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O moralismo da operação Mãos Limpas, segundo Giovanni Orsina

Juízes da Mãos Limpas viraram atores políticos, diz historiador italiano

IGOR GIELOW, Folha de São Paulo, 29/08/2017

Era uma vez um país abalado por uma megaoperação contra a corrupção. Ela dizimou as principais lideranças partidárias, pegas em malfeitos, teve juízes e procuradores acusados de agir politicamente e abriu caminho a um líder que se dizia apolítico.

A descrição da Itália da Mãos Limpas em 1994 encaixa-se em vários dos cenários desenhados para o Brasil da Lava Jato em 2018. A despeito do abismo separando suas realidades, a crise de representatividade é comum.

Vinte e três anos depois de ser eleito, o ex-premiê Silvio Berlusconi ainda é influente, mas representa uma falência institucional que só poderia ter sido combatida se a solução em 1994 tivesse ocorrido dentro da política.

Essa é a opinião de um dos principais historiadores do fenômeno do berlusconismo, Giovanni Orsina, professor da universidade LUISS-Guido Carli, em Roma.

Ele evitou comparações, mas em suas colocações há grandes similaridades com o debate atual no Brasil.

“A lição que ficou da crise na Itália é uma muito difícil de ser ouvida: a política é uma atividade necessária”, disse, por telefone, o autor de “O Berlusconismo na história da Itália” (2013, disponível em italiano e inglês).

Orsina, 50, critica aspectos “moralistas” de juízes da Operação Mãos Limpas, que varreu os partidos tradicionais de 1992 a 1994 e viu seu magistrado-símbolo, Antonio di Pietro, virar político.

Giovanni Orsina, 50

Nascimento

Roma, em 1967

Formação

Doutor em história. Professor de história contemporânea, vice-diretor da Escola de Governo e diretor do mestrado em estudos europeus da LUISS-Guido Carli

Obras

“O Berlusconismo na história da Itália” (2013), “A República depois de Berlusconi” (2011), “Sem igreja nem classe” (1998), entre outros

Para ele, Berlusconi era o que a sociedade queria: apolítico, empreendedor e rico — logo, “não precisaria roubar”.

A história mostrou-o farsesca, até porque no seu primeiro mandato como primeiro-ministro até 1995 ele ajudou a desmontar a Mãos Limpas. Tornou-se a figura central no país, sendo premiê outras duas vezes (2001-6 e 2008-11), mas também encarna a caricatura do corrupto.

Ele está banido de cargos públicos até 2019, por corrupção, mas lidera o terceiro maior partido do país e quer disputar as eleições em 2018.

Folha – Passados 25 anos, qual o legado da Mãos Limpas?

Giovanni Orsina – O efeito foi enorme. Mudou para sempre a política na Itália. Houve um processo muito intenso de busca por bodes expiatórios, enquanto os políticos só tinham responsabilidade política. A mesma sociedade tolerou aquelas práticas por muitos anos.

Quando o sr. fala em sociedade civil, está falando de uma ideia de elite?

No caso, é um instrumento retórico. A Itália dos anos 1980 era um mix de tudo isso, elite, classe média, operários. Como disse, em vez de a sociedade se responsabilizar também pela situação, os italianos resolveram colocar toda a culpa nos políticos.

Acharam que se você se livrasse de bodes expiatórios, tudo ficaria bem. Apoiaram a Mãos Limpas, só que nada foi plantado exceto a ideia de que a política é ruim, e que os magistrados eram mágicos.

Pediam a mudança, mas não aceitavam dar os instrumentos a quem poderia fazê-la. Acabou com o sistema.

O sr. descreve a Mãos Limpas como um evento político.

Sim. Claro, ela apurou coisas importantes, mas foi um evento político que gerou uma crise política.

O Judiciário agiu politicamente na Mãos Limpas?

Juízes e promotores viraram atores políticos, mas é muito difícil apontar se eles faziam isso por alguma agenda. Até porque a Mãos Limpas não era uma entidade única. Havia o grupo principal, de Milão, que não era homogêneo. E havia Roma, Palermo.

Até certo ponto, eu acho, alguns dos magistrados tinham sim uma agenda.

E entraram na política.

Claro, como no caso de Antonio di Pietro [o promotor principal da Mãos Limpas, que virou ministro do governo de centro-esquerda de Romano Prodi em 1996 e de 2006 a 2008]. Houve artigos incríveis escrito por ele e também por outros, nos quais era adotada uma retórica moralista. O indiciamento ético da classe política era moral, não judicial.

Tanto que ele apareceu em um programa de TV fazendo café da manhã, um verdadeiro herói do povo. Depois ele viria a fundar um partido, o Itália de Valores [em 1998], cujo nome diz tudo.

Paradoxalmente, esse clima de moralismo abriu caminho para Silvio Berlusconi.

Sim, mas isso é nosso olhar hoje. Em 1994, quando Berlusconi foi eleito, sua figura era a solução para a demanda por moralidade. Ele não era um político, e para a sociedade os políticos não eram mais necessários.

E há mais: a sociedade civil julgou que estava na hora de colocar um dos seus, o melhor dos seus integrantes, no poder. Ele nem precisaria roubar, pois era bilionário.

E encarnava o trabalho duro, o empreendedor, o “self-made man”. Era uma solução brilhante. Num lance genial, ele tentou trazer a Mãos Limpas para o governo [em 1994], convidando Di Pietro para o ministério [que não aceitou e investigou Berlusconi]. Era o filho da revolução, só depois o chamaram de ilegítimo.

Mas permanece influente.

A Itália nunca ficou totalmente contra Berlusconi. Eu diria que apenas aqueles que eram contra ele já em 1994, estratos da elite e a esquerda, continuam seus adversários.

Ele está de volta, está fazendo política e vai influenciar nas eleições de 2018.

A Itália nunca se recuperou das Mãos Limpas. O sistema político ficou tão enfraquecido que mesmo um personagem como Berlusconi, acusado de tantas coisas, ainda é um grande ator.

A culpa é da sociedade então?

Ela quis a solução do grande gestor. Mas é importante lembrar que ele não foi eleito só por isso. A falta de alternativas era enorme. Ninguém queria um governo dos pós-comunistas, a esquerda.

O Brasil passa por uma situação que guarda muitas analogias com a Itália de 1992, 1994. Que lição poderia ser dada sobre tudo o que aconteceu?

Naturalmente não posso falar sobre o Brasil, que não conheço bem. Mas a lição que ficou da crise na Itália é uma muito difícil de ser ouvida: a política é uma atividade necessária, tem suas próprias regras e seu próprio tempo.

Políticos têm de ser bem pagos para fazer seu trabalho sem desvio, e se você não der os instrumentos, a política falhará. Se ela falha, o campo fica aberto e é povoado por todo tipo de personagem. A Itália não aprendeu a lição.

No Brasil, há uma discussão sobre adoção do parlamentarismo. Aqueles contrários citam o exemplo italiano, com grande instabilidade, como argumento. O que o sr. acha?

Os governos duravam menos de um ano em média, mas o corpo de governança era sempre o mesmo. Era substancialmente estável porque havia partidos e eleitorado fortes. Quando esses dois parâmetros despareceram no começo dos anos 90, o parlamentarismo virou um problema. Várias reformas constitucionais foram tentadas, mas sempre falharam. Assim, o parlamentarismo é parte do problema italiano.


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