in

O trumpismo no Brasil

Enquanto os democratas estávamos na última década resistindo ao PT ensejamos involuntariamente o crescimento de um tipo de pensamento antidemocrático perigoso, ofensivo e muito agressivo, sem poder avaliar a ameaça que ele representava e até mesmo sem perceber a velocidade com que conquistava as mentes de legiões de insatisfeitos.

Uma das evidências de como se alastraram essas formas autocráticas de pensar é o florescimento de um quase inexplicável trumpismo caboclo, açulado, entre outros, por militantes olavistas e bolsonaristas.

Trump era um desastre anunciado – ainda que dificilmente previsível, sendo ele quem é (conquanto, se não fosse ele, seria outro qualquer) – desde que os USA iniciaram uma trajetória de dilapidação acelerada do seu capital social e as dinâmicas societárias que sustentavam, por baixo dos mecanismos de correção institucionais, o sistema político representativo americano, começaram a se revelar impotentes.

Mas o trumpismo brasileiro é tão patético quanto inesperado. Não haveria razões previsíveis para o seu crescimento entre nós, a não ser, é claro, o apodrecimento do nosso sistema político (que chafurdou na lama da corrupção) e o alto grau de analfabetismo democrático reinante no país (a começar das universidades, que foram tomadas de assalto por professores-militantes marxistas-leninistas, maquiavélico-gramscistas e, todos, bolivarianistas: enfim, teóricos da autocracia disfarçados de teóricos da democracia).

À margem desses ambientes acadêmicos onde tradicionalmente se formulava e debatia visões políticas e projetos para o país – que não davam passagem a nenhum pensamento fora do frame marxista, transformados que foram em alfândegas ideológicas pela chamada esquerda – brotou então uma reação autoritária às tentativas petistas de autocratizar a democracia brasileira, insuflada pela pregação de políticos oportunistas como Jair Bolsonaro e filósofos de baixo calão, como Olavo de Carvalho, escudados no surrado anticomunismo típico da guerra fria.

Surgiu assim um pensamento de direita que constrói inimigos, simulando – com o sinal trocado, porém com a mesma dinâmica – o comportamento militante (quer dizer, guerreiro) que caracterizou a esquerda. O trumpismo – de raiz conspiracionista – logo urdiu os seus Goldsteins (fossem Obama, Hillary ou Soros – responsáveis por uma suposta nova ordem mundial promovida pela ideologia globalista) e simplificou o mundo (reinventando o cinema preto e branco) para cabeças que jamais foram violadas pela ideia de democracia. Forneceu, destarte, uma nova narrativa totalizante – aquela explicação fácil para tudo, que faltava – após o descrédito das narrativas da esquerda e o insucesso das narrativas liberais-conservadoras (que nunca chegaram a se ampliar significativamente no Brasil) e que tentavam, em vão, se contrapor às narrativas de esquerda.

A influência de pensadores autocráticos como Olavo de Carvalho nisso tudo não deve ser desprezada: ela é mais deletéria para a democracia do que se imagina. Posso dar um depoimento pessoal: centenas de pessoas que passaram a interagir comigo nas mídias sociais a propósito da resistência democrática ao PT, reproduzem exatamente as mesmas formas autocráticas de pensar que compõem a narrativa olavista. De suas intervenções recende, não raro, aquele odor característico do emocionar autoritário que acompanha a perversão da política como uma continuação da guerra por outros meios.

Assim, uma das piores heranças que a esquerda marxista-leninista, que a partir do PT se reciclou ao fazer uma mistura grossa de neomaquiavelismo com gramscismo, nos deixou, gerando a base conceitual do neopopulismo, foi uma direita olavista, bolsonarista e agora trumpista. Sim, foram tantos os descalabros cometidos pelos agentes do neopopulismo lulopetista em trinta anos de aparelhamento das universidades, corporações, ONGs etc., mais uma década no comando do governo, que tudo isso gerou uma reação igual em sentido contrário. Uma reação tão antidemocrática quanto foi a ação petista.

