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O que a análise política pode revelar

Por algum motivo (ou por vários) temos poucas análises políticas propriamente ditas hoje no Brasil. Análise política que não investiga a natureza dos projetos políticos em confronto e o estado das forças políticas que representam esses projetos, pode ser tudo – declaração de intenções ou de preferências do autor, crônica, torcida, propaganda, contra-informação, plantação de fofocas ou fake news -, menos análise.

Uma rápida leitura dos artigos publicados neste site Dagobah sobre a conjuntura política, contendo dezenas de análises sobre a conjuntura brasileira atual (ou dos últimos dois anos) revela sempre a mesma coisa em relação ao projeto neopopulista que, no Brasil, é encarnado pelo lulopetismo. Vamos tentar resumir em cinco pontos:

1 – Uma vez implantado (e a partir de certo grau de implantação) o projeto neopopulista, a força política que o representa dificilmente poderá ser removida do governo apenas pela via eleitoral. Para saber o que é o projeto neopopulista leia isto: Decifrando a via neopopulista.

1.1 – No Brasil, a implantação desse projeto foi interrompida pelo impeachment (ou seja, não pelas urnas, mas pelas ruas, pelas mídias sociais e pelo parlamento). Se dispusesse de mais uns dois ou três anos de implantação, babau: o PT não seria removido do poder pelas eleições de 2018, nem pelas eleições de 2022, quiçá pelas de 2026. Para saber por que releia o artigo linkado acima.

1.2 – Como houve o impeachment e a operação Lava Jato continuou divulgando os crimes de dirigentes petistas do núcleo duro da organização política criminosa que comanda de fato o PT – por exemplo, Lula, Dirceu e Vaccari – o PT sofreu um duro revés eleitoral nas eleições municipais de 2016. Mas com a disseminação da ideia de que todos os políticos são iguais (feita indiretamente por Janot e demais membros do Ministério Público da própria Lava Jato e, diretamente, pelos jacobinos, pelos moralistas e pelos oportunistas interessados em empalmar o poder dizendo-se diferentes), Lula e o PT se recuperaram, abrindo também um caminho para a emergência de Bolsonaro (o capitão populista-autoritário, tido por honesto, que, embora detenha sete mandatos consecutivos, vende falsamente a ideia de que não tem nada a ver com a política que está aí).

2 – Lula, o caudilho neopopulista, continua na frente em todos os cenários, a despeito de ter sido condenado em primeira instância e em segunda instância. Se fosse condenado em terceira instância, manteria igualmente a dianteira. Se houvesse uma quarta instância, idem. Por que? Por dois motivos principais:

a) porque é da natureza do neopopulismo essa identificação com “as massas” (se o líder desse projeto não tivesse alta popularidade, não haveria o projeto neopopulista);

b) porque o PT está socialmente enraizado: nos rincões onde se concentram os clientes do Bolsa Família, nos meios artísticos e culturais, nos meios de comunicação (80 a 90% dos jornalistas são petistas, criptopetistas ou simpáticos à Lula), nos sindicatos e associações profissionais, nos meios docentes e discentes e no funcionalismo das universidades e escolas, nos movimentos sociais que atuam como correias de transmissão do partido, nas organizações não-governamentais, nas burocracias dos organismos internacionais com representação no Brasil, nos escritórios de advocacia e nos órgãos estatais que continuam aparelhados. Todos esses setores não são muito vulneráveis à divulgação de notícias negativas sobre o líder: seja por sua baixa interatividade (caso dos “pensionistas” do Estado), seja porque estão imersos em uma dinâmica corporativa (caso dos militantes que, por definição, estão “protegidos” contra a verdade).

3 – Ao contrário do que divulga o jornalismo cafajeste para especular na crise, Lula não será preso amanhã. Se for preso depois de amanhã, dificilmente não obterá um Habeas Corpus algum dia depois de depois de amanhã. Não são as ruas, muito menos o medo de uma rebelião popular, que seguram Lula. São os velhos caciques políticos tradicionais, que imaginam que só Lula poderá protegê-los e mantê-los na condição de caciques e ainda sonham com uma virada do jogo que permita a sua candidatura. No mínimo, sabem que se Lula for preso, todos eles (os caciques tradicionais com menor popularidade) também poderão ter o mesmo destino. Por isso que o PT é hoje o fulcro da velha política no Brasil.

4 – Os neopopulistas – e não os autocratas reacionários (intervencionistas, monarquistas religiosos tradicionalistas, conspiracionistas antiglobalistas, protofascistas), e não os autocratas “revolucionários” (comunistas), e não os populistas-autoritários (e. g., Bolsonaro) – são a maior ameaça imediata à democracia (no Brasil, na América Latina e, inclusive, na Europa – neste último caso, nas versões clássicas populistas). Para saber por que leia o artigo Os diferentes adversários da democracia no Brasil.

4.1 – Os neopopulistas ditos de esquerda se alimentam do antagonismo com os adversários ditos de direita (os autocratas reacionários e os populistas-autoritários), mas o sentido da sua política é evitar o surgimento de uma alternativa do campo democrático (onde estão os populistas não-autoritários, os democratas formais, os liberais-políticos e os inovadores democráticos). Para entender essa classificação releia o artigo imediatamente linkado acima.

