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O MBL, o Vem Prá Rua e a democracia

Quando uma coisa termina, ela termina

Os movimentos que convocaram as grandes manifestações pelo impeachment cumpriram um importante papel. Sobretudo o MBL e o Vem Prá Rua, que não eram comprometidos com visões autocráticas, olavistas ou bolsonaristas. E poderiam continuar cumprindo ainda, caso tivessem morrido e renascido, um papel relevante na transição democrática pós-PT (que ficou inconclusa).

No entanto, após o refluxo das ondas de alta interatividade de 2015 e início de 2016, esses movimentos tiveram que inventar, meio artificialmente, suas próprias pautas particulares para continuar existindo.

O MBL resolveu enveredar por uma chamada “guerra cultural”, abraçando ideias estranhas – e paradoxalmente iliberais – como a manutenção dos valores da civilização ocidental cristã, o armamentismo popular, o trumpismo (e outros implantes antidemocráticos, que já eram malwares olavistas): tudo para disputar base social com o crescente bolsonarismo (e ser reconhecido como expoente da “nova direita”).

O Vem Prá Rua, por sua vez, abraçou o jacobinismo dos procuradores da Lava Jato, o Fora Temer, o antagonismo do jornalismo cafajeste e, infelizmente, vem decaindo para o populismo (sempre atento ao que pode “dar ibope” ou ao que “o povo quer”, para não perder influência).

Mas tentar saber o que o povo pensa para adotar uma posição política que tenha audiência, é um grave equívoco do ponto de vista democrático. Todas as pesquisas mostram que as opiniões privadas dos indivíduos da população, se consultados individualmente, não são – em sua imensa maioria – liberais em termos políticos e, inclusive, em termos econômicos.

Por exemplo, as pessoas – consultadas individualmente, é bom repetir – manifestam ideias pavorosas de submissão à autoridade, convencionalistas, autoritárias, punitivistas ou vingativas, como mostrou um estudo feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública baseado em pesquisa Datafolha. Ademais, como mostrou outra recente pesquisa do Datafolha, as pessoas têm, em geral, posições estatistas, contra as privatizações.

Nada disso significa, entretanto, que a soma dessas opiniões privadas expresse uma visão de mundo que possa ser caracterizada como “de direita” pois, em geral, elas (essas opiniões) detectam a reprodução de uma cultura que (como toda cultura) tende a ser conservadora (e, em alguns casos, retrógrada) – sem um grau de tematização política capaz de definir a adesão voluntária a uma corrente de opinião.

Todavia, quando os indivíduos interagem politicamente, gerando uma opinião pública, suas opiniões privadas se modificam. Esse é o objetivo do processo político democrático: não mudar a cabeça das pessoas (por dentro, uma a uma ou por meio da propaganda massiva, pelo broadcasting), mas permitir que sua interação possa gerar uma opinião pública favorável às liberdades (políticas, econômicas e civis) capaz de provocar uma mudança sistêmica de mentalidade (aqui o fundamental é entender que a influência exercida pelos processos de rede é incomparavelmente maior do que a conversão individual pelo proselitismo catequético ou pela impregnação massiva via marketing).

Ora, como percebeu Ralf Dahrendorf, não há democracia sem democratas. Os democratas são agentes fermentadores da formação da opinião pública (democrática) e, por isso, não estão preocupados em corresponder ou atender às opiniões privadas da maioria da população (pois sabem que a soma das opiniões privadas não é a opinião pública). Os que fazem isso são os populistas, não os democratas. Se a maioria da população apoia um governo forte, desde que traga bons resultados para o povo, mesmo que não respeite os direitos políticos e as liberdades civis dos cidadãos, os democratas não têm que legitimar essa posição (do contrário, não seriam democratas). Se a população é majoritariamente contra as privatizações, os democratas não têm que abraçar essa bandeira estatista para não contrariar o que pensa a maioria (do contrário, não seriam liberais). Democracia não é majoritarismo. Quem tem medo de ser minoria não pode ser democrata.

