Kerferd 5

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O movimento sofista 5

Começamos a publicar os capítulos do livro de G. B. Kerferd (1980), O movimento sofista (tradução de Margarida Oliva de The Sophistic Movement, Cambridge: Cambridge University Press, 1981, publicada pelas Edições Loyola, São Paulo, 2003).

Os três primeiros capítulos estão disponíveis aqui. O quarto capítulo está disponível aqui. Segue abaixo o quinto capítulo na íntegra.

5 – Os sofistas individualmente

Conhecemos os nomes de mais de vinte e seis sofistas do período entre mais ou menos 460 a 380 a. C., quando sua importância e sua atividade estavam no auge. No século IV eles foram efetivamente substituídos por escolas mais organizadas, mais sistemáticas, freqüentemente com prédios próprios mais ou menos permanentes, como no caso da Academia de Platão, do Liceu de Aristóteles e de um bom número de outras. Dos sofistas cujos nomes conhecemos, talvez oito ou nove eram muito famosos, e a esses deveríamos acrescentar os autores de duas obras anônimas, a Dissoi Logoi e o chamado Anônimo Jâmblico. Seria conveniente dizer alguma coisa sobre cada um deles separadamente. O testemunho se encontra em geral convenientemente apresentado na coleção de Testemunhos e Fragmentos, por Diels-­Kranz, citada como DK [1].

(1) Protágoras

De longe o mais famoso era Protágoras, e Platão sugere ter sido ele o primeiro a adotar o nome de sofista e cobrar honorários pela instrução que oferecia (Prot. 349a2-4). Nascido em Abdera, não mais tarde do que 490 a.C., morreu provavelmente logo depois de 421 a. C. Em menino, pode ter sido educado por mestres religiosos persas, na Trácia. No diálogo de Platão, o Protágoras, ele é representado como tendo che­gado recentemente a Atenas, vindo de fora (309d3), e é feita referência à ultima vez em que estivera em Atenas, alguns anos antes (310e5). Isso induziu Ateneu a supor que ele tives­se feito apenas duas visitas a Atenas na época em que se situa o diálogo de Platão (DK 80A11), e levou especialistas moder­nos a especulações inúteis. Seria muito difícil crer que Protá­goras tivesse realmente estado em Atenas somente uma vez antes de sua conhecida visita, por volta do final dos anos trinta — sua íntima associação com Péricles e sua escolha, por este, para elaborar a constituição para a nova colônia em Turói deve indicar que ele já era bem conhecido em Atenas por volta de 444 a. C. É provável que sua primeira ida lá fosse mais ou menos em 460 a. C., visto que, segundo o que diz Platão, ele tinha sido sofista por quarenta anos, quando morreu. Na verdade, não há razão nenhuma para crer que ele só estivesse estado uma vez, antes, em Atenas, visto que o que a passagem no Protágoras diz é “quando ele visitou Atenas previamente, isto é, antes”, e não “quando ele visitou Atenas pela primeira vez” [2].

Segundo a tradição corrente, parece que Protágoras mor­reu afogado numa viagem por mar, depois de deixar Atenas por ter sido julgado e condenado por impiedade. Seus livros, recolhidos mediante proclamação do arauto, foram queima­dos na ágora. Os elementos essenciais da história encontram-se já em Timon de Flius e em Filócoros, no século III a. C. Creio que não há motivo para não os aceitar. É verdade que, no Mênon (91e3-92a2), Sócrates diz que até o dia em que ele está falando (data dramática do diálogo, talvez 402 a. C.) Protágo­ras nunca deixara, de forma alguma, de ter uma boa reputa­ção. Tem-se argumentado que essas palavras provam que Protágoras nunca sofreu qualquer séria desgraça pública e que, consequentemente, a história de seu julgamento não pode ser verdadeira. Mas é difícil achar que essa objeção seja conclusiva. Já foi assinalado [3] que Platão teria dito a mesma coisa a respeito de Sócrates, que, de fato, foi julgado por impiedade e condenado à morte.

Na lista dos “livros existentes” de Protágoras, preservada por Diógenes de Laércio, consta o seguinte: Arte da Erística, Sobre a luta corpo a corpo, Sobre Ciências (ou possivelmente Sobre Matemática), Sobre Governo, Sobre a ambição, Sobre as virtudes, Sobre o estado original das coisas, Sobre os que estão no Hades, Sobre ações humanas incorretas, Imperativo, Julgamento a propósito de um pagamento e Analogias em dois volumes. Sobre os deuses e Verdade, também obras suas, não foram incluídas na lista. Na maioria dos casos, não temos nenhuma indicação positiva do real alcance ou conteúdo dessas obras.

Nos anos 1851-54, em escavações conduzidas por Mariette, foram descobertas, em Mênfis, no Egito, umas onze estátuas dispostas em semicírculo de frente para o fim da chamada aléia da Esfinge que leva a Serapeum. Elas foram deixadas in situ e acabaram cobertas, de novo, por areia levada pelo vento. E foram redescobertas em 1938, mas os trabalhos foram interrompidos durante a Segunda Guerra Mundial. Foram finalmente descobertas, de novo, em 1950 e então apresentadas integralmente [4]. Na metade oriental do semicírculo temos Platão, Heráclito, Tales e Protágoras, identificados pela inscrição de seus nomes nas estátuas. Apesar do uso de ômicron em lugar de ômega no nome de Protágoras, a identificação parece segura e não foi questionada. A data é incerta, mas as estátuas certamente pertencem ao período ptolomaico. O que é notável é que Protágoras esteja incluído numa série de filósofos, de frente para um conjunto de poe­tas, no lado oposto; um testemunho claro, ao que parece, da importância de que estava investido no período helenístico.

