in

O “Mecanismo” do Padilha

Estou vendo a série do Padilha: O Mecanismo. Vou terminar os episódios disponíveis da primeira temporada para dar minha impressão geral. Há um erro grave de percepção (e de concepção) que já pode, entretanto, ser notado.

Não há um (único) mecanismo, que funcione, como diz o diretor, independente do que ele chama de “ideologia”. A corrupção petista é, em parte, a corrupção endêmica na política brasileira, praticada por todos ou quase todos os partidos. Mas, em parte, não. O PT praticou a corrupção com motivos estratégicos de poder, não somente para ficar no governo, auferindo vantagens, como fazem os políticos tradicionais de todas as correntes e sim para alterar a DNA da nossa democracia, bolivarianizá-la (ainda que à brasileira, quer dizer, lulopetizá-la).

A parte da corrupção petista que é inovadora, que não pode ser enquadrada na corrupção tradicional, endêmica em nossos meios políticos, tinha (e tem) como objetivo financiar um esquema paralelo de poder, de conquista de hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido. O corrupto tradicional, que vive da política, não faz isso, antes de qualquer coisa porque não é do seu interesse.

Cabral não financiou a ditadura cubana ou angolana, Cunha não deu dinheiro para reeleger Hugo Chávez, Geddel não montou esquemas para viabilizar o Foro de São Paulo. Do jeito que Padilha conta a história fica-se com a impressão de que Cabral é igual à Lula, Cunha é o mesmo que Dirceu ou que Geddel é uma espécie de Vaccari mais gordo. Mas o fato desses dirigentes petistas roubarem também para si, igualmente ao que fizeram os emedebistas, não os coloca na mesma categoria de agentes políticos e não torna suas agremiações ameaças equivalentes à democracia brasileira. Porque, além de roubarem para si, para suas famílias e para seus grupos eleitorais, Lula, Dirceu e Vaccari roubaram para implementar um projeto político neopopulista.

Ah!… Mas eles estavam associados para delinquir. É claro que estavam. Mas o Hezbollah não é a mesma coisa que o PCC, só porque ambos se associaram em algum momento para praticar tráfico de armas e munições. Confundir o Hezbollah com o PCC – embora ambos pratiquem crimes – não é apenas grave: é gravíssimo!

Muitas pessoas inteligentes – não apenas Padilha, mas inclusive a chamada força-tarefa da Lava Jato – não conseguem entender que não se trata de um mesmo mecanismo, embora pareça. Não entendem que Lula não é Cabral, Dirceu não é Cunha e Vaccari não é Geddel. Isso parece um mistério, porque não é tão difícil perceber que os mecanismos são diferentes.

Apenas para dar alguns exemplos:

1) Não chegou dinheiro vivo em avião presidencial de Chávez para a campanha.de Cabral.

2) Não veio dinheiro do Kadafi para a campanha de Cunha.

3) Não há dinheiro escondido de Geddel em Havana.

Além disso…

4) Cabral não financiou obras para a ditadura angolana.

5) Cunha não aprovou dinheiro do BNDES para financiar a construção do Porto de Mariel, em Cuba e nem inventou o programa Mais Médicos para ajudar a ditadura castrista.

6) Geddel não bancou a reeleição de Chávez e não fez a campanha de Maduro com dinheiro roubado de nós.

Padilha – como analista político um excelente cineasta – parece não ter entendido o cerne do projeto petista e, pelo que pude perceber do seu filme, não entendeu que o mecanismo necessário à via neopopulista não é igual aos mecanismos dos batedores de carteira da política tradicional, ainda que tenha se aproveitado deles – até para se esconder e se proteger: como ensinou o Consigliere Thomaz Bastos. Se todos estão de algum modo envolvidos, cria-se um círculo de ferro de cumplicidade (que, no limite, pode incluir até mesmo os altos escalões do poder judiciário). Denunciar o PT passa a ser o mesmo que denunciar todo o sistema político (ou mais: todo o establishment) que com ele se envolveu. Foi por isso que o PT depositou seus ovos dentro da carcaça podre do velho sistema político. A deposição dos ovos (o mecanismo petista) não pode ser confundida com os vários mecanismos que levaram ao apodrecimento da carcaça (e que também apodreceram o próprio PT).

Faltou ao diretor e roteiristas de O Mecanismo, saber interpretar uma foto recente, da tropa reunida para as exéquias do ditador Fidel Castro. Para bom entendedor, ela diz tudo e mais um pouco (procurem com lupa as caras de Cabral, Cunha e Geddel):

A confusão entre diferentes “mecanismos” não é de menor importância, não pode ser autorizada como uma espécie de “licença poética” pois ela obscurece em vez de esclarecer. Fica-se com a impressão de que se Lula, Dirceu e Vaccari (e os seus chefiados) fossem honestos, tudo bem. Ocorre que, se eles fossem honestos, seria muito pior para a democracia. Pois eles seriam menos vulneráveis aos órgãos de controle do Estado de direito e, possivelmente, ainda estariam dando as cartas no Planalto e trabalhando diuturnamente para conquistar hegemonia sobre a sociedade brasileira a partir do Estado aparelhado pelo partido.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário

A tarefa mais importante para a democracia no Brasil neste momento

“O PT só fez o que todo mundo faz”: a falsificação de Padilha