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Os filhos bolsonaristas do capitão Bolsonaro

A Veja fez uma matéria sobre os filhos do capitão intitulada A nova dinastia. Todos menores de 40 anos – Flavio, deputado estadual e senador eleito, Carlos, vereador e Eduardo, deputado federal – são uma vitrine das ideias e do comportamento político da famiglia Bolsonaro. O título da matéria está correto: é uma dinastia em formação.

Eduardo, em especial, é o bolsonarista típico. Em 2016, conta a reportagem, iniciou “uma especialização no Instituto Mises, centro difusor da escola liberal em São Paulo. A investida foi decisiva para selar a ligação de Bolsonaro com o economista Paulo Guedes e o mercado. Eduardo também teve forte influência na formação da bancada de dez deputados do PSL em São Paulo e na aproximação da campanha do pai com o ex-estrategista de Donald Trump Steve Bannon, criador do grupo The Movement, que reúne políticos de direita — ou “antissistema”, como prefere Bannon — em todo o mundo. Ex-quadro administrativo na Polícia Federal, Eduardo trabalhou por menos de um ano como escrivão na fronteira de Rondônia com a Bolívia, antes de ser transferido para São Paulo, onde ficou até vencer sua primeira eleição, sempre no setor de controle de entorpecentes. Em sua candidatura a deputado federal em 2014, amealhou 82 000 votos com a ajuda do pai — Bolsonaro pediu a aliados paulistas que apresentassem Eduardo a corporações ligadas à área da segurança. Neste ano, Eduar­do se reelegeu com quase 2 milhões de votos, recorde histórico para o cargo. Foi também Bolsonaro quem deu ao filho o livro O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota, uma coletânea de textos do filósofo Olavo de Carvalho organizada pelo comentarista político Felipe Moura Brasil. Zero Três [Eduardo] tomou gosto pela coisa e passou a fazer o curso on-line do “professor Olavo”, como o guru é conhecido nas redes. Planeja levar uma caravana de deputados do PSL aos Estados Unidos para ter aulas presenciais com o ídolo em janeiro”.

Interessante o detalhe da “formação” no Instituto Mises: mais uma evidência de que aderir a uma doutrina do liberalismo-econômico não significa necessariamente aderir ao liberalismo-político (neste caso é justo o contrário: Eduardo Bolsonaro, assim como o pai e os dois irmãos, são exemplos acabados de populistas-autoritários i-liberais, se não coisa pior).

Em outro parágrafo, a matéria da Veja assinala:

“Conforme a campanha do pai foi ganhando corpo, em 2018, Eduardo assumiu as vezes de estrategista político e planejou construir pontes com o exterior. Além da aproximação com Bannon, organizou um fórum em Foz do Iguaçu que reuniria lideranças conservadoras da América Latina, uma pretensa antítese ao Foro de São Paulo. Teve de cancelar o evento em cima da hora, por interferência do advogado Gustavo Bebianno, futuro secretário de Governo, cuja proximidade com o pai desagrada aos três filhos. O clã sempre avaliou que Bebianno queria ter mais influência na campanha do que qualquer outro colaborador — o que acabou criando uma animosidade dos filhos em relação ao advogado, até hoje recíproca. Onyx Lorenzoni, futuro titular da Casa Civil, também não morre de amores por Eduardo, o que ficou evidente no episódio em que Zero Três [Eduardo] proferiu disparates contra o Supremo Tribunal Federal (STF), em vídeo postado na internet em julho e que veio à tona uma semana antes do segundo turno. A quem quis ouvir, Lorenzoni disse na ocasião que o deputado era ‘despreparado’.”

Os trechos acima resumem tudo. Policial federal, com entrada na política impulsionada pelas corporações de segurança, Eduardo virou trumpista, quer dizer, bannonista (de Steven Bannon) e olavista. E não ficou por aí: aventurou-se também a articulador de iniciativas semelhantes às da esquerda.

