in ,

Olavo: um fazedor de guerra perigosíssimo para a democracia

Mais um depoimento sobre Olavo de Carvalho, agora do jornalista Denis Russo Burgierman que foi fazer o curso do “Rasputin da Virgínia” para ver do que se trata. O resultado foi o mesmo apresentado por outros que passaram pela triste experiência, como Joel Pinheiro da Fonseca, que já havia escrito, em 2017, o artigo Precisamos falar sobre Olavo de Carvalho.

Além do artigo linkado acima, Joel também gravou um vídeo sobre o assunto. Assistam abaixo:

Denis confirma tudo. Olavo é exatamente o que já se sabia. É um fazedor de guerra. Precisa da guerra. Vive da guerra. Ganha prestígio com a guerra. Ganha dinheiro com a guerra. Por isso é um autocrata perigosíssimo para a democracia.

Leiam abaixo a íntegra do depoimento de Denis Russo Burgierman.

O CURSO DE OLAVO DE CARVALHO, O ARTISTA DA OFENSA

Filosofia, política e destrato à mídia: o que ensina o guru da família Bolsonaro em seu curso online

Denis Russo Burgierman, Época, 14/03/2019

Meu grande ídolo é Sócrates, não o filósofo, o meia-direita. Mas fiquei curioso quando ÉPOCA me sugeriu que eu virasse aluno de Olavo de Carvalho por três meses. Imaginei que, além de me matricular no Curso On-Line de Filosofia, criado por ele e frequentado por dezenas de pessoas que conquistaram poder político neste ano, eu deveria fazer como os discípulos do Sócrates grego: seguir seus passos por aí. No caso deles, era pela praça mais badalada do Mediterrâneo, a Ágora, vendo o chefe mitar em debates com os poderosos de Atenas. No meu, o plano era seguir o mestre pelas caminhadas nas redes sociais, que fazem um registro quase que hora a hora do que passa por sua cabeça.

O texto que começa na próxima página é um registro disso, o mais sincero de que fui capaz. Procurei me comportar como acho que um aluno deve se comportar: me abri para aprender, tomei notas, li vários livros, fiz um monte de perguntas. Convivi com outros alunos pelas redes sociais, por vezes fui tomar café com eles. Como regra, não identifico os alunos no texto pelo nome, para não causar problemas para ninguém. Não me escondi: usei meu nome verdadeiro, respondi a verdade para quem me fez perguntas (por exemplo, que pago minhas contas fazendo programa como jornalista).

Enquanto eu seguia Olavo, ele estava no centro do Brasil. Viu o pai de um aluno virar presidente da República, nomeou dois ministros, brigou com quase todos os outros, brigou com o partido do presidente, com os oficiais de patente mais alta que a do presidente, com o próprio ministro que havia indicado, viu dezenas de alunos seus ir trabalhar em setores estratégicos do Brasil, encontrou-se com Steve Bannon — líder do movimento populista nacionalista mundial —, varou noites postando ironias, palavrões e filosofia nas redes sociais, pediu dinheiro aos fãs para pagar dívidas, mandou os alunos pedir demissão do governo e ir estudar. Foi assunto todo dia, às vezes tratado com raiva, às vezes com desprezo, às vezes com veneração, quase sempre na capa dos jornais e revistas. Pediu em público a censura à imprensa, a proibição à expressão, o cancelamento de assinaturas, chamou a imprensa e a universidade de inimigas do Brasil, acusou-as de fraude, de crime, acusou o PT de narcotráfico, Jean Wyllys de ser mandante de assassinato, criticou Albert Einstein, Charles Darwin e Stephen Hawking. E deu 14 aulas on-line até certo ponto de filosofia, às quais assisti com atenção, todo sábado à noite.

Eu só observei à distância. Até tentei encontrá-lo, mas ele não quis. Mandei perguntas a cada aula, em cada rede social, nenhuma respondida, não sei se por ele supor uma má intenção de minha parte, que não havia. Tudo bem, não tem problema. Não é só por suas respostas que um professor ensina um aluno: aprendi muito mesmo assim. Espero que seja útil para você também.

