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O que são “as ruas”

E por que elas não falam quando a gente quer

Muitas pessoas ainda não entenderam o que chamam de “as ruas”. É sempre uma referência às grandes manifestações sociais que ocorreram no Brasil, de 2013 a 2016, mas também em vários países do mundo neste século.

Com efeito, várias evidências de mudanças profundas (e até certo ponto subterrâneas) que estão se processando na sociedade, com inevitáveis repercussões na esfera da política, começaram a surgir na primeira década do século 21, com a emersão de fenômenos interativos – swarmings civis – como o 11M (aquela extraordinária manifestação, em várias cidades espanholas, a propósito da tentativa de falsificação, pelo governo de Aznar, da autoria dos atentados da Al Qaeda em março de 2004 em Madri, atribuindo-a falsamente ao separatismo basco). Nos anos seguintes, movimentações mais ou menos semelhantes começaram a surgir, quase sempre gestadas de forma subterrânea na sociedade, destoando dos padrões clássicos das mobilizações organizadas centralizadamente por hierarquias políticas e sindicais.

Em 2011 esses movimentos eclodiram no que ficou conhecido como “revolução árabe”, começando pelo 14 de janeiro na Tunísia, passando pelo 2 de fevereiro no Iêmen, pelo 11 de fevereiro no Egito (dia decisivo para a queda do ditador Mubarak), pelo 14 de fevereiro do Bahrein, pelo 17 de fevereiro na Líbia, pelo 9 de março em Marrocos e pelo 18 de março na Síria.

Outra incidência importante foi o 15M espanhol (que ficou conhecido como a manifestação dos indignados com a velha política, em maio de 2011 em Madrid, espalhando-se por outras cidade). Vieram também em seguida uma série de movimentos do tipo Occupy inspirados pelo 17S (o Occupy Wall Street no Zuccotti Park, em Nova York, em 17 de setembro de 2011).

Em 2013 tivemos outra eclosão, com o #DirenGezi na Turquia e as manifestações de junho de 2013 no Brasil (sobretudo as que ocorreram nos dias 17 e 18 de junho). Em 30 de junho de 2013 tivemos a maior manifestação da história, com 20 milhões (ou mais) de pessoas nas ruas e praças de várias cidades do Egito (evento que levou à deposição do jihadista eleito da Irmandade Muçulmana, Mohamed Morsi). Depois a coisa continuou com a resistência da Praça Maidan, na Ucrânia, na passagem de 2013 para 2014, com os grandes protestos na Venezuela a partir de fevereiro de 2014, com a chamada Revolução dos Guarda-Chuvas em Hong Kong (sobretudo em setembro e outubro de 2014) e com as grandes manifestações do impeachment em 2015 e início de 2016 no Brasil (as maiores, aliás, de toda nossa história).

O fato é que “as ruas” acabaram virando um sujeito político em razão dos impactos que uma manifestação que constela multidões têm sobre a conjuntura política, mesmo quando essas manifestações não têm objetivos explicitamente políticos.

Por exemplo, as grandes manifestações de junho no Brasil foram mais a expressão de um metabolismo social do que um protesto político organizado em termos tradicionais. Mas tiveram um inegável impacto político: vejam abaixo o quadro da pesquisa Datafolha divulgada em 01/12/2013) sobre a variação da avaliação do governo Dilma:

 

 

Depois, é claro, entraram em cena os “revolucionários” (Black Blocs, assemelhados e infiltrados) quebrando tudo e – objetivamente (mesmo que tal não fosse intenção de alguns) – deram uma mãozinha preciosa para a recuperação do governo. Aí as pessoas comuns começaram a temer o confronto e a desconfiar das manifestações. Isso não significa, porém, que ondas de alta interatividade não fossem surgir novamente a qualquer momento (e surgiram, a partir de março de 2015, aí já com conotação explicitamente política). Não sabemos quando elas ocorrerão de novo. Mas sabemos que vão acontecer porque – em sociedades altamente conectadas – elas podem (e tendem a) acontecer (com maior frequência) por uma dinâmica própria da rede.

Eis o problema que deixa muitas pessoas desconcertadas. Não sabemos quando uma manifestação desse tipo vai acontecer e não sabemos como convocá-la e organizá-la.