Os três irmãos atuam como uma espécie de conselho superior da República (como no Irã dos aitolás), intervindo até na indicação de ministros do novo governo. A reportagem conta que “na terça-­feira 13 [de outubro de 2018], os irmãos chegaram a sabatinar o embaixador Ernesto Araújo, nomeado chanceler no dia seguinte. Os filhos do presidente eleito queriam saber o que o diplomata pensava sobre a crise na Venezuela, o regime de Cuba, a prisão do ex-presidente Lula e sua repercussão no exterior. “A gente perguntou também se votou em Fernando Haddad e até sobre o que acha da situação do Cesare Battisti. Tudo para saber, além do conhecimento técnico, o alinhamento político e ideológico”, contou Flavio”.

A famiglia Bolsonaro é uma espécie de direção de um partido informal em formação: o “partido da polícia”, não no sentido de ser composto por policiais para defender interesses corporativos das categorias profissionais que trabalham na área de segurança (isso ela também faz, seguindo a orientação do seu chefe, Jair, que durante 30 anos de mandato se destacou, quase que exclusivamente, como defensor dos interesses corporativos dos militares) e sim no sentido de ser o partido das forças da ordem, das forças de repressão do Estado. Não é por acaso que a família gosta tanto de armas, de criar e manter inimigos, de tomar a política como continuação da guerra por outros meios – tudo replicando exatamente o comportamento do seu guru Olavo de Carvalho.

Os Antagonistas (que contrataram o olavista de carteirinha Felipe Moura Brasil) e que se dedicaram a instrumentalizar a operação Lava Jato para fazer uma espécie de cruzada de limpeza ética no Brasil, na verdade para destruir as forças democráticas de centro, devem estar felizes com o resultado do seu esforço. Temos agora uma formação política autocrática no coração do novo governo.

Tudo vai depender, é claro, da influência que os filhos de Bolsonaro – representando e tentando direcionar o bolsonarismo como força política emergente – conseguirão exercer sobre o novo governo. As polyanas da análise política acham que vai dar tudo certo, que a política real do dia-a-dia vai domesticar sem dificuldade esses perigosos agentes antidemocráticos. Este erro não é infrequente. Diante do perigo que vê, mas julga inevitável, a mente, para se proteger, entrega-se ao wishful thinking.

Leiam abaixo a matéria completa da Veja.

A nova dinastia

Quem são e quais funções exercerão no governo os três filhos de Jair Bolsonaro: todos políticos e possíveis titulares de cargos de liderança no Legislativo

Eduardo, 34 anos, é o caçula do primeiro casamento. Flavio, 37 anos, o mais velho. Mas, na escala de proximidade com o pai, é Carlos, 35 anos, vereador, quem vem primeiro. Os três são filhos do casamento de Jair Bolsonaro com Rogéria Nantes (o presidente eleito ainda tem Jair Renan, 20 anos, e Laura, 8 anos, essa última com a atual mulher, Michelle).