Entrei no Seminário de Filosofia por meio de um navegador: não era um prédio, mas um website. No entanto, algo no design da página parecia pretender me levar para um passado distante, quando filósofos de túnica perturbavam passantes com perguntas complicadas. Não sei se era a cor bege, como que para indicar que ali se bebia de uma tradição tão antiga que o site até já desbotara, ou a inscrição em latim, “Sapientiam autem non vincit malitia” (“No entanto, nenhum mal pode superar a sabedoria”).

O fato é que o seminário aceita cartão de crédito: por R$ 60 ao mês, as portas da sabedoria foram abertas para mim. Pronto. Estava matriculado no Curso On-Line de Filosofia (o COF), ministrado por Olavo de Carvalho, o intelectual preferido de Eduardo Bolsonaro e mentor da escolha de dois ministros do governo do pai dele, Ricardo Vélez Rodríguez, da Educação, e Ernesto Araújo, das Relações Exteriores.

O seminário tem um gavião como logotipo — na tradição política dos Estados Unidos, o símbolo da guerra, em oposição à pomba da paz.

Lendo os numerosos textos na página, fico sabendo que o objetivo do curso é “formar filósofos, e não apenas professores de filosofia ou consumidores de cultura filosófica”.

Nesse aspecto, já saí ganhando. Quem faz um curso superior de filosofia numa instituição como a Universidade de São Paulo (USP) geralmente não atribui a si próprio o título de “filósofo” — prefere considerar-se “graduado em filosofia” ou especializa-se e vira “historiador da filosofia”, “professor de filosofia”, reservando o título de filósofo aos grandes pensadores originais que estuda.

Olavo de Carvalho faz o contrário. Como ele se considera um desses grandes pensadores (e assim é considerado por milhares de seguidores), adotou por conta própria o título de filósofo, mesmo sem ter frequentado curso superior — na verdade, não concluiu o primeiro grau.

Autor de mais de 20 livros, incluindo dois best-sellers com centenas de milhares de exemplares vendidos (O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota e O imbecil coletivo, cujas lombadas, vistas de longe numa prateleira, deixam ler apenas as palavras “idiota” e “imbecil”), Olavo é também uma celebridade na internet, com mais de 1 milhão de seguidores no YouTube, no Facebook e no Twitter. Sua fama aumentou na última meia década, quando a frase “Olavo tem razão” tornou-se corriqueira em camisetas e em faixas nas manifestações conservadoras.

Fui me informar no site sobre como o curso funciona. Descobri que ele havia começado em 2009 e não acabou mais. Olavo já havia dado 449 aulas semanais, todas disponíveis em vídeo para quem, como eu, fornecesse o número e o código de segurança do cartão de crédito. Uai, mas como é que vou chegar a um curso já na aula 450? O próprio Olavo tinha a resposta, num vídeo chamado “Aviso aos ingressantes do Seminário de Filosofia”. Lá ele explica que “a filosofia tem uma estrutura necessariamente circular, e não linear. Nós voltamos sempre aos mesmos problemas, como numa espiral. Portanto tanto faz você entrar aqui ou ali, você está sempre no começo e sempre no fim”.

Lembrou-me um pouco de Raul Seixas, mas é que minha cultura filosófica é meio pobrinha. A ideia é eu começar a ver as aulas a partir de agora e, em paralelo, também assistir aos registros em vídeo do começo do curso, a partir da aula número 1. Beleza então, que seja assim, vou me atirar na tal espiral.

À noite recebi um e-mail do Seminário de Filosofia confirmando minha inscrição e avisando que, assim que meu pagamento for processado, terei acesso ao material do COF. Denis Russo Burgierman, filósofo. Hum, não soou mal.