(2) Górgias

Górgias veio de Leontini, na Sicília, e consta que chegou a uma idade bem avançada. Pausânias (DK 82A7) nos diz que Górgias conquistou ainda mais respeito, em Atenas, do que o famoso Tísias, e que Jasão, quando se tornou tirano de TessáIia, pôs Górgias acima de Polícrates, embora a escola de Polícrates tivesse uma boa reputação em Atenas. Daí se infere que ele viveu na corte de Jasão de Férai depois que este se tornou tirano, não antes de 380 a. C. Mas a inferência é totalmente sem fundamento, visto que a história meramente relata uma comparação entre o tipo de retórica de Górgias e a de seu aluno, Policrates. Tudo o que podemos dizer com alguma probabilidade é que seu nascimento foi talvez por volta de 485 a. C. e que ele ainda vivia no século IV a.C.

Há uma clara tradição de que ele foi discípulo do filósofo siciliano Empédocles, e fez uma famosa visita a Atenas, em 427 a. C., como líder de uma embaixada de Leontini, para persuadir os atenienses a fazer aliança com sua cidade natal contra Siracusa. Discursou na Assembléia e consta que foi muito admirado pela sua habilidade retórica. Essa pode ter sido sua primeira visita a Atenas. Mas isso não é dito em nenhuma fonte, por conseguinte a inferência é muito incerta. Ele, certamente, viajou muito, sem se estabelecer em nenhuma cidade em particular; há registro de ter falado em Olímpia, em Delfos, em Tessália, em Boécia e em Argos, onde foi tão detestado que seus alunos foram sujeitos a uma penalidade qualquer. Em Atenas ele fez discursos “epidícticos” e teve alunos, o que lhe rendeu consideráveis somas em dinheiro.

Em tudo isso, Górgias claramente funcionava como sofista e era claramente conhecido como tal. As sugestões modernas de que ele não deveria ser classificado como sofista repousam em um estreitamento arbitrário do conceito de sofista e não têm, também, nenhuma base em testemunhos antigos [5].

Acredita-se que seu tratado Sobre natureza foi escrito na 84a Olimpíada, isto é, em 444-441 a. C. (DK 82A10). Sumários, ou partes, ou referências sobrevivem em discursos intitulados Oração fúnebre, Oração olímpica, Elogio aos eleanos, Elogio a Helena, Apologia de Palamedes. É provável que tenha também escrito um tratado técnico sobre retórica, cujo título seria simplesmente Arte ou, possivelmente, Sobre o momento certo no tempo (Peri Kairou). Finalmente não há por que duvidar da atribuição que se faz a ele do Onomastikon mencionado por Pólux, no prefácio do seu próprio Lexicon, no qual se utilizou dele (IX, 1 p. 148 Bethe), mas não incluído, creio eu, em nenhum livro sobre os sofistas antes de 1961 [6]. O título era também aparentemente o de uma obra de Demócrito (DK 68A33, XI, 4).

(3) Pródicos

Pródicos veio da ilha de Quios, nas Cíclades, que era também o lugar de nascimento do poeta Simônides. Nasceu, provavelmente, antes de 460 a. C. e ainda vivia por ocasião da morte de Sócrates, em 399 a. C. Foi em muitas embaixadas de Ceos a Atenas, e numa ocasião discursou perante o Conselho. Como Górgias, deu palestras “epidícticas” e, também, aulas particulares com as quais ganhou muito dinheiro. Visitou muitas cidades, não só Atenas. Segundo Filostratos, Xenofonte estava certa vez preso em Beócia, mas obteve liberdade sob fiança a fim de ouvir um discurso de Pródicos. Xenofonte ficou certamente muito impressionado com uma epideixis de Pródicos, sobre a Escolha de Hércules, tanto que a resumiu, na boca de Sócrates, no seu Memoráveis II, 1.2134. Esse discurso veio de uma obra intitulada Horas (Horae) que incluía panegíricos de outras pessoas ou personagens, assim como de Hércules, segundo Platão (DK 84B1). Ele também escreveu um tratado Sobre a natureza do homem.

Pródicos foi sobretudo famoso por sua obra sobre a linguagem, e a sátira de Platão sobre ele no Protágoras sugere, para alguns, que ele possa ter deixado escritos específicos Sobre a correção dos nomes. A importância filosófica dessa faceta de sua obra é muito grande, mas não temos nenhuma referência concreta a qualquer outra coisa além de sua série de palestras. Mas foi baseado nessas palestras e seus conteúdos que Sócrates se considerava aluno de Pródicos (Platão, Prot. 341a4, Meno 96d7) e diz ter mandado muitos alunos, que não estavam em condições de se associar consigo, por não estarem filosoficamente grávidos, para se ligarem com proveito a Pródicos e a outros homens sábios e inspirados (Teeteto 151b2-6). Que as suas teorias lingüísticas tinham uma clara base metafísica é o que sugere o novo fragmento de papiro discutido abaixo.

Há uma tradição em fontes tardias (DK 84A1) segundo a qual Pródicos teria morrido em Atenas, bebendo cicuta, aparentemente após condenação por “corrupção dos jovens”. Isso é, com razão, comumente descartado como uma confusão entre Pródicos e Sócrates — se fosse verdade, certamente teríamos ouvido falar disso em fontes mais antigas. Mas havia uma história, preservada no pseudo-platônico Eryxias (398e11- 399b1), segundo a qual Pródicos foi expulso de um ginásio por falar inconvenientemente diante de jovens, de modo que não é impossível que, de fato, tenha enfrentado o tipo de oposição que Protágoras disse ser a sorte comum de todos os sofistas.

