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Os que fazem política usando a Lava Jato, estão promovendo, objetivamente, a campanha de Bolsonaro

O esquerdista da USP, Pablo Ortellado, escreveu no último 19 de setembro um artigo na Folha de São Paulo intitulado Como lidar com Bolsonaro? Os fanáticos bolsonaristas, é claro, caíram de pau. O artigo é parcial, critica o populismo de direita e não dá uma palavra sobre o populismo de esquerda, o neopopulismo lulopetista, que é uma espécie de bolivarianismo, tão ou mais perigoso – como estamos vendo na Venezuela atual – do que o trumpismo, o brexitismo e o lepenismo. Cita um estudo pedestre da Columbia Global Reports que confunde democracia com eleição – o que é próprio do analfabetismo democrático dos professores universitários, não só no Brasil – e não aborda o principal: o aprisionamento do debate político no campo autocrático caso permaneça a polarização Lula (ou outro candidato apoiado pelo PT) x Bolsonaro, independentemente do resultado da disputa. Não se poderia esperar nada melhor de um professor como Ortellado.

No entanto, ele chama a atenção para alguns aspectos importantes e nefastos do bolsonarismo. O assunto não está sendo suficientemente debatido pelos analistas políticos. E, enquanto isso, avança a horda de fanáticos bolsominions nas mídias sociais. É uma turbamulta vil de seguidores movidos pelos mais baixos instintos de vingança, que instrumentaliza a justa revolta da população com a corrupção.

Ocorre que essa corrupção endêmica na política sempre existiu. A novidade da Lava Jato e de operações congêneres foi, inicialmente, trazer à luz uma corrupção que nunca existiu: a corrupção com motivos estratégicos de poder, organizada pelo PT. Crimes comuns cometidos por políticos, isso sempre houve. Associação de políticos para delinquir, também sempre houve. O que não havia – pelo menos na escala que se viu durante os governos do PT – eram crimes contra a democracia cometidos por uma organização política criminosa. Ainda que sem entender essa distinção, a Lava Jato teve o mérito de denunciar alguns membros dessa organização política criminosa, como Lula, Dirceu e Vaccari (dos quais só o último continua preso em regime fechado – e isso diz muita coisa).

No entanto, a Lava Jato se perdeu quando quis igualar esses dois tipos de crime (e isso não se pode imputar às deficiência da nossa legislação, que não tipifica mesmo crimes políticos). Ocorre que os procuradores da Lava Jato começaram a atuar politicamente, emitindo juízos públicos sobre as mazelas do nosso sistema político que mais confundiam do que esclareciam. Assim, para eles, é tudo a mesma coisa: Lula é igual à Cabral, Dirceu é o mesmo que Cunha e Geddel e Vaccari praticam deliltos semelhantes. Ou seja, é como se Rafael Caldera fosse a mesma coisa que Chávez, só porque ambos eram corruptos, a despeito da atual ditadura venezuelana estar mostrando o contrário.

Quando deu esse passo temerário e irresponsável para igualar todos os tipos de crimes cometidos por políticos, a Lava Jato se conformou como uma espécie de Comitê de Salvação Pública jacobino, praticando a antipolítica robespierriana da pureza. Isso reforçou tendências autoritárias presentes da sociedade brasileira, que se pautam pelo moralismo. Ora, são essas tendências que hoje apostam na candidatura de Bolsonaro, o homem corajoso e honesto, que supostamente não tem nada a ver com tudo isso que está aí, embora tenha permanecido no PP durante uma década (de 2005 a 2016, ou seja, praticamente durante todo o reinado petista), sendo que o PP foi um dos partidos mais corruptos da base de sustentação de Lula e Dilma.

Foram os jacobinos da Lava Jato – e alguns meios de comunicação irresponsáveis como o Antagonista e a Globo, com seu anacrônico e golpista Fora Temer – os grandes responsáveis, objetivamente, pelo fenômeno do bolsonarismo e pela recuperação do lutopetismo, dois populismos que povoam o campo autocrático da disputa política no Brasil atual.

É simples explicar isso. Quem não está contente com o mar de lama em que se transformou a política (na verdade, que sempre foi – embora oculta ou disfarçadamente), vai votar em Bolsonaro. E quem não gosta de Bolsonaro, vai votar em Lula (ou em outro candidato apoiado pelo PT) sob o argumento de que, se todo mundo rouba, então o PT é melhor pois, pelo menos, está do lado do povo.

A Lava Jato, entretanto, não obstante a voluntarismo militante da sua força-tarefa, não vai reformar a política no Brasil em mais um ano de ativismo, ou seja, até 2018. E não vai porque não pode: porque lhe faltam os mecanismos institucionais, porque não se pode reformar a política sem política, porque não é o Estado que pode reformar o Estado (como já sabia Giordano Bruno). E porque, antes disso, teremos eleições. As eleições são o mecanismo institucional válido, sobretudo no tempo útil que temos, para operar qualquer mudança significativa no cenário político e na dinâmica da política. Então, todo esse esforço dos que fazem política com a Lava Jato vai desembocar – querendo eles ou não – nas urnas de 2018.