Mas não recebi material nenhum, só a confirmação do pagamento. E a verdade é que o site é uma confusão. Os esclarecimentos espalhados pela página têm muitas filosofices, como a da espiral, e pouca informação prática. Para começar, em lugar algum encontrei o horário da aula. Mandei mensagens perguntando a todos os endereços que havia lá, e depois também na página oficial de Olavo no Facebook, que tem meio milhão de seguidores e publica dezenas de posts por dia, a maioria deles provocadores.

Só hoje um aluno bondoso do seminário compadeceu-se de minha aflição e me informou o horário da aula: foi ontem. Perdi. Ninguém do COF me respondeu. As aulas acontecem aos sábados, às 21h30. Nossa Senhora, aulas do Olavão todo sábado à noite por três meses. Quem disse que seria fácil arrumar um título um pouquinho mais na moda do que “jornalista”?

Finalmente assisti a minha primeira aula, gravada — a 450, que perdi no sábado. O mestre falava num microfone imenso, que a perspectiva fazia parecer maior do que a cabeça dele. Ao fundo, uma grande prateleira cheia de velhas encadernações, decorada aqui e ali por alguns objetos: uma imagem da Virgem Maria acima e ao centro; dois modelos de caravelas, não sei se de Colombo ou Cabral; pequenas imagens de santos e de personagens históricos, como o general Robert Lee, que comandou as Forças Confederadas na Guerra Civil americana.

O general Lee nasceu no estado da Virgínia, nos Estados Unidos, onde ficava a capital dos confederados, que defendiam a preservação da escravidão — e onde Olavo vive desde 2005, quando se cansou de ser governado pelo PT. É de lá que ele transmite aulas, enquanto dá tragadas fundas num cachimbo e beberica de um copinho cheio de licor de laranja, produzido pelas monjas da Abadia de Santa Maria, em São Paulo.

A aula 450 começou com ele pedindo desculpas pelo tema que trataria, aparentemente distante da filosofia. “Mas acho que é importante para entender como os comunistas dominam a cultura brasileira e não deixam passar nada — a não ser de vez em quando, uma migalhinha, como fizeram comigo no jornal O Globo.” Ele se referia a uma coluna que manteve no jornal desde os anos 90 — foi também colaborador fixo aqui desta ÉPOCA.

“Mas a Globo me botou para fora quando comecei a falar muito do Foro de São Paulo, que eles tentaram esconder por 16 anos e, quando não dava mais, tentaram minimizar.” Segundo Olavo, o tal Foro é uma organização que reúne centenas de grupos de esquerda e é comandada em conjunto pelo PT, pela família Castro e pelas Farc, a guerrilha colombiana que acabou metida com o narcotráfico. O Foro existe mesmo, mas andei conversando com vários jornalistas liberais e conservadores — já que, segundo Olavo, não dá para confiar nos de esquerda — e todos me garantem que é um evento irrelevante, que reúne burocratas de partidos de esquerda de vários países. O Foro não tem nada de secreto: tem website e credencia repórter para entrar.

“Mas não estou reclamando, não”, ele continuou. “Ter sido mandado embora da Globo foi uma das melhores coisas que me aconteceram — foi aí que comecei este curso, e minha vida melhorou muito.”

Parece que melhorou mesmo. Havia quase 1.000 pessoas participando do chat que acompanha o vídeo da aula. Um aluno comentou lá que o número total de alunos está mais para 5 mil — nem todos vão a todas as aulas e nem todos que vão entram no chat. Se são mesmo 5 mil e cada um está pagando R$ 60 por mês, Olavo já faz quase dez vezes mais do que o presidente da República só com essa fonte de renda. Sem falar que seus livros, a julgar pelas vendas, também já lhe renderam um bom punhado de milhões.

O tema da aula se revelou em seguida: Olavo pretendia responder a dois artigos que o atacavam, que saíram na Folha daquela semana: um do sociólogo formado em Oxford Celso Rocha de Barros e o outro do filósofo Ruy Fausto, pesquisador da Universidade de Paris e professor emérito da USP. Segundo Olavo, ambos só disseram bobagens. Mas a aula não gastou muito tempo discutindo os argumentos.

