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O problema é o estatismo

Antes de qualquer coisa é preciso se desvencilhar do estatismo

Esquerda x direita é um esquema interpretativo ultrapassado, capaz de causar uma deficiência cognitiva que incapacita as pessoas para a análise política.

Esqueçam essas velhas categorias de extrema-esquerda, esquerda, centro-esquerda, centro, centro-direita, direita, extrema-direita. Essa segmentação formal, “topográfica” (ou “tomográfica”) do espectro político-ideológico não diz nada na medida em que pode ser aplicada a qualquer ambiente (até dentro do PT ou do PCdoB). O que interessa é a democracia.

Esqueçam classificações do século passado: social-democratas, democratas-cristãos, social-liberais, liberais-econômicos, socialistas, socialistas-democráticos etc. Tudo isso envelheceu. Democratas são liberais no sentido político do termo, ou seja, dos que tomam o sentido da política como a liberdade (como os antigos atenienses ou Spinoza) e não os que seguem doutrinas economicistas da escola austríaca e similares.

De maneira bem-esquemática:

A – O que é a esquerda (realmente existente)?

1 – O neopopulismo (estatista) lulopetista

2 – O marxismo-revolucionário (estatista) de Guilherme Boulos (do MTST, aliado às variantes marxistas-leninistas do MST)

3 – O oportunismo comunista (estatista) de Manuela

4 – O nacionalismo (na verdade estatismo) de Ciro Gomes

5 – O antirreformismo (também estatista) da maioria do PSB (com a defecção de Joaquim, por enquanto sem candidato)

6 – A ficção de uma Avatar socialista (estatista) de Marina Silva.

B – O que é a direita (realmente existente)?

1 – O populismo-autoritário (e também estatista) bolsonarista.

Há, ainda, os instrumentalizadores políticos da operação Lava Jato (não a operação em si) que também têm uma perspectiva estatista na medida em que pretendem reformar a política a partir de estamentos do Estado, por via da antipolítica robespierriana da pureza, numa vibe meio jacobina que demoniza a política praticada pelos políticos realmente existentes.

Um exemplo desse uso político (e eleitoral) da Lava Jato apareceu ontem, com o lançamento, promovido pela Famiglia Bolsonaro (através de um de seus filhos, Eduardo Bolsonaro) de uma “Frente da Polícia Federal” para as eleições. Leiam a notícia.

OPERAÇÃO “APOLÍTICA”

Policiais federais lançam frente da “lava jato” para eleições ao Congresso

Por Sérgio Rodas, Consultor Jurídico, 21 de maio de 2018, 19h31

Com o objetivo de surfar na aprovação popular à operação “lava jato” por parte da sociedade, 26 integrantes da Polícia Federal usarão o famoso caso para concorrer a vagas no Congresso Nacional nas eleições deste ano. Eles integrarão uma aliança batizada oficialmente de Frente de Agentes da Polícia Federal — mas apelidada de Frente da “lava jato” —, que será lançada nesta terça-feira (22/5), em Brasília.

Agentes, escrivães e papiloscopistas serão candidatos ao Senado e à Câmara dos Deputados com o discurso focado no combate à corrupção e na tentativa de modernizar o modelo de segurança pública.

O presidente do Sindicato dos Policiais Federais no Distrito Federal, Flávio Werneck – que concorrerá a deputado federal pelo PHS –, afirmou à ConJur que o lançamento da Frente da “lava jato” não contraria o discurso de que a operação é apolítica.

Segundo ele, essa e outras megaoperações estão sendo ameaçadas por projetos em discussão no Congresso, como o novo Código de Processo Penal. A proposta, de acordo com Werneck, acabaria com o poder de investigar do Ministério Público e com a autonomia das autoridades policiais. Ele afirma que a intenção dos agentes é formar uma frente de resistência a esses ataques.

A frente ressalta que nenhum candidato se candidatará por partidos envolvidos na “lava jato”, como PT, MDB e PP. Porém, haverá postulantes de legendas investigadas na operação, como PSDB e Pros.

Membros

Entre os integrantes da frente está o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL-RJ). Escrivão da PF, ele é defensor de se liberar o porte de armas e de reduzir a maioridade penal.

Outro candidato polêmico é o agente Danilo Balas. Em 2014, ele postou uma foto ao lado de um alvo com a caricatura da presidente Dilma Rousseff crivada de tiros na página do Facebook “Polícia Federal do Brasil”, conforme revelou a revista eletrônica Terra Magazine. Na legenda, escreveu “assim fica fácil treinar. rs”. O agente recebeu quatro dias de suspensão como punição.

Também está na lista o agente Rafael Ranalli, pré-candidato a deputado federal pelo Patriota em Mato Grosso. Ele já afirmou que “bandido bom é bandido morto e, de preferência, de pé para não ocupar espaço”.

Segundo a frente, todos os estados contarão com representantes da categoria. Somente o Rio Grande do Norte não definiu nenhum nome ainda.

O ceticismo dos brasileiros quanto aos efeitos da operação está crescendo, segundo o Datafolha. Em abril de 2017, 45% das pessoas acreditavam que a “lava jato” diminuiria os níveis de corrupção no país. Um ano depois, esse percentual caiu para 37%.

Segundo informações publicadas ontem por O Antagonista, “na lista de pré-candidatos, estão: pelo Rio Grande do Sul, Ubiratan Sanderson e Marco Monteiro; por Santa Catarina, Edgard Lopes; pelo Paraná, Bibiana Orsi e Márcio Pacheco; por São Paulo, Eduardo Bolsonaro e Danilo Balas; pelo Rio, Sandro Araújo e Plínio Ricciardi; por Minas Gerais, Cláudio Prates; pelo Espírito Santo, Edmar Camata; pela Bahia, Anderson Muniz; por Alagoas, Flávio Moreno; por Pernambuco, Jorge Federal; pelo Ceará, Odécio Carneiro; pelo Maranhão, Aluísio Mendes; pelo Pará, Marinho Cunha; por Roraima, Barroso; pelo Acre, Jamyl Asfury; pelo Amazonas, Aldenir Araújo; pelo Amapá, Jorielson; por Rondônia, Bosco da Federal; pelo Mato Grosso, Rafael Ranalli; pelo Mato Grosso do Sul, Renée Venâncio e André Salineiro; por Goiás, Suender; por Tocantins, Farley; pelo Distrito Federal, Flávio Werneck e Santiago da Federal”.

Mais explícito, impossível. O clima de corta-cabeças, criado pelos instrumentalizadores políticos da Lava Jato, fortaleceu as alternativas autocráticas estatistas. Os políticos realmente existentes, não apenas os democratas declarados, mas todos os que não têm motivos para ser contra a democracia, foram demonizados.

Sim, tudo isso é estatismo. Por isso que, nestas eleições, os democratas têm de esquecer essa conversa retrógrada de esquerda x direita e olhar o que interessa: o estatismo.

O estatismo não pode ser caracterizado apenas, como pensam os liberais-econômicos, pela intervenção do Estado na economia (ou no mercado). O estatismo é um comportamento político, um tipo de comportamento político autocrático derivante de uma visão estadocêntrica do mundo, que não reconhece, para além do Estado, a autonomia – e, em alguns casos, a legitimidade – de outros modos de agenciamento, como o mercado e a sociedade civil, as comunidades glocais e as redes de pessoas.

Estatistas são, por definição i-liberais. Democratas são liberais (no sentido político do termo, como foi explicado acima).

Logo, democratas – lançando mão de todos os meios legais e legítimos – não devem permitir que estatistas (de qualquer matiz) voltem ao poder ou cheguem ao poder. Ponto.


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