Carluxo, como é chamado pela família, não ocupa cargo no governo de transição, e é provável que também não tenha um na futura adminis­tração. Nem por isso, no entanto, deixará de influenciar a gestão Bolsonaro. “O Carlos vive política 24 horas por dia e é o maior conselheiro do meu pai”, atesta o irmão Eduardo. Carlos foi o idealizador da estratégia de comunicação por meio das redes sociais que pavimentou o caminho de Bolsonaro para a vitória. Até hoje, o vereador é a única pessoa autorizada a postar mensagens nos perfis do pai, coisa que faz sem grandes preocupações com a polidez. Durante a campanha, por exemplo, o rival Fernando Had­dad virou o “marmita de corrupto preso”, que faz “visita íntima” a Lula na cadeia. O PT era chamado de “lixo” e o candidato tucano ao governo de São Paulo, João Doria, hoje aliado de Bolsonaro, de “querido dos b. da ‘nova direita’”. A um tuiteiro que criticou sua agressividade, Carlos mandou o seguinte recado: “Não estamos atrás de votos! Faça o que quiser com o seu!”, escreveu, antes de encerrar o texto com uma sugestão proctológica. “Ele é o meu pit bull”, costuma dizer o capitão da reserva. Carlos sorri pouco, adora roupas militares e não desgruda de um boné camuflado que também serve para esconder a calvície precoce. É obcecado por armas e, sempre que pode, frequenta estandes de tiro. Seus ataques verbais, na maior parte das vezes, não ultrapassam o universo das redes. Ao vivo, costuma portar-se como um coadjuvante silencioso — não faz questão e nem mesmo gosta de aparecer, mas se enfurece com quem tenta fazê-lo. Irritou-se, por exemplo, com André Marinho, filho do empresário Paulo Marinho, que disseminou a história de que havia traduzido a conversa telefônica entre Bolsonaro e o presidente americano Donald Trump logo após a vitória, no dia 28. O episódio em si tem pouca importância, mas mesmo assim Carlos fez questão de divulgar um vídeo para comprovar que a tradução, na verdade, foi feita por sua professora de inglês. Outro que acabou vítima da ira do pit bull de Bolsonaro foi Marco Aurélio Carvalho, sócio da empresa de comunicação que atuou na campanha presidencial, a AM4. Depois de se autointitular “marqueteiro digital” da campanha em uma entrevista, foi limado por Carlos: perdeu o emprego na equipe de transição. “Ele odeia gente interesseira”, diz Eduardo. “Chegou no Jair Bolsonaro para se dar bem, morder um cargo? Vai contar com a antipatia feroz dele”, resume. Eduardo e Flavio Bolsonaro acham que caberá ao irmão vereador a função de ministro informal da comunicação, considerando-se que nos próximos quatro anos ele não poderá alçar voos mais altos por impeditivos constitucionais: filhos de presidentes são inelegíveis, a não ser que disputem a reeleição a cargos que já ocupam.

O ZERO UM

Se o desempenho de Carlos na comunicação foi crucial na campanha do pai, Eduardo teve papel fundamental na educação econômica do candidato. A adesão, ao menos no plano teórico, de Bolsonaro ao liberalismo econômico foi impulsionada pelo filho, que iniciou, em 2016, uma especialização no Instituto Mises, centro difusor da escola liberal em São Paulo. A investida foi decisiva para selar a ligação de Bolsonaro com o economista Paulo Guedes e o mercado. Eduardo também teve forte influência na formação da bancada de dez deputados do PSL em São Paulo e na aproximação da campanha do pai com o ex-estrategista de Donald Trump Steve Bannon, criador do grupo The Movement, que reúne políticos de direita — ou “antissistema”, como prefere Bannon — em todo o mundo.

Ex-quadro administrativo na Polícia Federal, Eduardo trabalhou por menos de um ano como escrivão na fronteira de Rondônia com a Bolívia, antes de ser transferido para São Paulo, onde ficou até vencer sua primeira eleição, sempre no setor de controle de entorpecentes. Em sua candidatura a deputado federal em 2014, amealhou 82 000 votos com a ajuda do pai — Bolsonaro pediu a aliados paulistas que apresentassem Eduardo a corporações ligadas à área da segurança. Neste ano, Eduar­do se reelegeu com quase 2 milhões de votos, recorde histórico para o cargo. Foi também Bolsonaro quem deu ao filho o livro O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota, uma coletânea de textos do filósofo Olavo de Carvalho organizada pelo comentarista político Felipe Moura Brasil. Zero Três tomou gosto pela coisa e passou a fazer o curso on-line do “professor Olavo”, como o guru é conhecido nas redes. Planeja levar uma caravana de deputados do PSL aos Estados Unidos para ter aulas presenciais com o ídolo em janeiro.

O ZERO DOIS

Como é o único dos filhos com experiência em Brasília, Eduardo virou o “embaixador” do pai no Congresso. Desde a campanha, atua como ouvidor dos pedidos direcionados ao futuro chefe do Executivo. Agora, o líder do PSL na Câmara deve virar o porta-voz do presidente eleito no Congresso. “Em matéria política, concordo 100% com o meu pai”, adianta. Eduardo chama todo mundo de “senhor”, incluindo colegas parlamentares, e é tido como um integrante disciplinado da bancada da bala — está sempre presente diante de convocações de urgência para votações de temas de interesse do grupo. Com 1,89 metro de altura, chegou a trabalhar como modelo da agência Elite antes de passar no concurso para a PF, mas gostava mesmo era de pegar onda em Ipanema e na Joatinga e de frequentar festas na Barra da Tijuca. Hoje, namora a psicóloga gaúcha Heloísa Wolf, com quem deve se casar em 2019.

