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O principal imperativo democrático é impedir a volta do PT ao poder

A política no Brasil foi substituída pela ação de policiais, procuradores e juízes. Quando isso acontece entramos no campo da antipolítica. É difícil chegar a esse estágio. Exige muito esforço. E muita incompetência política.

Uma força política que abre mão da política para ficar assistindo o judiciário agir, não é nada. Muito menos se todos os seus esforços forem para se defender. Uma força política que – sobretudo estando no governo – deixa isso acontecer, não merece continuar existindo como força política.

Vale para o governo Temer. Se ele cair, não será por uma mala de dinheiro e sim por incompetência política.

Não que o governo Temer tenha sido inoperante. Não! Reforma trabalhista, fim do imposto sindical, teto de gastos, reforma do ensino médio, tudo isso que ele fez foi bom para o país. Mas insuficiente. Faltou política.

O governo Temer não tem narrativa, a não ser a das reformas. Não há como enfrentar o PT com isso. É preciso mostrar à população o perigo da volta do PT ao governo.

Nenhuma força política toma hoje qualquer iniciativa. Só o PT e seus aliados estão na ofensiva. Todos os outros partidos apenas se defendem (do PT).

A operação Lava Jato é uma operação jurídico-policial. Que continue. Mas não se pode abrir mão da política para ficar observando a polícia e a justiça agirem e, muito menos, ficar se defendendo delas. Por trás da ação de Rodrigo Janot (o indicado por Lula, segundo ele – está gravado – passando por cima de formalidades) e de Edson Fachin (o conhecido cabo eleitoral de Dilma), há muita política. Já não se trata nem de judicialização da política e sim de descarada politização da justiça.

O papel do governo Temer era fazer a transição democrática pós-PT. Não fez. Errou feio. Seu governo foi torpedeado. Talvez ainda dê tempo de fazer alguma coisa nesse sentido.

Temer quis fazer um governo reformista. Não é uma plataforma ruim. Mas não podia ter esquecido que havia uma força política, desde o primeiro momento, querendo derrubá-lo. Quase conseguiu. E ainda pode conseguir.

O maior erro que uma força política pode cometer é achar que tratando bem o PT não será atacada por ele. FHC cometeu esse erro (mas conseguiu se equilibrar). Temer repetiu o erro (e não conta com forças equivalentes para resistir).

Espera-se que agora Temer já tenha percebido que de nada adianta contemporizar com o PT. Perdido, perdido e meio. A hora é de expor o que o PT fez de errado em termos políticos. Que a polícia, o ministério público e a justiça cuidem dos crimes comuns que foram cometidos pelos petistas. Cabe aos atores políticos denunciarem os seus malfeitos políticos.

Até hoje, mais de 13 anos depois, a população não sabe bem o que o PT fez durante o maior assalto ao Estado já visto na história universal. É hora de mostrar.

Não há ninguém se opondo ao PT, nem na base do governo Temer, muito menos no PSDB (que parece não estar mais nessa base, por puro oportunismo e calculismo eleitoreiro barato). Todos só se defendem dos ataques do PT. Não pode. É a falência da política.

O PT deve ser combatido no campo político e não apenas jurídico. Deixar a política por conta do judiciário é um erro grave.

Ficar torcendo para que Moro e a Lava Jato derrotem Lula e o PT é abrir mão da política. O PT deve ser confrontado no campo político.

A única alternativa para Temer (com um ano de atraso) é expor à nação a herança maldita deixada pelo PT em cada rincão do Estado. Se, em razão dessa iniciativa, os próprios integrantes do governo Temer – e inclusive o seu chefe – aparecerem implicados nos malfeitos, paciência.

Os democratas não temos compromisso com o erro, com o malfeito, com o crime. Se Temer prevaricou ou cometeu outro crime qualquer, que pague por eles. Mas também não somos tolos para aderir a um Fora Temer cujo único resultado possível é o Volta Lula e o reforço da candidatura do autocrata boçal Jair Bolsonaro (que terá como consequência, igualmente, o Volta Lula). Independentemente das culpas de Temer, o Volta Lula é um perigo incomparavelmente maior para a nossa democracia do que toda a corrupção tradicional dos atores políticos. Basta olhar o que está acontecendo na Venezuela, ou o que aconteceu na Rússia ou na Turquia. Esses países não viraram ditaduras pelo aumento do número de políticos corruptos por metro quadrado. Não! Eles só viraram ditaduras porque havia, em cada um deles, uma força política autocrática organizada, com estratégia de poder formulada, com narrativa ideológica estruturada e socialmente enraizada. Ora, no Brasil só há uma força assim: a organização política criminosa que dirige o PT, comandada por Lula, Dirceu e seus asseclas. Por isso, resistir ao PT é a tarefa principal dos democratas. Não limpar o mundo, não constituir Comitês de Salvação Pública dirigidos por tenentes de toga (ou chegados a uma toga), não aderir à política robespierriana da pureza (que é a antipolítica). Pensamos assim porque sabemos a consequência dessas cruzadas: elas desembocam sempre em mais autocracia e nunca em mais democracia.

Não se sabe se Temer é culpado ou inocente do que lhe acusam. Certamente terá parcela de culpa por crimes comuns que são tradicionalmente cometidos pelos atores de um sistema político que apodreceu e basta ver seus aliados para comprovar isso. Temer é um representante da velha política, um político habilidoso para administrar conflitos internos a essa base de interesses, nem todos compatíveis com o Estado democrático de direito. Por isso, aliás, ele foi escolhido, duas vezes, para ser vice do PT. Porque o PT sabia que não era possível fazer política sem os atores políticos realmente existentes, na falta de um estoque suficiente de Madres Teresas. Mas esta é a política que vem sendo praticada no país e há muitos e muitos anos. Se isso é suficiente para depô-lo é outra história.

