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O Lula-lá em dezembro de 2017: uma análise do quadro pré-eleitoral no Brasil

Em 6 de maio de 2017 publiquei aqui um artigo intitulado A maior ameaça à democracia é a candidatura de Lula. Argumentava na ocasião que, independentemente do resultado do pleito ou dos impedimentos legais que poderiam sobrevir no período pré-eleitoral, o simples fato de Lula – depois de tudo o que fez – ter energia política suficiente para sair candidato já seria um sinal de que há uma instabilidade ou deficiência severa no funcionamento do “sistema imunológico” da democracia brasileira.

Pois bem, agora, seis meses depois, constatamos que Lula não só é candidato, mas está com o dobro das intenções de voto do segundo colocado. E que a adesão à sua candidatura, seja de parte significativa dos eleitores, seja de parte dos velhos (e corruptos) caciques da política tradicional, não está diminuindo e sim, pelo contrário, aumentando.

Quanto ao apoio popular, o Datafolha divulgou ontem uma pesquisa revelando que Lula está com 34 a 37% no primeiro turno, o dobro do segundo colocado e venceria todos os concorrentes no segundo turno.

Quanto ao apoio dos velhos caciques, não há pesquisa disponível, mas a observação sistemática revela que boa parte dos mais conhecidos chefes políticos, com currais eleitorais consolidados em várias regiões do país, estão propensos a apoiar Lula, seja porque apostam no seu desempenho eleitoral, seja porque concluíram que ele é o único líder com cacife suficiente para interromper o processo de “perseguição” aos políticos empreendido pela Lava Jato. Assim, estão se aproximando de Lula (ou já estão com ele), Renan Calheiros, Fernando Collor, Eduardo Braga, José Sarney, Edson Lobão, Eunício Oliveira, Roberto Requião, Ricardo Coutinho, apenas para citar alguns exemplos. E não terão dificuldade ou pejo de fazê-lo, mais adiante, gente como Rodrigo Maia e seu progenitor, assim como toda a elite corrupta carioca.

Provavelmente, Lula também contará, na hora H, com o apoio de alguns potentados do mundo jurídico, como Fachin e Barroso do STF (para não falar de Fux, Rosa, Lewandowski e Toffoli) – o que pode ser decisivo, por exemplo, para a continuidade da sua campanha eleitoral, acatando os recursos de seus advogados, caso ele seja condenado pelo TRF-4 ou concedendo-lhe Habeas Corpus, caso ele seja preso.

Como instalou-se no país a irracionalidade, as pessoas que se opõem à Lula entraram naquela primeira fase da morte: a da negação. Os sintomas mais perceptíveis podem ser colhidos nas mídias sociais:

“O Datafolha foi comprado, a pesquisa é fajuta, trata-se de um instituto que erra sistematicamente, os critérios da pesquisa não são científicos et coetera”

“Inventaram esse resultado para tirar do páreo Bolsonaro (que, na verdade, está vencendo ou está bem próximo de assumir a dianteira segundo o ‘Instituto XYZ, de Conceição do Mato Dentro’)”.

“Lula não será candidato, pois antes será condenado e preso pelo TRF-4”

“É tudo um embuste. Lula não tem votos nem para se eleger síndico de um prédio”

“Lula apenas bateu no teto dos votos que historicamente já são do PT”

“Quando a campanha começar Lula cairá vertiginosamente, ficando abaixo de 3%”

É claro que estas são desculpas clássicas de torcedor. Os institutos de pesquisa – sobretudo o Datafolha – podem manipular e podem errar, sim. Há, aliás, vários antecedentes. Mas uma falsificação ou erro dessa magnitude são improváveis. Mesmo porque existem outros institutos conhecidos, como o Ibope (não é necessário apelar para o Instituto XYZ, de quem ninguém ouviu falar). Nenhum levantamento sério deixaria de colocar Lula em primeiro lugar, com maior ou menor margem de vantagem em relação aos demais candidatos.

A questão é simples. Não importa o que vai acontecer adiante, se Lula vai ter um ataque cardíaco, se vai ser acometido por um AVC e ficar paraplégico, se seu câncer voltará e ele perderá a fala, se vai ser preso ou condenado e impedido de concorrer, se os recursos de seus advogados serão todos rejeitados pelo TRF-4, pelo STJ e pelo STF e outras futurices – e sim que, hoje, ao que tudo indica, Lula está na frente e está crescendo.