Olavo chamou os dois de analfabetos funcionais.

“O analfabetismo funcional é um obstáculo para o camarada que busca o conhecimento, que quer adquirir cultura. Mas, para o vigarista, ele é uma vantagem. Porque, se o sujeito não entende um texto, ele está livre para inventar o que quiser.”

O artigo de Fausto, que se chama “A única coisa rigorosa em Olavo de Carvalho são os palavrões”, critica o professor, entre outras coisas, por elogiar o regime autoritário de Viktor Orbán, o quase-ditador da Hungria. Olavo se defende: “Só falei do Orbán uma vez, acho que quando proibiu a entrada de imigrantes na Hungria. Ou quando fechou o partido comunista, não sei, não me lembro. Sei que achei aquilo bom, comentei no Facebook. Mas nem sei quem é o Orbán”.

Outra crítica de Fausto foi a algo que ele considera um sofisma, pecado mortal entre filósofos: ele acusa Olavo de inventar ligações inexistentes. Por exemplo, quando liga o PT às Farcs, e daí, por associação, inventa que Haddad está metido em narcotráfico. “Olha aqui, ô moleque, o Lula presidindo a assembleia-geral do Foro de São Paulo ao lado do Manuel Marulanda, fundador das Farc, fui eu que inventei?” Em seguida desviou para um longo discurso sobre o projeto de dominação comunista global do tal Foro — “e você, Ruy Fausto, estava ajudando a esconder isso. Por isso ficou tão bravinho quando eu revelei”.

Quando Olavo mencionou que Fausto tinha sido orientador de Fernando Haddad (“que é uma besta”) na USP, deu para ouvir uma voz vinda de trás da câmera: “Quer dizer que ele queria estar no lugar onde você está em relação ao Bolsonaro?”. “Exatamente!”, Olavo concordou. “É o que o Josias Teófilo comentou. O Ruy Fausto está bravinho porque acha que eu tomei o lugar dele. ‘Eu é que queria ser o guru do presidente’, ele deve estar pensando.”

A aula acabou logo em seguida, e o professor abriu para perguntas. A primeira que chegou pedia dicas ao mestre sobre como se deve combater o marxismo cultural. Com a voz já um pouco pastosa por causa do licor das monjas, Olavo se animou. “É aí que está o erro do pessoal conservador: imaginar que existe uma luta de ideias e que temos de derrotar o marxismo. Temos de derrotar é os marxistas”, ele disse. “Não puxem discussão de ideias. Investigue alguma sacanagem do sujeito e destrua-o. Essa é a norma de Lênin: nós não discutimos para provar que o adversário está errado. Discutimos para destruí-lo socialmente, psicologicamente, economicamente.” A resposta o fez lembrar de novo o emérito Ruy Fausto. “Temos de fazer uma poda no jardim dos prestígios”, ele concluiu, com alguma poesia.

O QUE APRENDI COM OLAVO

No fundo, toda a obra de Olavo tem por trás a intenção de atacar alguém ou alguma coisa

Denis Russo Burgierman, Época, 14/03/2019

Vai se acabando meu terceiro mês como aluno do COF. E aí? O que aprendi?

Aprendi a entender a origem do carisma de Olavo, que antes para mim era um mistério. Minha consciência, buscando o conhecimento (Viu, professor? Aprendi!), concluiu que as pessoas gostam dele e o admiram porque enxergam a dedicação extrema à missão que ele escolheu na vida, ao mesmo tempo que percebem uma certa vulnerabilidade por trás da casca de filósofo durão. Isso fica claro quando ele revela suas fraquezas: por exemplo, quando choraminga que nenhum aluno o defende. É o que basta para centenas de pessoas se mobilizarem a favor dele.