O que temos para 2018? Temos, exatamente, dois candidatos do campo autocrático despontando: Lula e Bolsonaro. Mas apenas um deles não envolvido com a Lava Jato: Bolsonaro. Logo… é óbvio que, mesmo contra sua vontade (e a vontade de muitos seria a volta de Lula), os que fazem política usando a Lava Jato, estão fazendo, objetivamente, a campanha de Bolsonaro.

Leiam a íntegra do artigo de Ortellado.

Como lidar com Bolsonaro?

Pablo Ortellado, Folha de São Paulo, 19/09/2017 07h31

A ascensão de Jair Bolsonaro em todas as últimas pesquisas eleitorais, nas quais sempre aparece como segundo colocado atrás apenas do ex-presidente Lula, deveria ser motivo de preocupação para qualquer democrata. Há bons motivos para esperar que sua inconsistência programática, o pouco tempo de TV e a baixa capacidade de construir alianças partidárias vai minar a sua candidatura, mas os contra-exemplos das candidaturas de Donald Trump, nos Estados Unidos, e Marine Le Pen, na França, assim como o sucesso da campanha do Brexit, no Reino Unido, mostram que soluções radicais em momentos de crise política aguda podem ter sucesso.

A candidatura de Bolsonaro é uma aventura de grandes proporções. Ele não tem, nem vagamente, um programa de governo e, com a exceção de um certo corporativismo semi-sindical em defesa do setor militar, se fez como figura pública apenas menosprezando a democracia, os direitos humanos e qualquer forma de desvio da velha norma social.

Em entrevistas, sempre que foi colocado à prova o conteúdo programático da sua candidatura, sua profunda ignorância sobre as políticas públicas prevaleceu. No entanto, quando fala sobre direitos humanos, tortura, feminismo, racismo e anticomunismo, é capaz de despertar grandes paixões —nos seus adversários, mas também nos seus seguidores.

Nenhum dos principais candidatos a presidente para as eleições de 2018 encarna tão bem o papel de antiestablishment como Bolsonaro. O ex-capitão do Exército não tem partido político tradicional (apesar da intenção de voto alta, teve que se contentar com o nanico PEN), não tem a simpatia dos meios de comunicação, não tem apoio relevante entre o empresariado e definitivamente não tem nenhum apoio dos movimentos sociais e sindicatos.

Sua campanha foi construída inteiramente pela base e nas redes sociais, lutando contra tudo e contra todos. Em suas viagens pelo Brasil, Bolsonaro é recebido nos aeroportos por grandes multidões e suas palestras despertam paixões como não se vê em política há muito tempo. Entre os seus jovens seguidores, é chamado de “mito”.

Os analistas se dividem ao tentar explicar a natureza do fenômeno Bolsonaro. A intenção de voto nele parece ser um voto de protesto, profundamente antissistêmico —e o ódio do establishment ao seu radicalismo antidireitos humanos só contribuiria para a ampliação do fenômeno. Outros analistas ressaltam o papel no seu discurso do punitivismo militarista, uma corrente de opinião muito difundida na sociedade brasileira e da qual ele seria uma espécie de porta-voz. Finalmente, parece contribuir para o seu sucesso, a reputação que conseguiu forjar como pessoa honesta, o que, em tempos de Lava Jato, vale ouro.

Seja como for, a não ser que algum imprevisto sobrevenha, a sociedade brasileira precisa começar a pensar em como lidar com o crescimento da sua candidatura.

Num relatório muito influente sobre a ascensão global do populismo (“The Populist Explosion”, da Columbia Global Reports) publicado em 2016, o jornalista John Judis dá alguns elementos para pensar.

Ao tratar dos “populistas de direita”, um fenômeno que em alguns aspectos lembra Bolsonaro, Judis chama a atenção para o abuso conceitual que é tratar essas candidaturas como se fossem “fascistas”. Judis argumenta que, ao contrário do fascismo histórico, que era antidemocrático e expansionista, os novos populistas de direita não tem mostrado qualquer pendor expansionista, têm respeitado a alternância de poder no jogo da democracia liberal e seu racismo tem ficado razoavelmente circunscrito às políticas antimigratórias.

Devemos esperar o mesmo de Bolsonaro? Devemos “normalizar” a sua candidatura? Está mais do que na hora de levantar essas incômodas questões, agora que um em cada cinco brasileiros diz que pretende votar nele. Estamos contando demais que sua incapacidade intelectual, sua deficiência programática, seu isolamento político e que as regras do jogo eleitoral vão dar conta de enterrar sua candidatura a presidente.


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