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Os quatro tipos de eleitores de Bolsonaro e uma especulação sobre os seus votos

Para começar vamos repetir aqui um post no Facebook e já incorporado no artigo, publicado em Dagobah, em junho passado, intitulado O artigo “A religião dos empresários” – de Demétrio Magnoli – ajuda a decifrar o bolsonarismo. Acrescento agora algumas observações de caráter especulativo.

Como escrevi no artigo Caindo na real: a democracia brasileira crucificada por dois autoritarismos desgraçadamente só restou aos democratas a especulação eleitoral.

DECIFRANDO O BOLSONARISMO

O que a maioria das pessoas (inclusive os analistas políticos) ainda não entendeu sobre o bolsonarismo?

1 – O bolsonarismo é um fenômeno que vai além do oportunista-eleitoreiro Jair Messias Bolsonaro. Existem pelo menos quatro bolsonarismos, stricto e lato sensu (e essas categorias se interpenetram, obviamente):

a) o bolsonarismo dos eleitores normais (não-militantes), mas fiéis, de Bolsonaro (que acham que ele é um bom nome e ponto); [Estima-se que este contingente não chegue a 5% do eleitorado nacional]

b) o bolsonarismo dos que vão de Bolsonaro para evitar uma volta da esquerda ao poder (antipetistas autoritários e anticomunistas ainda na vibe da guerra fria – que não tomam a democracia como um valor), em parte estimulados por narrativas olavistas, conspiracionistas, intervencionistas ou monarquistas-salvacionistas; [Esse contingente, ao que tudo indica, não vai além de 2%]

c) o bolsonarismo de numerosas hostes de haters, os bolsominions, sobre os quais a famiglia de oportunistas de sobrenome Bolsonaro não tem o menor controle (e que podem se voltar contra ele, caso o candidato comece a contemporizar para ser eleito ou, sendo eleito, resolva fazer alianças para governar). Este último grupo é composto por antidemocratas explícitos, que tomam a política como uma espécie de jihad ofensiva (ou guerra religiosa). [Esse contingente também é reduzido, não chegando a 3%]

d) o bolsonarismo dos desesperançados com a velha política (em grande parte açulados, objetivamente, pelos que fazem uso político da operação Lava Jato) que acham que será preciso escolher um patriota honesto e corajoso para colocar ordem na casa no grito (de vez que avaliam que a velha política apodreceu como um todo e que a democracia não é mais capaz de recuperá-la); [Aqui vem o grosso do eleitorado não-fiel e não-militante de Bolsonaro, que pode chegar hoje a 10%]

2 – Há uma nova (e pujante) base econômica no Brasil profundo que está trocando sua representação política numa direção que não é a da democracia e que, na falta de outro nome que melhor represente seus interesses e aspirações, vai apoiar Bolsonaro com recursos de toda ordem (legal ou ilegalmente). [E há um fenômeno social, ainda não totalmente explicado, na ascensão de Bolsonaro, que já foi objeto do artigo, de agosto último, intitulado Há um fenômeno social, ainda inexplicado, na ascensão do bolsonarismo]

3 – Bolsonaro só tem chances reais de vencer no primeiro turno (independentemente do que dizem as pesquisas feitas hoje sobre o segundo turno – que têm pouquíssimo valor). Dada a maioria esmagadora do eleitorado indeciso ou avesso ao discurso truculento e boçal do capitão, na hora H, essa maioria votaria em qualquer candidato (menos em Bolsonaro).

OBSERVAÇÕES FINAIS

1 – O bolsonarismo propriamente dito (stricto sensu) aplica-se às categorias ‘b’ e ‘c’ acima, perfazendo um total de 5%.

2 – Os eleitores, digamos, “normais”, mas fiéis, de Bolsonaro, não são bolsonaristas stricto sensu, quer dizer, não são militantes: eles estão na categoria ‘a’ acima e também não ultrapassam 5%.

3 – O total dos votos incontestáveis de Bolsonaro atinge, portanto, 10%.