Aprendi também que é mentira que os seguidores de Olavo sejam todos pessoas com deficiência intelectual ou ressentidas por não ter acesso às melhores universidades, como alguns críticos gostam de insinuar. Tive conversas profundas com gente inteligente e seriamente empenhada em aprender.

Não é a burrice que atrai gente ao COF (assim como obviamente não é a burrice que atrai para a esquerda), é outra coisa. Suspeito que, em parte, seja a busca de um senso de pertencimento, do acolhimento de um vovô que ao mesmo tempo tem a aura sábia de alguém que está entendendo tudo — quando está tão difícil entender as coisas — e a informalidade de quem não tem papas na língua.

Aprendi também que, no fundo, toda a obra de Olavo tem por trás a intenção de atacar alguém ou alguma coisa. Quando fala de filosofia, ele ataca as pessoas que escolheram a filosofia como profissão. Quando o assunto é ciência, o subtexto é a superioridade da filosofia sobre a ciência. Qualquer discussão sobre política tem como premissa a má-fé ou o analfabetismo de qualquer um que não concorde com ele. Mesmo seu livro mais filosófico, sobre Aristóteles, dedica quase metade de suas páginas a ofender alguém (no caso, o parecerista da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, classificado como “analfabeto” depois de recusar a publicação da tese de Olavo na revista Ciência Hoje). Olavo pode até se importar com o conhecimento, mas se importa mais com a guerra.

Aprendi que quase toda a obra de Olavo é uma tentativa de negar a complexidade do mundo. Por trás de seus textos estruturalmente sofisticados, há ideias bem simples. Ele quer voltar no tempo, para um mundo que ele fosse capaz de entender: onde só há dois sexos (e não me venha com gênero), Newton basta (sem as incertezas e as heresias da relatividade e da física quântica), preocupar-se com o clima é assunto para São Pedro e todo mundo que não é bom é mau, e vice-versa. Um mundo cristão, de cultura clássica, sob o comando de quem parece estar no comando — melhor se for alguém bem autoritário. Um mundo que possa ser apreendido inteiro por uma única mente brilhante, como a de Aristóteles — sem todas as complicações contemporâneas, que exigem uma imensa diversidade de perspectivas para fazer sentido.

Aprendi também o poder de uma mensagem única que preencha todos os espaços do dia, com a ajuda das redes sociais. A repetição incansável cria um ambiente saturado de informação, que não deixa espaço para mais nada. Quando essa mensagem é de ódio, os efeitos sociais são profundos. É sério: essa experiência me impactou muito e mudou, espero que temporariamente, minha percepção da realidade. Estou me sentindo muito desinformado sobre tudo que não é olavismo, e também muito paranoico, coisa que nunca fui.

Aprendi, mais que tudo, sobre a força demolidora do insulto para impedir qualquer possibilidade de diálogo. Olavo é um artista da ofensa. Julgando pela perspectiva subjetiva de minha consciência, avalio que pelo menos metade das dezenas de milhares de páginas que ele diz ter escrito são ofensas a alguém. De um lado, ele xinga como uma criança: com a repetição infindável de apelidos engraçadinhos ao longo de dias e dias. Mas ele faz isso com a erudição de alguém que lê muito.

Acho que aprendi um pouco a usar dessa arma também. Cheguei mesmo a bolar, para mim mesmo, um exercício para treinar essa habilidade. Imaginei, de maneira hipotética, que eu quisesse ofender Olavo. E aí ofendi, sem dó: com referências a sua idade, a sua saúde, a seu peso, a suas dificuldades cognitivas na infância que formaram uma personalidade obcecada pela ideia de entender tudo. Dei-lhe apelidos feitos de palavras horríveis, inclusive uma com rima quase perfeita com seu sobrenome. Ficou bom. Ficou demolidor. Senti o poder que isso pode ter, de incitar.

Mas por que mesmo eu iria querer incitar alguém, num momento como este? Que uma pessoa que tenha acesso ao poder do Estado, inclusive de mobilizar violência a seu serviço, esteja incitando, aí já é outra história.