Vejamos outro exemplo, a partir de 2016. Por mais que alguns (não todos) movimentos que convocaram o impeachment chamassem o Fora Temer (ou algo equivalente, por exemplo, o apoio à cassação da chapa Dilma-Temer pelo TSE, ou à autorização da Câmara para o STF processar o presidente), “as ruas” fizeram ouvidos moucos. Ou seja, “as ruas” não aderiram ao Fora Temer, nem na versão do PT, nem na versão de alguns grupos e movimentos que se opuseram ao PT. Por que?

Para entender isso, devemos começar considerando que o sujeito “as ruas” não tem a configuração e o comportamento de um rebanho, não é massa (manipulável), não é algo que se possa organizar, comandar ou controlar (como os sindicalizados da CUT ou os arrebanhados pelo MST). Com efeito, a manifestação de 11 de Julho de 2013, convocada pelo PT para dar uma resposta “às ruas” de junho, foi um fiasco. Mas não foi um fiasco por falta de capacidade de organização da CUT, do MST e do PT e sim justamente pelo contrário: pelo seu esforço organizativo voluntário. O novo sujeito “as ruas”, não é o velho sujeito “as massas”, pacientes de agitprop, açuladas pelos membros de qualquer entidade hierárquica, sindical, associativa ou partidária.

Porque o novo sujeito “as ruas” não é um ente unitário e sim fractal, composto por miríades de pessoas que, quando se manifestam, seguem seus próprios desejos, interesses e desideratos difusos – e não um líder, e não uma organização, e não uma doutrina política.

Cada pessoa, numa multidão constelada – um swarming – é a sua própria manifestação e o enxameamento só acontece quando há uma incrível co-incidência de inumeráveis micro-inputs, por sintonia ou algo equivalente (para o qual não temos ainda uma palavra): trata-se de um atrator estranho e por isso mesmo nunca podemos saber, de antemão (ou seja, ex-ante à interação) qual é o tipping point, aquele ponto da curva a partir do qual a contaminação viral se estabelece (e o crescimento de perturbações convergentes e, inclusive, divergentes, colidentes ou paralelas, do sistema, recombinam-se, adquirindo um caráter exponencial).

Pequenos estímulos, mesmo partindo da periferia do sistema, podem se amplificar por múltiplos laços de retroalimentação de reforço e alcançar tal resultado e grandes estímulos, organizados, patrocinados, realizados sistematicamente, podem não alcançá-lo. Em ambos os casos não se pode saber quando o fenômeno vai ou não vai acontecer. Isso é próprio da dinâmica de rede e tem a ver com outras variáveis de estado de um sistema complexo. Claro que, para entender isso, é necessário ter uma mínima noção do que são – e sobretudo do que não são – redes sociais. A maioria dos agentes políticos que participaram ou mesmo convocaram as maiores manifestações de rua de nossa história (de 2013 a 2016) não tem essa noção.

Sim, infelizmente, os participantes dos grupos que convocaram manifestações em prol do impeachment até agora nem desconfiaram de (quase) nada disso. Alguns imaginam que foi seu trabalho nas mídias sociais (pagando ao Facebook para patrocinar eventos ou lançando mão de estratégias de marketing digital, uso de bots etc.) que produziu as grandes manifestações de 15 de março, 12 de abril, 16 de agosto de 2015 e de 13 de março de 2016, mas não foi. Assim como as jornadas de junho de 2013 não foram produzidas pelo Movimento Passe Livre (como seus próprios organizadores reconheceram publicamente).

É claro que os grupos que convocaram essas manifestações atuaram como fatores detonadores, porém mais por coincidência fortuita: entre emitir um estímulo e obter um resultado sistêmico, desencadeando a fenomenologia da interação que chamamos de swarming (ou flocking), há um percurso imenso, subterrâneo em grande parte e, portanto, invisível. Tem a ver com uma dinâmica que ocorre nos fluxos interativos da convivência social e que é ainda desconhecida em grande parte. E que permanecerá desconhecida, tamanho é o número de variáveis incidentes.

Ainda bem, do contrário os que possuíssem tal conhecimento poderiam eleger qualquer candidato, vender qualquer produto e manipular a opinião pública a seu bel prazer.


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