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O PT está saindo do campo dos adversários da democracia que podem ser tolerados pela democracia

É necessário saber ler os sinais, fortes e fracos, que a conjuntura está emitindo. Vamos citar apenas alguns como exemplos:

O Partido Comunista de Cuba emitiu uma nota:

“Cuba denuncia a prisão com fins políticos do companheiro Luiz Inácio Lula da Silva, que constitui um fato gravíssimo ao tentar impedir que o líder mais popular do Brasil seja candidato à Presidência desse país”.

O mesmo fizeram o ditador Nicolás Maduro, da Venezuela e Rafael Correa do Equador. Notas de outros dirigentes bolivarianos – como Evo Morales e Daniel Ortega – foram ou estão sendo emitidas. As FARC, igualmente, engrossaram o coro.

Companheiros de Lula sugeriram que ele se exilasse nas embaixadas de Cuba ou da Rússia.

Da Rússia, mano?

Pois é… Supostamente a ditadura de Putin é um regime amigo de Lula. Por que será?

Luis Marinho, amigão do peito de Lula e um dos dirigentes da organização política criminosa que comanda o PT, fez o último discurso no palanque de São Bernardo no dia 7 de abril. Em síntese ele conclamou a militância não apenas a resistir, mas a atacar. Na linha bolivariana, pregou a organização de comitês populares revolucionários. Praticamente mandou que os militantes invadissem a Globo (disse, textualmente, que essa empresa de comunicação deveria ser “visitada”).

Em vários lugares de reunião da militância de esquerda contra a prisão de Lula, a imprensa foi maltratada ou agredida. Num levantamento parcial, de Helio Gurovitz, feito às 18 horas de ontem (07/04/2018), foram agredidos por militantes pró-Lula os seguintes jornalistas: Pedro Duran, Igor Duarte e equipe, Gabriela Maia, Roberto Kovalick, Caio Rocha, Bruna Barboza, Joana Treptow. O objetivo era interromper qualquer cobertura jornalística que não fosse alinhada ao petismo.

A linha foi dada no discurso do próprio Lula, na sua “missa negra” de São Bernardo. Ele disse exatamente as seguintes palavras:

“Eles têm que saber que nós vamos fazer realmente uma regulação dos meios de comunicação para que o povo não seja vítima das mentiras todo santo dia”.

Isso tudo não é apenas grave. É gravíssimo. Os sinais são muito preocupantes.

O PT em geral e Lula em particular sempre tiveram uma prática dúbia: enquanto negociam com a institucionalidade, açulam os instintos mais primitivos da sua militância contra a institucionalidade. Lula já fazia isso quando era dirigente sindical: negociava com os empresários secretamente e fazia discursos inflamados no estádio de Vila Euclides. Todavia, há sempre riscos implícitos nesse comportamento esquizoide. As coisas podem sair de controle quando não se tem mais o controle da militância, sobretudo quando parte dessa militância não é mais petista e sim marxista-revolucionária, que defende Lula por motivos táticos, mas não lhe presta obediência incondicional.

Parece ser o caso agora. Empurrado pelas circunstâncias e pela recusa de Lula de se curvar ao Estado de direito, os líderes do lulopetismo estão demarcando claramente um campo de luta política avesso à institucionalidade democrática. Isso está dissolvendo rapidamente a ambiguidade que caracterizou a vida de um partido que aprendeu a usar a democracia contra a democracia. A própria via neopopulista – de dar um golpe de Estado em doses homeopáticas, chegando democraticamente ao governo para, a partir dele, tomar o poder – vai sendo atropelada (como também foi, aliás, na Venezuela de Maduro).

Se o PT optou por esse tipo de radicalização – ou se deixou para ela ser empurrado – é sinal de que avaliou que Lula não conseguirá transferir votos para qualquer preposto num clima de normalidade. Resolveu então melar o jogo.

Uma vez dado esse passo, dificilmente há volta. Entra-se numa bifurcação: ou o PT vence as eleições de 2018 (o que só acontecerá num clima de caos) e volta ao governo, ou caminha para o gueto (virando uma espécie de PCdoB). Em qualquer hipótese aumenta-se a polarização na sociedade e a crise política se aprofunda.

