Inteligência Democrática

autocratico

Inteligência democrática é uma expressão metafórica para dizer que as atividades ditas de inteligência – sobretudo de análise política – foram, até agora, predominantemente autocráticas, ou seja, foram feitas para abastecer de informações decisores situados no topo de alguma pirâmide, em alguma instituição cujo padrão de organização hierárquico é regido por modos de regulação autocráticos e não democráticos.

INTELIGÊNCIA AUTOCRÁTICA E INTELIGÊNCIA DEMOCRÁTICA

Os exemplos mais óbvios de inteligência autocrática são os dos centros de inteligência da chamada comunidade de informações ou dos serviços estatais de segurança (não importa se é a CIA ou a FSB, o M16 ou o MSE chinês, o G2 cubano ou o Mossad). Eles erigem organizações hierárquicas onde o capital social interno é próximo de zero e, assim, não é de espantar que seus resultados sejam sempre ruins e nocivos às sociedades do ponto de vista da democracia.

Algumas características dessas organizações revelam a problemática que levou à criação da expressão ‘inteligência democrática’.

1 – Nelas não há colaboração sistêmica efetiva (ou seja, ampliada; a não ser interpessoal, na base do coleguismo) e, assim, não pode se manifestar uma inteligência tipicamente humana: as pessoas – os analistas, os agentes de campo, os demais burocratas e, inclusive, os dirigentes – atuam como peças da máquina em vez de operar propriamente a máquina e a máquina se transforma em moedor de carne: a carne deles).

2 – Nelas todos desconfiam de todos e todos vigiam todos, o que dificulta sobremaneira a cocriação de soluções.

3 – Como sua estrutura é centralizada e sua dinâmica autocrática, não há proteção eficaz contra a intervenção de cima (política ou econômica) e, via de regra, a coleta, a análise, a investigação e a operação é feita para atender a interesses privados dos atores políticos, que nada têm a ver com suas funções precípuas.

4 – A violência (física ou psicológica) é sempre o primeiro e o último recurso contra os inimigos e os inimigos são todos os outros, não apenas os inimigos “de fora” que ameaçam a segurança do Estado, mas também os de dentro (do próprio Estado) e, não raro, da própria organização (no ambiente configurado pela emoção adversarial e pela tensão guerreira, o escorpião pica a si mesmo).

5 – Essas organizações retroalimentam a guerra fria (o suposto estado natural do mundo que justifica a existência dos seus serviços) e em vez de afastarem as ameaças reais criam cada vez mais ameaças imaginárias (numa espécie de espiral, instalando a vendetta como dinâmica normal de funcionamento) e passam a depender, para sua sobrevivência como instituições, da manutenção da guerra fria (tendo que continuamente criar inimigos: sem inimigos não há verbas, sem ameaças não há novas contratações e aquisição de novas tecnologias, sem guerra-fria a burocracia dessas organizações não aumenta o seu poder).

6 – A maior parte da sua atividade é inútil para os fins anunciados (a segurança do Estado ou, eufemisticamente, da sociedade) e elas ficam acumulando e classificando lixo que não sabem interpretar por deficit de inteligência coletiva (ou seja, são burras desse ponto de vista e seus serviços não são de inteligência, mas de burrice).

7 – Como são organizações promotoras de guerra, as agências da chamada comunidade de informações e segurança, jamais vão entender que a inteligência tipicamente humana é colaborativa e que a inteligência competitiva, quando coletiva, também é colaborativa.

Jamais vão entender que a captura de sinais fortes e fracos, o estabelecimento de conexões e o reconhecimento de padrões para interpretar esses sinais não pode ser feita pela soma de inteligências individuais organizadas segundo padrões hierárquicos regulados por modos autocráticos. Se em vez de construírem essas organizações monstruosas, eles criassem clusters de inteligência colaborativa, seus resultados seriam incomparavelmente maiores.

Mas isso eles não sabem e, se soubessem, não iam querer fazer, porquanto manter os quistos autocráticos do Estado piramidal exige fazer a guerra, ou seja, a criação e manutenção de inimigos como pretexto para organizar cosmos sociais segundo padrões hierárquicos regidos por dinâmicas autocráticas. Na verdade é medo da democracia. No caso, mais do que medo: ódio. Essas organizações estatistas (não importa se seus governos se digam capitalistas ou socialistas, de direita ou de esquerda, liberais ou conservadores) são urdidas para impedir ou enfrear o processo de democratização.

Tudo isso vale, mutatis mutandis, para as empresas que querem montar sistemas de inteligência para captar tendências, analisar cenários e monitorar concorrentes. Se essas empresas envolvessem a enorme inteligência composta pelos seus empregados interagindo cocriativamente em rede distribuída, certamente alcançariam resultados surpreendentes. Mas as empresas também não querem fazer isso por medo de comprometer sua estrutura piramidal e seus modelos de gestão baseados em comando-e-controle. Por isso, aliás, inovam tão pouco e ficam tão vulneráveis ao risco sistêmico de colapso que pode ocorrer quando há perda simultânea de produtividade e inovatividade.

E, em alguma medida, tudo isso também vale para analistas, comentaristas e jornalistas políticos que se dedicam a produzir análises de conjuntura, os quais se comportam, em boa parte, mais como “cronistas da corte” do que propriamente como investigadores de configurações políticas do ponto de vista do que pode fazer avançar ou recuar o processo de democratização das sociedades. A inteligência envolvida em suas análises é, via de regra, autocrática, no sentido de que tendem a explicar e, às vezes, até justificar o que ocorre do ponto de vista do desiderato de manter a governabilidade (tomada como a capacidade de governar dos que governam) em vez de avaliar como determinada configuração de eventos políticos pode ensejar o surgimento de processos sistêmicos de governança em bases democráticas (e isto seria o que foi chamado metaforicamente de ‘inteligência democrática’).

Dois pressupostos estão subsumidos na presente abordagem. O primeiro deles é o conjunto de critérios para se estabelecer o que é democrático; ou seja, da visão de democracia que tomamos como background. O segundo é o reconhecimento de padrões autocráticos, quer dizer, a identificação e interpretação daqueles comportamentos políticos capazes de enfrear a democracia ou cuja incidência pode autocratizar a democracia ou retardar o processo de democratização.