Conforme a campanha do pai foi ganhando corpo, em 2018, Eduardo assumiu as vezes de estrategista político e planejou construir pontes com o exterior. Além da aproximação com Bannon, organizou um fórum em Foz do Iguaçu que reuniria lideranças conservadoras da América Latina, uma pretensa antítese ao Foro de São Paulo. Teve de cancelar o evento em cima da hora, por interferência do advogado Gustavo Bebianno, futuro secretário de Governo, cuja proximidade com o pai desagrada aos três filhos. O clã sempre avaliou que Bebianno queria ter mais influência na campanha do que qualquer outro colaborador — o que acabou criando uma animosidade dos filhos em relação ao advogado, até hoje recíproca. Onyx Lorenzoni, futuro titular da Casa Civil, também não morre de amores por Eduardo, o que ficou evidente no episódio em que Zero Três proferiu disparates contra o Supremo Tribunal Federal (STF), em vídeo postado na internet em julho e que veio à tona uma semana antes do segundo turno. A quem quis ouvir, Lorenzoni disse na ocasião que o deputado era “despreparado”.

Nesse sentido, Flavio Bolsonaro é tido, até mesmo pelos adversários da família, como o mais moderado dos irmãos. Formado em direito, leva vida pacata na Barra da Tijuca ao lado da mulher, Fernanda, e duas filhas. Antes de vencer o pleito para senador, com 4 milhões de votos, foi quatro vezes deputado estadual defendendo interesses de policiais. Sua personalidade contrasta com a do irmão Carlos, com quem já se indispôs por motivos políticos. Em 2016, quando Flavio concorreu à prefeitura do Rio, Carlos, então candidato a vereador, evitou associar seu nome ao do irmão, que terminaria em quarto lugar.

O ZERO TRÊS

Flavio é o único do clã a manter relações cordiais com adversários como Marcelo Freixo, do PSOL, opositor contumaz aos seus projetos na Assembleia. Assim como os dois irmãos, Flavio não dá um passo sem antes combinar com o pai. Contudo, aliados creem que, por ter um perfil mais diplomático, ele tenderá a fazer ponderações quando discordar da ordem paterna. Um exemplo bem-­sucedido da diplomacia do primogênito foi a decisão de apoiar o ex-juiz Wilson Witzel para o governo do Rio de Janeiro, apesar da neutralidade declarada publicamente por Bolsonaro pai. Junto com Carlos, Flavio tem participado da formação do novo governo. Na terça-­feira 13, os irmãos chegaram a sabatinar o embaixador Ernesto Araújo, nomeado chanceler no dia seguinte. Os filhos do presidente eleito queriam saber o que o diplomata pensava sobre a crise na Venezuela, o regime de Cuba, a prisão do ex-presidente Lula e sua repercussão no exterior. “A gente perguntou também se votou em Fernando Haddad e até sobre o que acha da situação do Cesare Battisti. Tudo para saber, além do conhecimento técnico, o alinhamento político e ideológico”, contou Flavio.

Bolsonaro sempre viu os mandatos dos filhos como extensões do próprio. E sempre deixou claro que a palavra final era sua. Agora, dois deles deverão ocupar posições de liderança partidária — Flavio provavelmente será o líder do PSL no Senado. A situação configurará uma trinca com poder e alinhamento inéditos na política desde a redemocratização. Na teoria, tal afinidade pode pavimentar o caminho para a aprovação de temas caros a Bolsonaro, como a flexibilização do Estatuto do Desarmamento, o endurecimento do rigor contra bandidos e itens do pacote econômico de Paulo Guedes. Na prática, diante de um Parlamento composto de políticos profissionais, a família Bolsonaro terá de mostrar que é capaz de fazer política fora da internet e que sabe governar e legislar para além dos interesses das corporações que sempre defendeu.

Com reportagem de Gabriel Castro, Laryssa Borges e João Batista Jr.


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