(4) Hípias

Hípias de Élis é mencionado no Protágoras da mesma forma que Pródicos e é razoável supor que podiam ser da mesma idade. Ele aparentemente estava vivo em 399 a. C. e provavelmente morreu cedo no século IV — não há a menor probabilidade de que tenha vivido até a metade desse século, como tem sido sugerido. Como outros sofistas, viajou bastante e ganhou muito dinheiro.

Ele dizia estar à vontade em toda a ciência de seu tempo e, por isso, não é de estranhar que Sócrates se refira a ele como um polímata (DK 86A14). Nisso era, sem dúvida, ajudado por excepcional capacidade de memória, aparentemente desenvolvida por técnicas especiais, que ensinou também a outros, e que o habilitava a lembrar cinqüenta nomes depois de ouvi-los uma vez só. É interessante ler, embora provavelmente não seja verdade, que sua habilidade de memória era ajudada com a bebida de certas poções.

Além de exposições “epidícticas”, parece que era tido como sempre pronto a ensinar astronomia, matemática e geometria, genealogia, mitologia e história, pintura e escultura, a função das letras, sílabas, ritmos e escalas musicais. Além disso, escreveu versos épicos, tragédias e ditirambos, assim como muitos tipos de prosa. Tudo isso já seria bastante extraordinário. Mas há bons indícios de que seu conhecimento não era apenas superficial, nem tampouco baseado numa fluente facilidade de falar, sem preparação, sobre qualquer assunto. Pelo contrário, devemos concluir que era baseado numa erudição ao mesmo tempo ampla e profunda.

A prova disso é de dois tipos. Primeiro, há indicações de que Hípias desenvolveu algum tipo de posição filosófica geral própria. Embora seja de difícil reconstrução, parece ter sido baseada numa doutrina de classes de coisas dependentes de um ser que é contínuo ou que passa através dos corpos físicos sem interrupção, de forma igual, nos dizem, à das fatias de bife cortadas ao longo do lombo e servidas a um hóspede muito importante, como especial privilégio, num banquete, em Homero (ver Hípias Maior 301d5-302b4, não em DK, infelizmente). Mais importante, contudo, porque dificilmente pode ser contestada, é a prova de um interesse excepcionalmente douto no estudo de tais assuntos, inclusive da história deles. Hípias parece ter virtualmente inaugurado esse tipo de estudo. Neste ponto antecipou o tipo de pesquisas sistemáticas encomendadas por Aristóteles no Liceu. O que é realmente notável, no caso de Hípias, é que ele foi capaz de fazer tanta coisa sem o auxilio de bibliotecas públicas e de uma escola organizada de estudantes pesquisadores.

Ele produziu uma lista de vencedores olímpicos, baseado em registros locais, em Olímpia, o que provavelmente permitiu a Tucídides dar datas precisas, ao passo que Heródoto não fora capaz de fazer isso [7]. Uma citação da lista, direta ou indireta, pode ser encontrada no que resta de um papiro Oxyrhynchus datado do século III d. C. (n. 222). Certamente isso fez parte do testemunho para a lista posterior completa que conhecemos através de Eusébio. Helânicos produziu uma lista semelhante das sacerdotisas de Heras, em Argos, e Aristóteles (frags. 615-617) produziu uma outra lista dos vitoriosos délficos. Aqui pode-se mencionar uma outra obra, uma lista, se é que era isso mesmo, de nomes de pessoas compilados por Hípias sob o título Ethnõn Onomasiai (DK 86b2).

O conjunto de sua obra foi fundamental para o estabelecimento de uma cronologia básica para a história grega. Mas isso não era tudo, de forma alguma. Na matemática foi-lhe atribuída a descoberta da curva chamada quadratriz, usada para a trissecção de um ângulo e nas tentativas de quadratura do círculo. Pela maneira como a isso se referem autores posteriores, é razoavelmente certo que ele deixou, por escrito, um relato de sua descoberta (ver Proclo, Commentary on the First Book of Euclid’s Elements, p. 356, uma passagem que não está em DK). Nesse mesmo comentário, Proclo nos dá (p. 65-8) um esboço da história da geometria, aparentemente baseada, direta ou indiretamente, numa cópia, que não chegou até nós, da história escrita por Eudemo de Rodes, discípulo de Aristóteles. Proclo deixa claro que pelo menos algumas das informações de Eudemo, sobre o período antes de Platão, foram derivadas de Hípias. Como o ponto específico citado é pequeno, e desconhecido fora daí, parece que Hípias, na sua pesquisa (Proclo diz historêsen), entrava em grande detalhe.

Finalmente parece que uma outra obra, conhecida simplesmente como a Synagogue ou Coleção, foi de muito maior importância do que comumente se pensava há não muito tempo. Clemente de Alexandria, argumentando que os gregos eram incorrigíveis plagiários, cita o que pode ter sido parte da própria introdução de Hípias à obra (DK 86B6):

Pode ser que algumas dessas coisas tenham sido ditas por Orfeu, algumas, brevemente, aqui e ali por Musaios, algumas por Hesíodo, algumas por Homero, algumas por outros dentre os poetas, algumas escritas em prosa, seja por gregos ou por bárbaros. Mas eu reunirei as passagens mais importantes e inter-relacionadas de todas essas fontes, e assim farei esta peça ao mesmo tempo nova e mais variada.

