Onde a Lva Jato chegou

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Onde a Lava Jato realmente chegou?

Repete-se, ad nauseam, que sem as delações premiadas a Lava Jato não teria chegado onde chegou. Mas, do ponto de vista da democracia – não do combate aos crimes comuns praticados por políticos, empresários e seus auxiliares – onde mesmo ela chegou?

Vamos aos fatos.

1 – Lula, o chefe, está solto, ainda não foi condenado e, provavelmente, não será preso antes de poder sair candidato (não interessa se ele concorrerá realmente e, se concorrer, se vencerá o pleito) e, talvez, nem depois fique preso. Continua obstruindo as investigações, promovendo chicanas jurídicas para embaraçar os agentes da lei, promovendo campanhas nacionais e internacionais para dizer que é vítima de perseguição. E continua sendo o preferido dos eleitores para voltar a presidir o país a partir de 2019 em todas as sondagens de opinião.

2 – Dirceu, o subchefe, o “capitão do time”, não voltou para a cadeia, de onde, aliás, jamais parou de fazer política, redigir documentos, emitir salves para a militância. Solto, continua fazendo política e organizando a ofensiva do PT para limpar seu nome, destruir provas, apagar os rastros de associação com ditaduras e protoditaduras mundo afora e voltar ao poder.

3 – A organização política criminosa comandada por Lula, Dirceu e seus sequazes, que dirige de fato o PT – a única com projeto estratégico de poder antidemocrático, que tem por objetivo bolivarianizar (ou lulopetizar) o nosso regime político – não foi desbaratada e continua organizada, de posse de vultosos recursos de toda ordem (financeiros, materiais e humanos) e atuando diuturnamente. Dos cerca de trinta dirigentes do seu núcleo duro, apenas um está preso (em regime fechado): João Vaccari, sendo que a maioria dos demais sequer está sendo investigada.

4 – O PT continua atuando como partido legal, como se fosse um player válido da democracia e jamais foi incomodado, nem sequer com a ameaça de extinção de seu registro partidário pela justiça eleitoral.

Estes são os fatos.

Apresentar planilhas com centenas de investigações, inquéritos, processos, delações, condenações, prisões e recursos recuperados, não muda os fatos. Tudo isso é bom, por certo, no que tange ao combate ao crime comum que se alastrou no meio político. Mas do ponto de vista da defesa da democracia contra os que queriam (e ainda querem) feri-la de morte (praticando, para tanto, crimes políticos), nada disso é tão essencial.

A foto que ilustra este post, tirada em Havana, por ocasião dos funerais do ditador Fidel Castro, é eloquente. Quantos brasileiros, dirigentes ou associados à organização política criminosa, que aparecem na foto, estão presos ou foram condenados? Os jovens procuradores de orelhas limpas, tementes a deus, seguidores de Jesus, dedicados à família, verdadeiros varões de Plutarco da força-tarefa da Lava Jato – a despeito de sua reconhecida honestidade – se perderam por não saber interpretar uma simples foto.

Então – do ponto de vista da democracia – não é possível fugir da pergunta: onde a Lava Jato realmente chegou?

Não adianta construir narrativas para dizer que as coisas estão sendo feitas por partes, que no final vai se chegar ao núcleo duro da organização política criminosa que queria alterar o DNA da nossa democracia. Ora, se vai se chegar a isso algum dia, é sinal de que ainda não se chegou.

Pelos rumos que foram tomados pelas “instituições que estão funcionando” (outro mantra) e pelo andar da carruagem, afigura-se cada vez mais improvável que se alcance tal resultado (o desbaratamento da organização política criminosa e a condenação e prisão de seus dirigentes).

A Lava Jato tomou um desvio. Igualou todos os que associaram para delinquir: os que cometeram crimes comuns e os que cometeram crimes políticos (contra a democracia). Priorizou objetivos políticos (como a desestabilização do governo constitucional, com a deposição de Temer e a condenação de seus auxiliares), deixando em segundo plano os articuladores do maior esquema criminoso de poder já erigido na história universal.

Ninguém, em sã consciência, pode se opor ao combate aos crimes de colarinho branco, aos crimes comuns cometidos por políticos e empresários. Mas, do ponto de vista da democracia, não se pode usar esse combate para desviar a atenção dos que conspiraram e continuam conspirando para transformar o Brasil numa espécie de Venezuela (ou Brazuela).

O que vai acontecer no final?

Por que as delações de João Santana e Mônica, que revelaram que Lula comandou a transferência de nossos recursos para financiar a reeleição de Hugo Chávez, fraudando a vontade democrática do povo venezuelano, de repente, ficaram no limbo?

Por que as gravações de Mercadante e de Lula conversando com Dilma, todas para obstruir a justiça, passaram a ser menos importantes do que a de Josley?

Por que Joesley jamais gravou Lula, Dilma ou algum chefe petista (justamente as pessoas que possibilitaram a construção artificial do império JBS)?

Por que o Ministério Público não urdiu nenhuma de suas “ações controladas” para pegar algum dos dirigentes da verdadeira organização política criminosa (aquela que é comandada por Lula e Dirceu)?

Não adianta responder que tudo isso ainda vai acontecer, que cada coisa vem a seu tempo, porque nós não somos exatamente idiotas. O tempo está passando e 2018 está quase aí. Eleito um novo presidente, ninguém vai querer fazer muita onda para continuar desconstruindo o sistema político, numa espécie de campanha jacobina, com vazamentos diários: até porque ele tem que ter condições de governar, dar continuidade às reformas que são necessárias para o país. A sociedade brasileira, tendo escolhido nas urnas um presidente, dificilmente concordará que seu mandato seja inviabilizado de cara, com a manutenção da vibe de cortar cabeças. O terror cansa até os mais possuídos pelo desejo de vingança.

Devemos acreditar que tudo que a Lava Jato não fez em 36 meses, ela fará, num tour de force, em menos de 12 meses (até o eclodir da campanha eleitoral de 2018)? Não faz sentido. Nenhuma operação desse tipo pode durar a vida toda. E só um tolo pode acreditar que o novo congresso, eleito em 2018, será um sodalício dos éticos, dos puros, dos perfeitos. De onde virão os novos congressistas? Vamos fazer um bonde no céu ou um arrastão no convento das carmelitas descalças para recrutar os novos candidatos a senador e deputado? Isso não existe em política. Não aconteceu na Itália, após a operação Mani Pulite, e não acontecerá no Brasil, após a Lava Jato – que está com seus dias contados. Podem anotar.


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