Assim como sobre a evolução ou o formato esférico da Terra, Olavo mandou avisar que não tem opinião formada sobre a reforma da Previdência, num post que deve ter deixado muito apoiador de Bolsonaro nervoso.

Depois ganhou um novo alvo quando o ministro da Justiça Sergio Moro chamou a especialista em segurança pública Ilona Szabó, que se considera uma liberal, para ser suplente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. Olavo ficou furioso porque considera Szabó esquerdista, por causa de sua proximidade com Fernando Henrique Cardoso. A treta durou 48 horas, até Moro voltar atrás na indicação, depois de ser pressionado pelo presidente.

Mais tarde, surgiu no Facebook uma petição on-line pedindo a Moro e a Bolsonaro que defendam Olavo dos crimes que vêm sendo cometidos contra ele. O abaixo-assinado fala de “perseguição, fake news e assassinato de reputação” contra meu professor e sua família, denuncia uma “rede que atua dentro e fora do país e que incita o ódio através de ataques constantes”, sem mencionar nada específico.

Hoje chegou o boleto com a mensalidade do COF. Deletei.

Mas aí hoje Olavo postou um apelo a seus seguidores no Facebook:

“Acossados por uma rede internacional de caluniadores e difamadores, recebemos ainda uma cobrança monstruosa de despesas médicas e impostos, e vamos precisar desesperadamente da ajuda de nossos amigos.”

Olavo pede dinheiro e fornece seus dados bancários no Brasil e nos Estados Unidos. Disse que só pode pagar pela ajuda com livros autografados e sua profunda gratidão.

A cobrança à qual ele se refere foi por causa de uma internação de emergência para tirar um tumor da traqueia, em março do ano passado, contrariando a tese olavista, muitas vezes repetida, de que fumar faz bem à saúde. Aparentemente, a conta do hospital chegou agora — acontece isso nos Estados Unidos, você é atendido sem que ninguém discuta custos e de repente chega em sua casa uma conta astronômica.

Eduardo Bolsonaro compartilhou o apelo olavista, ajudando bastante a divulgá-lo.

Na página pessoal de Olavo, uma aluna perguntou, em relação ao apelo:

“Professor, acho que peguei o bonde andando e não estou entendendo o que está acontecendo. O senhor está com dificuldades para custear as despesas médicas que o senhor teve no ano passado, quando precisou ficar internado em um hospital? Os débitos fiscais são perante o Fisco dos EUA ou daqui do Brasil? Estão alegando sonegação? O que isso tudo tem a ver com a perseguição que seus detratores vêm impondo ao senhor? Isso tem a ver com a renda que o senhor tem com o COF, com os alunos brasileiros? Estão alegando evasão de divisas?”

Ela foi gentil na pergunta, e conferi que é uma verdadeira admiradora de Olavo, que contribuiu para outras campanhas em benefício dele e de outros ícones da direita, e tem papel de liderança organizando jovens. Mas ficou sem resposta.

Procurei o e-mail do Seminário de Filosofia na minha lixeira e fui lá renovar minha mensalidade: mais R$ 60. O tema da aula foi o projeto da Escola de Frankfurt, um grupo de filósofos alemães de um século atrás, de destruir o mundo. Segundo Olavo, os frankfurtianos dominam o pensamento de esquerda hoje e, consequentemente, mandam na mídia, na universidade e no PT. É basicamente por isso que é impossível dialogar com toda essa gente: todos eles estão trabalhando pela destruição do mundo.

Era sábado de Carnaval, passava das 11 da noite e eu ouvia da janela gritos da festa lá embaixo. Enquanto isso, quase 800 pessoas discutiam animadas no chat, lotado de novo, sobre as formas mais eficazes de doar ao mestre.

