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Os próximos 40 dias e os próximos 400 dias

Faltam 40 dias para as eleições (39 na verdade). Temos até o próximo dia 15, no máximo 20 de setembro, para ver quais as alterações que se processarão na conjuntura eleitoral. O campo social já está muito deformado e se não houver um movimento vigoroso, a formação de uma nova onda de opinião democrática, caminharemos em marcha batida para o pior dos mundos. Não faço torcida. Observo sistematicamente, estabeleço conexões, reconheço padrões e analiso.

Há responsáveis por esta situação a que chegamos. O primeiro deles, indiscutivelmente, é o PT. Vinte anos de guerra de posição na sociedade e mais treze anos de aparelhamento do Estado, para tentar implantar o seu projeto neopopulista de esquerda, lulopetista, geraram revolta e indignação em amplos setores sociais e ensejaram a formação, por enantiodromia, de uma direita hidrófoba hoje majoritariamente bolsonarista.

O PT, porém, não é o único responsável. É possível identificar também a vacilação, a leniência e a conivência do PSDB, que se omitiu de fazer oposição de verdade, durante mais de uma década, ao projeto neopopulista do PT. Em seguida, a carona que pegaram, nas grandes manifestações pelo impeachment, malfeitores ideológicos como o autocrata Olavo de Carvalho, ofertando uma narrativa estruturada para o crescimento da militância bolsonarista. E por último, mas não menos importante, a instrumentalização política da operação Lava Jato que alavancou o moralismo presente na base da sociedade brasileira dando-lhe uma expressão política, ou pior, antipolítica.

Ao que tudo indica ninguém, nenhum ator individual, vai nos salvar desta situação. A única esperança é que a configuração mude em razão de um rearranjo de forças aleatório dada a natureza variacional do sistema. Se as candidaturas que se digladiam, nos campos autocrático e democrático, estiverem em patamares muito próximos às vésperas do pleito, é possível que um pequeno estímulo decida a favor de uma alternativa democrática. Mas não é certo que isso vá acontecer. No ultimo decanato de setembro veremos as chances desse fenômeno acontecer. As projeções, feitas desde agora, não são otimistas.

Os democratas, portanto, devem se preparar para o pior. O pior será uma vitória de Bolsonaro ou Haddad no primeiro turno ou um segundo turno entre os dois.

Mas uma parte do malefício já foi feito. Pois o problema não é só quem vai ganhar a eleição e sim quem vai perder. Petistas e bolsonaristas, derrotados, deslegitimarão o resultado do pleito (para os primeiros terá sido golpe porque Lula não pode concorrer, para os segundos terá havido fraude das urnas eletrônicas) e serão uma fonte permanente de desestabilização de qualquer governo. O que fizeram com Temer farão mil vezes pior com um eventual candidato eleito do campo democrático.

De qualquer modo, os próximos 40 dias serão excruciantes para os democratas. Mas já devemos pensar agora nos próximos 400 dias que deverão ser dedicados a articulação de uma ampla resistência democrática, seja qual for o desfecho do pleito. Ou teremos de resistir às investidas de um governo autocratizante (seja de esquerda ou de direita) ou teremos de resistir à desestabilização democrática que será promovida pelas oposições (de esquerda e de direita).

Permanece, portanto, o que já escrevi há poucos dias. A saída, necessariamente de longo prazo, passa – ao que tudo indica – pela formação de clusters democráticos, sempre temporários, altamente interativos (intensamente tramados por dentro) e abertos, com muitos atalhos (ou ligações para fora). Os democratas, como agentes fermentadores da formação da opinião pública, continuaremos sendo minoria (como sempre fomos, desde que surgimos na Atenas do século 5, por obra sofista), mas nossa influência pode ser mais decisiva para corrigir deformações autocratizantes.

De qualquer modo, para usar a metáfora da série Star Wars, não estamos autorizados, pelo menos nos próximos 400 dias, a sair de Dagobah.


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