Para não falar dos outros movimentos, que foram, todos, colonizados pelo olavismo e pelo bolsonarismo, esses dois importantes movimentos (MBL e Vem Pra Rua) não quiseram se dissolver. Mas, na prática, deixaram de ser o que eram para virarem articulações eleitorais, lançando seus representantes a cargos eletivos – o que, em si, não teria problema (posto que é necessário mesmo renovar os quadros políticos), ainda que essa “saída” para a falta de pauta e de compromisso concreto com o processo de democratização da sociedade seja mais própria de partidos do que de movimentos sociais de renovação da política.

Entretanto, do ponto de vista da democracia na base da sociedade e no cotidiano do cidadão, isso acaba, sim, sendo um problema. Movimentos que nasceram na planície não poderiam virar plataformas de lançamento para o planalto, ou seja, não deveriam se dedicar a sugar energias da sociedade para transferi-las para o Estado. Há uma transposição de lógicas, uma glissagem ou um deslocamento de padrões de comportamento político nessa passagem que desarma a sociedade de suas expressões próprias, realimentando a ideia de que só se pode fazer alguma coisa para modificar a situação desde o – ou a partir do – Estado.

Da mesma tentação fomos vítimas na época da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida (que ficou conhecida como Campanha do Betinho), nos idos de 1993-1994. Muitos queriam que o Betinho se candidatasse a algum cargo eletivo e ele teve o discernimento necessário para afirmar que seu lugar era a planície e não o planalto e que, como mais um de cinco centenas de representantes, poderia fazer muito menos do que já estava fazendo como expressão de uma das maiores movimentações sociais de nossa história. A Ação da Cidadania teve seu tempo, como tudo na vida, e acabou, embora muitos tentassem espichá-la para não perder influência política (e eu mesmo tentei fazer isso, quando era uma espécie de secretário-geral nacional do movimento, mas logo desisti, em 1995, ao ver que, como diz um dos lemas do Open Space, “quando uma coisa termina, ela termina”).

Os jovens do MBL e do Vem Pra Rua não viram isso. Bem sucedidos em uma ocasião, queriam continuar fazendo sucesso em todas as ocasiões. A tentação de manter um grupo, com todos os retornos compensatórios – de visibilidade pública, obtenção de financiamentos, apoios institucionais e outras vantagens competitivas – que isso pode conferir aos que cumprem o papel de articuladores e animadores, é ainda mais irresistível do que a tentação de pertencer a um grupo. Aconteceu também com uma parte dos que ficaram conhecidos como os Indignados de Espanha (do 15M), após os grandes swarmings de 2011 por uma nova política. Aconteceu ainda com os H-Kongers (daquela que ficou conhecida como a Revolução dos Guarda-Chuvas, em setembro e outubro de 2014). Todas essas movimentações tiveram como fonte pulsões coletivas sobre as quais seus organizadores não tinham o menor controle. E todos elas acabaram, por mais que seus próceres tenham tentado resistir à morte.

Mas é aí – precisamente aí, para escapar da morte – que começa o desespero de inventar pautas que obtenham a adesão de amplos setores da população (sim, os movimentos que convocaram as manifestações do impeachment ainda acreditam que os grandes enxameamentos sociais de 15 de março, 12 de abril, 16 de agosto de 2015 e 13 de março de 2016, foram causados, mais do que desencadeados, pelas suas pautas e pelas suas convocações, pelo seu voluntarismo e dedicação à causa, e não pelos fluxos interativos da convivência social que estavam em alta naquelas ocasiões).

Esse sobre-esforço para obter uma adesão equivalente ou semelhante a do passado, em uma época em que os fluxos interativos estão em baixa ou correm subterraneamente, tem um preço, contudo, em perda de sustentabilidade. Sustentável não é o que permanece como foi e sim o que muda tempestivamente para ser o que pode ser em congruência com as mudanças do meio. Para tanto, um movimento deve aceitar o fim de um ciclo e abrir outro, não se recusando a morrer (como foi) para renascer (quer dizer, para ser o que será).


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