Carnaval animado na Virgínia. O professor estreou hoje mais um canal de comunicação: o perfil do Twitter @oproprioolavo. Agora dá para passar quase 24 horas por dia consumindo e comentando conteúdo dele, sem fazer mais nada. Você checa o Twitter, tem algo ultrajante lá, comenta, depois faz o mesmo na página pessoal no Facebook, depois na fanpage e, quando terminar de comentar lá, já tem algo novo no Twitter. É assim dia e noite. Fora os grupos de apoio no Facebook. Estou quase agradecendo ao sujeito que me expulsou do grupo do WhatsApp.

O maior alvo dessa metralhadora é Mourão: hoje houve um post dizendo que é melhor Bolsonaro confiar nos filhos do que nele, outro dizendo que ele não vê Bolsonaro como comandante — o que em si já é um golpe militar —, um dizendo que ele próprio, Olavo, defende mais a honra das Forças Armadas do que o general vice, um comparando o capitão comprometido com as promessas de campanha com o general que as despreza, outro lembrando que Mourão deveria servir à vontade popular, entre tantos. Olavo também compartilhou um “Pedido de Desculpas” do Movimento Direita Brasil, por ter recomendado o voto em Alexandre Frota, depois dos ataques do ator a Olavo.

Sobrou tempo para uma advertência ao presidente, a quem Olavo permanece fiel:

“Bolsonaro está dando mais atenção gentil a seus inimigos do que ao povo que o elegeu. Isso é SUICÍDIO. Ou ele vira as costas aos fofoqueiros e fala ao povo uma vez por semana, ou pode-se considerar derrotado desde já”.

O presidente deu mais mostras de que escuta o mestre: anunciou que faria lives semanais pelo Facebook e publicou hoje a primeira, criticando campanhas de educação sexual e reclamando de lombadas eletrônicas. Dois dias antes, ele já tinha elogiado Olavo no Twitter, mesmo com o filósofo descendo a lenha todo dia em seu vice.

Mas, mesmo com o apoio de Bolsonaro, Olavo está furioso. Hoje parece ter rachado com o governo.

“Já não posso mais me calar. Todos os meus alunos que ocupam cargos no governo — umas poucas dezenas, creio eu — deveriam, no meu entender, abandoná-los o mais cedo possível e voltar a sua vida de estudos.” Sua explicação foi a seguinte: “O presente governo está repleto de inimigos do presidente e inimigos do povo, e andar em companhia desses pústulas só é bom para quem é como eles”.

Será que a influência do filósofo no poder está se acabando?

Quanto entrei na sala de aula para assistir à aula número 463, encontrei, pela primeira vez, mais de 1.000 alunos no chat. O clima era de comoção. Muita gente xingando Mourão, outros atacando o diplomata Paulo Roberto de Almeida, demitido nesta semana da diretoria do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, depois de compartilhar críticas a Olavo. Vários discutiam a confusão no Ministério da Educação, onde um assessor, o coronel Ricardo Roquetti, era acusado de tutelar o ministro, indicado por meu professor, a mando de Mourão, e de perseguir os alunos de Olavo, que ocupam posições-chaves na pasta.

A aula não falou de nenhuma dessas polêmicas: foi sobre ciência política. Olavo disse que “não temos nada a comemorar pela modernidade”, referindo-se ao fim da Idade Média. “O resultado foi o homem perdido. O individualismo é a consequência, porque o ‘eu’ foi tudo que restou a ele, quando acabou o império e a autoridade da Igreja.” Sobrou tapa para Haddad (“que quis transformar São Paulo numa cracolândia”) e Obama (“que nem nasceu nos Estados Unidos — tem documento falso”), acusados de, por influência da Escola de Frankfurt, propor uma política “baseada no prazer sexual”.

Elogios só para a Polônia e para a Hungria, cujos governos, que vêm sendo acusados de destruir a democracia, segundo Olavo estão “abertos para o transcendente”. António Salazar, ex-ditador de Portugal, também foi citado em tom positivo: “Um homem mais religioso do que todo o clero brasileiro junto”.

