Napoleão Dagobah

,

O referencial é a democracia, não a Lava Jato

A aposta do PT é numa polarização esquerda x direita, Lula x Bolsonaro. Mesmo que Lula não possa tomar posse, em razão de condenação que o torne inelegível, se ele puder fazer campanha por força de liminares obtidas no STJ ou no STF, a estratégia, em parte, terá dado certo. A campanha adversarial vincará a sociedade brasileira de tal modo que o país mergulhará em uma década de guerra civil fria, o ambiente mais adequado à recuperação e crescimento do PT. Para isso dar certo, entretanto, é preciso desqualificar o sistema político, tratando todos os possíveis candidatos de centro no espectro ideológico, que não se declaram de esquerda ou de direita, como corruptos. Janot e Fachin estão servindo a essa estratégia petista, assim como os jovens tenentes chegados a uma toga, da força-tarefa da Lava Jato, que querem regenerar a política a partir de suas posições no Estado – e uma parte do STF também.

A Lava Jato é muito importante. Mas por mais importante que seja a operação, ela não pode ser o referencial para a política, sobretudo para os que querem uma nova política. O referencial é a democracia. Ou seja, não se pode fazer uma divisão (e criar uma polarização) entre os que são a favor e os que são contra a Lava Jato. O que deve ser considerado são os comportamentos políticos que defendem e reforçam a democracia (ou apostam na continuidade do processo de democratização) vis-à-vis aos comportamentos políticos que contribuem para autocratizar a democracia que temos.

Isso não significa que os democratas não devam apoiar a Lava Jato e as operações congêneres, mesmo com eventuais erros técnicos cometidos pelos seus procuradores e juízes. Mas também não significa que não possam criticar o comportamento político de seus atores. Por exemplo, quando os procuradores da força-tarefa da Lava Jato começam a fazer militância política em palestras, artigos na grande imprensa e posts nas mídias sociais, é preciso acender o alerta amarelo.

Não que eles não possam fazer política pública (policy): devem. Mas o que eles começaram a fazer é política privada (politics), atacando abertamente o sistema político, defendendo a renúncia de presidentes da República ou a prisão de pessoas que foram eleitas – que ainda não foram julgadas – com alegações e argumentos estranhos à sua função. Isso não é recomendável, pois estabelece uma confusão entre público e privado. Mas até aí tudo bem, pode valer apenas como um sinal preliminar de alerta.

Depois, porém, da vergonhosa e mal-sucedida armação Janot-Fachin-Globo, que contou com o apoio de gente como Deltan Dallagnol e Carlos Fernando, os democratas devem ligar o alerta vermelho. Esses procuradores começaram a atuar como uma espécie de novos tenentes, agora de toga (ou chegados a uma toga), querendo fazer política – a partir do Estado – com a sua profissão (ou melhor, com a sua corporação). Queriam aparecer para a opinião pública como membros, jacobinos, de um Comitê de Salvação Pública. Enveredaram para uma espécie de política da pureza robespierriana, que é uma antipolítica – sem conseguir antever que seu intento só poderia (e só poderá, se não mudarem de comportamento) desembocar numa saída bonapartista e autocrática, seja com a volta de Lula (ou a ascensão de outro autocrata de esquerda), seja com o crescimento de Bolsonaro (ou outro autocrata de direita).

É a isso que leva o analfabetismo democrático desses procuradores, sobretudo depois que começaram a pregar que toda corrupção é igualmente nociva, equiparando Berlusconi com Mussolini e o PCC com o Hezbollah, ou seja, avalizando a ideia de que um Cunha ou um Cabral são a mesma coisa que um Lula ou um Dirceu – ou que Temer e Aécio (e não os dirigentes petistas) são, nesta ordem, os chefes das maiores e mais perigosas organizações criminosas do país (como disse Joesley a serviço da PGR) – sem ver que a corrupção do PT tem propósitos estratégicos de poder e visa bolivarianizar (ou lulopetizar) o nosso regime político. E nem os acontecimentos recentes da Venezuela foram suficientes para acordá-los.

É claro que, em termos estritamente jurídicos, os procuradores da força-tarefa da Lava Jato não podem fazer a distinção entre esses dois tipos de crime (comum e político) – mesmo porque isso não está adequadamente tipificado nas nossas leis. Mas não é disso que se trata aqui e sim das manifestações políticas desses procuradores, que estão contribuindo para confundir em vez de esclarecer os perigos que esses dois tipos de comportamento delinquente representam para a nossa democracia.

Por enquanto não se vê indícios suficientes de que Moro – conteste-se ou não suas sentenças de um ponto de vista jurídico – esteja envolvido nessa cruzada moralista de limpeza, regeneradora de todo mal que assola a política. Mas no comportamento recente dos procuradores que compõem a força-tarefa da Lava Jato, isso já é claramente visível.

O fato é que a desqualificação da política contribui para desacreditar a democracia – ou seja, as possibilidades de autorregeneração do regime democrático -, passando para a opinião pública a ideia de que só uma solução autoritária – à direita ou à esquerda – poderá resolver o problema, dando um necessário choque no velho sistema político que apodreceu e que não tem mais jeito. Talvez não tenha mesmo, mas só a política poderá encaminhar uma solução. Sem política é guerra (que é sempre a falência da política), cada grupo se organizando para destruir os demais. Ora, isto é, precisamente, o que quer o PT.

Se todos os grandes partidos forem demonizados, o PT acha que conseguirá polarizar a disputa entre Lula e um autocrata, não envolvido na Lava Jato, como Bolsonaro. Pois com as grandes estruturas partidárias desacreditadas, um candidato de centro teria poucas chances eleitorais. Só alguém correndo por fora, um aventureiro com fama de honesto, com um discurso moralista e autoritário (de que vai enfrentar todos os problemas, limpar a sujeira e colocar afinal ordem na casa) pode quebrar essa lógica (de certo modo repetindo o feito do “caçador de marajás”, Fernando Collor, em 1989).

Ainda que o nosso velho sistema político tenha apodrecido, isso não significa que todos os atores políticos, filiados aos grandes partidos, sejam também corruptos. Há, pelo menos, só para contar no Congresso Nacional, uma centena de políticos que não são corruptos, nem estão envolvidos na Lava Jato, mas que estão afundando junto com os corruptos de todos os grandes partidos diante da cruzada antipolítica que está em curso, que trocou a política pela atuação da polícia, do ministério público e do judiciário.

Qual o problema? O problema é que não há saída boa para a democracia sem política. Uma limpeza feita por órgãos de controle do Estado levará, necessariamente, a um Termidor autocrático e teremos um desfecho bonapartista. seja com um “Napoleão” de esquerda (Lula, Marina ou Ciro) ou um “Napoleão” de direita (Bolsonaro), com vantagem, porém, para o primeiro. Se, por qualquer motivo, o segundo vencer, não governará, será crise constante, pois o PT, revigorado pela campanha, aglutinará expressivas forças sociais que não concordarão com o trumpismo caboclo promovido por um capitão boçal no comando do Estado.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário