in

Os diferentes eleitores de Bolsonaro e o que fazer com eles

Sempre afirmei que existem diversos tipos de eleitores de Bolsonaro e que não se deve tratá-los da mesma maneira. Agora já é possível fazer uma tipificação mais precisa. Vejo hoje cinco tipos:

1) Os bolsonaristas militantes, fanáticos do capitão, jihadistas virtuais de uma “guerra cultural” e os malfeitores ideológicos que querem pegar uma carona na ascensão do populismo-autoritário de Bolsonaro e fazer dele um Cavalo de Troia para contrabandear suas narrativas antidemocráticas. Entram aqui, além dos olavistas e demais antiglobalistas-conspiracionistas, os monarquistas-tradicionalistas (tipo TFP), como os católicos-medievalistas (e alguns ideólogos protestantes que, pelo fato de serem vigaristas, não são menos maléficos para a democracia), os maçons e assemelhados (membros de outras organizações hierárquicas e templárias) e os militaristas-intervencionistas: todos estes somados constituem apenas uma pequena parcela desses eleitores (que não deve chegar a 5 milhões de pessoas, se tanto).

2) Outra parcela é composta por religiosos (em geral evangélicos), de mentalidade e costumes conservadores, que fazem tudo que seus bispos ou pastores (em geral vigaristas) mandarem.

3) Outra parte é composta por revoltados com a corrupção, gente com raiva da velha política (açulados por jacobinos e antagonistas que instrumentalizaram politicamente a Lava Jato), antilulistas e antipetistas. A estes se juntam, avolumando a onda antipolítica e moralista, contingentes imensos de pessoas sem experiência política e sem convicção democrática (gente para a qual sempre tanto fez quem será eleito, mas – diante da comoção causada pela revelação diária dos escândalos de corrupção nos últimos dois anos e do conhecimento das barbaridades cometidas pelo PT na última década – acha que a política é uma sem-vergonhice mesmo e que talvez seja a hora de dar um choque no sistema para ver se alguma coisa muda e se os mesmos não continuem eternamente “por cima da carne seca”).

4) Outra parte, ainda, por pessoas aterrorizadas com a insegurança, com o crescimento da marginalidade e da proliferação das drogas, que temem por sua vida e pela vida de suas famílias (sobretudo de seus filhos). Este contingente também é imenso dada a ineficácia das políticas de todos os governos na área de segurança.

5) E outra, finalmente, por oportunistas do velho sistema político que não querem ficar mal com suas bases eleitorais (que acreditaram no candidato e aderiram a ele) ou que, diante da possibilidade real de Bolsonaro chegar à presidência, não admitem a hipótese de ficar fora do governo ou da base do governo e de suas benesses (pois que sempre viveram disso).

Ficaram de fora desta classificação vários conjuntos e subconjuntos de pessoas (alguns dos quais poderiam ser enquadrados nas categorias acima).

a) Há os membros das forças armadas e policiais e dos demais aparatos de segurança (pública e privada) e de inteligência, para os quais a proposta de Bolsonaro – de priorizar a ordem e não a liberdade – cola, digamos, mais “naturalmente”.

b) Há os empresários e profissionais liberais que se dizem liberais-econômicos (e inclusive uma casta intelectual composta por seguidores de doutrinas do liberalismo econômico), mas que não são liberais-políticos (quer dizer, que não tomam a democracia como valor universal e como principal valor da vida pública).

c) Há, finalmente, os que votaram útil, com a antecipação do segundo turno para o primeiro, os que não queriam perder o voto e votaram no candidato com mais chances de vencer a eleição. Difícil é, porém, estimar o tamanho desse eleitorado (ainda que possa ser imenso).

Não se deve tratar esses cinco tipos de eleitores de Bolsonaro (assim como os conjuntos e subconjuntos não classificados) da mesma maneira. Com os primeiros não adianta conversar (seria como tentar converter um fiel do Hamas à democracia). O mesmo deve valer para os conjuntos ou subconjuntos não enquadrados (como os cultores da ordem, mencionados no item ‘a’ acima). Com o segundo tipo é muito difícil. Com o quinto tipo é inútil (pois não há argumento contra o interesse, a não ser que Bolsonaro despencasse nas intenções de voto, mas aí seria desnecessário: os que compõem esse último contingente o abandonariam, como ratos num navio que naufraga).

Não estou propondo aqui que se converse com alguns tipos – mais brandos – de eleitores de Bolsonaro para convencê-los a votar em Haddad no segundo turno das eleições de 2018. A questão é bem mais séria. Temos de conversar com eles para evitar que sejam incorporados como soldados de uma guerra civil fria após as eleições, seja qual for o resultado.

Da mesma maneira como não devo brigar com o cara que votou no Bolsonaro porque está apavorado com os assaltos no seu bairro, não devo brigar com a moça que trabalhou na minha casa e vota no PT porque acha que foi Lula que lhe deu o Bolsa Família (que ela, aliás, como tantos outros, recebia ilegalmente). Por isso é necessário distinguir entre o bolsonarista e o eleitor do Bolsonaro e entre o petista e o eleitor do PT. Não se pode deixar os primeiros recrutarem os segundos como combatentes, para perverter a política como guerra.

Quanto às eleições, não há mais o que fazer. A catástrofe não vai acontecer. Ela já aconteceu. Já estamos em pleno cenário do horror. A polarização entre dois populismos (o populismo-autoritário bolsonarista, dito “de direita” x o neopopulismo lulopetista, dito “de esquerda”) – que dilapida nosso capital social ao transformar política em guerra, alijando os democratas da cena pública – é o horror. Ganhe quem ganhar, o mal já está feito. Mas pode piorar muito após as eleições.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário

As várias consequências nefastas do Fora Temer

Vamos parar de besteira: nem o Brasil vai virar uma Venezuela, nem vai voltar à ditadura militar