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O que significa ser “de direita”?

Qualquer pessoa tem o direito de se dizer “de esquerda” ou “de direita”. Mas é preciso ver qual o sentido desses termos no final da segunda década do século 21. Parece meio óbvio que foi a esquerda que inventou a esquerda e, no mesmo ato, a direita. É o esquema interpretativo que interessava à esquerda, que transformava a política de uma questão de modo (modo de regulação de conflitos) em uma questão de lado (de que lado você está: dos pobres ou dos ricos, dos explorados ou dos exploradores – o que, na prática, significa sempre a meu favor ou contra mim?).

Muitos comemoram o fato de ter ressurgido uma direita, depois de décadas de hegemonia cultural da esquerda. Uma direita reequilibraria o jogo político. No Brasil alguns comemoram o surgimento de uma “nova direita”. Mas que direita é esta?

No artigo Quem são (e quantos são) os chamados “formadores de opinião” mostrei  que essa chamada “nova direita” só tem, no Brasil, uns trinta “formadores de opinião”, que publicam coisas semi-originais regularmente. E que, imitando a “esquerda”, eles (esse pequeno contingente de codificadores e repetidores de doutrina) aderiram à guerra de narrativas (boa parte das quais conspiracionistas). Constatei que é quase impossível conversar com eles. Em cada dez palavras trocadas com a maioria desses novos direitistas, duas são Hillary, três Soros, quatro globalismo e uma um… palavrão.

Não trabalho com os conceitos anacrônicos de esquerda e direita. E não sei por que pessoas inteligentes ainda insistem em se dizer de direita só porque são contra a esquerda. É possível ser contra a esquerda (como eu sou) sem ser de direita (ou seja, sem criar um pólo oposto que alimente e justifique a luta da esquerda, reproduzindo esse padrão bipolar de interpretação do mundo (na verdade um malware) surgido na revolução francesa, na luta entre girondinos e jacobinos e repetido pela revolução russa, entre mencheviques e bolcheviques).

Se alguém ainda insiste em se dizer “de direita” para deixar claro que não é “de esquerda”, seria interessante verificar como se posiciona em relação aos dez pontos abaixo. Porque a questão não é de que lado você está e sim se você opta pelo modo democrático. Tanto a chamada esquerda quanto a chamada direita (pelo menos em boa parte) optam pelo modo não-democrático.

Para conferir se é assim mesmo leia o decálogo abaixo.

PROCURA-SE UMA DIREITA

1 – Que seja liberal em termos políticos (não-estatista).

Este é o ponto fundamental. Liberal em termos políticos significa assumir que o sentido da política é a liberdade e não a ordem (que é o fundamento do Estado hobbesiano, quer dizer, de qualquer Estado) como querem os conservadores iliberais (que são, via-de-regra, estatistas). Significa também que a liberdade não pode ficar condicionada à igualdade (sócio-econômica) para se exercer – como quer a esquerda (na base do “vamos primeiro promover a igualdade para que depois todos possam ter liberdade”: mas se não há liberdade, quem fará isso?). Estatistas iliberais – sejam ditos “de esquerda” ou “de direita” – podem igualmente adotar comportamentos políticos fascistas.

2 – Que não queira construir e manter inimigos para fazer guerras contra eles (seja a Eurásia ou a Lestásia, como no romance 1984 de George Orwell). 

Este segundo ponto é tão importante quanto o primeiro. A política (propriamente dita) não é guerra (que é a falência da política). A democracia é um modo não-guerreiro de regulação de conflitos. Ao transformar a política em questão de lado (e não de modo), o esquema esquerda x direita adota a famosa fórmule-inverse de Clausewitz-Lenin (que mata a política): “a política como continuação da guerra por outros meios”. Ora, isso não é mais política e sim guerra mesmo: ao contrário do que se diz, a guerra não é conflito violento e sim um engendramento que visa construir e manter inimigos como pretexto para adotar padrões hierárquicos de organização compatíveis com modos autocráticos de regulação. A guerra existe (como, aliás, percebeu o próprio Hobbes) quando o conflito violento não está acontecendo: ela é o ‘estado de guerra’, um programa para configurar ambientes sociais de sorte a manter os que estão “do seu lado” sob o comando-e-controle de alguém, permanentemente precavidos contra os que estão “do outro lado”. Não importa para nada se você se diz de esquerda ou de direita: se você perverte a política como arte da guerra (como uma espécie de guerra sem derramamento de sangue, como definia Mao-Tsé-Tung), não há mais democracia, quer dizer, a rigor, não há mais política, e sim guerra mesmo (quente, fria ou praticada como política adversarial).

3 – Que seja contra o comunismo, mas não seja anticomunista (ainda na vibe da guerra fria).

