparelhado por um partido – de enfrear a democracia brasileira. Mas os motivos nem sempre.

Nem sempre mesmo. No substrato estavam fortemente presentes ideias de limpar para restaurar e manter alguma coisa que foi degenerada e que precisaria ser regenerada, não raro por algum herói da restauração moral da nação (um ideal projetado sobre o juiz Sergio Moro).

Conquanto minoritários, bandeiras e slogans patrióticos retrógrados, com reverências aos símbolos nacionais (onde até o velho pavilhão monarquista reapareceu), palavras de ordem anticomunistas (mas tão militantes quanto as palavras de ordem comunistas) e de defesa da família, da propriedade privada, do Estado e dos bons costumes, denunciaram a resiliência de um modelo mental (quer dizer, social) anacrônico, que pouco tinha de revolucionário no sentido social do termo, de mudança dos fluxos interativos da convivência social, das formas de sociabilidade, da radicalização do processo de democratização, da busca por novos modos de ensejar a formação da vontade política coletiva e de verificar os seus resultados diante do esgotamento dos atuais mecanismos de representação (não se ouviu mais nas ruas de 2015 e 2016 o famoso lema, que de certo modo definiu junho de 2013: “vocês não nos representam”, quando o “vocês” é todos vocês e não apenas os vocês do governo do PT) e da necessidade de construção de uma nova institucionalidade mais acorde à morfologia e à dinâmica de uma sociedade em rede.

Conquanto minoritárias – repita-se, pois a imensa maioria das pessoas estava querendo apenas demitir Dilma, afastar a possibilidade de Lula voltar ao poder e se livrar do PT – tais manifestações de um mundo que imaginava-se ter ficado em algum lugar do passado, horrorizou a galera mais moderninha, aquela que luta contra os preconceitos e discriminações (cujos movimentos setoriais foram aparelhados pelo PT, mas não apenas por isso e sim porque muitas manifestações dos opositores do PT eram preconceituosas e discriminadoras mesmo) e encurralou os democratas.

Os democratas ficaram encurralados porque sabiam que o sentido geral dos protestos estava correto e que o PT foi a mais séria ameaça à democracia brasileira desde o regime militar. Mas, ao mesmo tempo, não podiam coonestar as bandeiras de viés autocrático que eram desfraldadas por uma parte dos opositores do PT. Nem se fale da excrecência (mais minoritária ainda) de pedir a volta dos militares para colocar ordem na casa e sim da visão política autoritária de uma parte considerável dos que se opunham ao PT. Eles estavam certos ao pedir o impeachment de Dilma, a prisão de Lula e o cassação do registro partidário do PT, porém muitas vezes pelos motivos errados do ponto de vista da democratização da sociedade, dos costumes e da cultura:

a) porque o PT estaria traindo a pátria,

b) porque o PT estaria destruindo a família,

c) porque o PT estaria querendo liberar a maconha e o uso de outras drogas e promover o gayzismo nas escolas (para destruir a família),

d) porque o PT era comunista (e isso em parte é verdade, de vez que a maioria dos seus dirigentes históricos – os que comandam de fato o partido – são marxistas-leninistas ou marxistas-gramscistas, mas não poderia ter dado asas para reeditar a velha e carcomida reação anticomunista militante, pois anticomunismo nada tem a ver com conversão à democracia como demonstraram Franco e Salazar, Médici e Frota, Pinochet, Videla e Galtieri, Bordaberry e Méndez).

Toda essa porcaria autocrática boiando também constrangeu profundamente os democratas.

Mas é importante investigar por que isso aconteceu. Por que uma parte, dita mais conservadora, da sociedade brasileira, começou a proferir suas opiniões retrógradas à luz do dia e a se reivindicar como sendo “de direita” (com uma vibe muito semelhante aos que se reivindicam “de esquerda”)? A explicação mais simples, mais repetida e mais incorreta é aquela que diz que a sociedade brasileira é conservadora.