Isso sugere que a Synagogue era uma coleção de várias passagens, histórias e peças de informação relacionadas com a história da religião e assuntos semelhantes. Por aí ficou a questão até 1944, quando Bruno Snell, num artigo notável, mostrou que a passagem acima indicava que Hípias foi o mais antigo doxógrafo sistemático, ou compilador das opiniões de autores mais antigos dos quais temos algum conhecimento. Em seguida, ele passou a demonstrar, a meu ver com uma abordagem tão próxima da certeza quanto possível em assuntos desse tipo, que Hípias era a fonte que fizera a conexão entre a doutrina de Tales – que todas as coisas eram feitas de água e que a terra repousa na água — com as afirmações cosmogônicas de Homero, Hesíodo e outros, de que Oceano e Tétis eram a fonte de todas as coisas. Certamente Platão estava familiarizado com a esquematização do pensamento dos pré-socráticos, segundo a qual uma linha de pensadores, que se estende de Homero, Hesíodo e Orfeu, através de Epicarmo, Heráclito e Empédocles, sustentava que todas as coisas são produto do fluxo e do movimento, e outra linha de pensadores ainda mais antigos, através de Xenófanes, Parmênides e Melissos, sustentava que todas as coisas são uma só e estacionária em si mesma (Crat. 402a4-c3, Teeteto. 152d2- el0, 180c7-e4, Sof 242d4-6). Embora não se possa provar, começa-se a pensar não ser impossível que essa sistematização também tenha vindo de Hípias. Sem dúvida, está claro que Hípias está no princípio mesmo do registro escrito da história da filosofia [8].

(5) Antífon

Antífon como pensador, não suscitou muito interesse até 1915. Houve, então, uma mudança repentina com a publicação de dois fragmentos consideráveis da sua obra Sobre a Verdade, seguidos de mais um fragmento em 1922. Com isso, ficou claro que ele foi um pensador arguto e original. Mas o efeito imediato foi o de complicar ainda mais uma difícil questão, anteriormente colocada, com uma segunda.

A primeira questão era saber se Antífon, o Sofista, devia ser identificado com o Antífon de Ramnonte que nos é conhecido, por intermédio de Tucídides, como sendo membro da oligarquia conhecida como os Quatrocentos que deteve o poder em Atenas por uns quatro meses, em 411 a. C. Com a deposição dos Quatrocentos, Antífon foi executado juntamente com Arqueptolemo. Esse Antífon era orador e foi o autor de uma coleção subsistente de exercícios de oratória conhecida como as Tetralogias, às quais se juntam três discursos forenses. Ninguém parece ter separado os dois Antífons até que o filólogo Dídimo de Alexandria, de cognome Calcênteros, no século I a. C., sugeriu que eles deviam ter sido dois por causa da diferença na forma literária, ou gênero, entre Sobre a Verdade, Sobre a Concórdia e o Politico de um lado, e os outros escritos. O resultado disso é que os estudiosos modernos se dividem em dois grupos: os que creem em um Antífon e os que creem em dois. A fragilidade do chamado argumento estilístico foi, a meu ver, adequadamente exposta por J. S. Morrison [9]. Contento-me em citar a sua conclusão: “a distinção, da qual não há nenhum traço antes de Mimo, é totalmente arbitrária e parece ter sido já rejeitada (sc. por Her-mógenes) quando as obras sobre as quais estava baseada ainda sobreviviam. As razões para mantê-la agora são inteiramente insubstanciais”.

Mas isso não põe fim à questão. Nos fragmentos conhecidos antes da descoberta dos papiros, especialmente os citados de Sobre a Concórdia, por exemplo fr. 61: “Não há nada pior para os homens do que a falta de regra. Tendo isso em mente, os homens de antigamente acostumavam seus filhos a serem governados e a fazerem o que lhes era ordenado de modo que quando se tornassem homens não ficassem confusos com a grande mudança”, parecia que tínhamos um Antífon que falava como um conservador de direita. Contudo, nos fragmentos de papiro parece que vemos um pensador que rejeita as leis em favor da natureza e que está pregando um verdadeiro igualitarismo de esquerda. Isso levou a pensar que o Antífon com estas opiniões não poderia ser o mesmo oligarca radical que era particularmente forte na sua oposição à democracia.

A questão assim formulada é de importância e interesse consideráveis. Não se levanta simplesmente como uma diferença entre os dois supostos Antífons, mas se aplica ao único Antífon que tinha sido tradicionalmente aceito como Antífon, o Sofista. E será sugerido, mais adiante, que a questão talvez não envolva uma contradição tão aguda como se supõe, e que, de qualquer forma, ela surge fundamentalmente da tentativa de estabelecer duas categorias artificiais e estereotipadas, mutuamente exclusivas, as do pensador de esquerda e do pensador de direita. De qualquer modo, será conveniente tratar a questão como interna à interpretação de Antífon, o Sofista, visto que, mesmo que houvesse dois Antífon seria o primeiro o de maior importância para a história do pensamento político.