Mas, numa semana de muita polêmica, que terminou com Olavo solicitando a todos os seus alunos que deixassem o governo, o professor nem falou de Brasília. Será que ele realmente resolveu abrir mão do poder político e dedicar-se a ser um professor que fala de filosofia?

Parece que não. O coronel Roquetti foi demitido do Ministério da Educação, a mando do presidente, e os alunos de Olavo, pelo visto, ficaram. Ao longo dos últimos três meses, meu professor comprou briga com quase todo mundo que ele não indicou no governo. Até agora, os Bolsonaros apoiaram-no em todas e demitiram quem ele mandou — Ilona Szabó, o coronel Roquetti, Paulo Roberto de Almeida —, mesmo contra a vontade de figurões como Moro e Mourão.

Agora meu professor parece ter rachado também com o ministro que ele mesmo indicou, Ricardo Vélez Rodríguez. No Twitter, ele perguntava se “Vélez se vendeu ou se deu?”. Bem que o colega dele, o filósofo Joel Pinheiro da Fonseca, com quem almocei na semana passada, tinha me avisado que brigar com as pessoas é o modus operandi de Olavo. É assim que ele passa pelo mundo: tretando. E com muita frequência o seguidor de hoje vira o arqui-inimigo de amanhã.

Aliás, li hoje um denso artigo filosófico de um desses ex-seguidores, Martim Vasques da Cunha, publicado na semana passada no jornal conservador Gazeta do Povo. Chama-se “O mínimo que você precisa saber sobre o pensamento de Olavo de Carvalho”. O texto é cuidadoso e respeitoso, e dedica bem mais elogios do que críticas ao ex-professor. Mas as críticas são fortes: Cunha acusa-o de ter um projeto de poder com toques místicos. “O que era para ser uma comunidade de estudos tornou-se depois uma ‘teia hierárquica’, cuja meta é influenciar espiritualmente os eventos políticos de uma nação, como uma casta.” Para Cunha, o que Olavo tem em mente é “um programa de reforma intelectual, moral e espiritual do ser humano”: ou seja, a coisa mais autoritária que existe. A resposta de Olavo a esse tipo de crítica vem na forma de apelido: no caso, Mastim Vaca. Fico aqui pensando qual apelido ele vai me dar. Pênis Burroman, será? Ou será que vai me reservar a suprema humilhação de me ignorar?

Mas o que não foi ignorado hoje foi um tuíte de Olavo dizendo que nenhum estudante consegue sobreviver na universidade sem usar drogas e participar de bolinação coletiva. A mensagem bombou nas redes sociais, servindo de escada para uma infinitude de piadas.

Uma coisa que Olavo disse me faz pensar muito: a ideia de que um professor universitário tem conflitos de interesse demais e não pode pensar livremente. Acho que ele tem razão, sabia? Realmente vivemos uma época em que é difícil pensar com liberdade.

Mas tenho notado que Olavo convive também com um número enorme de conflitos de interesse. Por exemplo: ele sabe que sua audiência aumenta — e a receita também — se ele se comportar menos como um filósofo e mais como um soldado.

Esse papel de animador de torcida que ele tem certamente o atrapalha na hora de olhar para as coisas querendo realmente ganhar conhecimento.

Hoje, por exemplo, a Polícia Federal tinha acabado de anunciar que o matador de Marielle Franco era vizinho de Bolsonaro, e que o motorista que conduziu o assassino no crime foi fotografado ao lado do presidente. Olavo postou: “Pô, presidente, a mídia já está insinuando que o senhor e sua família são culpados da morte da Marielle. Nem diante de uma coisa dessas o senhor vai tomar a iniciativa de processar os caluniadores?”. Não é estranho que um filósofo nunca, jamais, em tempo algum critique ou sequer admita dúvida sobre o presidente da República? Que livre-pensador é esse, casado com o poder?


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

A democracia brasileira está sob ataque

O demônio patriarcal não quer morrer: sobre os atentados neoterroristas