4 – Os outros 10% são eleitores eventuais de Bolsonaro e estão na categoria ‘d’ acima. Bolsonaro depende deles para vencer no primeiro turno ou passar para o segundo turno. Se eles se expandirem, abarcando mais 5 a 10%, Bolsonaro pode levar no primeiro turno ou passar para o segundo turno. Se eles se contraírem, caindo cerca de 5%, Bolsonaro sairá do jogo no primeiro turno.

5 – O que está em disputa, portanto, é a categoria ‘d’. Quem conseguir tirar 5% desta categoria, tira Bolsonaro do páreo. Ocorre que esse contingente pode também optar pelo não-voto (brancos, nulos e abstenções). Esta categoria ‘d’ foi objetivamente estimulada, em grande parte, pela instrumentalização política da operação Lava Jato.

Claro que tudo isso, por ora, é altamente especulativo, mas não deixa de fazer algum sentido.

Vejamos o que acontecerá nas próximas cinco semanas. Quando Bolsonaro for confrontado, ao longo da campanha, com sua história e suas declarações autoritárias, se ele mantiver 20% dos votos, então ficará claro que temos um problema muito maior do que Bolsonaro.

Não é, todavia, para desesperar. Le Pen fez 22% no primeiro turno e Macron ganhou com 66% no segundo. Uma semana antes das eleições (20/04/17) a candidata de extrema-direita, Marine Le Pen, liderava as pesquisas de intenção de voto para o primeiro turno na França. Ela passou para o segundo turno atrás de Macron e tomou um capote dele no final (66% a 33%). Como Bolsonaro, ela era meia doida mesmo, mas o povo, em geral (em condições normais de temperatura e pressão) não é doido. Seria preciso que a crise se aprofundasse muito mais para que se verificasse um comportamento anômalo.

O caso Macron pode indicar apenas que os eleitores, em geral (repita-se, em condições normais de temperatura e pressão), tendem a rejeitar, na reta final, candidatos de extrema-direita e de extrema-esquerda (quando há segundo turno). Por certo, a França não é o Brasil, os índices de analfabetismo são menores e os índices de politização da população francesa são muito maiores do que os da população brasileira.

Todavia, mesmo que seja indevida a comparação com a França em termos de indivíduos, em processos coletivos há, vamos dizer assim, uma “inteligência” que pode se manifestar quando grandes ondas de opinião se formam ou se movem. O analfabetismo dos indivíduos não conta muito. Imagine-se quantos analfabetos havia na Atenas do século 6 para o século 5 a. C., quando a democracia foi inventada. Mesmo que dela só participassem os homens livres, qual deveria ser a taxa de analfabetismo? Dos 35 mil que chegaram a participar simultaneamente da Ecclesia, em meados do século 5, essa taxa deveria ser próxima dos 90% (não, não eram os filósofos que intervinham majoritariamente nas decisões, senão o verdureiro e o peixeiro, para usar uma descrição negativa do Sócrates platônico).

Claro que tudo isso depende, muito mais do que dos índices de alfabetização e de politização, do emocionar social. A onda moralista (estimulada pela instrumentalização política da Lava Jato) carreia alguns votos para Marina Silva e para Álvaro Dias (cujas campanhas querem surfar nas cruzadas de limpeza), mas carreia muito mais para Bolsonaro. O emocionar que recende da rejeição da política como coisa suja, até agora, está compondo, majoritariamente, os 10% de votos não-fiéis e não-militantes de Bolsonaro.

Não adianta vir com o papo de Trump. Trump não era propriamente de extrema-direita e era um candidato de um partido forte – não um PSL de aluguel, mas o Partido Republicano. Além disso, Trump perdeu a eleição popular por 3 milhões de votos, só vencendo, como lembrou Nilton Lessa em um comentário no Facebook, em razão das peculiaridades do sistema eleitoral americano (pelo fato de ter ganho por 10.000 em Winsconsin, 10.000 em Michigan e 50.000 na Pensilvania, teve a vitória no colégio eleitoral).


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