Finalmente, deve-se dizer que, um ou dois, ambos viveram na mesma época — nascidos talvez por volta de 470 e falecidos em 411, num caso com certeza, no outro, não muito depois, uma vez que o sofista era considerado contemporâneo de Sócrates e Protágoras. Além de Sobre a Verdade, em dois volumes, e Sobre a Concórdia, ainda atribuídos a ele, havia um Político e uma obra Sobre a interpretação dos sonhos. Vários fragmentos mostram que ele estava interessado no problema da quadratura do círculo pelo método da exaustão (DK 87B13) e também em problemas físicos e astronômicos (B8, 26, 28, 32). A Antífon de Ramnonte eram atribuídos manuais de retórica, talvez em três volumes, uma Invectiva contra Alcibíades, a composição de tragédias e uma curiosa Arte de evitar sofrimento (Technê Alupias). Consta que, paralelo ao tratamento dado pelos médicos aos doentes, ele teria estabelecido um tipo de consultório ou serviço de atendimento do estilo samaritano moderno, numa sala perto da praça do mercado em Corinto, anunciando-se capaz de tratar os que estavam sofrendo, fazendo-lhes perguntas e descobrindo as causas e, desta forma, encorajando com suas palavras os que estavam aflitos. Não sabemos que palavras eram usadas. Mas no Corpus Hipocrático a ansiedade é reconhecida como um estado patológico (De Morbis 2.72). Eurípides, num fragmento (964N2), faz um personagem dizer que aprendera com um sábio a contemplar de antemão as desgraças, tais como mortes extemporâneas, a fim de que não cheguem inesperadamente quando chegarem. A mesma coisa é citada como um preceito pitagórico, muito mais tarde, por Jâmblico (DK 58D6) e pode bem ter feito parte da terapia psicológica oferecida por Antífon. O interesse por problemas psicológicos é sugerido por sua obra sobre a interpretação de sonhos. Contrário à opinião segundo a qual os sonhos têm origem na percepção direta, como sustentavam os atomistas, ou têm um valor de predição direto e natural, ele seguiu a via mais tarde rotulada de divinatio artificiosa (DK 87B79). Nessa visão, os sonhos eram sinais que requeriam interpretação, não uma aplicação literal, e de fato muitas vezes poderiam significar o oposto do que pareciam dizer [10]. Essa racionalização dos sonhos era, sem dúvida, parte do movimento contra a superstição que, vimos, estava associado ao círculo de Péricles.

(6) Trasímaco

Trasímaco de Calcedônia, na Bitínia, tornou-se famoso para nós por um único motivo, seu encontro com Sócrates, no primeiro livro da República de Platão. Ele era muito conhecido como orador e mestre de retórica em Atenas, em 427 a. C., e fez um discurso A favor do povo de Larisa que deve ser posterior a 413 a. C. Fora isso, nada se sabe sobre a sua vida. Vários exercícios e tratados retóricos lhe são creditados, e sabemos, pela República, que ele viajou muito e recebeu honorários.

(7) Cálicles

Conhecemos um pouco Trasímaco por outras fontes além de Platão, ao passo que nada sabemos de Cálicles fora do vívido retrato dele no Górgias de Platão. Em conseqüência disso, sua existência como pessoa real foi posta em dúvida por Grote e alguns outros especialistas, embora a maioria esteja pronta a aceitá-lo como uma figura histórica. Segundo Platão, ele veio do demo de Acarnânia, na Ática, e é em sua casa que seu amigo Górgias está hospedado ao se iniciar o diálogo de Platão (447b2-8). Sócrates diz dele (520a1-b2) que prefere retórica a ensinar virtude aos jovens, e noutra parte, numa famosa passagem (484c4-486d1), que era desdenhoso da filosofia quando adotada como uma ocupação adulta. Mas ele sustenta suas preferências pela vida de ação bem-sucedida, com argumentos de modo geral comparáveis aos de Trasímaco, e isso faz dele, indiscutivelmente, uma importante figura na história do movimento sofista.

(8) Crítias

Crítias era primo da mãe de Platão, e um implacável adversário da democracia em Atenas. Depois do fim da Guerra do Peloponeso, em 404 a. C., foi eleito para a comissão dos Trinta, familiarmente conhecida como os Trinta tiranos. Foi pessoalmente responsável pela morte de Teramenes, e ele mesmo foi morto na guerra civil de 403 a. C. Não foi pago para ensinar, nem ensinou; ficou, antes, à margem dos classificados como filósofos, segundo um comentador anônimo (DK 88A3). Mas escreveu, e foi mencionado como presente na reunião de sofistas na casa de Cálias, que serve de cenário para o diálogo Protágoras de Platão. Em certo sentido, foi aluno de Sócrates e de outros sofistas, mais do que propriamente um sofista. Mas foi incluído por Filóstrato no Vidas dos sofistas. Talvez fosse por essa razão que foi incluído por Diels em seu Fragmente der Vorsokratiker quando outros, com maior direito, foram excluídos. Desde então ele tem sido sempre discutido como parte do movimento sofista. Talvez agora seja tarde demais para que isso seja facilmente alterado.

Escreveu muito, tanto em prosa como em verso. Este último incluía elegias políticas e hexâmetros sobre temas politicos e literários. Mas seu interesse pela história dos sofistas está realmente restrito ao conteúdo de três peças satíricas: Tenes, Radamantis, Piritos e Sísifo, principalmente desta última. Todas foram geralmente atribuídas a Eurípides, na Antiguidade, mas uma Vida de Eurípides, de autor anônimo, diz que as três primeiras são espúrias (DK 88B10). E Ateneu diz do Finitos: “quer seja de Crítias ou de Eurípides”. O fragmento de Sísifo (Dk 88B25) é atribuído a Crítias por Sexto Empírico e a Eurípides por Aécio. Wilamowitz-Moellendorff investiu o peso de sua grande autoridade na opinião segundo a qual nenhuma delas era de Eurípides, mas está começando a parecer que ele estaria provavelmente errado [11]. O fragmento de Sísifo dá uma explicação naturalista das origens da religião que é de considerável interesse e de inspiração certamente sofista. Mas se não for da autoria de Crítias, não sobra muita coisa para justificar a sua classificação entre os sofistas.

