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Onde realmente mora o perigo

A agenda dita “de direita” ou “conservadora” de Bolsonaro – mesmo que seja integralmente implantada – não acaba com a democracia no Brasil.

O problema é outro. O problema é se o bolsonarismo continuará mobilizado até que os comunistas, globalistas e esquerdistas em geral (como os petistas) sejam varridos da face da Terra. E se estes últimos (os petistas), hegemonizando a oposição, tentarem inviabilizar o governo Bolsonaro praticando a política como guerra. Isto, sim, pode levar à uma perigosa instabilidade política.

A agenda que empolgou os eleitores de Bolsonaro é um tanto rala. Os bolsonaristas militantes (que não devem ser confundidos com esses simples eleitores, que votarão majoritariamente pela renovação e contra a volta do PT) não se comoveram, nem apenas, nem principalmente, com essa agenda pífia e sim com a perspectiva de varrer os comunistas, globalistas e esquerdistas da face da Terra. É aí que mora o perigo. Ou seja, o perigo não é Bolsonaro (um oportunista-eleitoreiro que transigirá no que for preciso para se manter no poder) e sim o bolsonarismo como corrente reacionária e antidemocrática.

Eis, nos seus 10 itens mais conhecidos, a agenda de Bolsonaro:

1) Reforço do direito de propriedade com a criminalização das invasões de imóveis urbanos ou propriedades rurais.

2) Redução do gasto público com as organizações não governamentais.

3) Talvez corte em benefícios da Lei Rouanet.

4) Talvez cobrança de mensalidade para universidades públicas de quem pode pagar.

5) Recrudescimento das penas para crimes.

6) Flexibilização da maioridade penal.

7) Maior liberalidade no porte de armas.

8) Elevação das garantias de proteção à atuação das polícias no enfrentamento com criminosos.

9) Apoio à Lava Jato e à medidas contra a corrupção.

10) Pressão sobre o judiciário para manter Lula preso.

Nada disso é tão drástico a ponto de mudar a natureza do nosso regime político. Mas uma guerra civil fria de longa duração, esta sim, pode contribuir para uma desconsolidação democrática no Brasil.

O trumpismo também não mudou a natureza do regime vigente nos Estados Unidos, mas tem contribuído para tornar a democracia americana cada vez mais flawed e de baixa intensidade, conquanto as propostas de Donald Trump não fossem assim tão capazes de destruir a democracia.

Portanto não é o conteúdo, nem mesmo a forma, que devem ser responsabilizados pelo enfreamento do processo de democratização e sim a alteração no campo social que induz a comportamentos guerreiros.

A polarização provoca uma deformação no campo. A polarização (sobretudo entre dois projetos autocráticos, que se exerce com características fortemente adversariais) tem o poder de emburrecer as pessoas.

Em primeiro lugar, as pessoas capturadas pela polarização acham que são obrigadas a escolher (alienando sua liberdade fundamental de não-escolher, que é a essência da liberdade: a de não ser obrigado a fazer o que não se deseja).

Em segundo lugar ela perverte a política, transformando-a de uma questão de modo (o que ela é realmente: modo de regulação de conflitos) em uma questão de lado (ou seja, em guerra, demonizando o outro lado como inimigo).

Em terceiro lugar, ela leva as pessoas a avaliar que as perigos e os defeitos do outro lado são muito maiores do que as perigos e os defeitos do seu próprio lado (como disse Jung: como se “o povo que vive no outro lado da montanha… fosse composto unicamente por demônios ruivos responsáveis por todo o mal que existe no nosso lado da montanha”).

Em quarto lugar, ela cega as pessoas de tal sorte que elas são levadas a escolher o mal sob o argumento de que é um mal menor (mas como percebeu Joahannah Arendt: “a fraqueza do argumento do mal menor sempre foi que aqueles que escolhem o mal menor esquecem muito rapidamente que escolheram o mal”).

Tudo isso pode gerar uma espécie de histeria coletiva ou transe social. Quando os zumbis acordarem, já pode ser tarde.

A longo prazo a questão mais importante é a dilapidação acelerada do nosso capital social que foi promovida pela polarização estiolante entre dois projetos autocráticos (e, na prática, pelo alijamento das forças democráticas da cena pública). As divisões introduzidas na base da sociedade, o aumento da desconfiança em relação ao outro (qualquer outro, fortuito) e a alteração no emocionar social promovidos pelo embate entre petistas e bolsonaristas, não são coisas que se possa consertar com discursos padrão do vencedor, feitos da boca para fora, em nome da unidade e do bem estar geral da nação.

Em termos sociais, portanto, a situação não tende a melhorar, senão a piorar. Inclusive porque a catástrofe não vai acontecer: ela já aconteceu. A perversão da política como continuação da guerra por outros meios, elemento essencial da natureza (incompreendida por 11 em cada 10 analistas) do PT, começou há muito tempo. O bolsonarismo caiu como uma luva para os propósitos petistas.

Como sempre, a esquerda inventou a esquerda e, pelo mesmo movimento, a direita.


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