4.2 – A única saída democrática é apostar em uma alternativa do campo democrático, forte o suficiente para quebrar a polarização entre dois candidatos do campo autocrático (no caso do Brasil atual, isso significa impedir que a disputa política fique aprisionada no campo autocrático, estiolando-se num embate entre Lula ou qualquer candidato apoiado por ele x Bolsonaro, ou entre quaisquer candidatos desse campo: seja um petista, como Haddah ou Wagner, sejam Bolsonaro, Ciro, Marina, Manuela, Boulos ou outro que, porventura, ou melhor, por desgraça, aparecer).

5 – Não há saída (para a democracia) fora da democracia. Isso significa que a justiça não pode resolver os problemas da política. Se Lula for derrotado juridicamente, mas não for derrotado politicamente, ele continuará – preso ou solto – como uma ameaça ao regime democrático. E se a organização política criminosa que ele dirige não for desbaratada o PT continuará (com este ou outro nome) sendo a principal ameaça à democracia no Brasil. Nunca, em nenhuma época ou lugar do mundo, a terceirização das tarefas políticas para a justiça acabou bem. Justiça e Ministério Público são corporações enquistadas no Estado, praticamente sem qualquer controle externo

5.1 – Se um partido neopopulista permanece mais de três mandatos consecutivos no governo federal, consegue perturbar o “sistema imunológico” da democracia. Basta, para tanto, nomear a maioria do STF. Uma suprema corte aparelhada pode interferir nos poderes legislativo e executivo, inclusive no próprio judiciário – anulando, na prática, a independência dos poderes. Pode inclusive, por vias formalmente legais, alterar progressivamente o DNA da democracia e estabelecer uma espécie de regime dependente do judiciário (cuja instância máxima não se submete a nenhum tipo de controle externo). Temos de reconhecer que o Estado de direito, no Brasil, não tem proteção eficaz contra o aparelhamento dos tribunais, um dos caminhos efetivos para a privatização partidária da esfera pública (como ocorreu na Venezuela e em outros países bolivarianos). Esta, em razão da sua importância na desorganização do regime democrático, poderia ser considerada uma terceira falha da democracia. A primeira é não ter proteção eficaz contra o discurso inverídico. A segunda é não ter proteção eficaz contra o uso da democracia (notadamente das eleições) contra a própria democracia. A terceira (em parte, decorrência da segunda) é não ter proteção eficaz contra o aparelhamento das instâncias superiores do poder judiciário (e do ministério público): que acabam sendo, para todos os efeitos, poderes sem controle externo, verdadeiras corporações (privadas) enquistadas no Estado

5.2 – A justiça tem que funcionar. O Estado de direito não pode aceitar ladrões em lugar nenhum, inclusive na política. Para isso existem leis que punem esses crimes. Mas não se pode priorizar o combate aos corruptos comuns na política em detrimento da democracia. Quase todos – senão todos – os golpes contra a democracia foram desferidos tendo como pretexto acabar com a corrupção. E o ponto central, para os amantes da liberdade, não são as imperfeições dos seres humanos e sim não sermos cavalgados por um senhor (mesmo que ele seja o ser mais honesto do planeta).

5.3 – Nenhum regime democrático virou uma ditadura em razão do aumento do número de corruptos por metro quadrado. Quando isso acontece é porque houve uma força política com projeto estratégico de autocratizar a democracia. Os agentes da autocratização, em muitos casos, são honestos. Hitler, Stalin, Mao – os ditadores mais sanguinários da história – não eram corruptos (bandidos comuns). Franco, Salazar, Pinochet, Videla, Médici e Bordaberry, todos ditadores, não eram corruptos (bandidos comuns). Os autocratas espartanos (como Leônidas e Lisandro) eram honestíssimos, verdadeiros varões de Plutarco – e financiaram golpes sangrentos contra a democracia ateniense, cujo principal expoente foi Péricles (acusado de corrupção por desvio de verba na construção do Partenon, além de quebra de decoro, por se casar com uma puta e de nepotismo, por ter nomeado um filho para um cargo público). A democracia metaboliza a corrupção endêmica, tradicional, voltada para a obtenção de vantagens pessoais, mas falece diante de projetos autoritários. Por isso é um desserviço à democracia confundir as duas coisas. Cabral não é uma ameaça de alteração do DNA da democracia. Lula é. Cabral não tem projeto bolivarianizante (mesmo à brasileira, quer dizer, lulopetizante). Lula tem. Cabral não roubava para desviar dinheiro para ditaduras comunistas, como Angola, Cuba e Venezuela. Lula desviava. Se a análise política não for capaz de esclarecer essa diferença as pessoas acharão que Cabral é igual a Lula, Cunha é igual a Dirceu e Geddel é a mesma coisa que Vaccari. São ameaças muito diferentes. Os primeiros podem avacalhar a democracia, jamais aboli-la. Já os segundos…


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