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“O PT só fez o que todo mundo faz”: a falsificação de Padilha

Já fiz um comentário preliminar sobre a série O Mecanismo de Padilha. Agora, que acabei de ver todos os episódios da primeira temporada, minha avaliação piorou bastante.

No artigo citado acima tentei mostrar que há um ‘mecanismo’ que o Padilha não viu. Para ilustrar, postei uma foto da tropa reunida por ocasião da exéquias de Fidel Castro, em Havana, chamando a atenção para o fato de que ali não se vê os meliantes que, segundo o diretor, já faziam o que o PT fez (a menos que “Luciano” Neves fosse o cara escondido atrás da pilastra):

Algumas pessoas bem-intencionadas avaliam que Padilha teve de simplificar a história para  tratar dos temas abordados pela Lava Jato. Segundo tal ponto de vista, ele teria consciência das diferenças entre a corrupção praticada com motivos estratégicos de poder e a corrupção tradicional, endêmica em nossos meios políticos, mas achou que não seria o caso de fazer tal distinção em uma série televisiva. Em um comentário no meu mural no Facebook, uma pessoa benevolente escreveu:

“Augusto, permita-me discordar de você. Não é que o Padilha não o tenha visto… É que há outra história mais importante a ser contada antes: a da corrupção institucional e institucionalizada no país. A história que você propõe ser contada é outra história importante, mas muito mais difícil de se abordar objetiva e diretamente, até mesmo porque a Lava Jato não oferece vínculos e sentenças que a subsidiem. Você não concorda?”

Minha resposta foi a seguinte:

“Concordaria, sim, se o Padilha não estivesse dando entrevistas expressando uma visão falsificada da história, segundo a qual o PT fez o que o PSDB já havia feito.”

Passemos então ao novo artigo.

“O PT SÓ FEZ O QUE TODO MUNDO FAZ”

Ainda sobre a falsificação de Padilha

À reportagem de Isto É, publicada anteontem, o diretor José Padilha declarou o seguinte:

“A Lava Jato mostrou que PT e PMDB desviaram, juntos, bilhões de dólares dos cofres públicos. Lotearam o País, assim como o PSDB havia feito. Operaram o ‘mecanismo’. Parasitaram os brasileiros. Não há como negar.” 

Ora, é óbvio que o PT se associou ao PMDB na prática da corrupção política tradicional, endêmica em nossos meios políticos. Assim como é óbvio que políticos de todos ou quase todos os partidos praticaram esse tipo de corrupção, inclusive políticos do PSDB. Mas é falso que o PT praticou apenas esse tipo de corrupção.

Além de praticar a corrupção tradicional, os petistas praticaram a corrupção com motivos estratégicos de poder, para financiar o seu projeto neopopulista, de forma organizada, centralizada. Ou seja, além de cometer crimes comuns, o PT cometeu crimes políticos contra a democracia (na linha bolivariana, ainda que à brasileira, ou seja, adotando a via neopopulista lulopetista que tinha como objetivo conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido para nunca mais sair do governo).

Também é falso dizer que o PT (associado ou não ao PMDB) fez o mesmo que o PSDB havia feito. Ou seja, é falso dizer que havia um (único e) mesmo ‘mecanismo’. Políticos do PSDB – assim como os de quase todos os partidos – praticaram a corrupção tradicional nos meios políticos, mas não para alterar o DNA da nossa democracia (como fez o PT) e sim com os propósitos de se eleger, se reeleger, eleger ou reeleger um correligionário ou aliado, se locupletar e se dar bem na vida. Ou seja, roubaram: para si, para suas famílias e para seus grupos político-eleitorais. Mas isso é muito diferente de roubar para financiar a montagem e o funcionamento de um esquema paralelo de poder, organizado e centralizado, para implementar um mesmo projeto político autocrático.

A narrativa adotada por Padilha é, no fundo, a mesma engendrada pelos falecidos Arnaldo Malheiros e Marcio Thomaz Bastos para livrar a cara de Lula no caso do mensalão: “o PT só fez o que todo mundo faz”.

Não se sabe bem por que os petistas estão bravos com a série O Mecanismo. Ela é conveniente para o PT. Ela espalha a contra-informação petista que tem como objetivo esconder seus crimes políticos (contra a democracia) dentro dos crimes comuns (praticados pelos políticos). Ela confunde a organização política criminosa (chefiada por Lula e Dirceu e que tem apenas um dos seus dirigentes preso em regime fechado: João Vaccari) com as organizações criminosas compostas por políticos.

É como se ela dissesse que a corrupção de Chávez é a mesma coisa que a corrupção de Rafael Caldera (quando não é: e tanto é assim que depois de Caldera a Venezuela continuou sendo uma democracia, mas depois de Chávez-Maduro virou uma ditadura).

É como se ela confundisse a corrupção de Mussolini com a corrupção de um Berlusconi (quando não são a mesma coisa: com Berlusconi a Itália continuou sendo uma democracia e com Mussolini virou uma ditadura).

É como se ela quisesse nos empulhar com a mentira de que o Hezbollah é igual ao PCC só porque ambos se associaram em algum momento para praticar o tráfico de armas e munições.

Dizer que o PT fez o mesmo que o PDSB havia feito é uma falsificação sórdida da história. Claro que o PSDB é muito ruim. Claro que políticos do PSDB praticaram corrupção. Seu principal malfeito, aliás, foi ter servido de escada para o PT saltar os muros do Estado de direito. Mas afirmar que são a mesma coisa ou que fizeram a mesma coisa – como declarou Padilha na entrevista de anteontem e na sua série de TV – é um desserviço à democracia.


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