Se não houver um fato extraordinário, a irracionalidade não vai diminuir. Se agora, a quase um ano do pleito, as pessoas se comportam como torcedoras, imaginem qual será o estado do debate público daqui a 6 meses.

A questão é o que fazer diante dos resultados das pesquisas, além de negá-los. Ainda não apareceu uma candidatura forte no campo democrático capaz de quebrar a polarização Lula (ou algum seu preposto) x Bolsonaro, que captura a disputa no campo autocrático alijando as alternativas democráticas. Alckmin não é um bom candidato, Dória seria melhor, mas foi queimado antes da largada (ou ele mesmo queimou a largada), Dias tem pouco potencial (e é muito confuso, além de estatista), Amoedo (embora bom, talvez o melhor) é muito jejuno.

A questão central para a democracia, agora, não é tentar prever quem ganhará o pleito em outubro de 2018, nem ficar rezando para que a justiça resolva o problema da política e sim evitar que, antes disso, a disputa fique polarizada entre dois autocratas. Lula (o candidato realmente existente da esquerda – em dezembro de 2017 – com condições de polarizar a campanha) é um autocrata perigoso. Ele mesmo está dizendo e repetindo isso. Ainda ontem tuitou (e eu retuitei) o seguinte:

Bolsonaro, por mais esforço que faça daqui prá frente para apagar todas as suas declarações em vinte anos de vida política, a favor da ditadura militar e da tortura, é uma excrecência autocrática, um autoritário de manual.

Fernando Gabeira, em artigo no Estadão de 01/12/2017, intitulado O choro privilegiado, não deixou escapar o dilema que atormenta os democratas:

“No caso do PT, o mercado tem esperanças de que, vitoriosa, a esquerda volte a se encontrar com a classe média e abrande sua linha. Não tem sido esse o discurso do PT. Lula afirmou várias vezes que vai estabelecer o controle social da imprensa. Em quase todas as análises, a esquerda conclui que foi derrubada porque não soube radicalizar.

Pelo menos no discurso, o caminho aponta para a Venezuela. Além do mais, tenho minhas dúvidas quanto à reconciliação com a classe média. Acho, sinceramente, muito improvável, mesmo com a ampla admissão dos erros e das trapaças.

No caso de Bolsonaro, tudo indica que caminha para uma visão liberal na economia, dura na repressão ao crime e conservadora nos costumes. É formula que tenta conciliar o avanço do capitalismo com as tradições que ele, naturalmente, dissolve na sua expansão global.

Tanto para os eleitores de Trump como para os de Bolsonaro, há uma força nostálgica em movimento. Voltar atrás, no caso americano, explorando carvão, tentando ressuscitar áreas industriais arruinadas. No caso brasileiro, voltar aos tempos do regime militar, durante o qual não houve escândalos de corrupção nem a violência urbana”.

Ontem (02/12/2017) publiquei no Facebook (antes da divulgação do resultado do Datafolha) a seguinte nota:

“Não estou afirmando que Lula ou Bolsonaro vencerão o pleito e que não há mais o que fazer, embora o primeiro tenha chances reais de vencer, se não for impedido em tempo hábil pela justiça. O que estou dizendo é até mais grave do que isso porque os malefícios podem acontecer mesmo que ambos não passem para o segundo turno: a) a polarização da disputa no campo autocrático – de agora até outubro de 2018 -, que dilapidará nosso capital social e descartará os democratas da cena pública; e b) a sobrevivência da organização política criminosa (que não foi desbaratada pela Lava Jato, tendo apenas três dos cerca de trinta dirigentes do seu núcleo duro incomodados pela justiça)”.

Esta análise continua, sobretudo enfocando as razões que nos levaram à situação presente (das quais não se pode eximir o comportamento irresponsável de Janot, Fachin e do Grupo Globo e da chamada força-tarefa da Lava Jato) e as condições que nos permitiriam sair da enrascada em que nos metemos (ou fomos metidos).

A primeira questão é saber como pode ter acontecido de o PT, derrotado nas ruas, nas mídias sociais, no parlamento (com o processo do impeachment) e nas urnas de 2016 (onde foi quase exterminado), ter se recuperado tanto e tão rapidamente – por meio da candidatura Lula – a ponto de manter ou superar seu patamar de apoio histórico (cerca de 30% ou mais, chegando quase a 40%).

A segunda questão é saber com quais forças políticas se pode contar para reverter o quadro atual e se as ruas vão voltar a falar no próximo ano (o que seria um fato extraordinário, mas talvez o único capaz de construir uma opinião pública democrática).


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