A sociedade é conservadora na medida em que toda cultura é conservadora (tenta conservar e reproduzir seus modos-de-vida), mas não no sentido de que as pessoas tivessem optado voluntariamente por defender ideologias e projetos políticos conservadores. É claro que a cultura brasileira (se se puder falar assim), como a cultura da maioria dos países, não é democrática. É a inércia de 6 milênios de autocracia contra apenas 500 anos de experiências localizadas e fugazes de democracia. A maioria das pessoas, em qualquer sociedade, ainda encara a política (de Estado) hobbesianamente, como um processo (ou melhor, um estado) capaz de manter a ordem e não chegaram a assimilar aquela finalidade proposta em 1670 por Spinoza no final do seu Tratado Teológico-Político: a de assegurar a liberdade (que era a finalidade original da política para os democratas atenienses).

O que aconteceu tem muito a ver com a reação do PT aos grandes swarmings de junho de 2013. Quando percebeu que não detinha mais (se é que alguma vez deteve) o monopólio das ruas e das manifestações sociais, o PT pirou e resolveu radicalizar. Diante da queda acelerada dos índices de aprovação de Dilma, logo após os protestos, no segundo semestre de 2013, o PT – não podendo dar o troco na mesma moeda, conquanto tivesse tentado com a fracassada manifestação partidário-sindical de 11 de julho de 2013 – se preparou para fazer a campanha do ano seguinte na base da guerra e do vale-tudo para não perder a eleição presidencial. Ou seja, não podendo controlar a rede social – a rede que surgiu da livre-interação entre pessoas que não tinham a profissão da militância – o PT tentou matar a rede ao instalar uma guerra civil fria no país a pretexto da campanha eleitoral. Ao fazer isso, por enantiodromia, o PT açulou também “os instintos mais primitivos” daquela galera autoritária e conservadora, que não absorveu o mínimo da democracia e que acha que tudo se resolverá prendendo, arrebentando e matando os celerados que investem contra a ordem do Estado.

Isso foi terrível porque enfreou também a inovação social que começou a brotar no Brasil a partir do início desta segunda década do século 21.

As manifestações explicitamente políticas que vieram em 2015 e 2016 – diferentemente das manifestações sociais de 2013, que não foram contra um governo específico e sim contra o sistema político como um todo – trouxeram tudo isso junto no pacote. Mas aqueles clusters inovadores que, mesmo sem entender direito o que ocorria, olharam com simpatia os grandes swarmings de junho de 2013, não conseguindo decifrar a assinatura do campo configurado pelos enxameamentos ainda maiores de 2015 e 2016, ficaram desconfiados. Muitas pessoas desses clusters, que saíram alegremente às ruas em junho de 2013, se recusaram a perfilhar com os autocratas anti-governistas que pediam intervenção militar em março de 2015. Embora estes últimos fossem sempre muito minoritários, não importava: era meio simbólico não ser fotografado ao lado de um “dinossauro” daquele tipo; ou, o que é mais importante, elas não se sentiam conectadas às mesmas redes desse pessoal estranho que pareceu ter se levantado de repente da tumba. Não havia sintonia. E muito menos sinergia.

É claro que o PT e outros partidos, dirigidos por pessoas cujas consciências foram colonizadas pelo neopopulismo de esquerda (como o PSOL e a falsa “Rede” da oportunista Marina) aproveitaram tudo isso para recapturar, pelo menos em parte, os “progressistas” que já haviam se desiludido de partidos e da velha política. Mas essa operação também não foi bem sucedida. Essas pessoas continuaram desconfiadas, agora de tudo, tanto do PT e dos partidos estatistas, quanto dos que se opunham ao PT por razões que não se sintonizavam com suas ideias e, sobretudo, com seus sentimentos. Criou-se uma espécie de limbo para os inovadores que não estavam mais dispostos à travar lutas políticas em nome de ideologias salvadoras. É onde muitos estão agora.


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