Quem toma a política com o sentido da liberdade não pode ser a favor do comunismo (que é um estatismo). Mas uma coisa é ser contra o comunismo (que, na teoria e na prática, pressupõe uma transição via-Estado sob um regime autocrático: a chamada ditadura do proletariado) e outra coisa é ser anticomunista, quer dizer, compor um contingente de combate para fazer guerra (ainda que seja guerra fria) contra outro contingente (os comunistas). Se você é um anticomunista neste sentido, você já perverteu a política como uma questão de lado. A guerra fria (1950-1990) era isso: dividir o mundo em dois blocos, em dois lados: ou você estava do lado do leste ou do lado do oeste. Isso deveria ter sido enterrado após a queda do muro de Berlim (1989), mas não foi. O muro não caiu na cabeça dos que se dizem de “esquerda” e, simetricamente, também não caiu na cabeça dos que se dizem de “direita”. Só que, agora, a chamada “nova direita” quer dividir novamente o mundo em dois lados: o lado dos que querem impor uma nova ordem mundial (globalista e multiculturalista) para dominar o planeta, contra o lado dos que querem conservar os valores da civilização judaico-cristã. Isto nos leva ao próximo ponto.

4 – Que não seja conspiracionista (e não viva repetindo narrativas delirantes sobre uma suposta nova ordem mundial, tipo Hillary, os Clinton e Obama financiados por Soros, o clube de Bilderberg ou os Illuminati e outras olavices).

É claro que quem pensa assim (e, infelizmente, boa parte da “nova direita” pensa assim), vai novamente dividir o mundo em lados. Vai reeditar a velha conspiração comunista internacional dos anticomunistas da guerra fria, colocando em seu lugar outra conspiração, financiada por grandes capitalistas (em estranha aliança com os comunistas), para destruir a civilização (quando, na verdade, não há propriamente uma civilização judaico-cristã e sim a civilização patriarcal). Isso é relevante porque os valores que os conservadores querem conservar são os da civilização patriarcal: ordem, hierarquia, disciplina, obediência, comando-e-controle, fidelidade imposta top down.

5 – Que não seja uniculturalista (ou monoculturalista) e não resista à miscigenação cultural própria de uma sociedade altamente interativa – como a chamada sociedade-em-rede – em nome do combate ao multiculturalismo.

A estrutura e a dinâmica das sociedades contemporâneas mudaram. A padrões de organização cada vez mais distribuídos (em rede), correspondem graus de conectividade e interatividade cada vez maiores. Isso é o que significa a emergência de uma sociedade-em-rede. É impossível, em ambientes de alta interatividade, evitar a miscigenação cultural para preservar modos pretéritos de ver e de interagir com o mundo. É claro que o multiculturalismo (da esquerda) deve ser rejeitado – mas pelas mesmas razões pelas quais não se deve resistir à miscigenação (e não por outras razões). O multiculturalismo quer preservar (e congelar) uma multiplicidade de culturas intocáveis, o que significa que ele não quer, na verdade, que essas culturas se polinizem mutuamente e se modifiquem na interação umas com as outras. A resposta ao multiculturalismo não pode ser o monoculturalismo, o refúgio em um bunker cultural, para preservar os antigos valores da família (monogâmica, como cluster fechado que privatiza capital social), da religião (como cluster fechado de fiéis da mesma fé, que se proclame como a única verdadeira), da escola (como cluster fechado dos burocratas do ensinamento), da distinção de gênero (de dois gêneros apenas, como algum deus haveria criado) et coetera.

6 – Que não seja localista e não resista à globalização (ou melhor, à glocalização) em nome do combate à ideologia globalista.

A globalização é um fenômeno objetivo, não uma ideologia. Ela não é apenas uma globalização econômica, mas também uma globalização das comunicações, uma globalização cultural e, por conseguinte, uma globalização dos memes; aliás, ela é, inclusive, uma globalização dos genes (sim, é a globalização dos vírus e das bactérias que estão presentes em corpos humanos, em número maior, diga-se de passagem, do que o das próprias células humanas). Pode, sim, haver uma ideologia globalista (que defenda uma condução da globalização em termos políticos), mas isso não significa que o processo de globalização em curso seja resultado da aplicação de uma estratégia de dominação do mundo feita por agentes imbuídos dessa ideologia. O globalismo é uma espécie de espantalho dos localistas conservadores do século 21 contra a globalização, cumprindo um papel semelhante ao que cumpriu o fantasma do neoliberalismo nos anos 1990 (por meio do qual a esquerda queria resistir ao capitalismo globalizante). Na verdade, o que está havendo é um processo de glocalização, na medida em que, numa sociedade altamente interativa, o local conectado é o mundo todo (ou seja, a globalização do local acaba se encontrando com a localização do global). Nestas circunstâncias, um localismo não-cosmopolita (conservador, posto que quer manter um local isolado dos outros locais e, não raro, contra os outros locais) é uma maneira de resistir ao fluxo interativo da convivência social que está viabilizando, pela primeira vez na história, em escala planetária, a conexão local-global.