(9) Eutidemo e Dionisodoro

Se Crítias talvez devesse ser excluído de uma lista padrão de sofistas, há duas outras pessoas que certamente deveriam ser incluídas [12]. São eles dois irmãos, Eutidemo e Dionisodoro, nativos de Quios, que se uniram à colônia de Turói, mas depois foram para o exílio, passando o seu tempo como sofistas no continente, na Grécia. No diálogo Eutidemo de Platão eles são apresentados como tendo chegado recentemente a Atenas como mestres profissionais de sabedoria e virtude. Sócrates os encontrou perambulando com um grande número de estudantes — já tinha se encontrado com eles em outras ocasiões antes desta— e assim a cena está armada para o diálogo que se segue. A data encenada não é clara, mas pode ter sido por volta de 420 a. C., ou mais tarde, porque Sócrates já é um homem idoso. Que ambos, Eutidemo e Dionisodoro, eram pessoas reais está bem atestado por referências a eles feitas por Xenofonte e Aristóteles. E sabemos, através de Crátilo, 386d3-7, que Eutidemo discordava de Protágoras na aplicação da doutrina do Homem-medida. O testemunho de Aristóteles sugere que ele tinha diante de si um escrito de Eutidemo contendo argumentos sofísticos que não se encontram no diálogo de Platão.

(10) O Dissoi Logoi

O Dissoi Logoi é um texto anônimo encontrado no fim dos manuscritos de Sexto Empírico. Escrito num tipo de dialeto clórico, começa com as palavras: “duplos argumentos são enunciados na Grécia por aqueles que filosofam, concernentes ao bom e ao mau”, e o título moderno é simplesmente tirado das primeiras palavras iniciais. Foi composto no final da Guerra do Peloponeso. A inferência de que deve ter sido escrito logo depois do seu término baseia-se meramente na incompreensão do que é dito em I, 8, onde as palavras “os acontecimentos recentes primeiro” simplesmente significam que ele se inicia com a Guerra do Peloponeso, indo de volta ao passado para as primeiras guerras. A natureza da obra é curiosa, e há quem pense que represente as anotações de um prelecionador ou, possivelmente, notas tomadas por um ouvinte. Sua estrutura básica consiste claramente em colocar lado a lado argumentos opostos a respeito da identidade, ou não-identidade, de termos morais ou filosóficos aparentemente opostos, como bom e mau, verdadeiro e falso. Como isso é uma aplicação do método de Protágoras, leva a pensar que esteja baseado no Antilogiai daquele sofista. Mas essa conclusão não é válida, porque — como será argumentado neste livro — o método de Sócrates era de fato o método do movimento sofista todo. Nem se pode atribuir o texto a qual¬quer determinada fonte de inspiração.

(11) O Anônimo Jâmblico

Sabe-se que o Protrepticus de Jâmblico contém muito material tirado, palavra por palavra, de autores mais antigos. Contém uma considerável porção do Protrepticus de Aristóteles, que se perdeu, e em 1889 Friedrich Blass demonstrou que umas dez páginas do texto grego impresso, de Jâmblico, foram tiradas virtualmente de um escrito, de outra forma desconhecido, do século V ou do século IV a. C. Que ele envolve discussão de um tema sofista, hoje se aceita sem discussão, visto que defende a causa do nomos, ou lei convencional, e moralidade, contra os que pretendiam depor nomos em favor da natureza. Mas todas as propostas de o atribuir a um determinado autor conhecido, ou mesmo à sua escola, têm fracassado por falta de qualquer tipo de testemunho sólido. A tentativa de identificar uma outra “peça” sofista em defesa de nomos tem, contudo, sido menos bem-sucedida do que a hipótese de Blass. Em 1924, Pohlenz afirmava que três seções distintas no Discurso contra Aristogiton, encontradas nos manuscritos de Demóstenes (Or. XXV), a saber, os parárafos 15-35, 85-91 e 93-96, constituíam o que ele chamou de um tratado anônimo, Peri Nomõn, ou Sobre as leis. Sua afirmação foi bem aceita e o texto foi acrescentado ao material disponível para o estudo dos sofistas. Em 1956, contudo, Gigante [13] contestou, com êxito, a existência de qualquer tratado distinto e agora parece que o próprio Peri Nomõn não passa de uma invenção de Pohlenz. Mas Gigante nunca negou que o discurso, que é de data provavelmente muito tardia para ter sido escrito por Demóstenes, de fato contenha considerável material “socrático” e “platônico”; como tal, ele pode certamente ser usado como fonte de informações para o debate nomos-physis. Na verdade, ele pode indicar o caminho para uma conclusão de grande valor, a saber, que havia amplos debates e argumentos, sobre a maior parte das questões levantadas pelos sofistas, que continuaram muito depois do fim do século V a. C.

(12) Sócrates como membro do movimento sofista

A ideia mesma de incluir Sócrates como parte do movimento sofista é, no máximo, um paradoxo e, para muitos, um absurdo. Platão procura apresentar Sócrates como o arqui-inimigo dos sofistas e de tudo o que eles representavam. Pareceria que o fosso entre Sócrates e os sofistas tem se tornado, através dos séculos, ainda mais largo e intransponível, na medida em que Sócrates se tornou um símbolo e um chamado de arregimentação. Ele tem sido muitas vezes considerado como sobrepujado em grandeza moral somente pelo fundador do cristianismo e como encarnando, em sua própria vida e personalidade, tudo o que há de mais nobre e mais valioso nas tradições intelectuais da civilização ocidental.