Se Temer for realmente culpado do que lhe acusam, que seja processado pelo STF ou que sofra processo de impeachment – tudo, é claro, dentro do reza a Constituição. Mas enquanto não se provar a justeza das acusações que pesam contra ele, não pode ficar inoperante em termos políticos, reunindo desesperadamente esforços para manter uma maioria no Congresso apenas para sobreviver, eternamente na defensiva. Quanto mais na defensiva ficar, mais difícil será segurar essa maioria que ainda detém. Depois de mais duas ou três acusações industriadas em série por Janot, em conluio com o STF, será difícil repetir o feito de agora (a rejeição do relatório desse gigante moral chamado Sergio Sveiter) e rejeitar os demais pedidos encaminhados ao Congresso automaticamente pelo STF (que virou uma espécie de despachante da PGR). Chegará uma hora em que não adiantará mais trocar os membros da CCJ.

Não é ficando quieto ou assobiando e disfarçando que não é com ele, que Temer deixará de ser investigado, com ou sem razão, pelos que querem depô-lo. Desencavarão qualquer coisa para incriminá-lo, no limite, até se ele colou meleca embaixo da carteira quando era estudante, se subornou o guarda de trânsito, se fez um gato da Net, se soltou pum no elevador ou se favoreceu um financiador de suas antigas campanhas eleitorais.

Se Temer avaliar que não tem mais condições políticas de permanecer no governo, deve renunciar. Mas se ele não renunciou até agora e não pretende fazê-lo, não basta tentar se equilibrar de qualquer jeito. É necessário tomar iniciativas.

Novamente: perdido, perdido e meio.

Reformas não são uma resposta política imediata. Talvez, algum dia, sejam reconhecidas. Não agora. Nem que fizesse a reforma lobatiana da natureza, Temer seria poupado da orquestração para derrubá-lo (com participação destacada das Organizações Globo). As respostas têm que ser dadas no campo político, não apenas da policy (estatal), mas da politics que é permitida aos atores políticos, mesmo estando no governo.

A tarefa precípua do governo Temer – além de manter a equipe (e a política) econômica e tentar concluir as reformas que pretendeu – é fazer um levantamento de todos os malfeitos do PT em mais de uma década de assalto ao Estado. Inclusive exercendo a crítica ao modelo econômico petista que afundou o país. Se não fizer isso, daqui a pouco – se conseguir se segurar no governo graças a esforços sobre-humanos ou à sorte – Temer estará respondendo por 20 milhões de desempregados e pela destruição da Petrobrás.

E possível, sim, pegar cada ministério, cada departamento, cada empresa estatal ou apoiada pelo BNDES, cada agência reguladora, cada órgão da administração direta e indireta, cada entidade para-estatal ou financiada compulsoriamente com dinheiro público e mostrar os rombos deixados pelo PT, o aparelhamento, o tráfico de influência, os desperdícios, os usos políticos indevidos da função pública para promover o projeto de um grupo privado, a privatização partidária da esfera pública, enfim, tudo que caracteriza o assalto ao Estado comandado pelo PT.

Investigar os crimes comuns, as corrupções dos atores – envolvendo, inclusive políticos do PMDB e de partidos da base aliada – é tarefa a ser deixada às esferas policial e judicial. Temer não pode mais incriminá-los ou salvá-los, nem mesmo os que são seus aliados de primeira hora. E não é papel de um governo ou de partidos investigar essas coisas. Mas todo o restante, sobretudo o que está implicado no projeto político autocrático de bolivarianização (ou lulopetização) do Brasil, isto sim, cabe levantar, investigar e expor à nação.

E tem que expor à nação, claramente, os compromissos de Lula e do PT com ditaduras e protoditaduras mundo afora. A Venezuela vem ao caso. O governo deve tomar uma atitude fortemente ofensiva contra o ditador Maduro, mostrando que Lula foi seu cabo eleitoral e que, apesar de todos os massacres cometidos por esse autocrata contra o seu próprio povo, o PT continua apoiando-o.

Só então as pessoas vão começar a entender o perigo da volta do PT ao governo. E só então haverá chance de um minimo de reconhecimento popular a este precário – e sitiado – governo de transição. E só então este governo poderá, talvez, sair da defensiva, angariando a admiração dos que foram as ruas em 2015 e 2016 pelo impeachment de Dilma, a prisão de Lula e a extinção do registro partidário do PT (sim, concorde-se ou não com elas, essas foram as principais bandeiras das maiores manifestações políticas da nossa história).

Se a grande reforma almejada, a da previdência, vai passar, não se sabe. Mas já é hora de aposentar a incompetência política.

Talvez o governo Temer não tenha mais condições de fazer nada disso que se sugere aqui. Se não tiver, não merece continuar. Mas se teve força para aprovar a reforma trabalhista e para derrotar o relatório do representante da Globo na CCJ, então é sinal de que ainda pode fazer alguma coisa. Que faça o certo para a democracia. E de tudo, o mais importante, é impedir – por todos os meios legais e democráticos – a volta do PT ao poder.

Ah!… Mas o que adianta isso, se todos são corruptos? Pois é, não é disso mesmo que se trata aqui. Se o PT fosse 100% honesto, a sua volta ao poder deveria ser barrada com 1.000 vezes mais força.


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