7 – Que não seja trumpista (e não fique justificando cada besteira feita por esse empresário e ator de reality show americano meio maluco chamado Donald Trump).

Este é um indicador importante para identificar novos direitistas. A “nova direita”, na sua maioria, é trumpista. Talvez porque Trump tenha se projetado no cenário político afirmando o localismo conservador (“América First”, quer dizer, “meu pirão primeiro”). Setores tradicionais desfavorecidos pelo processo de globalização apoiaram essa bandeira, imaginando que colocando o Estado nas mãos de uma direção forte antiglobalista, reaveriam seus empregos perdidos (na verdade, destruídos pela inovação tecnológica) e o bem-estar que imaginam que tiveram algum dia. Mas é quase inexplicável que não se perceba que esta é uma não-saída, uma fuga para trás. O mundo não vai retrogradar para fazer justiça aos que viviam melhor (ou acham que viviam melhor) quando prevaleciam outros modos de produção e reprodução da vida material. E o que também é inexplicável é como pessoas inteligentes não conseguem perceber que Trump é um bufão ridículo, errático e irresponsável (que, mais cedo ou mais tarde, ou se adaptará para sobreviver até o final do seu mandato, ou será removido prematuramente pelas instituições da democracia americana).

8 – Que não seja bolsonarista (nem militarista).

Jair Bolsonaro, um capitão boçal, declaradamente antidemocrático, admirador de ditaduras militares – e inclusive defensor da tortura e de torturadores – é apoiado pela maioria dos que se dizem de direita no Brasil. Isso é espantoso. É um caso para estudo, tanto da crise da representação (e do sistema político democrático reinventado pelos modernos no século 17), quanto da crise do pensamento político contemporâneo. O bolsonarismo é uma espécie de trumpismo caboclo (e não é por acaso que 11 entre 10 bolsonaristas são também trumpistas). Os bolsonaristas acreditam que só uma pessoa decidida (o velho “macho branco no comando”) será capaz de colocar ordem na casa, acabando com a folga dos bandidos e com toda a “putaria de gênero” que estão corrompendo os excelsos valores pátrios. É um apelo desesperado por superavits de ordem (na concepção militar da palavra) para acabar com a bagunça, a baderna, os comunistas, os veados, os ambientalistas etc. O número de admiradores de Bolsonaro é também um indicador de analfabetismo democrático.

9 – Que honre o mérito individual, mas não seja meritocratista (achando que quem deve governar são os que sabem mais).

É claro que todo mérito deve ser reconhecido e valorizado. Mas isso não tem nada a ver com meritocracia (que só pode valer para cargos técnicos, para exercer uma função específica ou profissão – como a medicina e a pilotagem de aeronaves -, mas não políticos). Meritocracia não é honra ao mérito (o que está correto) e sim uma ‘cracia’ (kratos): um sistema de poder baseado em diferentes graus de conhecimento (que confere poderes regulatórios aumentativos a quem tem mais conhecimento em relação a quem tem menos conhecimento). É a velha concepção autocrática (do platonismo) que confunde espisteme (conhecimento) com doxa (opinião). Se quem sabe mais tem mais direitos de comandar e deve dirigir quem sabe menos, isso leva diretamente a regimes autocráticos (a separação – não a diferença – entre sábios e ignorantes condena os segundos a serem dirigidos pelos primeiros). A matéria prima da democracia é a opinião (doxa) que todos podem ter e não o conhecimento (episteme) que uns podem ter em proporção superior a outros e que possa ser verificado por critérios extra-políticos, ex ante à interação (política).

10 – Que seja democrática – ou seja, que aposte que as pessoas possam se autoconduzir a partir da interação de suas opiniões proferidas livremente no espaço público – e não aceite ser enquadrada em estruturas hierárquicas regidas por modos de regulação autocráticos para ser conduzida por um senhor.

A democracia é um regime sem um senhor (que queira e possa ser senhor dos outros seja porque mais forte, seja porque mais rico, seja porque mais sábio). Foi assim definida, pela primeira vez de forma escrita, por Ésquilo (472 a. E. C.), em Os Persas. Referindo-se aos atenienses do século 5 ele disse: “Não são escravos, nem súditos de ninguém”. Está é a essência do conceito. A democracia não é um regime igualitário, não é a utopia de um sistema perfeito, reto e puro (sem corrupção) e sim um regime sem súditos (quer dizer, sem um senhor: mais forte, mais rico, mais sábio). Ela está baseada na aposta de que os seres humanos podem se autoconduzir a partir do livre proferimento de suas opiniões, tomadas como igualmente válidas em princípio (em resumo, no que tange à opinião: isologia, isonomia e isegoria).

É isso. Se você insiste em se dizer “de direita”, mas é uma direita assim, tudo bem para a democracia.


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