Essa guerra de militâncias foi criando um clima desfavorável aos democratas.  Pois a questão é que viver combatendo, além de ser cansativo e poluir o ambiente social inviabilizando a criatividade e a inovação, dificulta o processo de democratização e destrói capital social. Num ambiente de luta a democracia fenece, posto que ela é, por definição, política, não-guerra (sim, a guerra – sobretudo a não-violenta – é a falência da política democrática).

Olavistas, bolsonaristas, militaristas nacionalistas, monarquistas tipo tefepistas, cruzados legalistas, localistas conservadores e anti-globalistas e, agora também, entusiastas nativos do trumpismo; enfim, todo esse pessoal que se aglomera com base em narrativas ditas “de direita” – revelaram-se tão nocivos, do ponto de vista da democracia, quanto os petistas, psolistas, pecedobistas, pecebistas, black bloquistas e outros grupos, ditos “de esquerda”, que apoiam (invariavelmente) o bolivarianismo e querem nos empulhar com narrativas ditas “de esquerda”.

Os democratas ficamos imprensados entre dois tipos de militância, sendo obrigados a mudar de comportamento e a combater uns e outros, como se tivéssemos um lado e quiséssemos conquistar a hegemonia de nossas ideias sobre o outro lado. Mas o que nos constituía como cluster aberto à interação fortuita, com o outro-imprevisível, era justamente não ter lado, recusar cair no jogo que reduz a política democrática de uma questão de modo para uma questão de lado. Queríamos conversar com os inovadores, não com os que acham que devemos derrotar os conservadores, chamando-os de reacionários, nem com os que acham que devemos derrotar os progressistas, chamando-os pejorativamente de revolucionários.

E então chegamos ao centro do problema: onde estão os inovadores? Sim, porque no ambiente de guerra que se configurou nas mídias sociais e em todo lugar os inovadores não se criam. Ficam tímidos, preferem não opinar e, por fim, se afastam da interação.

Não ficamos mais produtivos intelectualmente, muito menos mais criativos, ao ter de voltar a repetir e a repisar, ad nauseam, argumentos que já havíamos superado e tendo que mergulhar novamente em controvérsias do século passado. A tal luta de ideias travada por militantes que se dizem de esquerda e de direita nos jogou em algum lugar do passado. Muito do que poderíamos ter feito se perdeu no meio de debates anacrônicos. Ter de responder a objeções caducas – de gente, tanto de esquerda quanto de direita, que acha que o ser humano é inerentemente (ou por natureza) competitivo; ou que as pessoas sempre fazem escolhas tentando maximizar a satisfação de seus próprios interesses materiais (egotistas); ou que sem líderes destacados não é possível mobilizar e organizar a ação coletiva; ou, ainda, que nada pode funcionar sem um mínimo de hierarquia – consumiu e continua consumindo boa parte de nossas energias.

Pior ainda é ter de ouvir os libelos dessa gente contra algum inimigo supostamente responsável por todo mal que nos assola. Porque, afinal, não há um inimigo “lá fora” contra quem se possa lutar e se deva vencer para democratizar a sociedade. Esse inimigo está entre nós: são nossos comportamentos autocráticos congruentes com as relações hierárquicas que estabelecemos com o outro. Tanto quem escreve quanto quem lê estas linhas estamos programados para reproduzir configurações sociais favoráveis à autocracia, não à democracia. Eis a razão pela qual as narrativas autocráticas têm tanta facilidade de colar.

Só nossas ações cotidianas, singulares e precárias, de cooperação e organização em rede, podem desprogramar milênios de cultura autocrática e hierárquica que carregamos – e não só carregamos, mas replicamos. Cada um de nós é um agente de instalação e manutenção deste mundo que, às vezes, dizemos querer mudar. É por isso que as mudanças que (achamos que) fazemos acabam sempre copiando modos de regulação e padrões de organização do velho mundo, que então persiste. Mas vá-se lá dizer-lhes!


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Democracy Index 2016

Você está programado