Entretanto, Sócrates era um ser humano vivendo num determinado período de tempo. Ele só pode ser compreendido se visto no contexto de seu próprio mundo contemporâneo. É assim que Platão o retrata, vivendo naquele mundo, e participando vivamente nas controvérsias do século V, com adversários tais como Protágoras, Górgias, Pródicos e Hípias. Além disso, podemos dizer com alguma certeza que Platão não se convencia de que os argumentos desses adversários tivessem sido adequadamente refutados e sentia que era tarefa sua desenvolver uma visão mais completa da realidade a fim de chegar ao tipo de respostas exigidas.

Mas isso, ou alguma outra coisa, nos dá motivo para pensar que Sócrates fosse um sofista? Quero sugerir que, pelo menos em parte, nossa resposta a essa pergunta deveria ser sim. Em primeiro lugar não há dúvida nenhuma de que ele era considerado como tal pelos seus contemporâneos, inclusive por Aristófanes quando se divertiu às suas custas, em As nuvens, em 423 a. C. Mas há um problema ao citarmos Aristófanes, porque em As nuvens Sócrates é retratado como diretor de uma escola onde os alunos são internos, e Sócrates é pago para ensinar. Há outras diferenças fundamentais, além desses dois pontos, entre o retrato de Aristófanes e o modo como Sócrates é descrito por Platão e Xenofonte. Em Aristófanes, por exemplo, Sócrates é descrito como engajado em especulações físicas, e no Apologia de Platão ele nega esse interesse. Não é plausível dizer simplesmente que Aristófanes estava certo e Platão e Xenofonte estavam errados, e não é muito mais plausível dizer que ambos os relatos estão certos, mas são verdadeiros somente em relação a diferentes estágios da vida de Sócrates. Devemos concluir que, pelo menos até certo ponto, Aristófanes está distorcendo o retrato, ao atribuir a Sócrates características que pertencem aos sofistas em geral, mas que não pertenciam a Sócrates [14]. Até certo ponto, sim, mas até que ponto?

A seção “autobiográfica” do Fédon (96a6-99d2) é prova clara de um interesse antigo de Sócrates por ciência, e consta que ele, ao enfrentar a morte, passou a sua última hora discutindo a estrutura geológica da terra (Fédon 108d2-113c8). Já no século V ele foi associado ao filósofo físico Arquelau, por Íon de Quios (DK 60A3), que disse que Sócrates viajara com ele para Samos. A acusação formal de impiedade feita com sucesso contra Sócrates, em 399 a. C., alegava que ele era culpado de não aceitar os deuses que a cidade aceitava, de introduzir outras divindades estrangeiras e de corromper os jovens. Platão, no Apologia (19b2-cl, 23d5-7), afirma que por trás das acusações formais estavam preconceitos populares, segundo os quais Sócrates estava ocupado com especulações físicas, não acreditava nos deuses, tornava melhor o pior argumento e ensinava essas coisas aos outros. Embora essas acusações sejam negadas por Sócrates em sua defesa, é lá também abertamente admitido que jovens das classes mais ricas iam a ele espontaneamente, sem qualquer pagamento, e depois passavam a aplicar o que aprendiam com ele em debates com outros.

Fica assim claro que Sócrates era geralmente considerado parte do movimento sofista. Mediante a sua notória amizade com Aspásia, é provável que estivesse em contato bem íntimo com o círculo de Péricles, e seu impacto intelectual e educacional sobre os jovens ambiciosos em Atenas era tal que foi, nessa função, corretamente considerado sofista. O fato de não receber pagamento não altera em nada a sua função.

Mas não havia diferenças entre ele e o resto dos sofistas? A resposta exige que se tente descobrir qual era o método e qual era o conteúdo do ensino de Sócrates, e isso é difícil, especialmente no caso do conteúdo. Algumas sugestões serão feitas abaixo sobre como esse conteúdo estava relacionado a problemas levantados por outros sofistas, tomando como ponto de partida a afirmação de Aristóteles (Met. 1078b27-31) de que há duas coisas que temos razão em atribuir a Sócrates, epactic logoi, que provavelmente se refere ao processo de generalização a partir de exemplos que têm o poder de nos levar além de nós mesmos, e definições gerais. Isso se ajusta bem ao retrato regularmente encontrado nos diálogos de Platão, nos quais Sócrates é mostrado tentando descobrir O que é x, isto é, qual é o logos correto de x, onde x é alguma coisa que aparece no mundo à nossa volta, acima de tudo uma virtude ou uma qualidade moral ou estética. Diferentemente dos platônicos, diz Aristóteles, Sócrates não separava os universais ou as definições das coisas às quais se aplicavam. Mas isso também se ajusta muito bem ao retrato de outros, entre os sofistas, que também se ocupavam com a busca do logos mais forte ou o logos correto em relação às afirmações conflitantes de logoi aparentemente opostos. É deste ponto de vista que proponho que Sócrates deva ser tratado como tendo um papel a desempenhar dentro do movimento sofista.