Muitas pessoas revoltadas com a ofensiva do PT contra a normalidade democrática, tendem também a radicalizar suas posições. Isso pode dar margem ao crescimento de uma direita intolerante e violenta. Entramos assim no pior dos mundos: a perversão da política democrática pela instalação de uma guerra civil fria de longa duração, como previ, há dois anos, no artigo Uma década de guerra civil fria pela frente, a menos que…

Nenhum alarmismo vai aqui. É claro que não haverá uma guerra civil “quente” no país. Toda essa conversa de comoção social, revolta popular, rebelião das massas – tudo isso é pura balela. A via neopopulista – representada no Brasil pelo lulopetismo (mesmo correndo o risco de ser atropelada pelos seus próprios próceres) – é uma estratégia, repita-se, de chegar ao governo pelas eleições para, homeopaticamente, tomar o poder e nunca mais sair do governo. Não interessa aos neopopulistas voltar ao passado das FARC, à guerrilha, nem adotar a guerra popular prolongada, o foquismo ou a insurreição para tomar o Palácio de Inverno. É uma conversa para assustar tucanos, que não funciona para quem não tem a nostalgia da visão de classe (e acha que os petistas são primos desviados, mas bem-intencionados), ainda namora com filosofias imanentistas da história e, cá entre nós, para quem tem o rabo preso por ter se aproveitado, ainda que indiretamente, dos esquemas subterrâneos de financiamento da política tradicional.

Podemos dormir tranquilos quanto a isso. As pessoas continuarão levando suas vidas do modo como sempre fizeram, com um ou outro percalço aqui e ali, mas não haverá confronto violento generalizado: apenas grupos de militantes arrebanhados (e às vezes alugados), desocupados queimando pneus em estradas (a soldo de sindicatos) e protestos inflamados da galera descolada que mora no Leblon ou na Vila Madalena. Nenhum grupo de esquerda tem força político-militar e base social mobilizada para quebrar a legalidade vigente no Brasil.

Mas isso não significa que a política não vai ser degenerada, mais ainda, como continuação da guerra por outros meios. A questão é o clima, a vibe. O PT precisa, desesperadamente, do desespero da sua militância para escalar a radicalização e aumentar a polarização com supostas forças fascistas, imperialistas, anti-povo. O neopopulismo vai se transformando assim numa espécie de política de bando, ação de gangues que só não dão um golpe de Estado não porque não queiram e sim porque não podem. Sim, está havendo uma mudança no emocionar dos petistas, dos seus aliados e dos setores sociais que arrebanha, no sentido do tudo ou nada. Se já estavam fora do campo democrático, como populistas que são, quer dizer, iliberais, os petistas e agregados, agora, vão saindo também do campo dos adversários da democracia que podem ser tolerados pela democracia. Isso não está acontecendo por decisão de Estado-Maior – ou seja, os dirigentes máximos do PT não querem transformá-lo nas antigas FARC – mas porque o lulopetismo, como movimento, está sendo empurrado por suas bases revolucionárias para posições cada vez mais radicais. A intransigência de Lula, de não abandonar o comando supremo, contribui para tanto. Os políticos, digamos, “normais” do PT, que querem apenas ser eleitos ou reeleitos e auferir vantagens do jogo político usual, estão muito incomodados com a escalada insana, pois sabem que agora, cumprindo o papel de tribunos bolcheviques, correm sério risco eleitoral.

Por isso é bom ligar o alerta. Sobretudo se Lula for solto por uma manobra do STF e houver choque entre militâncias ditas de esquerda e de direita, podemos estar a um passo de entrar – para usar uma caricatura – em “Fast Pace” (DEFCON 2). Apenas os mecanismos do Estado de direito, suficientes para conter movimentos de quebra da institucionalidade vigente, não são, porém, capazes de alterar esse clima geral. Na ausência de grandes manifestações de rua (das pessoas comuns, não dos militantes) o perigo não será afastado.

Não se deve aceitar qualquer provocação de petistas. Querem melar o jogo para justificar a falsa narrativa do golpe e da perseguição política e legitimar a reação disruptiva de suas milícias. Eles não são mais players válidos da democracia. Só a dinâmica pacífica da sociedade brasileira pode colocá-los no lugar que merecem nas democracias: o gueto.


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