Rio Dagobah

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O rio que passou

Não posso definir
Aquele azul
Não era do céu
Nem era do mar
Foi um rio
Que passou em minha vida
E meu coração se deixou levar

Aquela onda que começou por volta de 2009 – startups, festivais de ideias, casas colaborativas, laboratórios de inovação, publicização social de espaços públicos (tipo “vou prá praça”), redes (e muitos encontros sobre redes) brotando em todo lugar – e que teve talvez seu auge nas grandes manifestações de junho de 2013 no Brasil, foi aplastada no segundo semestre de 2014 (com a deplorável campanha eleitoral que reelegeu Dilma e a enterrou um ano depois).

O que ocorreu em 2015 e 2016, em imensas manifestações de rua, já tematizadas politicamente, conquanto extremamente importante, foi outra coisa. Em 15 de março, 12 de abril e 16 de agosto de 2015 e em 13 de março de 2016, as pessoas – aos milhões – foram às ruas manifestar seu descontentamento com o governo. Foram, no conjunto, os maiores swarmings políticos de toda nossa história, mas não uma expressão de inconformidade com o sistema como um todo e nem do desejo de viver em outro mundo. O que foi inovador em 2015 e 2016 foi o processo pelo qual as multidões se constelaram (um processo de rede ensejado pelos altos graus de interatividade da sociedade brasileira) mas não propriamente todas as pautas e desejos que emergiram.

As redes de inovação que se configuraram nos anos de 2010, 2011, 2012 e 2013, foram esgarçadas e centralizadas pela instalação de uma vibe adversarial que rompeu ligações peer-to-peer, desatalhou clusters, exterminou massivamente capital social e deixou as pessoas meio tontas e perdidas.

No final de 2014 já era possível sentir esse clima de guerra fria que invadiu a rede e se instalou na base da sociedade, sobretudo naquela parte insatisfeita com o sistema e que buscava construir novos mundos a partir de modos alternativos de convivência.

O resultado deprimente desse processo de violação da rede social é que os fluxos interativos ficaram menos volumosos, tudo ficou mais difícil, a confiança diminuiu, as pessoas se sentiram menos encorajadas à arriscar.

Ficou praticamente impossível viver de empreendimentos inovadores, pois a corrente que energizava iniciativas mais disruptivas ficou muito fraca. Com essa perda de amperagem (ou de intensidade da correnteza interativa), quem já tinha um negócio ou uma fonte de renda organizada segundo padrões tradicionais e hierárquicos continuou plugado neles, com medo de perder estabilidade (e colocar em risco sua sobrevivência, inclusive) ao se aventurar por novos caminhos. No máximo, eventualmente, conseguia-se fazer algum “gato” para roubar energia de um ou outro mainframe, mas essas experiências foram sempre muito fugazes.

O fato é que aquela onda inovadora arrefeceu e descemos do cume para o vale, onde estamos agora. Outras ondas virão. Mas aquela já passou. Aquela janela de oportunidades aberta no início da segunda década deste século está fechada. E as possibilidades de criar novos mundos sociais, que existiam quando ela estava aberta, não existem mais.

Daqui para frente será outra coisa mesmo. As velhas pessoalidades de quem estava assobiando e surfando na onda que passou terão alguma dificuldade de se adaptar ao que virá. Com a morte daqueles mundos possíveis, morre também, pelo menos em parte, as pessoalidades que fomos no processo. A rigor deveríamos, as pessoas envolvidas com tudo isso, até mudar de nome – como fazem o Pirahãs – para não deixar morrer dentro de nós, enquanto permanecemos vivos, aquele coração que se deixou levar.

Adendo de 21/06/2016 13h45

O campo social está adverso à construção de novos caminhos. Quem já vem trilhando um caminho repisado, ainda conseguirá caminhar nele. Quem quiser desbravar, abrir picadas, estabelecer novas conexões, aproveitar oportunidades inéditas… vai ter alguma dificuldade neste período. Temos algumas pistas, mas não sabemos explicar totalmente o que aconteceu. Alguma coisa perturbou os fluxos interativos da convivência social deformando o campo. O ambiente geral está bastante avesso à inovação e à criatividade neste momento. Alguns mundos estão se fechando (sim, mundos sociais são eventos no espaço-tempo dos fluxos). Várias bolhas – zonas autônomas temporárias – estão implodindo. Esperemos que surjam outras. Mas agora… agora está difícil.


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