PT odeia a política

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O PT odeia a política

A análise política é capaz de revelar coisas que nunca se pode ler no noticiário, sobretudo brasileiro, onde os jornalistas políticos, em grande parte, viraram torcedores, quando não militantes que distorcem e falsificam as notícias. Vamos analisar o caso da chamada “fixação no mordomo”, ou seja, do Fora Temer petista que hegemoniza uma penca de Fora Temer subordinados.

Por que o PT faz uma carga tão forte – quem nem mesmo fez contra a ditadura – contra o governo Temer?

1 – Não é por elevado senso de moralidade pública, já que o PT montou o maior esquema de corrupção da história humana na última década. Um esquema que parasitou a corrupção tradicional da política, repetiu e exponenciou essa corrupção endêmica que já havia e ainda por cima introduziu (escondendo dentro dela) um novo tipo de corrupção, com motivos estratégicos de poder (aquilo que o saudoso Ferreira Gullar batizou de “a revolução pela corrupção”), visando bolivarianizar (ainda que à brasileira, quer dizer, lulopetizar) o nosso regime, tomar o poder e nunca mais sair do governo. Além disso, o perfil de Temer – que pode ser levantado em décadas de atuação política – não é bem o de um Eduardo Cunha ou de um Sérgio Cabral: Temer é low, não faz ameaças, não acumulou (ao que se saiba) estratosférica fortuna à custa de roubo: e, se fosse mesmo esse corrupto de folhetim, por que o PT o escolheria duas vezes para vice, vulnerabilizando sua chapa presidencial?

2 – Não é em razão da armação Janot-Joesley, chancelada por Fachin e impulsionada pela Globo, de vez que o Fora Temer do PT começou em maio de 2016, ou seja, um ano antes da urdidura para depor Temer ou obrigar que ele renunciasse no grito, em menos de uma semana. Depois do golpe intentado contra ele, Temer foi acusado – pelo varão de Plutarco Joesley Batista – de ser o chefe da maior e mais perigosa organização criminosa do Brasil: mas a acusação é tão inverosímel, que nem mesmo o PT teve coragem de replicá-la.

3 – Não é porque Temer seja de direita, a não ser que queiramos definir como de direita todo mundo que não é de esquerda. Ou seja, Temer não é um Bolsonaro, não defende propostas identificadas com o direitismo internacional (por exemplo, com Le Pen ou com Donald Trump), nem com os autoritarismos (que pudessem ser encarados por alguém como de direita, como o de Recip Erdogan, Viktor Orbán, Rodrigo Duterte ou Jarosław Kaczyński). Pelo contrário, Temer é um político normal, representante típico de um centrão fisiológico, ou melhor, de um partido – o PMDB – que se define como uma frente capaz de operar a política realmente existente, no parlamento, mas sempre a partir dos governos (e tendo ou não em suas mãos a chefia desses governos).

A resposta para a pergunta inicial deste artigo é tão simples que surpreende. O PT demoniza Temer porque Temer é um político tradicional que não continuou a seu serviço. Demonizaria qualquer outro nas mesmas condições. Demonizou Collor, mas não o faz mais, porquanto Collor colocou-se a serviço do partido. Demonizou Fernando Henrique, mas não o faz mais, porque sabe que o PSDB é peça fundamental para a consecução da estratégia petista na medida em que está sempre disposto a conceder ao partido um atestado de player válido da democracia (o que o PT não é).

Na verdade, o PT demoniza a política. Não a política ideal, feita pelos santos (ou seja, aquela que não existe); nem a anti-política, feita pelo líder que comanda as forças do bem contra as forças do mal (essa ele adora). O PT demoniza a política do dia a dia, a política do feijão com arroz, a política imperfeita, suja e curva, aquela que não tem heróis. Os petistas não têm vocação para esse rame-rame: ou estão lá para se aproveitar, usar tudo que puderem instrumentalmente, para roubar e financiar a si mesmos e ao seu projeto de poder, ou estão lá para sabotar o funcionamento normal da política, fazendo um gato no sistema para desviar energia para aparelhos de conquista de hegemonia, organizações voltadas à tomada do poder político ou grupos de combate à democracia (como MST, MTST, UNE etc).

É claro que essa velha política apodreceu, mas o PT não a odeia porque apodreceu, de vez que ele se aproveitou desse apodrecimento para organizar seu banquete coprófago. Não se pode esquecer que o PT depositou seus ovos dentro da carcaça podre do velho sistema político. Sua estratégia em relação ao Estado democrático de direito foi a da vespa parasitóide (a hymenoepimecis argyraphaga) que deposita seus ovos dentro da aranha (plesiometa argyra) e que, de alguma forma, controla a mente da aranha (ou a reprograma), que passa então a construir teias especialmente preparadas para receber as larvas que nascerão e para mantê-las seguras (até que, quando estão prontas, as larvas devoram a aranha de dentro para fora, saindo do corpo da hospedeira e se aproveitando da casa que ela construiu).

Por isso o PT não demoniza a “política” feita por Putin, por Maduro, por Evo, por Ortega, por Lenin Moreno. Porque esse tipo de política não é, na verdade, política. Ou melhor, é política como continuação da guerra. É um meio para impor às sociedades um projeto autoritário. É uma via para a autocracia.

Esta via agora está clara, declarada que foi pelo apoio do PT à narcoditadura de Nicolás Maduro na Venezuela. É notável que o PT se sinta tão forte – e despreze tanto o sistema político, o establishment e o Estado democrático de direito – que nem tente esconder seu apoio aos narcotraficantes bolivarianos que estão assassinando o seu próprio povo. Está tão confiante no apoio tácito do PSDB (e FHC, infelizmente, é um dos responsáveis por isso), nos seus infiltrados nas instituições da República (com vários ministros no STF, no STJ, além do Procurador Geral da República – este último seu agente direto) e nas organizações da sociedade (praticamente todas as universidades, ONGs, organismos internacionais, escritórios de advocacia, movimentos sociais, movimento sindical e associativo, OAB, CNBB etc.) que sabe que pode fazer qualquer coisa, tomar qualquer atitude contra a democracia, aqui e alhures, que ficará tudo por isso mesmo.

O PT é hoje uma força política acima do Estado democrático de direito: se resolver enviar militantes para combater o povo venezuelano, ao lado de Maduro e dos agentes da ditadura cubana (se é que já não o fez), não acontecerá nada com ele. Nosso arcabouço legal constitucional – de certo modo desenhado pela esquerda após o fim do regime militar – é inepto para coibir organizações políticas erigidas para cometer crimes políticos, como é o PT.

Não sendo para isso, ou seja, não sendo a política apenas um pretexto para a implantação de um projeto estratégico, que usa a democracia contra a democracia, o PT odeia a política.


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