(13) O Corpus Hipocrático

Uma exposição completa do movimento sofista no século V a. C. exigiria que se considerassem os elementos sofistas na coleção de escritos médicos atribuídos a Hipócrates. Essa é uma vasta área de estudo na qual ainda resta muito a ser feito, e somente muito pouco será dito aqui [15]. Muitos dos tratados no Corpus mostram poucos sinais, ou nenhum sinal, de influências sofistas específicas. Esse, porém, certamente não é o caso de dois tratados, Sobre as artes e Sobre a respiração, que não parecem ter sido escritos por médicos. Têm mais o caráter de epideixeis ou demonstrações de argumentação sofista. Assim, Sobre as artes, no processo de defender a arte da medicina contra os que a atacam, começa com uma referência aos que fizeram uma arte de difamar as artes a fim de dar uma demonstração (epideixis) da sua própria erudição. Lembrando, assim, aos leitores de Protágoras, o ataque de Protágoras à prática de Hípias, passa a defender a arte da medicina como possuindo uma existência independente, recorrendo às doutrinas sofistas a respeito da relação entre nomes e classes de coisas. Tentativas anteriores de atribuir a autoria a Protágoras ou a Hípias não são convincentes, mas é difícil negar-lhe lugar dentro do movimento sofista.

A obra Sobre a respiração argumenta que o ar, tão importante na natureza em geral, é também, na forma de respiração, o agente mais ativo em todas as doenças, enquanto todas as outras coisas são causas secundárias e subordinadas. Diferente é a posição do tratado Sobre a medicina antiga, que sustenta que as artes são invenções humanas desenvolvidas no decorrer de um longo período de tempo. E prossegue (no capítulo 20) atacando certos médicos e sofistas que afirmam que, a fim de entender de medicina, é necessário saber o que é o homem. Em resposta, argumenta-se que questões tais como a natureza do homem pertencem às especulações da filosofia física, não fazem parte da medicina e não a auxiliam em nada. O que é necessário é o estudo detalhado das doenças individuais e dos históricos de caso individuais.

Notas e referências

[1] H. DIELS, W KRANZ, Die Fragmente der, Vorsokratiker, 6a ed. e pos­teriores, 3 vols., Berlim, 1951-52. Há uma edição por M. Untersteiner com tradução italiana e comentário em 4 fascículos, intitulada Sofisti, Testimonianze e Frammenti, Florença, 1949-62, que é bem distinta do seu volume interpretativo I Sofisti, Turim, 1949.2a ed., 2 vols., Milão, 1967.

[2] to proteron, e não to prõton. Corretamente traduzido por W. K. C. GUTHRIE, Plato Protagoras and Meno, Londres, Penguin, 1956: “A últi­ma vez que ele veio a Atenas eu era ainda criança”.

[3] GUTHRIE, History of Greek Philosophy, III, 263.

[4] J. Ph. LAUER e Ch. PICARD, Les statues ptolémaiques du Sarapieion de Memphis, Paris, 1955. Ver, também, K. SCHEFOLD, Die dichtr und Weisen in Serapieion, Mus.Helv. 14 (1957) 33-8.

[4] J Ph. LAUER e Ch. PICARD, Les statues ptolémaiques du Sarapieion de Memphis, Paris, 1955. Ver, também, K. SCHEFOLD, Die dichtr und Weisen in Serapieion, Mus. Helv. 14 (1957) 33-8.

[5] Para uma tentativa dessas, ver E. R. DODDS, Plato Gorgias, Oxford, 1959, 6 ss. Para uma opinião contrária, GUTHRIE, History of Greek Philosophy, Cambridge, III. 36, n. 4, e E. L. HARRISON, Was Górgias a Sophist? Phoenix 18 (1964) 183-92.

[6] Para a referência, ver V. GOLDSCHMIDT, Essai sur le Cratyle, Paris, 1940, 7, n. 3, com UNTERSTEINER, Sofisti, Test. e Framm. 112 (1961) 209.

[7] Ver E JACOBY, Fragmente der griechischen Historiker, Leiden, 2a ed., 1957, I 477, e a discussão completa em III b, Texto 221-228, III b, Nota 143-154.

[8] Sobre tudo isso, ver Bruno SNELL, Die Nachrichten über die Lehren des Thales, Philologus 96 (1944) 119-28, reimpresso no seu Gesammelte Schriften, Göttingen, 1966, e em C. J. CLASSEN, Sophistic (Wege der Forschung) Darmstadt, 1976. Ver também CLASSEN, Bemerkungen zu zwei griechischen Philosophie-Historikern, Philologus 109 (1965) 175-81.

[9] Ver seu sumário em R. K. SPRAGUE, The Older Sophists, Columbia S.C., 1972, 109-11

[10] Sobre esse assunto ver E. R. DODDS, The Greeks and the Irrational, Berkeley, 1951, 117-21, com referências.

[11] Sobre a opinião segundo a qual o Piritos foi escrito por Eurípides, ver KUIPER, De Pirithoo Fabula Euripidea, Mnemosyne 35 (1907) 354¬85, e D. L. PAGE, Greek Literary Papyri I, Londres, 1942, 120-2; sobre a atribuição do Sísifo a ele, ver DIHLE, Das Satyrspiel Sysiphus’, Hermes 105 (1977) 28-42.

[12] Assim diz, com razão, R. K. SPRAGUE, The older Sophists, Columbia S.C., 1972, 294-301; o testemunho importante é dado em tradução.

[13] Em seu Nomos Basileus, Nápoles, 1956, 268-92.

[14] Ver Aristophanes Clouds, ed. K. J. DOVER, Oxford, 1968, introdução xxxii-lvii, reimpresso com pequenas alterações em G. VLASTOS, The Philosophy of Socrates, Nova Iorque, 1971, 50-77.

[15] Para uma avaliação recente, ver os comentários de G. E. R. LLOYD, Magic, Reason and Experience, Cambridge 1979, 86-98.


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